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Fernando Tordo – “Fernando Tordo Apresenta Novo Disco No Centro Cultural De Belém – ‘Não É Uma Bofetada É Um Soco!’”

cultura >> sexta-feira >> 23.09.1994


Fernando Tordo Apresenta Novo Disco No Centro Cultural De Belém
‘Não É Uma Bofetada É Um Soco!’



A aposta é forte mas Tordo confia que os espectáculos marcados para este fim-de-semana vão servir para quebrar a distância que nos últimos anos se cavou entre si e o público. Marginalizado, diz, pelo sistema, o autor de “Tourada” reencontra-se com um dos seus primeiros amores: o jazz. Com ele vai estar no CCB a National Youth Jazz Orchestra, na apresentação ao vivo de “Só Ficou O Amor Por Ti”.

Há revolta nas palavras de Fernando Tordo. De menino-bonito nos anos 70, altura em que chegou a vencer um Festival da Canção com “Tourada”, passou a ser sistematicamente ignorado pelo sistema na década seguinte, por não abdicar das suas convicções políticas. Hoje, considera que foi utilizado e não poupa críticas a quem o empurrou para fora do convívio com o público. No Centro Cultural de Belém (CCB), sábado e domingo, às 22h, vai tentar reencontrá-lo na companhia de jovens músicos de jazz londrinos. Com o seu novo disco “Só Ficou o Amor por Ti” (ed. Movieplay).
PÚBLICO – De onde vem o seu interesse por cantar acompanhado por uma orquestra?
FERNANDO TORDO – Em 1984 e 85 gravei com orquestra os discos “Anticiclone” e “A Ilha do Canto”, ambos compostos nos Açores, na época em que vivia no Faial. Gravei com o François Robert, o orquestrador de toda a carreira do Jacques Brel. São as últimas gravações de um cantor com orquestra de há registo em Portugal.
P. – Mas o que é que o atrai?
R. – É muito importante para a minha música o colectivo. Estar com outra gente, com outros raciocínios, todos lendo partituras para um mesmo fim. É uma visão muito global da música. Aprendi desde miúdo a ouvir grandes orquestras. Ia aos Estados Unidos ouvir o Duke Ellington ou o Count Basie. Enquanto os meus colegas iam para o Algarve engatar umas miúdas, eu preferia engatar as americanas em Nova-Iorque…
P. – Daí a sua ligação com o jazz…
R. – Tenho uma profunda ligação com o jazz através de um homem a quem aliás, neste disco, dedico uma canção, “O homem do jazz”, o Luís Villas-Boas. Uma pessoa que não me empurrou para lado nenhum, mostrou-me apenas que havia opções. Quando eu dizia que o Scott Walker é que cantava bem ele contrapunha: “Mas já ouviu o Frank Sinatra?” Quando isto acontece aos 17 anos, é importante, porque a gente depois vai ouvir. A partir aí fazia o meu investimento, o dinheiro que ganhava nos conjuntos, nos bares e nas festas de finalistas, gastava-o numa viagem e ia com ele para os Estados Unidos ouvir música. Admiro os grandes músicos de jazz. Um músico de jazz teve que aprender antes tudo o que estava pelo caminho. É alguém que funciona em níveis superiores, preparado para tocar todo o tipo de música. Como eles, também estou totalmente liberto de preconceitos em relação à música que faço. Tem sido sempre assim nos 30 anos que levo de profissão.
P. – Como se deu o seu encontro com a National Youth Jazz Orchestra?
R. – Há três anos vieram tocar ao Festival de Jazz de Cascais. Pediram ao promotor, o Duarte Mendonça, que enviasse uma série de canções portuguesas para brindar o público com um tema instrumental. Escolheram o “Adeus Tristeza”. Fui apresentado ao maestro, com quem falei para aí uns quinze segundos. “Quando for a Inglaterra, e tal, disponha da orquestra!…”. Tão fácil quanto isto.

Sobreviver à Marginalização

P. – Após a morte de Ary dos Santos, com quem fez dupla nos anos 70, a sua carreira ao longo da década seguinte esteve um pouco na sombra…
R. – O primeiro disco – desde que interrompi o meu trabalho com o José Carlos Ary dos Santos – chama-se “Adeus tristeza”, um “standard” da música portuguesa, que escrevi por inteiro. Logo a seguir gravei com o François Robert outro disco, o “Anticiclone”, que ganhou todos os prémios – inclusive o Sete de Ouro – que havia para receber em Portugal. Meses depois ganhei outra vez com “A Ilha do Canto”. Não houve um apagamento mas antes, por razões várias, uma falta de informação e divulgação do meu trabalho.
P. – Não há nas suas palavras algum ressentimento?
R. – Há inevitavelmente um ressentimento! Toda a década de 80 foi uma década negra para a nossa música, com tentativas de fazer cair no esquecimento indivíduos que já tinham uma obra. Fiz o “Cavalo à solta”, tinha 19 anos. Era suposto ser uma canção para se escrever depois dos 50… Em 1973 ajudei no abanão do país, fui à televisão assumir uma coisa impossível, com a censura, cantar a “Tourada”. Mas o que está em causa é a existência de algo que tem a ver com o processo político. Nos anos 80, qualquer indivíduo que estivesse ligado ao PCP era para a bater e eu estive 18 anos ligado ao partido. Eu, e outros como eu, tivemos que sobreviver à marginalização.
Abandonei o partido há quatro anos. Reconheço que o facto de ter sido militante me foi prejudicial em termos de carreira. Vinha do período anterior ao 25 de Abril com o estatuto de vedeta, desde 69, quando fui pela primeira vez cantar ao Festival da Canção, em 71, com o “Cavalo à solta”. Não precisei da política nem da revolução para me afirmar. Mas sinto uma mágoa grande por ter sido aproveitado desmedidamente, estupidamente. De ter servido de trampolim, enquanto vedeta, a alguns indivíduos da política.
P. – Não deixa de ser curioso que vá cantar ao CCB, uma sala do regime…
R. – Mas não lhes fico a dever nada porque pago o aluguer! Não pedi nada ao secretário de Estado. Nem ao CCB. Vou lá porque a sala é muito boa.
P. – É uma bofetada com luva branca?
R. – Não é uma bofetada, é um soco! Vou ao CCB pagar o aluguer que qualquer grande empreendimento americano, inglês ou alemão, com uma orquestra, paga. Nasci há 46 anos, ajudei a pagar o CCB, também pago impostos… A produção do espectáculo é minha. Procurei, em vão, patrocínios… O banco, o meu banco, de que sou cliente, patrocina no mesmo dia do meu primeiro espectáculo outro no Estádio do Restelo! Ainda em relação à sala há coisas surpreendentes. Acredita que uma sala com aquele prestígio não tem som? Que se paga um aluguer de 600 contos por dia e não tem som? Pago o aluguer da sala e ainda vou ter que pagar o aluguer do som! Não sonhava que isto fosse possível!
P. – O que está em jogo nestes espectáculos?
R. – Mais uma vez na minha carreira vou pelo caminho das pedras. É a primeiríssima vez que um cantor português traz uma orquestra. Há um risco mas também a necessidade absoluta de fazer isto. Quero desbloquear a cabeça das pessoas, unindo várias linguagens e culturas. O que me proponho é juntar uma orquestra que ainda por cima é de jazz (na primeira parte vão tocar a música deles) com uma música, a minha, que é totalmente portuguesa.
P. – Será uma tentativa de procura do “tempo perdido”?
R. – Em “Adeus tristeza” escrevi: “Na minha vida tive palmas e fracassos, fui amargura feita notas e compassos, aconteceu-me estar no palco, atrás do pano, tive a promessa de um contrato por uma ano…” O que gostava é que estes espectáculos fossem um reflexo de tudo o que tenho feito. E dizer: isto também é possível fazer para não me deixar sufocar por este ambiente que estrangula o país. Sinto uma necessidade profunda de comunicação, de partilha com o público. É doloroso quando há factores exteriores que impedem isso violentamente durante anos a fio.