Arquivo mensal: Abril 2010

Mathias Grassow – In Search Of Sanity

21.05.1997
Mathias Grassow
In Search Of Sanity
NO-CD, DISTRI. ANANANA

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pwd: stardancer

No projecto do compositor irlandês de música electrónica Mathias Grassow pode vislumbrar-se um objectivo idêntico ao dos Tangerine Dream, quando este grupo alemão gravou, em 1969, o seu álbum de estreia, “Electronic Meditation”: a viagem ao interior do cérebro e do psiquismo humano. Compare-se, aliás, as respectivas capas. Mas, enquanto que nos germâncios este passeio pela mioleira se saldava numa combustão violenta dos neurónios, ou não andassem os TD, por essa altura, a estudar metodicamente as vantagens científicas oferecidas pelo uso do LSD, grassow remete essa viagem para os domínios do “trance” e da religião. “In Search of Sanity”, procura de sanidade empreendida através da “solidão” e da “peregrinação” interiores, leva uma dedicatória “silenciosa” aos monges de Skellog Michael. Música ritual, no verdadeiro sentido do termo, não anda longe da de Steve Roach, embora revele um pragmatismo, um aspecto funcional. ”Conjuration”, por exemplo, é indicado para acompanhar exercícios de tantrismo) que nunca chega a ser sistematizado pelo californiano. Não faltam as “drones” iniciáticas de um didgeridu, canto tibetano sintético e ritmos tribais, a este trabalho e condução mental que inclui duas referências directas ao misticismo celta irlandês, em “Donegal” e “Kilrae”, culminando nos 21m40s de “countenace of extinction”, banda sonora do minuto seguinte ao holocausto. (8)

Diane Labrosse & Michel F. – Côté Duo Déconstructiviste

21.05.1997
Flores Magnéticas
Bruire
Les Fleurs de Léo (8)
Diane Labrosse & Michel F. Côté
Duo Déconstructiviste (8)

Robert Marcel Lepage
La Plante Humaine (8)
Todos Ambiances Magnétiques, distri. Áudeo
Segunda parte do tríptico iniciado com “le Barman a tort de Sourire” e já completado com “L´Âme de l’Object”, “Les Fleurs de Léo” é a peça que faltava do “puzzle”. Nas boas companhias do círculo bem fechado das A. M., Jean Derome, Diane Labrosse, Robert M. LePage e René Lussier, aqui também com a programadora japonesa Ikue Mori, Michel F. Côté confirma uma tendência para a abordagem dos sons da forma menos previsível, com desprezo pelos géneros e no sincretismo de um estilo que amplia a imperfeição e rasga as noções usuais de composição.
Sopros e electrónica, espontaneidade e programação, parasitismo e paisagem, dialéctica de opostos em convulsão permanente. “les Fleurs de Léo” está estruturado em ciclos que evoluem em redor de temas que vão do heróico ao desprezível, numa amontoação de referências que constantemente remetem para memórias e músicas díspares. Côté assume o empirismo como método e a colagem subjectiva como estética. Ele próprio elabora a lista do seu sintonizador particular: Erik Satie (de quem recilca os seus “Sports et Divertissements”), John Cage, Alan Berg, Holger Czukay, Duke ellington, Alvin Lucier, Arvo Part, Witold Lutoslawski, krzysztof Penderecki, Elliott Sharp, Igor Stravinski e Anton Webern. Da combinação destes fragmentos resulta um borbulhar contínuo de ideias e mutações sonoras, numa “efeverscência jovial e criativa” que nasce da improvisação – para Côté, “terreno de investigação perfeitamente lúdico” – em estúdio, necessária ao encontro de “perspectivas oblíquas de acção”. Flores tentaculares.
A mesma estética é reavaliada por Michel F. Côté em duo com Diane Labrosse, elemento das Justine, ex-les Poules e ex-Wondeur Brass, e autora a solo do fenomenal “Face Cachée des Choses” (um dos melhores álbuns do ano passado para o Pop Rock, secção “Fora de Série”). A samplagem (os autores fazem questão de enumerar as fontes: Michel Faubert, Fred Frith, John Oswald, Hans Reichel, entre outros) adquire uma dimensão cinematográfica. A desconstrução obriga, neste caso, a noções rigorosdas de composição. Folclores imaginários, memórias sobrepostas em palimpsesto, ficções emocionais desencontradas, guerras semânticas e morfologias à deriva confluem e desagregam-se num território de alucinações privadas. Jazz electrónico, electrónica do jazz, poesia da anarquia, o que é uma canção? Nada mais do que um sonho, um encadeado de mcantam.
Robert Marcel LePage correu para o lugar mais afastado do habitado por Côté e Labrosse. Anos depois de ter posto os seus saxofones e clarinetes e a suacolecção de artefactos electrónicos avariados ao serviço de um “jazz” saltimbanco, em “La Traversée de la Mémoire Morte”, e completamente “free” em “Chants et Danses du Monde Inanimé”, com René Lussier, Le Page evoluiu para um discurso mais programático, encravado entre um classicismo desvirtuado e a nostalgia da liberdade. “Adieu Leonardo”, a sua obra anterior, e este “La Plante Humaine”, são obras de pendor classicizante (mesmo sinfónico, na sua estrutura geral) que apresentam uma visão de Leonardo da Vinci a partir dos filmes de animação com o mesmo nome realizados por Pierre Hébert, montados como uma “ópera audiovisual”.
Cruzamento do neo-romantismo com o pós-modernismo, da sua estrutura sinfónica com a retórica do “hard-rock” (“Le blaster des kids”, “tsaikomé punk”, “Rock et war”), do “jazz” com a música industrial, das tradições africanas com Edgar Varese, esta “planta humana fonográfica” devolve Robert M. LePage ao país esquecido do arco-íris. Mesmo quando é necessário desbravar uma selva de demónios – Gog e Magog, da faixa 13 – para descobrir o equilíbrio delicado das cores do pintor renascentista.

GRUPOS E DISCOGRAFIA FUNDAMENTAIS DO ROCK ALEMÃO DOS ANOS 70

GRUPOS E DISCOGRAFIA FUNDAMENTAIS DO ROCK ALEMÃO DOS ANOS 70
Agitation Free
Influenciados pela música árabe no primeiro álbum, “Malesch”, cósmicos no segundo. Com Lutz Albrich, dos Ash Ra Tempel, Michael Honig (futuro Tangerine Dream) e Peter Michael Hamel, “2nd Edition” (1973).
Amon Düül II
Do grupo communal designado por Amon Düül I derivou este n]ucleo dos que sabiam tocar. Rock inclassific]avel, gerado dos piores pesadelos do LSD. Reza a lenda que, nos concertos, cada músico estava sob o efeito de uma droga diferente. Os álbuns reflectem esta mistura de universdos paralelos, alternando longas improvisações anarco-cósmicas com canções surreais. “Yeti” (1970), “Tanz der Lemminge” (1971), “Wolf City” (1972).
Annexus Quam
Oriundos de Düsseldorf. Dos deslumbramentos psicadélicos do primeiro álbum, passaram ao “free jazz”, não menos empanturrado de alucinações, do segundo. “Osmose” (1970), “Bezeihungen” (1972).
Ash Ra Temple / Ashra / Manuel Göttsching
A guitarra eléctrica que veio do espaço por um dos nomes mais importantes da “Kosmische muzik”. Os Ash Ra Tempel eram os meninos bonitos do guru Rolf-Ulrich Kaiser, com as suas “acid jams” apontadas ao infinito. Já só, como Ashra, Göttsching aproximou-se da galáxia de Klaus Schulze, com passagem pela pop, o cinema de Phillipe Garrel e aterragem no minimalismo. “Schwingungen” (1972), “Inventions for Electric Guitar” (1974), “New Age of Earth” (1976).
Can
Mestres do ritual e dos ritmos do corpo. Filhos de Stockhausen, do “fre jazz” e dos Velvet Underground, inventaram a música do espaço interior. No seu caso não faz sentido falar de música “cósmica”, mas sim de “música microcósmica”. O “beat”, enquanto átomo da hipnose. “Monster Movie” (1969), “Tago Mago” (1971), “Ege Bamyasi” (1972), “Future Days” (1973), “Unlimited Edition” (1976).
Cluster
Representam o lado mais experimentalista do “krautrock”. Primeiro chamaram-se Kluster, industriais “avant la lettre”. Joachim Roedelius, o romântico, e Dieter Moebius, o conceptualista, formaram uma das duplas recorrentes da música electrónica alemã das últimas três décadas. Eno e Bowie assumem a sua influência, bem como a geração actual de bandas dos pós-rock. Fizeram trio com Brian Eno. “Cluster” (1972), “Zuckerzeit” (1974), “Cluster & Eno” (1977).
Harmonia
Associação dos Cluster com Michael Rother, dos Neu!, banda da qual exploraram o lado mais electrónico e minimalista. Juntamente com os Neu! Constituem uma referência fundamental do movimento “punk”, pela redução do ritmo a uma batida primordial. “Musik von Harmonia” (1974), “DeLuxw” (1975).
Holger Czukay
Teórico dos Can, congeminou mil estilos e inovações. Com os Technical Space Composers Crew, na colagem de sons concretos e ambientais com fitas de “world music” na reciclagem do “dub”. Com a voz do papa. Com um sintonizador de rádio e um “dictaphone”. O último dos alquimistas. “Cannaxis” (1969), “Movies” (1979).
Faust
Com Frank Zappa e os Henry Cow, um dos nomes que declararam guerra à música pop do século XX. Popularizaram o termo “krautrock” num tema com este nome do álbum “Faust IV”. Na sua música, o paradoxo faz sentido e alógica exige a criação de novas linguagens. Recentemente voltaram a gravar, radicais coko sempre, agora que o tempo finalmente os apanhou. “Faust” (1971), “So Far” (1972), “The Faust Tapes” (1973), “Faust IV” (1973).
Edgar Froese
O guitarrista e líder dos Tangerine Dream experimentou a solo o lado mais acusmático da música do grupo. “Aqua” (1974).
La Düsseldorf
Emblema da cidade, na visão mecanicista do percussionista Klaus Dinger, ex-Kraftwerk e ex-Neu!. “La Düsseldorf” (1976), “Viva” (1978).
Liliental
Supergrupo que juntou Dieter Moebius, dos Cluster, Conny Plank, produtor determinante no desenvolvimento do “krautrock”, Johannes Pappert, saxofonista dos Kraan, e o industrialista Asmus Tietchens. “Liliental” (1978).
Neu!
A máquina de ritmos binários de Klaus Dinger, sempre na sombra do que melhor eclodiu em Düsseldorf, aliada ao melodismo viciante e “easy listening” de Michael Rother. “Neu!” (1972), “Neu! 2” (1973), “Neu! 75” (1975).
Popol Vuh
Florian Fricke foi dos primeiros a levarem o grande “Moog” para dentro de uma catedral, mas depois a descoberta do cristianismo levou o seu piano para o céu. Um dos místicos da música alemã. Compositor de serviço de Werner Herzog. “In Der Garten Pharaos” (1972).
Klaus Schulze
Pai da música cósmica. Tocou bateria nos Psi Free e Tangerine Dream, estudou o catálogo do VCS3 nos Ash Ra Tempel e desapareceu, finalmente, entre os circuitos do sintetizador, abraçado a um busto de Wagner. Há quem adormeça ao escutar os seus “mantras” electrónicos de 30 minutos e quem jure viajar com eles por outras dimensões. “Cyborg” (1973), “Mirage” (1977), “X” (1978).

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Kraftwerk
Ralf Hütter e Florian Schneider estiveram sempre um pouco à margem do “krautrock”. Ainda experimentaram o ruído, nos Organisation e nos dois primeiros álbuns, mas com “Autobahn” aboliram a portagem que impedia a livre circulação nas auto-estradas da música de dança do mundo. Depois transformaram-se em robôs e fecharam-se no estúdio Kling Klang, de onde saem de vez em quando para fazerem pontos de ordem à música tecno. “Ohm Sweet Ohm”, “Kraftwerk” (1970), “Kraftwerk 2” (1971), “Ralf & Florian” (1973), “Autobahn” (1974), “The Man Machine” (1978).
Tangerine Dream
Papas da Escola de Berlim. Música onírica, banda sonora das divagações sobre a relatividade de Einstein. A religião dos electrões. Tiraram o ritmo aos Pink Floyd abrindo no seu coração um pulsar. A primeira fase é “free rock” para tripar ao gosto de Julian Cope. Preferimos os espaços mais amplos rasgados pela formação quintessencial dos TD: Edgar Froese, Peter Baumann e Chris Franke. “Zeit” (1972), “Atem” (1973),”Phaedra” (1974), “Rubycon” (1975),
Walter Wegmüller
Wegmüller era um artista e mago cigano que o acaso fez cruzar com Timothy Leary, profeta e ideólogo do LSD, e com a turma inteira dos Cosmic Couriers, numa aldeia suiça onde teve lugar uma das desbundas de ácido de todos os tempos. “Tarot” (que inclui um baralho de Tarot desenhado pelo próprio) reflecte todas as vertentes, virtudes e defeitos dos primeiros anos da “Kosmische Musik”. “Tarot” (1973).
Whithüser & Westrupp
“Acid Folk” que entusiasmou Rolf-Ulrich Kaiser, dando origem ao selo Pilz, subsidiário da “Ohr”, sede de todas as aventuras cósmicas. “Trips und Traume” (1971).
Nota: todos os discos disponíevis em CD.
À atenção dos curiosos: Achim Reichel, Brainticket, Bröselmaschine, Cosmic Jokers, Cozmic Corridors, Joachim H. Ehrig (Eroc), Embryo, Emtidi, Eulenspygel, ExMagma (naõ confundir com os franceses Magma), Gila, Golem, Sergius Gollowin, Grobschnitt, Guru Guru, Hoelderlin, Kraan, Mythos, Novalis, Out of Focus, Parzival, Pell Mell, Phantom Band, Release Music Orchestra, Sand, Thirsty Moon, Wallenstein, Xhol, Yatha Sidhra.
BIBLIOGRAFIA
“Krautrocksampler: One Head’s Guide to the Great Kosmische Musik – 1968 Onwards” – Julian Cope (ed. Head Heritage). Manual.
Um dos responsáveis pelo recrudescimento de interesse pelo “krautrock”. O entusiasmo e a linguagem de verdadeiro apreciador com que Cope nos descreve as suas descobertas contagiam. Alguma falta de rigor é compensada pelas histórias deliciosas que se lêem como um romance, por exemplo todo o episódio do retiro suiço com Timothy Leary ou a paranóia de poder de Rolf-Ulrich Kaiser (“the kaiser”, como a dada altura lhe chama Cope), patrão e mentor dos Cosmic Couriers. Na discografia seleccionada é evidente o gosto do “acid head” pelas obras mais “tripantes” (mas também mais desconjuntadas…) do “krautrock”, privilegiando, quase sempre, os primeiros álbuns de cada artista, de que são paradigmáticos a inclusão da estreia dos Tangerine Dream, a profusão de discos dos Ash Ra Tempel das “acid jams” ou a totalidade da dispensável série dos Cosmic Couriers.
“Cosmic Dreams At Play – A Guide to German Progressive and Electronic Music”, de Dag Erik Asbjomsen (ed. Borderline Productions). Enciclopédia.
Notas informativas extensas, embora demasiado subjectivas e reveladoras da propensão do autor para valorizar discos pouco representativos. Vê-se que o autor aprecia acima de tudo o progressivo mais lamechas, na área do “sinfónico”… Discografias completas. A quantidade de entradas é razoável embora haja lacunas. Uma obra que perde, sobretudo, por um grafismo e “lettering” infelizes, como consequência de ser mais uma compilação de um amador do que um trabalho metódico. Reprodução, a cores e a preto e branco, de capas escolhidas de forma aleatória, com pouca atenção ao grafismo geral da obra.
“The Crack In The Cosmic Egg – Encyclopedia of Krautrock, Kosmische Musik & Other Progressive, Experimental & Electronic Musics from Germany”, de Steve Freeman e Alan Freeman (ed. Audion Publications). Enciclopédia.
O melhor e mais completo livro sobre “krautrock” editado até à data, ao contrário dos outros dois, estendendo-se pelos anos 80 e 90. Organizado metodicamente, inclui um mapa da Alemanha com a sinalização das cidades onde tiveram origem alguns dos grupos mais importantes, àrvores genealógicas, um “top-100”, editoras, tópicos gerias e um glossário. As discografias são acompanhadas, para cada álbum, pela lista completa dos músicos participantes. Os textos são informativos, rigorosos e excitam a curiosidade. A selecção de capas, todas com reprodução a cores, é, por si só, um prazer à parte.