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Jah Wobble – Requiem

03.10.1997
Jah Wobble
Requiem (7)
30 Hertz, import. Symbiose

LINK (Anthology – I Could Habe Been A Contender)

Jah Wobble não pára de nos surpreender, desta feita pela positiva. “Requiem” demonstra que o peso-pesado do baixo afinal é capaz de fazer mais que calcetar música com o seu martelo-pilão de baixas frequências. A primeira parte desta composição, inspirada na audição da música de Oliver Messiaen, é uma sequência circular para Synclavier e orquestra, com um motivo recorrente de vaga inspiração celta. A segunda, em forma de cantata, reforça a nota de tristeza própria de um requiem, evocando a grandiosidade coral de um Carl Orff.
Na terceira, em andamento ainda mais lento, um oboé introduz uma orquestração e contornos “micahel nymanianos”, derivando depois para um “andante” de percussões sintéticas contra vozes semiorientais, sequenciadas numa rítmica típica dos Magma. “The Father” e “The Mother”, os dois restantes temas, completam este “Requiem”, numa nota de religiosidade mariana. “O pai” inclui uma divagação de órgão de igreja virtual, enquanto “a mãe”, variação moderna de uma “Cantiga de Santa Maria2 de Afonso X, torna mais real e dramático o som do órgão de igreja, numa manifestação eloquente de devoção à Virgem Maria. Temos assim um Jah Wobble cada vez mais devoto. Quem diria… Ele que até já fez parte dos Public Image, ao lado de John Lydon, vulgo Johnny Rotten…

Jah Wobble – The Five Tone Dragon

16.10.1998
Jah Wobble
The Five Tone Dragon (5)
30 Hertz, distri. MVM

LINK (Holger Czukay Jah Wobble Jaki Liebezeit – Full Circle – 1982 – Germany)

Jah Wobble, o mamute do baixo que nos últimos anos tem procurado assumir um papel semelhante ao de Brian Eno, enquanto aglutinador e transformador de formas musicais alheias, apresenta neste seu novo trabalho a intérprete Zi Lan Lisao, executante de harpa. Mas se o antigo baixista dos Public Image foi modesto ao ponto de escrever na capa o nome da chinesa, teve, todavia, o cuidado de reservar para si todos os créditos pela composição. “The Fine Tone Dragon” padece da irremediável tendência de Wobble para, em termos de ritmo, reduzir tudo em que toca a um pastelão. Assim, o primeiro tema, “The five tone dragon”, procura enfiar, com total falta de tacto, a música chinesa no chinelo da música de dança. O resultado é qualquer coisa como os OMD a fazerem um sorriso amarelo. O resto do disco é preenchido pelos 34m de “The River”, aproximação contemporânea às formas musicais da tradição chinesa. Com Joji Hirota a encarregar-se das percussões e os sopros entregues a músicos como Harry Beckett (trompete), Clive Bell (dos Kahondo Style, em flautas clássicas e étnicas) e Jean Pierre Rasle (do grupo folk Cock & Bull, em gaita-de-foles, cromorna e flauta de bisel), “The River” faz subir a fasquia. Mas ainda aqui o que de interessante existe nas diversas intervenções solistas é destruído pelas irritantes orquestrações de Wobble, num registo marcial e pretensamente épico que corta por completo o efeito de misticismo pretendido.

Jah Wobble & The Invaders Of The Heart – Full Moon Over The Shopping Mall

17.09.1999
Jah Wobble & The Invaders Of The Heart
Full Moon Over The Shopping Mall (7)
30 Hertz, distri. Megamúsica

jahwobble_fullmoon

LINK (Becoming More Like God (Secret Knowledge To Hell And Back Mix))

Longa, e por vezes penosa, tem sido a Estrada percorrida por Jah Wobble desde “Rising Above Bedlam”, álbum que deu a conhecer pela primeira vez os Invaders of the heart, banda pioneira da grande seca em que se viria a tornar o etno-tecno, até ao actual “Full Moon Over the Shopping Mall”. Através de sucessivas depurações que levaram o antigo baixista dos PIL às margens da música clássica (“Requiem”), ao ambientalismo (“Spinner”, com Brian Eno) e a registos étnicos mais ou menos conspurcados (The Five-Tongued Dragon”, com o harpista chinês Zi Lan Liao), Jah Wobble foi largando o lastro dos seus graves demasiado afirmativos até alcançar um ponto de equilíbrio que, pressente-se, poderá quebrar-se a qualquer momento.
É uma síntese delicada, esta, conseguida à custa da conjugação dos esforços de um sitarista indiano (Baluji Shrivastar), um soprador de palhetas duplas de tendência céltica (Jean-Pierre Rasle, ex-Cock & Bull), um flautista (Clive Bell) e o baterista dos Can (Jaki Liebezeit). Abandonando a quadratura habitual, a investida rítmica dos Invaders dilui-se aqui num paisagismo exótico aparentemente próximo da estação de Jon Hassell em “City: Works of Fiction”, mas imbuído de uma dose reforçada de estranheza. Com cada instrumento, da gaita-de-foles à sitar e ao “Rauschpfeife” medieval, a funcionar fora de contexto, ganhando assim um novo alento. É um novo território, de danças para a mente, que se abre a Jah Wobble, que terá encontrado, por fim, o seu lugar de eleição.