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Cristina Branco – Álbum de Fado Não Faço – Entrevista –

28.01.2005
Cristina Branco – Álbum de Fado Não Faço
“Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Ou seja, como ela aqui diz, o fado pode esperar.

O fado ninguém sabe bem o que é. Anda toda a gente a ditar leis sem saber do que está a falar. O percurso dentro da música popular portuguesa tem raízes mais fortes.

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São viagens interiores, um percurso em várias direcções que levou Cristina Branco do fado para a canção popular urbana e, nesta, até à recriação de cantautores como Fausto, José Afonso, Vitorino e Joni Mitchell, e à interpretação das palavras de David Mourão-Ferreira, Camões, Júlio Pomar e Paul Éluard, entre outros.
Cristina Branco não procurou a unidade mas a liberdade, e é este o tema que atravessa cada uma das notas e canções de “Ulisses”, o seu mais recente álbum. Um disco de adequação a uma música mais “tranquila” que o fado mas também de “desconcertação”, de mergulho no caos e de procura de sentidos que o expliquem. A voz é cristalina, rica em “nuances”, mas o estado de espírito que presidiu à criação nem sempre foi o mais luminoso. “Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Não há razões, apenas uma vontade e uma escolha de autores que não foi inocente. E um porto de abrigo, Ítaca, o seu filho, Martim. Ela diz: “Perdi-me tantas vezes neste caminho, foi tão difícil retomar o rumo, acreditar outra vez… erguer-me de novo depois de desistir… até chegar a Ulisses”. O fado pode esperar.

FM – Desta vez aconteceu mesmo o que já ameaçara. “Ulisses” é uma despedida do fado. Um passo demasiado arriscado?

Cristina Branco – Os passos são sempre arriscados, desde o primeiro disco. Nunca fui de cantar aquilo que os outros me aconselham a cantar. Canto apenas aquilo que me apetece. Não senti que estivesse a correr qualquer risco.

FM – O que lhe apeteceu, exactamente?

Cristina Branco – Cantar noutras línguas, as músicas de que gosto. Apeteceu-me ir à procura de outros caminhos, daí o piano…

FM – Houve quem dissesse que em cada disco seu é deixada uma pista para o seguinte…

Cristina Branco – Há pistas, mas não são postas lá deliberadamente. Em “Sensus” havia “O meu amor”, com contrabaixo, que já não tinha nada de fado. Mas se pensarmos apenas nesses termos, então o próximo disco será de música electrónica (risos)!…

FM – Está a pensar no tema que fecha o novo disco, “Fundos”, com aquela batida de “drum ‘n’ bass”?

Cristina Branco – Uma maluqueira! Fizemos som com esse tema, sobre aquela base. No fim, quando já tinha gravado todas as partes vocais, o Náná, o técnico de som, chamou-me e perguntou-me o que é que eu podia fazer com aquilo, qualquer coisa engraçada. Eu pus-me a fazer aqueles arabescos. Quando os franceses da Universal ouviram, gostaram e decidiram que ficaria para última faixa.

FM – Começou por ser “arrumada” no grupo das novas fadistas. Com este disco transitou para o de cantoras como a Amélia Muge ou a Filipa Pais. Tem consciência disso?

Cristina Branco – É um universo que tem amais a ver comigo. É uma música que me deixa mais tranquila do que o fado.

FM – Mais tranquila como?

Cristina Branco – É uma expressão muito minha. Dá-me tranquilidade, parece-me uma herança mais justa do que o fado. O fado ninguém nunca sabe muito bem o que é. Anda toda a gente aí a ditar leis sem saber do que está a falar. O percurso dentro da música popular portuguesa é muito mais seguro, com raízes mais fortes.

FM – Em “Ulisses” canta com um sotaque brasileiro, em castelhano, francês e inglês… Muitas línguas para um disco só…

Cristina Branco – São muitas línguas para uma miúda tão pequenina (risos). É uma viagem. O português do Brasil tem uma explicação [“Sonhei que estava em Portugal”] muito técnica. Cantei o poema em português sem sotaque e soava horrível, foneticamente. Tenho cantado sempre sem sotaque temas brasileiros mas neste caso não resultava. O castelhano foi usado em “Alfonsina y el mar”. Neste disco há espelhos, reflexos, dualidades. “Alfonsina” fala do suicídio e isso sim, tem a ver com o nosso fado, a história da saudade. É um tema lindo de morrer. Vocês críticos estão sempre a perguntar porquê, porque é que esta gaja lhe deu na tola para fazer isto! Há muitas coisas que não têm explicação racional. Se calhar queria uma resposta mais filosófica…

FM – O Paul Éluard?

Cristina Branco – “Liberté”. É um tema incontornável da língua francesa. Independentemente disso, o poema tem cores magníficas. Este álbum era suposto ser sobre a liberdade, nem sequer era para se chamar “Ulisses”. Pretendi fazer um disco sobre a liberdade. Mas algumas divergências com os franceses da editora fizeram que saísse assim. Eu estava no pós-parto, não me apetecia aturar aqueles gajos, “deixem-me em paz”, deixei estar… Mas o “Liberté” tem muito a ver comigo, tem também a ver com uma época do nosso país que foi extremamente vivida, à qual não pertenço mas felizmente tenho pais que me deixaram essa herança, que me explicaram bem qual o valor da liberdade. O álbum é controverso também porque me apeteceu contrariar aqueles senhores que queriam que fizesse um álbum de fado. Disse-lhes: “álbum de fado não faço!”.

FM – Houve muitas pressões nesse sentido?

Cristina Branco – Não houve pressões… mas eles achavam que era o momento indicado para gravar um álbum de fado, quando eu já tinha tudo preparado para fazer dois discos, um com autores estrangeiros, outro com portugueses. Seria talvez demasiado megalómano, mas já tinha tudo preparado, antes de ter o meu filho. Depois foi o caos, fiquei completamente perdida. E isso também está neste disco.

Desorientação – daí estas direcções todas?

Cristina Branco – Claro!

FM – Mas no estrangeiro, independentemente do nome da artista, não querem acima de tudo ouvir fado?

Cristina Branco – Pelo contrário. As pessoas que vêm aos meus concertos, vêm ouvir-me a mim. É claro que antes as coisas não funcionavam assim, o meu concerto era vendido como um concerto de fado. Hoje é a Cristina Branco e acabou. As pessoas que ainda associarem o meu nome ao fado estão enganadas.

FM – Ainda há as guitarras…

Cristina Branco – Sim, e essa ligação manter-se-á. A sonoridade da guitarra é muito importante para aquilo que faço.

FM – Há quem diga que a sensibilidade, a emoção com que canta em “Ulisses” é a mesma do fado, mas então…

Cristina Branco – … tudo seria fado! O que não é verdade. Houve mesmo quem dissesse que “A case of you”, da Joni Mitchell, era “fado urbano”!…

Cristina Branco – Chegámos, pois, à Joni Mitchell. Aqui o passo foi mesmo arriscado…

Cristina Branco – Tem um percurso semelhante ao meu, a vários níveis. Ela fala da vida como eu a interpreto. E há muitas particularidades na vida dela que se assemelham à minha. Por exemplo, estar sempre à margem da popularidade, ir sempre pelo caminho que acho ser o correcto. Conheço a Joni Mitchell desde pequenina. “A case of you” é uma das canções mais especiais dela. Toda a gente canta o “Both Sides Now” ou o “Black Crow”, mas “A case of you” tem a ver com o caos e a decadência.

FM – Porquê essa preocupação com o caos e a decadência?

Cristina Branco – Porque tenho que compreender, para continuar, para seguir em frente. Enquanto de vive dentro de uma bolha, no meio do caos, consegue-se sobreviver, deixando que as coisas aconteçam. A vida está bem. Mas fazer um disco como este obriga a entrar no caos e a tentar perceber, a tentar resolver algum caos interior. Entro dentro dos autores que canto…

FM – Vitorino, Fausto e José Afonso são três desses autores em que entrou.

Cristina Branco – A letra do Vitorino, de “Navio Triste”, foi escrita de propósito para este disco. “Porque me olhas assim” é uma das baladas de amor do Fausto, aquele seu outro lado, para mim o mais sedutor. É costume olharmos para o Fausto como um cantor de intervenção, com aquele ar muito “José Mário Branco”! Não é nada! É um génio que gosta de viver naquele caos, com um lado muito bonito.
O José Afonso é uma paixão. Quando há aqueles concertos de homenagem, onde estão presentes os meus cantores de eleição, vou sempre ouvi-los. As músicas do Zeca têm algo que já não acontece mais e não sei se voltará a acontecer, que é a simplicidade aliada a uma genialidade indescritível. “Redondo vocábulo” é, de novo, e assumidamente, sobre o caos, todas as imagens que passam por dentro cada vez que nos encontramos num momento de desespero.

FM – Depois há Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís Gordo, Júlio Pomar, Mourão-Ferreira…

Cristina Branco – O Vasco Graça-Moura também escreveu de propósito o “Cristal”~para “Ulisses”, bem como José Luís Gordo, com o “Sete pedaços de vento”. Mourão-Ferreira é incontornável, tem que aparecer sempre. Aquilo que tem de simples, tem de genial, tudo o que está por detrás das palavras… Vou sempre descobrindo coisas novas. É o meu Ary dos Santos! O “Circe”, do Júlio Pomar, foi ele que me pediu para cantar uma coisa dele, na festa de lançamento de um livro, com a música feita em tempo “record”. O tema é o amor mais sensual, como é o de “Sensus”.

FM – E há “Gaivota”, o único fado de “Ulisses”…

Cristina Branco – Muito antes de me oferecer um disco da Amália, o meu avô, que gostava muito de ler e de música, mostrou-me esse poema e leu-mo. Quando o ouvi pela primeira vez cantado, já o meu avô tinha desaparecido, foi “chocante” sentir a ligação entre a música e as palavras como me tinham sido lidas.

FM – Entre todas estas viagens, há alguma direcção que se sobreponhas às outras?

Cristina Branco – É o meu disco mais pessoal, o disco das minhas vontades. Ao contrário dos outros, este não é inocente. Por muito confuso que seja, por mais confusão que cause às pessoas, sobretudo as que vão escrever sobre ele (risos), é mesmo assim, a minha desconcertação interior. Não sei se todos os poemas convergem para o mesmo centro ou se divergem para sentidos diferentes.

FM – É o primeiro disco seu editado no formato Super Áudio CD. Teve alguma influência nesta matéria?

Cristina Branco – Sim, apeteceu-me que as coisas soassem todas grandes. Som de filme. E as fotografias da capa pertencem todas à sessão de “Sensus”. Também me recusei a fazer fotografias. Convivo muito mal com a minha imagem. Odeio fazer televisão, tirar fotografias. Não gosto de me ver. E depois de ter o filho, estava zangada, não me apetecia fazer nada. Ainda pensei em pedir ao Júlio Pomar para me fazer uma capa, até porque uma parte da obra dele é dedicada ao Ulisses e às sereias, mas depois ambos concluímos que não era por ali, o formato é muito pequeno, não iria revelar nada da sua obra nem sobre mim.

FM – O nascimento do seu filho foi importante na génese de “Ulisses”?

Cristina Branco – Sim, enquanto nómada que sou, não há um sítio geográfico que eu defina como minha casa. A minha Ítaca é, definitivamente, o Martim, o meu filho.

Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

25.03.2005
Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

LINK (“Sensus”)

Chegou a causar polémica a questão de se saber se Cristina Branco é fadista, cantora de fado ou nem uma coisa nem outra mas simplesmente uma cantora que também gosta de cantar fados. O imbróglio iniciou-se com os primeiros discos, como “Post-Scriptum”, quando Cristina tinha sede exclusiva da sua carreira na Holanda. Era então uma “fadista” exilada que no seu próprio país era encarada com certa estranheza.
Os últimos trabalhos, porém, baralharam a questão. “Corpo Iluminado” e, sobretudo, “Sensus”, inspirado na poesia erótica, mostravam já uma voz e uma sensibilidade adultas que de modo algum se confinavam ao universo do fado. “Ulisses”, o novo álbum, que apresenta amanhã no S. Luiz, em Lisboa (esta semana, ainda, quinta-feira em Aveiro), consuma a ruptura. Apenas um fado, “gaivota”. Todo o restante alinhamento respeita um outro roteiro de referências que passam pela música popular urbana. Em “Ulisses” Cristina Branco recusa terminantemente o epíteto de “fadista”. Não é um álbum de fados nem de fado mas um alinhamento, cuja lógica secreta apenas a sua intérprete detém, que inclui as assinaturas de Fausto, Vitorino, José Afonso e… Joni Mitchell. Custódio Castelo, como é hábito, completa musicalmente a maior parte do disco, com a sua guitarra portuguesa e uma inspiração que vai buscar inspiração ao fado, a Paredes, à música árabe e a outras tradições algumas delas existentes apenas dentro da sua cabeça. Cristina Branco dá voz e alento a visões poéticas construídas com as palavras de Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís gordo, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira e Paul Éluard.
Os velhos do Restelo ficam com os cabelos em pé, perante tanta e tamanha diversidade. A esses Cristina Branco faz ouvidos de mercador, prosseguindo um caminho que ela própria não sabe onde desembocará mas que forçosamente será da sua inteira e exclusiva responsabilidade. “Ulisses” é o disco das “vontades” e dos “desejos” da cantora, quase mimando os caprichos da mulher grávida, situação que viveu de facto e foi determinante na economia emotiva de “Ulisses”. “Ulisses” é o filho de uma cantora que não quer ver barreiras na linha de horizonte mas cujos pontos de exclamação são, ao mesmo tempo, pontos de interrogação. São vários os sentidos. Os sentidos que sentem, os sentidos que são setas, os sentidos que são dor. Os sentidos que também são línguas. Além do português, o sotaque brasileiro, o castelhano, o francês (na “Liberté” de Paul Éluard) e o inglês (em “A Case of You” de Joni Mitchell) são os idiomas usados em “Ulisses”, como ferramentas de um trabalho de exploração e descoberta. Poderiam parecer sinais de inquietação (e também são…) mas, mais do que sinais, são a carne e o espírito de canções provenientes de muitos mundos que Cristina Branco quer experimentar e transforma em verbos conjugados na primeira pessoa. Experiências alheias que se tornam suas. E no palco, a experiência amor e mais arriscada: a recusa de máscaras e a exposição nua no quadro da sua própria interioridade. Cristina Branco, por mais longe que a sua personalidade vá em busca de novas vivências, é sempre Cristina Branco. A exploradora. Que às vezes, quando o seu coração passa por lá, até canta o fado.

Cristina Branco
Sábado | 26
Lisboa | Teatro Municipal de S. Luiz
R. Antº Maria Cardoso, 38-58. Às 21h00. Tel.: 213257650. Bilhetes: €19,5 a €25,5. Na sala principal.
Quinta | 3
Aveiro | Teatro Aveirense
Pç. República. Às 21h30. Tel.: 234400920. Bilhetes: €17,5 (plateia); €15 (balcão)

Amélia Muge Responde “Taco A Taco” A Recusa De Três Anos – Entrevista –

11.09.1998
Amélia Muge Responde “Taco A Taco” A Recusa De Três Anos
Quatro Pistas Para Uma Identidade
“Taco a Taco2 é o terceiro álbum de originais de Amélia Muge. Editado com três anos de atraso, porque antes não foi considerado “suficientemente interessante para o mercado”, é nele que a cantora se descobre e desdobra vocalmente através dos sintetizadores para chegar a uma nova forma de irreverência.

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“Taco a Taco” permitiu a Amélia Muge avançar mais uma etapa no seu percurso de autodescoberta e de pesquisa de novas formas de intervenção estética. Mais do que politicamente correcto, o álbum deixa o ouvinte completa liberdade de interpretação. Um jogo de escondidas com a modernidade que passa pela interacção com a tecnologia para chegar à descoberta d euma nova identidade musical.

FM – Que diferenças existem, ao nível da lógica e dos processos de criação, entre “Taco a Taco” e os seus dois álbuns anteriores, “Múgica” e “Todos os Dias”?

AMÉLIA MUGE – À medida que fui avançando para este trabalho – e talvez muito marcada pela morte de uma pessoa a quem eu admirava especialmente, o Mário Viegas, em particular por um dos seus últimos trabalhos, “Europa Não, Portugal Nunca” – questionei-me sobre o que se poderá entender como politicamente correcto no sentido de uma maior liberdade musical. Todos os modelos, por muito bons que sejam, com o tempo acabam por caducar. Não na sua natureza, mas na sua eficácia.

FM – Refere-se à transição de um modelo essencialmente ético para um modelo estético?

AMÉLIA MUGE – Se calhar a passagem de uma ética para uma outra ética diferente… Ainda tomando como referência, ao nível da intervenção, o Mário Viegas, ele tinha uma lucidez e uma capacidade de crítica social que, inclusive, passava pela música. Era capaz de pegar em coisas do Zeca e dizê-las. Havia nele uma tentativa, quase tágica, desesperada, de voltar um pouco ao contrário esses valores, no sentido de ir ao encontro da necessidade das pessoas de se sentirem mais leves em relação ao seu passado e ao seu futuro. Era aí que entrava a lucidez, a inteligência e o humor, uma arma perigosa.

FM – Como definiria a linha estética de “Taco a Taco”?

AMÉLIA MUGE – O principal foram cada momento, cada tema e o que se passa dentro de cada tema. Como se, de repente, aquilo que nos preocupa no nosso dia-a-dia, coisas mosntruosas, como a poluição, deixassem de ser determinantes para eu trabalhar melhor. No fundo, tentei encontrar respostas novas no spróprios materiais de criação. Como se tivesse havido um corte com as coisas a que eu estava mais apegada para me voltar sobre aquilo que, de facto, estava a fazer. Senti-me completamente liberta. Esse mundo antigo de referências, sociais e políticas, era como se não estivesse presente.

Pós- Moderna?

FM – Comparando com os discos anteriores, cresceu a importância dos arranjos e da produção?

AMÉLIA MUGE – Digamos que houve mais espaço e mais tempo. Normalmente, a pressão para se fazer as coisas é enorme. Enquanto se decide como se faz ou não se faz, anda-se ali muito tempo sem perceber., até os próprios recursos que se tem à disposição. Neste caso, como todo o álbum foi gravado antes de haver uma editora, sobrou um espaço menos condicionante.

FM – Nota-se que o estúdio esteve mais presente do que é habitual, nos tratamentos electrónicos da voz, por exemplo…

AMÉLIA MUGE – Passei daquela fase, quase elementar, de gravar em casa, directamente, a voz, um piano ou um adufe, para um estádio onde, de repente, passei do gravador normal para um gravador de quatro pistas. [N.R.: Na verdade, de oito pistas, como explicou António José Martins, produtor de “Taco a Taco”, que acompanhou de perto as gravações do disco, ainda nesta fase doméstica.] Comecei a ter vontade de perceber o que era esse mundo. A grande questão não é a do som sintetizado em si – e este disco começou por ser gravado só com sons sintetizados -, mas a forma como esse som actua sobre nós. Que novas estéticas é que essa tecnologia e esse novo som determinam. Cheguei a uma forma final em que essa tecnologia age como uma espécie de interferência no som acústico.

FM – Ess questão, da tecnologia electrónica e das suas aplicações, introduz um outro tipo de discussão mais vasta. Até que ponto é que essa interiorização, digamos assim, da tecnologia, determinou uma inflexão profunda na sua música?

AMÉLIA MUGE – Já em “Múgica” essa questão me espantava. Será que havia dois caminhos paralelos, eu a puxar para um lado e o José Martins e o mundo dele, dos instrumentos electrónicos, a fugir para o outro? Quanto mais ouvia músicos como o Hector Zazou ou a Laurie Anderson fui percebendo que mesmo algumas das tecnologias que eles usam serão no futuro artefactos tradicionais velhíssimos. Descobri neste novo disco o papel que as novas tecnologias poderão ter nas músicas tradicionais ou simplesmente acústicas. Para mim representou a descoberta de mim própria como intérprete. Enquanto antes compunha umas linhas melódicas mais ou menos adaptadas ao sentido do texto, um trabalho, digamos, de registo do real, agora como que descobri em mim outras vozes, a partir da análise das vozes sintetizadas. Um efeito de microscópio, de penetrar mais fundo. Claro que se o Bobby McFerrin ou a Laurie Anderson me estivessem a ouvir fartavam-se de rir, porque eles já descobriram isto há muito tempo. Eu não. E não cheguei aqui por um desejo de ser mais “moderna”, mas pela entrada progressiva, no meu universo sonoro, que sempre foi muito acústico, do trabalho do José Martins.

FM – Uma Amélia Muge pós-moderna?

AMÉLIA MUGE – Sempre fui muito reticente em relação a esses conceitos. Nunca houve, como agora, uma modernidade tão igual. A tendência é sermos modernos todos da mesma maneira. A ideia de modernidade manifestou-se sempre através dos símbolos e da forma como estes estabilizam. Dou-lhe um exemplo. O tema de abertura, “Ai, flores”. Fiz este tema durante uma campanha política. Aquela coisa de levantar o braço porque estamos nesta estação mas se calhar na estação seguinte vão ser outros a levantá-lo. O tema tinha um bocado essa carga política. E de repente, quando estava a ordenar o alinhamento de disco, reparei que alguns dos primeiros versos dos nossos cancioneiros são “as flores do verde pinho dizei-me novas do meu amigo”? Surgiu uma segunda leitura do tema a partir de uma interacção, um “taco-ataco”, entre o que tinha escrito e essa presença longínqua, que anunciava as novidades, das cantigas de amigo. As flores adquiriram um valor simbólico. É toda uma simbologia que também está presente na simagens da capa, que juntam desde sinais da informática a hieroglifos egípcios. Descobri neste disco a força que têm os próprios significados, independentemente das intenções prévias da escrita.

FM – Se José Afonso tivesse sido mulher, poderia perfeitamente ter assinado interpretações como as de “Inda bem que há esquimós”. É outra das facetas interessantes de “Taco a Taco”, uma corresponde^ncia com o lado mais experimentalmente daquele compositor…

AMÉLIA MUGE – Concretamente, nesse tema, trata-se de um poema do António Grabato Dias, que sempre teve pena que o Zeca não musicasse: “Isto era mesmo para o Zeca!” “Inda bem que há esquimós” está de facto muito afonsino, talvez porque o sentisse quase como uma encomenda… Cantei-o imaginando o Zeca a cantá-lo. Depois, lá está, este é um disco onde o lado mais irreverente dos artistas de quem gosto veio mais ao de cima. Existe uma falsa irreverência nos dias de hoje. Parece que basta haver meia dúzia de palavras de ordem e meia dúzia de gritos no “proscenium” e já somos todos revolucionários. Mas no que continuamos a fazer todos os dias continuamos a estar prisioneiros das convenções. Na própria liberdade de criação há limitações, para não falar de proibições… “Taco a Taco” só não saiu há três anos porque não o acharam suficientemente interessante para o mercado…

FM – Para além dos espectáculos com Jorge Palma e o grupo búlgaro Pirin Folk Ensemble, colaboração da qual sairá em breve um registo em disco, em que ponto se encontra outro dos seus projectos, um álbum baseado em romances tradicionais portugueses?

AMÉLIA MUGE – O projecto “Romances” é uma encomenda da Comissão dos Descobrimentos, onde, além de mim, colaboram Sérgio Godinho, João Afonso, os Vai de Roda, Brigada Vítor Jara e Gaiteiros de Lisboa. Eu participo com dois temas, acompanhada por músicos dos Gaiteiros, aquele romance da donzela guerreira e um romance da D. Olívia, recolhido na Madeira, para o qual não se conhece, sequer, qualquer versão musicada, com arranjo do José Manuel David, dos Gaiteiros.