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Front 242 – “Tiranny For You”

Pop Rock

6 FEVEREIRO 1991

FRONT 242
Tyranny for you

LP e CD, Play it Again Sam, distri. Contraverso

front242

Em sintonia com os tempos que correm, existem pressupostos ideológicos ambíguos, subjacentes à produção artística deste quarteto belga, em actividade desde 1981. Para D. Bressanutti, P. Codneyz, J. L. de Meyer e Richard J. K. o rótulo “electronic body music” serve de pretexto para desenvolver todo um discurso aparentemente militarista e totalitário. Ao longo dos cinco álbuns que contam no activo, a estratégia tem-se mantido praticamente inalterável: utilização sistemática de ritmos electrónicos maquinais (parece que meia Europa aprendeu, melhor ou pior, a lição dos Kraftwerk…), atravessados por vozes e ruídos samplados, sobre os quais o vocalista humano vai enumerando todas as misérias do mundo contemporâneo. Dá para dançar.
Dos temas preferidos dos rapazes consta o dos jogos de poder, relação senhor-escravo, do tipo chicotes e cabedal negro. Conseguiram minimamente perturbar-nos em “Official Version”, até à data o seu melhor trabalho.
Depois limitaram-se a repetir a fórmula, procurando novas soluções que teimam em não aparecer. Neste novo registo limitam-se a fabricar ritmos sobre ritmos e a berrar mais umas tantas palavras de ordem. O problema dos jogos de poder está em que a vítima acaba inevitavelmente por ser o suposto senhor. Sadomasoquistas ou militaristas, os Front 242, de momento, também lambem as feridas e marcam passo. **

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CTI w/Guests Core – A Conspiracy International Project

IBÉRICO

INVERNO 1988
DISCOS

CTI w/Guests
Core – A Conspiracy International Project
PLAY IT AGAIN SAM, SAM-88


cti

Este disco, ao contrário do que possa parecer a que manusear distraidamente a capa, não é uma colectânea. Trata-se antes de um projecto dos CTI, duo constituído por Chris Cárter e Cosey Fanni-Tutti, dois ex-THROBBING GRISTLE, para o qual foram convidados a participar, em cada faixa, músicos ou grupos seus amigos, tais como os COIL, MONTE CAZAZZA, LUSTMORD ou BOYD RICE dos NON.
Ideologicamente falando, e apoiando-nos nos textos explicativos do folheto incluso na capa, é mais um cruzamento de Nietzsche e a sua teoria super-homem com o marquês de Sade, com os pózinhos de magia negra hi-tech q.b., habituais neste tipo de música.
Musicalmente falando, este é um álbum bastante diversificado, oscilando entre o muito bom (COIL, LUSTMORD), o mais vulgar neste género de música, isto é, samplers, percussões electrónicas e vozes ameaçadoras traficadas (MONTE CAZAZZA), e o sublime, como é o caso do tema “Unmasked” que surpreendentemente inclui uma discreta mas brilhante interpretação vocal de Robert Wyatt.
Trata-se, em suma, de mais uma tentativa de criação de um novo tipo de música ritual, apoiada na tecnologia electrónica de ponta que pretende simultânea e ambiguamente destruir os velhos valores, substituindo-os por outros de sinal contrário. Neste aspecto são sintomáticos os dois temas já referidos, contanto com a participação dos COIL (“Feeder”) e de LUSTMORD (“Over Abyss”: uma religiosidade demoníaca, ambientes sonoros ao mesmo tempo belos e terríveis de um inferno tornado atraente, para o qual se voltam muitos que habitam outros infernos, de dor e desespero. Baseando-nos nos mesmos COIL, num seu outro disco, poderemos perguntar: “Uma porta de saída ou de entrada?”.
Este não é, no entanto, um projecto dos mais radicais (como o têm sido, por exemplo, todos os álbuns de Jim Thirwell, vulgo Clint Ruin ou Foetus). Não é o hard-core 1º escalão que se poderia esperar, mas um soft-core de qualidade; para os apreciadores do género, é claro!…

torrent a partir daqui



Bizarra Locomotiva – “Homem Máquina”

18.04.2003

Bizarra Locomotiva
Homem Máquina
Metrónomo, distri. Zona Música
7/10

LINK

Já que anda toda a gente a escarafunchar nos anos 80, porque não deitar o dente à boa e massacrante música industrial e à “electronic body music” que naquela década procurou revolucionar as rotações cardíacas e o ritmo das discotecas, através de agentes como os Front 242, Skinny Puppy, Controlled Bleeding ou Front Line Assembly? Verdade seja dita que a locomotiva conduzida por Armando Teixeira nunca circulou longe destes apeadeiros e que “Homem Máquina” não faz mais do que actualizar uma direcção há muito encetada pelo grupo. Sobre temáticas como a simbiose homem-máquina (divergente do conceito de “man machine” dos Kraftwerk…), da mitificação demoníaca da heroína ou da relação de poder entre o escravo e o amo, “Home Máquina” é pura maquinaria em acção de combate onde as noções de ludicidade, guerrilha mental e sexo se confundem em batidas do III Reich. Umas vezes assimilando a vertente “agit prop” dos Mão Morta ou, como em “O meu anjo”, a sugerir que tipo de pop faria Abrunhosa se estivesse “agarrado” ao pó. “Um homem é um homem, uma máquina é uma máquina”, repete Armando Gama, obsessivamente, nas duas partes de “Homem Máquina”. Frase que, repetida de forma maquinal, afirma exactamente o contrário do que enuncia. Bizarra? Os êmbolos da locomotiva trituram a carne e a mente na sua travessia pelo túnel.