Arquivo da Categoria: Fado

Amália Rodrigues – Segredo

28.11.1997
Amália Rodrigues
Segredo (9)
Ed. e distri. EMI – VC

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“Segredo” é uma colecção de 12 temas inéditos ou “versões nunca publicadas” que Amália gravou no seu período áureo, entre 1965 e 1975, nos estúdios de Paço de Arcos da Valentim de Carvalho. sessões que encontraram a fadista no seu melhor, perfeitamente descontraída e envolta numa atmosfera de cumplicidade com os amigos que nessas ocasiões a acompanhavam, enfrentando os microfones após conversas e refeições em comum. Versões menores é coisa que não existe em Amália, sabendo-se que para elea era sempre a primeira vez, nunca cantando o mesmo fado da mesma maneira. “Talvez eu não seja criadora, mas quando canto estou a inventar”, dizia ela então. Encare-se, pois, este disco como vem descrito no detalhado texto de apresentação, uma “antologia transversal” da fadista. Entre os 12 temas encontram-se sete fados de Alain Oulman, incluindo os inéditos “medo”, “Amor em casa”, “Verde pino, verde mastro”, “É da torre mais alta” e “Procura”, e “As mãos que trago” e “Abril”, antes não publicados. Importantes são ainda “Primavera”, com poema de David Mourão-Ferreira, “não é desgraça ser pobre”, um fado menor que Amália definia como sendo “o pai e a mãe do fado(…) destino mau, destino das pessoas quando é triste” e “Cansaço”, na versão de Luís de Macedo e Joaquim Campos. Os restantes dois temas de “Segredo” são “Longe daqui”, de Arlindo de Carvalho, balada inspirada no folclore da Beira Baixa, e “Minha boca não se atreve”, de Fontes Rocha. Em todos eles, em maior ou menor grau, está presente a alma do fado, que é como quem diz, a alma de Amália. Escutá-la é escutar a voz de um rio de múltiplos cursos, mas todos eles desaguando em Portugal. O Portugal do “medo”, do “longe” e do “amor” que se destacam nas páginas interiores deste “Segredo”.

Cristina Branco – Álbum de Fado Não Faço – Entrevista –

28.01.2005
Cristina Branco – Álbum de Fado Não Faço
“Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Ou seja, como ela aqui diz, o fado pode esperar.

O fado ninguém sabe bem o que é. Anda toda a gente a ditar leis sem saber do que está a falar. O percurso dentro da música popular portuguesa tem raízes mais fortes.

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São viagens interiores, um percurso em várias direcções que levou Cristina Branco do fado para a canção popular urbana e, nesta, até à recriação de cantautores como Fausto, José Afonso, Vitorino e Joni Mitchell, e à interpretação das palavras de David Mourão-Ferreira, Camões, Júlio Pomar e Paul Éluard, entre outros.
Cristina Branco não procurou a unidade mas a liberdade, e é este o tema que atravessa cada uma das notas e canções de “Ulisses”, o seu mais recente álbum. Um disco de adequação a uma música mais “tranquila” que o fado mas também de “desconcertação”, de mergulho no caos e de procura de sentidos que o expliquem. A voz é cristalina, rica em “nuances”, mas o estado de espírito que presidiu à criação nem sempre foi o mais luminoso. “Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Não há razões, apenas uma vontade e uma escolha de autores que não foi inocente. E um porto de abrigo, Ítaca, o seu filho, Martim. Ela diz: “Perdi-me tantas vezes neste caminho, foi tão difícil retomar o rumo, acreditar outra vez… erguer-me de novo depois de desistir… até chegar a Ulisses”. O fado pode esperar.

FM – Desta vez aconteceu mesmo o que já ameaçara. “Ulisses” é uma despedida do fado. Um passo demasiado arriscado?

Cristina Branco – Os passos são sempre arriscados, desde o primeiro disco. Nunca fui de cantar aquilo que os outros me aconselham a cantar. Canto apenas aquilo que me apetece. Não senti que estivesse a correr qualquer risco.

FM – O que lhe apeteceu, exactamente?

Cristina Branco – Cantar noutras línguas, as músicas de que gosto. Apeteceu-me ir à procura de outros caminhos, daí o piano…

FM – Houve quem dissesse que em cada disco seu é deixada uma pista para o seguinte…

Cristina Branco – Há pistas, mas não são postas lá deliberadamente. Em “Sensus” havia “O meu amor”, com contrabaixo, que já não tinha nada de fado. Mas se pensarmos apenas nesses termos, então o próximo disco será de música electrónica (risos)!…

FM – Está a pensar no tema que fecha o novo disco, “Fundos”, com aquela batida de “drum ‘n’ bass”?

Cristina Branco – Uma maluqueira! Fizemos som com esse tema, sobre aquela base. No fim, quando já tinha gravado todas as partes vocais, o Náná, o técnico de som, chamou-me e perguntou-me o que é que eu podia fazer com aquilo, qualquer coisa engraçada. Eu pus-me a fazer aqueles arabescos. Quando os franceses da Universal ouviram, gostaram e decidiram que ficaria para última faixa.

FM – Começou por ser “arrumada” no grupo das novas fadistas. Com este disco transitou para o de cantoras como a Amélia Muge ou a Filipa Pais. Tem consciência disso?

Cristina Branco – É um universo que tem amais a ver comigo. É uma música que me deixa mais tranquila do que o fado.

FM – Mais tranquila como?

Cristina Branco – É uma expressão muito minha. Dá-me tranquilidade, parece-me uma herança mais justa do que o fado. O fado ninguém nunca sabe muito bem o que é. Anda toda a gente aí a ditar leis sem saber do que está a falar. O percurso dentro da música popular portuguesa é muito mais seguro, com raízes mais fortes.

FM – Em “Ulisses” canta com um sotaque brasileiro, em castelhano, francês e inglês… Muitas línguas para um disco só…

Cristina Branco – São muitas línguas para uma miúda tão pequenina (risos). É uma viagem. O português do Brasil tem uma explicação [“Sonhei que estava em Portugal”] muito técnica. Cantei o poema em português sem sotaque e soava horrível, foneticamente. Tenho cantado sempre sem sotaque temas brasileiros mas neste caso não resultava. O castelhano foi usado em “Alfonsina y el mar”. Neste disco há espelhos, reflexos, dualidades. “Alfonsina” fala do suicídio e isso sim, tem a ver com o nosso fado, a história da saudade. É um tema lindo de morrer. Vocês críticos estão sempre a perguntar porquê, porque é que esta gaja lhe deu na tola para fazer isto! Há muitas coisas que não têm explicação racional. Se calhar queria uma resposta mais filosófica…

FM – O Paul Éluard?

Cristina Branco – “Liberté”. É um tema incontornável da língua francesa. Independentemente disso, o poema tem cores magníficas. Este álbum era suposto ser sobre a liberdade, nem sequer era para se chamar “Ulisses”. Pretendi fazer um disco sobre a liberdade. Mas algumas divergências com os franceses da editora fizeram que saísse assim. Eu estava no pós-parto, não me apetecia aturar aqueles gajos, “deixem-me em paz”, deixei estar… Mas o “Liberté” tem muito a ver comigo, tem também a ver com uma época do nosso país que foi extremamente vivida, à qual não pertenço mas felizmente tenho pais que me deixaram essa herança, que me explicaram bem qual o valor da liberdade. O álbum é controverso também porque me apeteceu contrariar aqueles senhores que queriam que fizesse um álbum de fado. Disse-lhes: “álbum de fado não faço!”.

FM – Houve muitas pressões nesse sentido?

Cristina Branco – Não houve pressões… mas eles achavam que era o momento indicado para gravar um álbum de fado, quando eu já tinha tudo preparado para fazer dois discos, um com autores estrangeiros, outro com portugueses. Seria talvez demasiado megalómano, mas já tinha tudo preparado, antes de ter o meu filho. Depois foi o caos, fiquei completamente perdida. E isso também está neste disco.

Desorientação – daí estas direcções todas?

Cristina Branco – Claro!

FM – Mas no estrangeiro, independentemente do nome da artista, não querem acima de tudo ouvir fado?

Cristina Branco – Pelo contrário. As pessoas que vêm aos meus concertos, vêm ouvir-me a mim. É claro que antes as coisas não funcionavam assim, o meu concerto era vendido como um concerto de fado. Hoje é a Cristina Branco e acabou. As pessoas que ainda associarem o meu nome ao fado estão enganadas.

FM – Ainda há as guitarras…

Cristina Branco – Sim, e essa ligação manter-se-á. A sonoridade da guitarra é muito importante para aquilo que faço.

FM – Há quem diga que a sensibilidade, a emoção com que canta em “Ulisses” é a mesma do fado, mas então…

Cristina Branco – … tudo seria fado! O que não é verdade. Houve mesmo quem dissesse que “A case of you”, da Joni Mitchell, era “fado urbano”!…

Cristina Branco – Chegámos, pois, à Joni Mitchell. Aqui o passo foi mesmo arriscado…

Cristina Branco – Tem um percurso semelhante ao meu, a vários níveis. Ela fala da vida como eu a interpreto. E há muitas particularidades na vida dela que se assemelham à minha. Por exemplo, estar sempre à margem da popularidade, ir sempre pelo caminho que acho ser o correcto. Conheço a Joni Mitchell desde pequenina. “A case of you” é uma das canções mais especiais dela. Toda a gente canta o “Both Sides Now” ou o “Black Crow”, mas “A case of you” tem a ver com o caos e a decadência.

FM – Porquê essa preocupação com o caos e a decadência?

Cristina Branco – Porque tenho que compreender, para continuar, para seguir em frente. Enquanto de vive dentro de uma bolha, no meio do caos, consegue-se sobreviver, deixando que as coisas aconteçam. A vida está bem. Mas fazer um disco como este obriga a entrar no caos e a tentar perceber, a tentar resolver algum caos interior. Entro dentro dos autores que canto…

FM – Vitorino, Fausto e José Afonso são três desses autores em que entrou.

Cristina Branco – A letra do Vitorino, de “Navio Triste”, foi escrita de propósito para este disco. “Porque me olhas assim” é uma das baladas de amor do Fausto, aquele seu outro lado, para mim o mais sedutor. É costume olharmos para o Fausto como um cantor de intervenção, com aquele ar muito “José Mário Branco”! Não é nada! É um génio que gosta de viver naquele caos, com um lado muito bonito.
O José Afonso é uma paixão. Quando há aqueles concertos de homenagem, onde estão presentes os meus cantores de eleição, vou sempre ouvi-los. As músicas do Zeca têm algo que já não acontece mais e não sei se voltará a acontecer, que é a simplicidade aliada a uma genialidade indescritível. “Redondo vocábulo” é, de novo, e assumidamente, sobre o caos, todas as imagens que passam por dentro cada vez que nos encontramos num momento de desespero.

FM – Depois há Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís Gordo, Júlio Pomar, Mourão-Ferreira…

Cristina Branco – O Vasco Graça-Moura também escreveu de propósito o “Cristal”~para “Ulisses”, bem como José Luís Gordo, com o “Sete pedaços de vento”. Mourão-Ferreira é incontornável, tem que aparecer sempre. Aquilo que tem de simples, tem de genial, tudo o que está por detrás das palavras… Vou sempre descobrindo coisas novas. É o meu Ary dos Santos! O “Circe”, do Júlio Pomar, foi ele que me pediu para cantar uma coisa dele, na festa de lançamento de um livro, com a música feita em tempo “record”. O tema é o amor mais sensual, como é o de “Sensus”.

FM – E há “Gaivota”, o único fado de “Ulisses”…

Cristina Branco – Muito antes de me oferecer um disco da Amália, o meu avô, que gostava muito de ler e de música, mostrou-me esse poema e leu-mo. Quando o ouvi pela primeira vez cantado, já o meu avô tinha desaparecido, foi “chocante” sentir a ligação entre a música e as palavras como me tinham sido lidas.

FM – Entre todas estas viagens, há alguma direcção que se sobreponhas às outras?

Cristina Branco – É o meu disco mais pessoal, o disco das minhas vontades. Ao contrário dos outros, este não é inocente. Por muito confuso que seja, por mais confusão que cause às pessoas, sobretudo as que vão escrever sobre ele (risos), é mesmo assim, a minha desconcertação interior. Não sei se todos os poemas convergem para o mesmo centro ou se divergem para sentidos diferentes.

FM – É o primeiro disco seu editado no formato Super Áudio CD. Teve alguma influência nesta matéria?

Cristina Branco – Sim, apeteceu-me que as coisas soassem todas grandes. Som de filme. E as fotografias da capa pertencem todas à sessão de “Sensus”. Também me recusei a fazer fotografias. Convivo muito mal com a minha imagem. Odeio fazer televisão, tirar fotografias. Não gosto de me ver. E depois de ter o filho, estava zangada, não me apetecia fazer nada. Ainda pensei em pedir ao Júlio Pomar para me fazer uma capa, até porque uma parte da obra dele é dedicada ao Ulisses e às sereias, mas depois ambos concluímos que não era por ali, o formato é muito pequeno, não iria revelar nada da sua obra nem sobre mim.

FM – O nascimento do seu filho foi importante na génese de “Ulisses”?

Cristina Branco – Sim, enquanto nómada que sou, não há um sítio geográfico que eu defina como minha casa. A minha Ítaca é, definitivamente, o Martim, o meu filho.

Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

25.03.2005
Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

LINK (“Sensus”)

Chegou a causar polémica a questão de se saber se Cristina Branco é fadista, cantora de fado ou nem uma coisa nem outra mas simplesmente uma cantora que também gosta de cantar fados. O imbróglio iniciou-se com os primeiros discos, como “Post-Scriptum”, quando Cristina tinha sede exclusiva da sua carreira na Holanda. Era então uma “fadista” exilada que no seu próprio país era encarada com certa estranheza.
Os últimos trabalhos, porém, baralharam a questão. “Corpo Iluminado” e, sobretudo, “Sensus”, inspirado na poesia erótica, mostravam já uma voz e uma sensibilidade adultas que de modo algum se confinavam ao universo do fado. “Ulisses”, o novo álbum, que apresenta amanhã no S. Luiz, em Lisboa (esta semana, ainda, quinta-feira em Aveiro), consuma a ruptura. Apenas um fado, “gaivota”. Todo o restante alinhamento respeita um outro roteiro de referências que passam pela música popular urbana. Em “Ulisses” Cristina Branco recusa terminantemente o epíteto de “fadista”. Não é um álbum de fados nem de fado mas um alinhamento, cuja lógica secreta apenas a sua intérprete detém, que inclui as assinaturas de Fausto, Vitorino, José Afonso e… Joni Mitchell. Custódio Castelo, como é hábito, completa musicalmente a maior parte do disco, com a sua guitarra portuguesa e uma inspiração que vai buscar inspiração ao fado, a Paredes, à música árabe e a outras tradições algumas delas existentes apenas dentro da sua cabeça. Cristina Branco dá voz e alento a visões poéticas construídas com as palavras de Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís gordo, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira e Paul Éluard.
Os velhos do Restelo ficam com os cabelos em pé, perante tanta e tamanha diversidade. A esses Cristina Branco faz ouvidos de mercador, prosseguindo um caminho que ela própria não sabe onde desembocará mas que forçosamente será da sua inteira e exclusiva responsabilidade. “Ulisses” é o disco das “vontades” e dos “desejos” da cantora, quase mimando os caprichos da mulher grávida, situação que viveu de facto e foi determinante na economia emotiva de “Ulisses”. “Ulisses” é o filho de uma cantora que não quer ver barreiras na linha de horizonte mas cujos pontos de exclamação são, ao mesmo tempo, pontos de interrogação. São vários os sentidos. Os sentidos que sentem, os sentidos que são setas, os sentidos que são dor. Os sentidos que também são línguas. Além do português, o sotaque brasileiro, o castelhano, o francês (na “Liberté” de Paul Éluard) e o inglês (em “A Case of You” de Joni Mitchell) são os idiomas usados em “Ulisses”, como ferramentas de um trabalho de exploração e descoberta. Poderiam parecer sinais de inquietação (e também são…) mas, mais do que sinais, são a carne e o espírito de canções provenientes de muitos mundos que Cristina Branco quer experimentar e transforma em verbos conjugados na primeira pessoa. Experiências alheias que se tornam suas. E no palco, a experiência amor e mais arriscada: a recusa de máscaras e a exposição nua no quadro da sua própria interioridade. Cristina Branco, por mais longe que a sua personalidade vá em busca de novas vivências, é sempre Cristina Branco. A exploradora. Que às vezes, quando o seu coração passa por lá, até canta o fado.

Cristina Branco
Sábado | 26
Lisboa | Teatro Municipal de S. Luiz
R. Antº Maria Cardoso, 38-58. Às 21h00. Tel.: 213257650. Bilhetes: €19,5 a €25,5. Na sala principal.
Quinta | 3
Aveiro | Teatro Aveirense
Pç. República. Às 21h30. Tel.: 234400920. Bilhetes: €17,5 (plateia); €15 (balcão)