Arquivo mensal: Fevereiro 2009

Legendary Pink Dots – Nemesis On Line

22.01.1999
Legendary Pink Dots
Nemesis On Line (8)
Soleilmoon, Distri. Ananana


lpd

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“Dezhtihnavazhkostzhinara” – “Canta enquanto puderes! Consegues sentir o espírito do tempo?” continua a ser o lema e a palavra mágica dos holandeses Legendary Pink Dots, uma das mais antigas e menosprezadas do rock desalinhado, sistematicamente ausente das páginas das revistas, mesmo das mais especializadas. Proeza de vulto: os Legendary nunca gravaram um mau álbum, numa discografia que já ronda a vintena de títulos. Edward Ka’Spel, ou “O profeta Qa’Spel”, como se auto-intitula, continua a ser o mentor, o papa e o palhaço deste projecto, que, obra após obra, vem dando novos significados ao temro “psicadelismo”. Mesmo se “Nemesis On Line” denota algumas preocupações formais no sentido de acompanhar mais de perto algumas das correntes mais actuais da “dance music”, tal não significa que, no essencial, o caminho deixe de ir ao encontro do aprofundamento de uma alucinação que Kaspel vem cultivando, como se de uma religião se tratasse. O apocalipse, as relações (alquímicas?) entre o masculino e o feminino, as cores que se ocultam atrás do reino das sombras continuam a ser territórios ocupados pelo profeta. Mas, à medida que o túnel se estreita e os marcos de sinalização se tornam mais escassos e difusos, o risco aumenta em proporção. O código genético altera-se, em mutações tentaculares que abraçam o “acid jazz”, as dissonâncias serialistas e programações hesitantes entre o “kraut pop” e o curto-circuito. Avança-se sem guia, com os óculos de realidade virtual de Syd Barrett e uma gota de LSD no cérebro. Némesis, a deusa da vingança, penetrou nos circuitos da “net” para nos assombrar.

Jan Garbarek – Rites

22.01.1999
Jan Garbarek
Rites (6)
2xCD ECM, Distri Dargil


jg

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Pode ser doce o sabor da desilusão. Que esta doçura escorra do novo álbum de Jan Garbarek, um saxofonista que outrora foi explorador e hoje optou pela profissão, bem mais pantufa, de agente de seguros, não espanta. É que na memória deste norueguês pouco deve sobrar dos tempos em que tocou com Keith Jarrett ou da beleza depurada que ilumina álbuns como “Legend of the Seven Dreams” ou “Rosensfole”, este de parceria com a cantora Agnes Buen Garnas. Só que Jan Garbarek resolveu, a dada altura, pôr todo o seu talento de saxofonista, que ainda é (o seu timbre e fraseado continuam a ser exclusivos) ao serviço de uma música onde a superficialidade e o colorido de produções progresivamente mais epidérmicas tomaram o lugar dos enunciados antigos.
“Rites” ouve-se com agrado. Com algum prazer até. Distraidamente, como música de fundo. São quadros “new age”, adequados aos gostos étnicos em voga, com programações gulosas e solos com a profundidade de um charco tornado ilusoriamente profundo pelos reflexos de luar. É Klaus Schulze no intervalo do lance (“Rites”), Glen Velez (“Where the rivers meet”) durante a sesta, um banho de espuma numa noite de Verão. Mesmo assim valerá a pena dedicar um pouco mais de atenção a uma peça minimalista como “So mild the wind, so meek the water”, cujo sax tenor, sugerindo ambiências surmanianas, e uma discreta intervenção do piano nos fazem suspirar por tudo o que este álbum poderia ser, mas, por preguiça, não é.

Tyranossaurus Rex – A Beard Of Stars (conj.)

15.01.1999
Reedições
Pai Tirano
Tyranossaurus Rex
My People Were Fair And had Sky In Their Hair… But Now They’re Content To Wear Stars On Their Brows (7)
Prophets, Seers & Sages, The Angels Of The Ages (6)
Unicorn (8)
A Beard Of Stars (7)
A&M, Import. Lojas Valentim de Carvalho


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Se alguma vez o termo “dinossauro” fez algum sentido na terminologia pop, foi em relação a uma banda dos anos 60 chamada Tyranossaurus Rex, constituída por Marc Bolan, futura estrela pop, e Steve Peregrine-Took, ambos já falecidos. Apesar do nome que escolheram para a banda, estavam longe de ser predadores. Pelo contrário, a música do duo era frágil, inspirando-se na mitologia de Tolkien, nas histórias de fadas em geral e na voz de porcelana de Bolan (nesta altura uma caricatura mais aguda e saturada de vibrato de Robin Williamson, dos Incredible String Band) com alguma ajuda do ácido que circulava em abundância nos idos de 1967. Entre este ano e 1970, os Tyranossaurus Rex gravaram quatro álbuns, durante muito tempo teimosamente arredados da reedição em CD, exceptuando a inclusão de alguns temas sortidos numa ou noutra colectânea mal amanhada.
Parte deste obscurantismo terá como explicação o facto de Bolan (que além de gostar de hobbits e elfos nunca escondera o seu fraco pelo “rock ‘n’ roll” de Bill Haley) se ter tornado – a partir do momento em que trocou a estética “hippie” dos Tyranossaurus Rex pela mistura eléctrica de “boogie”, “bubble gum” e “glam rock” dos T. Rex – num dos meninos queridos da indústria. Canções como “Hot Love”, “Get in on”, “Telegram Sam”, “Metal Guru”, “Jeepster” e “Children of the revolution” entraram de rompante nos tops, no início da década de 70, fazendo furor entre os adolescentes ainda mal refeitos da morte dos Beatles. Os caracóis, o ar doce e a voz, entretanto adaptada ao novo estilo de música, de Marc Bolan (que aos 15 anos teve a profissão de modelo), provocaram verdadeiras ondas de histeria ao ponto de alguma imprensa apelidar o grupo de “novos Beatles”. Que fazer então com um passado que incuía canções com títulos como “Graceful fat Sheba”, “Aznageel the mage”, “Salamandra palaganda”, “Scenescof dinasty”, “Stones for Avalon”, “Warlord of the royal crocodiles” ou “Like a white star tangled and far, tulip that’s what you are” e uma música que poderia passar pela banda sonora de “The Wizard Of Oz On Acid”? Eram duas realidades manifestamente incompatíveis.
Daí que os admiradores dos T. Rex possam sentir-se hoje chocados com a audição das estranhas flores e filigranas que pendiam das mandíbulas deste tiranossauro inofensivo. Para estes, o Tyranossaurus Rex será o pai tirano de um outro animal que pensavam ter definitivamente domesticado. Uma guitarra acústica, percussões e artefactos musicais primários e uma voz que parecia navegar sem rumo pelos meandros de melodias e poemas que apenas faziam sentido nos lugares mais ermos da imaginação constituíam o material de que era feito o palácio dos Tyranossaurus Rex. O álbum de estreia, de 1967, tinha um título, “My People Were Fair And had Sky In Their Hair… But Now They’re Content To Wear Stars On Their Brows”, e uma capa que só por si diziam tudo quanto ao seu conteúdo. No meio do arco-íris encontram-se pérolas de alucinatória delicadeza como “Dwarfish trumpet blues” e “Graceful fat Sheba”.
No ano seguinte, “Prophets, Seers & Sages, The Angels of the Ages” entra na mesma onda de misticismo para brinacr, embora seja notória alguma monotonia, resultante da repetição das mesmas entoações vocais e dos esquemas melódicos. Destaque para a música de marionetas chinesas de “Wind quartets” e para o muito barrettiano “Juniper suction”. John Peel, o DJ eterno, é que nunca deixou de apoiar o grupo, dedicando-lhe um texto na contracapa do primeiro e fazendo, em cada um, a leitura de um poema infantil.
Um dos efeitos provocados pela audição, 30 anos depois, deste cocktail que combinava os maneirismos vocais de Bolan, os bongos e gongos “freak” de Peregrine, as letras “hippies” e aderiva constante das canções será, porventura, uma vontade irresistível de destruir imediatamente os discos. Por outro lado, é bem possível que uma audição mais tolerante, levando em conta a época em que tudo isto se passou, consiga captar na música destes dois espécimes algo como uma mutação regressiva dos Dr. Strangely Strange (que por seu turno já eram uma mutação regressiva dos Incredible String Band…) misturada com as vísceras de uma “jugband”, uma pitada de Medecine Head e algumas das paranóias de Syd Barrett às quais tivesse sido retirado o veneno.
“Unicorn”, de 1969, é bastante melhor. A música ganha consistência e focagem, ao mesmo tempo que as soluções instrumentais (piano, flauta, bateria, baixo) e os arranjos (desdobramentos vocais, melhor aproveitamento dos efeitos de estúdio, como em “Pon a hill”, com vozes de criança e chilreado de pássaros) se diversificam, conferindo ao conjunto de canções uma coerência e um apuro de composição que nos dois álbuns anteriores andavam espalhados como peças de um “puzzle” mal montado. Saliência ainda para o “blues” de um anjo que chora, em “Like a white star…”, num álbum que, além do mais, revela até que ponto Tony Visconti evoluíra como produtor.
Em 70, já com Micky Finn no lugar de Steve Peregrine, é editado “A Beard of Stars”, álbum de transição para o som dos T. Rex, marcado pela primeira vez pelo rock e pelas guitarras eléctricas, sendo já visíveis as sementes de uma abordagem diferente da canção pop e o estatuto de estrela para Marc Bolan que já se adivinhava pela capa, inteiramente preenchida por uma fotografia do seu rosto. Se o misticismo prevalecia ainda – como na liturgia interpretada no órgão electrónico por Bolan, em “Organ Blues” -, o tiranossauro doce sentia, porém, no seu íntimo, que a hora era de despedida e da perda de inocência, ao mesmo tempo que lhe era aberta a porta de entrada no “hall of fame”. Com a chave bem em evidência na última canção, “Elemental Child”, onde se concentrava inequivocamente toda a estética dos futuros T. Rex. O resto, como toda a gente sabe, é uma história de sucesso que acabou em tragédia. Em 1977, Marc Bolan morria num acidente de viação, num choque contra uma árvore que seria amaldiçoada para sempre pelos fãs da estrela com os cabelos e a voz aos caracóis. Nascia a lenda de um lagarto gigante que afinal tinha uma alma de princesa.