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Maria Ana Bobone Lança “Senhora Da Lapa” De Noite, Na Igreja – Entrevista –

29.01.1999
Maria Ana Bobone Lança “Senhora Da Lapa”
De Noite, Na Igreja

Em “Luz Destino”, Maria Ana Bobone fazia flutuar a sua voz entre o cravo e as entoações barrocas de João Paulo Esteves da Silva e a guitarra portuguesa de Ricardo Rocha, na nave de uma igreja abandonada. Os três voltaram ao mesmo local, trocaram de posições e o resultado é “Senhora da Lapa”, verdadeiramente o álbum de estreia da cantora. Clássico, ideal para meditar, assombrado pelos ecos da noite.

Maria Ana Bobone vem do fado, sente como enraizadamente portuguesa a música que canta e não esconde o desejo de, um dia, gravar um disco inteiro com reportório clássico. “Senhora da Lapa”, editado com o selo M.A. (uma espécie de variante, mais romântica, da ECM), leva mais longe o gosto pelo intimismo e pela religiosidade que já despontava em “Luz Destino”. A par da voz, brilham as palavras de Fernando Pessoa e de Sebastião da Gama. O PÚBLICO conversou com a cantora.

FM – Em “Senhora da Lapa” os intervenientes são os mesmos, mas a hierarquia mudou…
MARIA ANA BOBONE – Resolvemos, desta vez, fazer um disco meu. Era suposto ser um disco de “lullabies” [canções de embalar], mas acabaram por ir surgindo outras músicas diferentes. Tudo isto porque o Tod [director da editora] achava que a minha voz era a ideal para cantar esse tipo de canções. Podia ter alguma graça fazer um disco desses… Mesmo assim há algumas semelhanças em canções como “Jesus embala o Menino” e “Luar”, que parece uma música infantil e depois se complica, à maneira do seu autor, o João Paulo…
FM – Está a cantar cada vez mais próximo de um certo registo clássico…
MARIA ANA BOBONE – Se tivesse de catalogar o meu estilo era, sem dúvida, mais para o clássico, embora entre aspas, entre muitas aspas…
FM – O fado ficou definitivamente para trás?
MARIA ANA BOBONE – Acho que não. A música deste disco é muito portuguesa, tem algumas raízes no fado. Mas é verdade que quis sempre explorar outros caminhos. As canções deste disco não são, de todo, fados, mas sinto nelas essa portugalidade. Deve lá haver qualquer coisa na estrutura…
FM – A quem se deve a escolha dos poemas, entre os quais sobressaiem dois de Sebastião da Gama, incluindo as duas versões do título-tema?
MARIA ANA BOBONE – Andámos, o João Paulo e eu, a vasculhar em alguma material que ele já tinha feito. “Senhora da Lapa” foi feita de propósito para o disco, assim como o outro poema de Sebastião da Gama, usado em “ABC”.
FM – Sentiu particular prazer em cantar algum dos poetas que aparecem no disco?
MARIA ANA BOBONE – Talvez o Fernando Pessoa, em “Flux”, bem como a Maria Pimentel Montenegro, em “Dos teus olhos”.
FM – Como se processou a transição de uma posição secundária, em “Luz Destino”, para o protagonismo de “Senhora da Lapa”?
MARIA ANA BOBONE – O outro disco não era um disco meu! Eles já tinham feito o disco todo e chamaram-me à última hora para cantar. Fui apenas mais um instrumento. Neste disco, pelo contrário, foi tudo moldado a mim. Eles compuseram e tocaram para mim. Daí as tais canções de embalar que eles também achavam muito paropriadas para a minha voz.
FM – Quer dizer que, pelo menos nesta primeira fase da sua carreira, ainda não detém o controle sobre a orientação estética a seguir?
MARIA ANA BOBONE – Não tenho muito, não! Se fosse eu a escolher exactamente o que queria, seria eu sozinha a fazer o disco! Não tenho controle no sentido em que respeito a personalidade e opções dos outros músicos. É um bocado: ‘Olhem, eu sou isto, o que é que queres, o braço, a perna, o joelho ou o pé?’ Posso perfeitamente não escolher o pé!… Quer dizer que não canto tudo o que me puseram à frente. Aliás havia, à partida, algumas canções com que não me identificava. Daí que o disco tivesse demorado algum tempo a sair [um ano e meio]. Porque quis acrescentar-lhe mais duas ou três músicas mais mexidas: “Hortelã-mourisca”, “Ternura” e “Espelho quebrado”, que é um fado. Achava o alinhamento original todo muito igual, lento, embora, claro, este não seja um disco para dançar, mas, pelo contra´rio, um convite à reflexão, à interiorização.
FM – A presença, no disco, de um saxofonista, Peter Epstein, não deixa de fazer lembrar outra colaboração, muito antiga, entre uma fadista e um saxofonista: Amália Rodrigues e Don Byas…
MARIA ANA BOBONE – É uma mera coincidência. O saxofonista aparece porque já tinha gravado com o João Paulo num disco dele, instrumental, chamado “Mergulho”. O Tod Garfinkle, da editora, resolveu misturar no meu disco o saxofone, até porque o Peter já manifestara antes o seu apreço pela minha música. Adaptou-se lindamente ao “feeling” do disco.
FM – Prefere ouvir-se a si própria a cantar fado, acompanhada por guitarras e violas, ou neste tipo de reportório, acompanhada por piano?
MARIA ANA BOBONE – Ouço-me a mim própria de uma maneira que só eu conheço. Ninguém mais sabe. Sinto-me bem das duas maneiras. Mas, muito mais do que uma casa de fados, gosto do ambiente de uma igeja, como aquela onde gravei este disco, onde as condições acústicas são fabulosas.
FM – Em que altura e em que condições é que foi gravado o álbum?
MARIA ANA BOBONE – Foi espectacular! Já com o “Luz Destino” senti a mesma sensação, de estar numa igreja grande e vazia, à noite, à uma da manhã, com tudo fechado, silêncio lá fora, só com umas luzinhas acesas. Eu cantava mesmo de frente para o altar, com o gravador em cima do altar. É uma sensação única, poder cantar à vontade, soltar tudo! Fabulos!
FM – Ainda canta em casas de fado?
MARIA ANA BOBONE – Nunca cantei, por sistema, em casas de fado. Tenho algumas saudades, mas a verdade é que o meu actual estilo de vida – tenho aulas de canto de manhã e dou aulas de música, à tarde, num colégio particular – não mo permite. Com o tempo que me sobra, trato da minha carreira.
FM – Emancipou-se, então, em definitivo, do grupo de fadistas de que fazia parte com outros jovens fadistas, o Alma Nova?
MARIA ANA BOBONE – Isso já é, completamente, história. Claro que, se o João Braga me convidar para um espectáculo, eu vou com todo o gosto e alinho. Eu já gravei, já fiz, já andei mais do que os outros, mas há sempre uma relação.
FM – O contrato com a M.A. prevê a edição de mais discos?
MARIA ANA BOBONE – Vou dizer uma coisa fantástica: não existe nenhum contrato! [Risos.] É tudo feito na base da boa-fé. O Tod gosta da kinha música, a editora paga-nos, tem sido tudo impecável. Nunca vi isto em mais lado nenhum. E não há exclusividade. A qualquer momento posso decidir outra coisa qualquer. É um bom recado para as editoras. Acho que é a maneir amais honesta de trabalhar. Se não estiver satisfeita, ou a editora não estiver satisfeita, acabamos a relação. O que obriga ambas as partes e esforçarem-se para se aproximarem.
FM – Já pensou alguma vez em gravar um disco só com reportório clássico?
MARIA ANA BOBONE – Sim, já me passou pela cabeça. Mas ainda não estou preparada, nem conheço reportório suficiente. Era mais por achar graça, não como estilo de vida. Tenho uma personalidade um bocado instável. Gosto de fazer várias coisas, de não me prender a uma só.

Cristina Branco – Ulisses

21.01.2005
As Viagens de Cristina Branco
Cristina Branco
Ulisses
SACD ed. e distri. Universal
8/10

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Pronto, ela decidiu, está decidido. Para Cristina Branco o fado já faz parte do passado. Ela já tinha, aliás, avisado antes. Que não era uma fadista, mas uma cantora. “Tout court”. “Ulisses” sela a transição, já encetada no anterior “Sensus”, do fado para a canção popular urbana. Não vale a pena sequer congeminar-se, ao nível do substrato emocional, esta é ainda uma música marcada pelo fado. Não é. A emoção que atravessa “Ulisses”, um álbum de viagens, não é exclusiva do fado mas a emoção que desde o início de uma carreira milimetricamente talhada, Cristina e os eu companheiro Custódio Castelo foram aos poucos e metodicamente abrindo e burilando. “Ulisses” confirma a excelência de uma voz e um ecletismo de estilo que já se adivinhavam. Num panorama de vozes femininas que já albergava nomes como o de Amélia Muge, Filipa Pais e Né Ladeiras veio agora juntar-se o de Cristina Branco, com uma música cujas raízes mergulham na tradição, seja esta tradição o da música folclórica, de cantautores como José Afonso, Vitorino, Fausto e Joni Mitchell, ou da veia modernizadora das composições originais assinadas por Castelo. Em qualquer dos casos a versatilidade e plasticidade vocal de Cristina Branco são notáveis, a par da riqueza do timbre, acentuada ainda mais nesta edição em super áudio CD.
Depois de ensaiar de início com o sotaque brasileiro e com a língua castelhana, a cantora atinge um “Redondo vocábulo” o primeiro pico de “Ulisses”, naquela que será uma das melhores versões de sempre deste tema de José Afonso. Logo a seguir, a operação de risco que é pegar numa canção de Joni Mitchell, revela-se totalmente conseguida. Cada canção da compositora canadiana é, por si só, uma viagem e “A Case of You”, do álbum “Blue”, não é excepção. Cristina Branco entra de coração aberto no coração deste novo universo. “Navio Triste”, de Vitorino, e “Porque me olhas assim”, de Fausto são outras interpretações sem falhas e “Choro (ai barco que me levasse”) exala o discreto odor da nostalgia das gerações mais antigas da música popular portuguesa. Custódio Castelo assegura até ao final que “Ulisses” continue a viajar sobre as nuvens, seja sobre os versos de Paul Éluard (com a língua francesa a exigir uma abordagem mais física e rasgada que Cristina por enquanto não lhe consegue arrancar), de David Mourão-Ferreira, em “E por vezes”, uma das mais sentidas vocalizações de “Ulisses”, ou num “Cristal” em registo “neo folk” (Pentangle à portuguesa?) onde, uma vez mais, se revela fundamental o piano de Ricardo Dias. Sobram “Gaivota”, único momento de fado num álbum que perscruta mais do que as vielas e becos da tradição, e “Fundos”, a inspirar algumas dúvidas quanto ao uso de uma batida “drum ‘n’ bass”. Tal não seria necessário para assegurar a modernidade de “Ulisses”.

Amália Rodrigues – Segredo

28.11.1997
Amália Rodrigues
Segredo (9)
Ed. e distri. EMI – VC

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“Segredo” é uma colecção de 12 temas inéditos ou “versões nunca publicadas” que Amália gravou no seu período áureo, entre 1965 e 1975, nos estúdios de Paço de Arcos da Valentim de Carvalho. sessões que encontraram a fadista no seu melhor, perfeitamente descontraída e envolta numa atmosfera de cumplicidade com os amigos que nessas ocasiões a acompanhavam, enfrentando os microfones após conversas e refeições em comum. Versões menores é coisa que não existe em Amália, sabendo-se que para elea era sempre a primeira vez, nunca cantando o mesmo fado da mesma maneira. “Talvez eu não seja criadora, mas quando canto estou a inventar”, dizia ela então. Encare-se, pois, este disco como vem descrito no detalhado texto de apresentação, uma “antologia transversal” da fadista. Entre os 12 temas encontram-se sete fados de Alain Oulman, incluindo os inéditos “medo”, “Amor em casa”, “Verde pino, verde mastro”, “É da torre mais alta” e “Procura”, e “As mãos que trago” e “Abril”, antes não publicados. Importantes são ainda “Primavera”, com poema de David Mourão-Ferreira, “não é desgraça ser pobre”, um fado menor que Amália definia como sendo “o pai e a mãe do fado(…) destino mau, destino das pessoas quando é triste” e “Cansaço”, na versão de Luís de Macedo e Joaquim Campos. Os restantes dois temas de “Segredo” são “Longe daqui”, de Arlindo de Carvalho, balada inspirada no folclore da Beira Baixa, e “Minha boca não se atreve”, de Fontes Rocha. Em todos eles, em maior ou menor grau, está presente a alma do fado, que é como quem diz, a alma de Amália. Escutá-la é escutar a voz de um rio de múltiplos cursos, mas todos eles desaguando em Portugal. O Portugal do “medo”, do “longe” e do “amor” que se destacam nas páginas interiores deste “Segredo”.