Arquivo da Categoria: Pós-Rock

Olivia Tremor Control – “Black Foliage – Animation Music, Volume One”

Sons

23 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Olivia Tremor Control
Black Foliage – Animation Music, Volume One (9)
Flydaddy Inc./V2, distri. MVM


otc

“Dusk at Cubist Castle”, o anterior album dos OTC, era sobretudo uma curiosidade onde canções pop de cuidada feitura alternavam, sem que se percebesse muito bem porquê, com obscuros momentos de um experimentalismo sombrio. Em “Black Foliage” os OTC controlaram todos os seus tremores, oferecendo-nos uma ópera de desenhos animados construída, ao longo do tempo e de múltiplos processos de gravação e edição, a partir de um tema inicial, precisamente aquele que dá título ao álbum. A música de “Black Foliage” continua a ser pop e continua a ser estranha, uma mistura de efeitos electrónicos de circo com um sentido apurado da melodia que junta as contorções lisérgicas dos Pink Floyd iniciais num caleidoscópio de geometrias que não deixam de fazer lembrar os primeiros trabalhos dos Gorky’s Zygotic Mynci. Fitas de gravação parecem subitamente descontrolar-se e rolar numa alucinação de frequências perdidas, xilofones são apanhados nas malhas de sintetizadores roufenhos, um órgão de feira dança num círculo de fadas ao som de marimbas minimalistas, a meio de uma apetitosa linha melódica tudo parece de repente desorganizar-se para no momento seguinte a canção seguir numa direcção diferente. E há pássaros de corda e comboios-fantasmas e distorções esculpidas como se fossem sinfonias. E, acima de tudo, grandes e bizarras canções, como “Paranormal echoes”, um título que explica muita coisa. “Deixem entrar os sons do ambiente”, avisam os OTC numa alusão a esta espécie mutante de ambientalismo no qual o silêncio é substituído por um “poltergeist” sonoro que, desde já, se afigura como um clássico do psicadelismo dos anos 90.



John McEntire “Music from the Motion Picture ‘Reach the Rock'” + Stephen Prina – “Push Comes to Love”

Sons

30 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


John McEntire
Music from the Motion Picture “Reach the Rock” (7)
Hefty, import. Ananana

Stephen Prina
Push Comes to Love (7)
Drag City, distri. MVM


jm

sp

De Chicago chegam novos desenvolvimentos da estética pós-rock, cuja eclosão muito deve ao trabalho empreendido por John McEntire, nos Tortoise e na multiplicidade de outros projectos aos quais tem dado a sua colaboração. Neste seu primeiro álbum a solo não há grandes desvios ao léxico redigido anteriormente, assente na electrónica, segundo alguns dos moldes quer do progressivo, quer do “Krautrock” dos anos 70. Funciona bem como complemento, neste caso, de um filme realizado por William Ryan. Ao contrário do que é costume acontecer na maior parte das bandas sonoras, a música de “Reach the Rock” tem uma dinâmica própria, em parte pela ênfase dada ao ritmo (da bateria ou das programações em computador), em parte pela quantidade de temas tocados por amigos seus: Bundy K. Brown, The Sea and the Cake, Polvo, Dianogah e os próprios Tortoise, no tema de abertura. Stephen Prina, elemento dos Red Krayola, cultiva, por seu lado, uma das derivações actualmente em voga no pós-rock “made in Chicago”, uma espécie de easy listening intelectualizado que tem na bossa-nova e na herança da escola de Canterbury as principais referências. “Push Comes To Love” soa, às vezes, como uns Caravan ou uns Hatfield and the North simplificados, mas, ao contrário do álbum homónimo de Sam Prekop, na mesma linha deste, tem a vantagem de Prina ser um vocalista multifacetado, cuja tendência para a teatralidade e para um tom semi-improvisado confere a este álbum uma profundidade que a sua aparente leveza sonora parece contradizer.



Pan Sonic – “A”

Sons

14 de Maio 1999
POP ROCK


Pan Sonic
A (8)
Blast First, distri. Symbiose


a

Depois de Matilde Santing ter perdido o “h” de Mathilde é a vez de os Panasonic deixarem cair o “A” e passarem a chamar-se Pan Sonic. Guardaram a letra para o título e lançaram já um maxi que carimbaram com um rotundo “B”. Um abecedário que promete. A dupla dos noruegueses Mika Vainio e Ilpo Väisänen, depois de no ano passado terem recriado em conjunto com Alan Vega o som dos Suicide, em “Endless”, voltaram a recolher-se ao quarto escuro dos primeiros tempos. Um quarto fechado e sem móveis, penetrado durante 24 horas por dia pelos ruídos da monotonia e da alienação. “A” tem a subtileza de uma esfera de chumbo e o apelo de uma sala de operações a funcionar no vazio. É a máquina de tortura inventada por uma das personagens de Kafka e uma cápsula de transcendência para tomar entre dois acesos de paranóia. A música dos Pan Sonic detesta o romantismo e as cores do arco-íris. Mas nutre toda a simpatia pelas linhas de montagem dos primeiros Cluster e Kraftwerk e pelas chagas de metal da música industrial. O metal de “A” não tem ferrugem, é metal vivo, como uma criatura saída da imaginação de um cientista louco. “A” é bom para meditar desde que seja sobre o nada. “A” é um afrodisíaco desde que o parceiro(a) seja um boneco(a) insuflável. “A” é música ambiente da cidade do futuro que todos desejamos que nunca venha a existir. “A” é a primeira letra do fim. “A” é “endless”, não tem fim. “The torture never stops” cantava Frank Zappa no álbum “Zoot Allures”. Mas o que provoca dor no humano dá prazer à máquina. Uma máquina programada para castigar o homem e para se masturbar até ao infinito.