Arquivo da Categoria: Críticas 2003

David S. Ware Quartet – “Freedom Suite” + Daniel Carter & Reuben Radding – “Luminescence” + Alexander Von Slippenbach – “The Living Music” + Fred Van Hove – “Complete Vogel Recordings” + Maneri Ensemble – “Going To Church” + Manfred Schoof – “European Echoes” + Brötzmann, Van Hove, Bennink – “Balls” + Sun Ra & His Arkestra – “Music From Tomorrow’s World”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 10 Maio 2003

A liberdade que David S. Ware recria hoje por via da obra de Sonny Rollins é a mesma liberdade que 30 anos antes se espraiava pelas formações de “free music” europeias, agora recuperadas pela Unheard Music Series.


Música livre, música viva

DAVID S. WARE QUARTET
Freedom Suite
Aum Fidelity
8|10

DANIEL CARTER & REUBEN RADDING
Luminescence
Aum Fidelity
8|10

ALEXANDER VON SLIPPENBACH
The Living Music
Unheard Music Series
9|10

FRED VAN HOVE
Complete Vogel Recordings
2xCD Unheard Music Series
8|10

MANERI ENSEMBLE
Going to Church
Aum Fidelity
7|10

MANFRED SCHOOF
European Echoes
Unheard Music Series
9|10

BRÖTZMANN, VAN HOVE, BENNINK
Balls
Unheard Music Series
8|10

SUN RA & HIS ARKESTRA
Music from Tomorrow’s World
Unheard Music Series
7|10

Todos distri. Ananana



David S. Ware lança-se na “Freedom Suite” de Sonny Rollins, repetindo o que Branford Marsalis já fizera, ao incluir a mesma peça em “Footsteps of Our Fathers”, à qual, juntara, aliás, o “Love Supreme” de Coltrane. Rollins e Coltrane, dois músicos para quem os conceitos de composição e improvisação se confundiam na plasticidade de um discurso sempre renovado. Ware, provavelmente o mais coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “rollinsoniana” (ele que já recriara, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional a uma obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”. Sem atingir os paroxismos de espiritualidade de “Godspellized”, esta “Freedom Suite” confirma, ainda assim, Ware como um dos expoentes do jazz contemporâneo.
Matthew Shipp é um dos participantes em “Going to Church”, do Maneri Ensemble, do pai, Joe (clarinete, saxofones alto e tenor) e do filho, Mat (viola de arco), numa formação que integra ainda Roy Campbell (trompete), Barre Phillips (baixo) e Randy Peterson (bateria). Álbum de devoção (à liberdade de improvisação), é composto por três únicos temas, dos quais se destaca “Blood and body”, 31 minutos de desmantelamento harmónico e melódico pautado pelos diálogos entre pai e filho, sob a supervisão do piano de Shipp e a intromissão de “drones”, gritos, entropia rítmica e sessões de catarse.
Na mesma editora, uma estimulante surpresa: “Luminescence”, de Daniel Carter (saxofone alto) e Reuben Radding (contrabaixo). Forçado pelas circunstâncias a limitar-se ao sax alto, Daniel Carter (o saxofonista, parceiro de projetos de “neo free” como Other Dimensions in Music Test, toca uma parafernália de sopros, mas o atentado de 11 de Setembro impediu que os transportasse a todos nos porões do avião…) concentra-se na exploração conjunta com o contrabaixo telúrico de Radding (amiúde tocado com arco) de microuniversos concentracionários como “Ancestral voyage-mystery suceed” e de um “free” de baixas e íntimas frequências, cruzadas pelo “hard” e pelos “blues” (“Refracted light and grace”, “Vignettes”) com o recurso a uma depuração de meios que, por vezes, lembra Joe McPhee, embora Carter faça questão de manter intactas e “redondas” as suas estruturas, feitas, como se diz no tema de fecho, de “Occurrences, places, entities and the sea”.

Sons da Europa livre
Recuemos ao passado, até ao período de transição dos anos 60 para os 70. Na Europa fervilhava uma música libertária que adaptava o manifesto “free” dos negros americanos às idiossincrasias da música contemporânea, do serialismo e da improvisação sobre moldes “folk”, clássicos, etc. No mais recente pacote de reedições da Unheard Music Series/Atavistic, compiladas pelo escritor, jornalista e músico John Corbett, a partir de arquivos da FMP (Free Music Productions), encontram-se raridades e entidades mutantes do novo jazz que então se produzia longe das margens do “mainstream”, álbuns feéricos, deslumbrantes, desconcertantes ou desopilantes, tão representativos como ignorados, deste intenso período de atividade do jazz europeu.
“European Echoes” é um “monstro” gravado em 1969 por um coletivo de 16 elementos liderados pelo trompetista alemão Manfred Schoof, que aglutinava uma série de pequenos combos onde estavam presentes, entre outros, Enrico Rava, Peter Brötzmann, Gerd Dudek, Evan Parker, Paul Rutherford, Derek Bailey, Fred van Hove, Alexander von Slippenbach, Ireen Schweizer, Peter Kowald, Han Bennink e Pierre Favre, a nata da música improvisada de então. A sessão, aproveitando a convergência musical, mas sobretudo ideológica, que unia todos estes músicos, teve como base uma sessão radiofónica em Bremen. Três pianistas, três baixistas, três trompetistas, três saxofonistas, dois bateristas unidos na criação de um magma explosivo de ideias, o fragor e a excitação do “free” tornado palco de batalha, mas também lugar de exteriorização de uma energia sem limites. Não convém estar no meio quando os pianos de Slippenbach, Van Hove e Schweizer partem a louça e as convenções, nem quando Han Bennink e Pierre Favre juntam forças para fazer deflagrar os seus torpedos e granadas. Seria como ser-se esmagado por placas tectónicas.
No mesmo ano, alguns destes músicos voltariam a reunir-se em “The Living Music”, num grupo mais reduzido, desta feita sob a liderança de Alexander von Slippenbach, estando presentes, além do mentor da Globe Unity Orchestra, Peter Brötzmann, Paul Rutherford, Han Bennink e J. B.Niebergall, participando pela primeira vez Michel Pilz, no clarinete baixo e saxofone barítono. A gravação decorreu sob a égide do engenheiro de som alemão Conny Plank, responsável nos anos 70 por inúmeros álbuns importantes do “krautrock”. E sente-se a sua mão.
Se “European Echoes” é um vulcão em atividade, “The Living Music” é “free music” com assento na eletro-acústica mais sofisticada e segundo a mesma conceção de som “cósmico”, ou espacial, que marca inconfundivelmente toda a produção de Conny Plank (convém esclarecer que, na Alemanha, o “krautrock” rondou de perto, neste período, o jazz. Wolfgang Dauner cortejou a música eletrónica e o rock progressivo, Jaki Liebezeit, baterista dos Can, integrou a Globe Unity Orchestra, Mani Neumeier, baterista dos Guru Guru fez parte de várias formações de “free jazz”…). As percussões e o piano ganham dimensões extra, abrindo novas hipóteses de exploração interna. Vislumbra-se o gozo da revisitação aos primórdios do “free”, em “Into the staggerin”, mas o que de facto permanece como absolutamente atuante e atual é a extrema vitalidade e organicidade desta música, que ousou, mais do que romper a tradição, revolvê-la e introduzir nas suas entranhas novos enxertos e sementes.
Em “Balls” (1970) já só encontramos Peter Brötzmann e o seu tenor embruxado, Fred van Hove, e as suas marionetas de piano, e Han Bennink, fabricante de percussões ilimitadas. Dois temas extra, “Untitled 1” e “2”, foram acrescentados ao alinhamento original do que foi a primeira gravação oficial do trio. Brötzmann é de uma fisicalidade extrema, levando a estética do grito contínuo ao esgotamento e, finalmente, ao silêncio. Fred van Hove dá uma amostra da heterodoxia que pauta o seu discurso pianístico, Bennink inventa ritmos como uma criança que constantemente troca de brinquedo. Quem tem “balls” que apare os golpes desta música lançada como facas aos que a ela se encostam como simples figurantes.
Posto à venda originalmente em edição limitada, “Complete Vogel Recordings” reúne as duas gravações efetuadas pelo pianista belga Fred van Hove entre 1972 e 1974, para o selo Vogel: “Live at the University”, piano solo registado nas universidades de Bruxelas e Antuérpia, e “Een Tweede Vogel”, em duo e em estúdio com o saxofonista tenor Cel Overberghe, mais um 45 rotações raro. A solo, Fred van Hove vai dos delírios mais livres ao “ragtime”, da balada e da marcha funerária ao exibicionismo, ao romantismo traficado e ao teatro burlesco, sem esquecer o ricochete de bolas de pingue-pongue nas cordas do piano. Já os duetos com o saxofonista vão do “free” e do exercício de escalas (num irónico “Bas la police”) até “New Orleans”. Em “Alle eendjes”, Van Hove troca o piano pelo órgão Hammond, enquanto no tema seguinte, introduzido por um excerto
de música concreta, é a vez de
Overberghe trocar, graças ao
“overdubbing”, o saxofone pelo
baixo e pela bateria.
Aproximemo-nos, por fim, do outro mundo, com “Music from Tomorrow’s World”, de Sun Ra e da sua Arkestra, captado ao vivo em 1960 na Wonder Inn de Chicago e, em estúdio, num obscuro The Majestic Hall. Infelizmente, o som ao vivo é pavoroso, o que faz diminuir um pouco o prazer de acompanhar as sessões quase clandestinas realizadas de madrugada pela Arkestra, ao longo de um ano de residência, entre mesas apinhadas e as paredes apertadas de uma taberna. Por lá passaram, como assistentes e participantes, Roland Kirk e Stan Getz (John Coltrane também quis, mas, reza a lenda, o porteiro ou quaisquer outras razões misteriosas não terão permitido a sua entrada…). Lá dentro, o som de uma festa. A Arkestra a tocar uma música primitiva, swing, batuques, cânticos de “music hall”, ritmos e flautas infantis (“Spontaneous simplicity” poderia pertencer a Raymond Scott) e fanfarra (Roscoe Mitchell e Joseph Jarman assistiram igualmente a estas sessões, aprendendo com elas muito do que viriam a pôr em prática nos Art Ensemble of Chicago), aos poucos fazendo coincidir “primitivo” com “ancestral”, levando os sons da selva para o desconhecido ou para a música de salão, nas várias versões de “Majestic”. Música de magos. Em mangas de camisa.

The Bad Plus – “These Are The Vistas” + Mark O’Connors Hot Swing Trio – “In Full Swing” + Judy Niemark – “About Time” + Clare Teal – “Orsino’s Songs” + Alexi Tuomarila Quartet – “02” + Christian McBride – “Vertical Vision” + Kenny Garrett – “Standard Of Language” + Marty Ehrlich – “The Long View”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 3 Maio 2003

O ponto de vista determina a visão da música. Há jazz para se ouvir de pantufas, jazz para não se pensar em nada e jazz que obriga a pensar. Descubra o leitor o lugar onde se sente mais confortável.


Vistas, vision, view

THE BAD PLUS
These are the Vistas
Columbia, distri. Sony Music
7|10

Os músicos não têm aspeto de músicos de jazz, conforme os cânones vigentes na “Enciclopédia dos Mitos do Jazz” (ed. Parker & Son, 1990), mais parecendo uma trupe de “grunge”, e “These are the Vistas” também não será um disco de jazz convencional. Os Bad Plus não são, aliás, normais. Reid Anderson (baixo), Ethan Iverson (bateria) e Dave King (piano) são descritos como um “power piano trio” de arrasar e é de facto sobre a torrente energética deste instrumento que o poder se instala. Encaixadas entre os vários originais do grupo, chamam a atenção as versões de “Smells like teen spirit”, dos Nirvana, “Flim”, de Aphex Twin, e “Heart of glass”, dos Blondie. O tema dos Nirvana chove com tristeza e beleza inauditas, com o piano de King a fazer lembrar os tempos de Roger Miller com os Birdsongs of the Mesozoic: notas soltas, marteladas, musculadas em regime de romantismo machista, clusters e cordas percutidas. Com a energia do rock & roll. King swinga como se estivesse na parada, de armas na mão, de compasso preparado para a batalha. Não é um pianista subtil, o seu “approach” refugia-se na dureza e no desafio, quando o lirismo assoma, tem ainda o jeito desengonçado dos pesos-pesados apaixonados pelos “blues”, como em “Guilty”, ou o sabor na boca dos impressionistas, como em “Silence is the question”. “Flim” (com o “gimmick” de um megafone traficado) e “Heart of glass” são, por sua vez, sujeitos a um processo de desconstrução que, de caminho, transforma as melodias em mutantes. Pós-jazz, se quiserem, a música dos Bad Plus é a de rapazes malcomportados com bom coração.

MARK O’CONNORS HOT SWING TRIO
In Full Swing
Odyssey, distri. Sony Music
7|10

Mark O’Connors (violino) e Frank Vignola (guitarra) recuperam em “In Full Swing” a estética “duelística” do violinista cigano Stéphane Grapelli e do guitarrista, também cigano, Django Reinhardt, no célebre Quinteto do Hot Clube de Paris, em meados dos anos 30. O “swing” acontece quando tudo entra nos eixos na “performance” de um músico ou de um grupo. “In Full Swing” swinga, não no modo “full”, mas com a fluência e o rigor de quem estudou bem a lição. Wynton Marsalis é o trompetista convidado (é interessante escutá-lo nos pouco usuais registos de “ragtime”) e Jane Monheit dá voz a “standards” ultra-explorados como “Honeysuckle Rose”, “Misty” e “As time goes by”. Escutamos a música de Grapelli e Django como se estivesse simultaneamente perto e longe. Sentem-se as afinidades mas percebe-se, por mais tecnicistas que O’Connors e Vignola se revelem, que o génio é fogo intransmissível.

JUDY NIEMARK
About Time
Ed. e distri. Sony Music
6|10

Já que se fala de jazz tradicional e bonito, porque não deixarmo-nos embalar pelas vozes de Judy Niemark e Clare Teal? Judy Niemark tem um registo próximo do de Matilde Santing, morno e insinuante, e a música de “About time” serve-a às mil maravilhas. Uma música que flutua nas ondas da bossa nova, no vibrafone etéreo de David Friedman, no baixo estival de Eddie Gomez e no saxofone, aqui também sonhador, de Lee Konitz. Sem riscos nem coriscos, o programa percorre “standards” de Rodgers/Hart e Bernstein, “’Round midnight” de Monk, “Time remembered”, de Bill Evans e “Time after time”, de Cindy Lauper. Curiosamente, a totalidade dos doze temas refere-se ao tempo e Judy não perde tempo em tentar seduzir-nos. Se nos refastelarmos num sofá, descansa e conforta. Quem procurar demónios, esqueça!

CLARE TEAL
Orsino’s Songs
Candid, distri. Dargil
7|10

Se a voz de Judy é veludo, a de Clare Teal alia aos tecidos macios um “vibrato” que, quando quer, sabe arranhar. Embora o início não pudesse ser mais soalheiro, com uma estonteante versão de “California dreamin”, hino do “flower power” popularizado nos anos 60 pelos The Mamas and The Papas, massajado por um solo de rebuçado de saxofone alto por Alan Barnes. Mas depois anoitece e desce-se aos bares e Clare senta-se ao balcão como Jessica Rabbit no filme, cromo animado de enredos de sedução que já não há. “The way you look tonight”, Porter, Rodgers/Hart, Gershwin e um pacote de originais confirmam o calor, a plasticidade e o “feeling” vocal da cantora. Continua a ser jazz para se ouvir de pantufas (“Ready for love to begin” é “Mary Poppins”…) mas, com mil raios, sabe tão bem fechar os olhos e sonhar…

ALEXI TUOMARILA QUARTET
02
Finlandia, distri. Warner Music
7|10

O jazz nórdico também vive fora da ECM. Oriundo da Finlândia, o quarteto do jovem pianista Alexi Tuomarila, se não é uma locomotiva que leve esta música às estações terminais, confirma pelo menos que o “mainstream” não está seguro por alfinetes. Tuomarila estudou pop e jazz em Oulunkylä, passou pelo Conservatório de Bruxelas e as suas principais influências são Keith Jarrett, Bill Evans, Bobo Stenson e Brad Meldhau que, na capa, lhe tece os mais rasgados elogios, enaltecendo o seu sentido rítmico. Sibelius (“Sacrament”) e o quinteto de Miles Davis (presente, aliás, na assinatura de um dos temas, “Solar”) são igualmente apontados como balizas. “Noàdi” e um “Goodbye little godfather” jarrettiano comprovam a força e naturalidade do “riffing”, acentuando essa proficiência rítmica que lhe é apontada, mas é o lirismo distendido de Bill Evans que amiúde prevalece no desenho melódico. Como segundo solista, o saxofonista Nicolas Kummert revela-se um bom discípulo da escola, com raízes nas tradições nórdicas, de Jan Garbarek.

CHRISTIAN MCBRIDE
Vertical Vision
Warner Bros., distri. Warner Music
7|10

Começa com uma “blague”: quinze segundos de um velho vinilo riscado com música dos primórdios do jazz. “No, no, put another record!”, grita uma voz, e “Vertical Vision” embrenha-se nos meandros do “jazz rock” através de um “groove” alimentado pelo baixo de McBride. Jazz moderno não será lá muito, mas o “funk” tornou-se uma benesse nos dias atuais de “lounge” e espuma. E “funk” mais “funky” que o do tema de Joe Zawinul (“Boogie woogie waltz”) que fecha esta visão vertical, não há. Ron Blake é razoavelmente plástico nas ornamentações dos saxofones tenor e soprano e David Gilmore mostra-se um competente guitarrista de rock, sedento de eletricidade. São “riffs” e motivos transcritos dos anos 70 e do “jazz rock” de bandas como os Soft Machine, Nucleus, Passport e Soft Heap (“Taihitian pearl” assenta a matar no gosto dos apreciadores de jazz progressivo) ou da fase mais “groovy” de Herbie Hancock. A boa notícia é que McBride e os seus companheiros entregam-se à música com uma jovialidade que dá a entender que esta foi uma sessão feliz.

KENNY GARRETT
Standard of Language
Warner Bros., distri. Warner Music
8|10

Outra boa notícia é que Kenny Garrett deixou de lado as concessões ao “bonito para pendurar na parede” que marcavam o disco anterior, “Happy People”, regressando em “Standard of Language” a uma música pujante que faz jus ao estatuto alcançado por este antigo “sideman” de Miles Davis. Digitação fluida, timbre cheio e uma imaginação em ação permanente, a impedir o recurso ao bordão dos “clichés”, caracterizam este retorno ao grande jazz, enquanto discurso que passa de dentro para fora e não o contrário. O hard-bop está na massa do sangue de “Standard of language”, seja na recriação do “standard” de Cole Porter, “What is this thing called love?”, seja na citação a McCoy Tyner de “Chief blackwater”, seja ainda nos três movimentos que constituem o título-tema, um tratado de swing e a confirmação da extraordinária coesão de um grupo que parece ter ressuscitado de “Happy People” para este novo registo, com particular evidência para o pianista Vernell Brown e o baterista Chris Dave.

MARTY EHRLICH
The Long View
Enja, distri. Dargil
8|10

Impressionista, a música de Marty Ehrlich (saxofones soprano, alto e tenor, clarinete baixo, flauta), como a de Satie ou Debussy, justapõe células melódicas, harmónicas e rítmicas de modo a criar uma estrutura que vive tanto da sua arquitetura intrínseca como da relação sensorial e afetiva com o ouvinte. “The Long View” é uma “suite” em seis movimentos e um poslúdio, cada um deles correspondente a um quadro do pintor Oliver Jackson, com quem Ehrlich travou conhecimento nos anos 70, através de Julius Hemphill, e cujas obras, estamos em crer, já por várias vezes foram aproveitadas graficamente para algumas capas de álbuns do saxofonista. Como numa auto-estrada de múltiplas faixas de rodagem, os solos e as sequências coletivas caminham lado a lado em velocidades diferentes, criando ilusões de aceleração e retardamento em que apenas a visão aérea, ou a “long view” do título, permitem distinguir a totalidade e intensidade gerais do tráfego. Sequências de pura matemática instrumental, interlúdios de música de câmara, instantes de lirismo (como os criados pelo piano de Wayne Horvitz no “Movement IV”), pinceladas “free”, instantes de pausa num bar da “downtown” e os “blues” (num “Movement V” etilizado pelo trombone de Ray Anderson) convergem numa obra de fôlego que, entre os vários participantes, conta com Ned Rothenberg, Mark Dresser, Mark Feldman, Bobby Previte, e os já citados Ray Anderson e Wayne Horvitz.

Drew Gress – “Spin & Drift” + Pharoah Sanders – “Spirits” + François Bourassa Trio – “Live” + Lee Konitz & Martial Solal – “European Episode” + François Théberge 5 c/ Lee Konitz – “Music Of Konitz”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 12 Abril 2003

A selva de Sanders. O gozo de Dress. E grande jazz do Hexágono, de ontem e de hoje. Espirituoso ou espiritual.


Espíritos à solta

DREW GRESS
Spin & Drift
Premonition
8 | 10

PHAROAH SANDERS
Spirits
Meta
7 | 10

FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi
10 | 10

LEE KONITZ & MARTIAL SOLAL
European Episode
CamJazz
9 | 10

FRANÇOIS THÉBERGE 5 c/LEE KONITZ
Music of Konitz
Effendi
6 | 10

Todos distri. Multidisc



Simbiose, com Drew Gress a trocar de papéis com o saxofonista Tim Berne, passando em “Spin & Drift” a assumir o papel de líder. Mas a cumplicidade entre ambos é tão grande que se torna irrelevante falar em liderança a propósito desta música em que a força do coletivo é superior à da soma das partes. Berne não é um saxofonista dramático, mas o timbre carnudo do seu alto permite colorir cada tema com os tons do folguedo. “Disappearing” é comunicação direta a quatro vozes entre o alto, o contrabaixo, o piano de Uri Caine e a bateria de Tom Rainey. Em “Torque”, o contrabaixista faz jus a um “swing” largo, Berne desce com agilidade às profundezas do barítono e Caine parece querer desmentir quem acusa o seu piano de frigidez. “It was after rain that the angel came”, outonal, reflete cambiantes de nostalgia nas notas do contrabaixo, com Caine resplandecente na sua faceta de recitalista clássico. A faixa exótica, e uma das mais belas do disco, chama-se “Aquamarine” e nela a “pedal steel guitar” de Gress escorre como um riacho pelo empedrado, com Caine a fazer tombar notas de chuva. Álbum belíssimo, forte sem gorduras, pujante sem gritar ao megafone, imaginativo sem cair no delírio.
“Spirits”, gravado ao vivo em 1998 em local não identificado, é o prolongamento lógico de toda a obra anterior de Pharoah Sanders, coltraniano coberto de missangas, cuja música viajou entre o “hard bop”, o “free”, a improvisação ascética e a música étnica. Os 19 minutos de abertura de “Sunrise” soltam os espíritos do mundo, em “drone” de ressonâncias indianas, com florescências de uma “mbira” africana, apontamentos de pequena percussão saídos da cornucópia de Adam Rudolph e o veterano Sanders a dividir-se entre a contemplação indolente no sax tenor e cânticos de chamamento. Organizado como um louvor à sabedoria “sufi ” e à intuição, “Spirits” oferece nesta longa prece introdutória mais do que um motivo de agrado aos apreciadores tanto do jazz como da “world music”. As restantes faixas oscilam entre o exotismo exuberante das percussões de Rudolph e Hamid Drake, o “free” do “quarto mundo”, como o saboroso piscar de olhos a Coltrane, “The thousand petalled lotus”, ou o “satori” de gongos e “overtone singing”, ecos da fauna e flora de uma selva tropical incrustada no cérebro. Flautas de bambu, tablas, batuques rituais, borboletas e flores canibais, “Spirits” une com as pontas de um arco-íris o passado ancestral a um futuro onírico, em que jazz e o folclore imaginário se entrelaçam, numa celebração exterior a qualquer noção de urbanidade como aquela que anima os Art Ensemble of Chicago. Um “Sunset” de fogo fecha como começou o ciclo do dia – “drone”, suspiros “aum” e os murmúrios da floresta. Pharoah Sanders encontrou o seu nirvana.
O disco da semana é o “Live”, do trio do pianista François Bourassa, registado em Toronto em Maio de 2001, com Guy Boisvert (contrabaixo), Yves Boisvert (bateria) e o convidado André Leroux, nos saxofones tenor e soprano e flauta. Bourassa é um fabuloso arquiteto e desenhador com uma fluência e imaginação inesgotáveis. O modo como constrói em crescendo “30 Octobre 85”, partindo de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de Leroux, no tenor, constitui daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação.
A contrastar, “W! U! W!” surge de seguida como um “pizzicato” de sombras e silêncios. Frases sintéticas, revelação de perspetivas oblíquas, que, uma vez iluminadas, adquirem a inevitabilidade das evidências. Como cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas. “Arico – Afab” confirma Bourassa como um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives. Mão esquerda de mago negro, mão direita de pintor renascentista, Leroux brilha e inventa a cada momento, acrescentando novas ideias e soluções inusitadas ao terreno, já de si fértil, semeado pelo pianista. Uma paisagem impressionista, ”13”, e uma homenagem, em duas partes, ao pianista Herbie Nichols dão a conhecer o outro lado da moeda. Flauta e piano em diálogo intimista, com Leroux a utilizar, sem exibicionismos, um leque de técnicas e respirações ”extensivas” e Bourassa, uma vez mais, a operar prodígios. Tudo isto a transbordar de ”swing”, a oferecer um espetacular momento de bop (“Chambrette”) e, a culminar, um “medley” de 16 minutos ao redor de Monk (“Four in one”/“Round midnight”/“Epistrophy”/“Trinkle tinkle”) que entra diretamente para a galeria dos clássicos. Um dos discos do ano.
A música de Lee Konitz ocupa o centro das atenções, em dois discos registados em épocas diferentes. ”European Episiode” recupera em versão remasterizada uma sessão de 1968 com o pianista francês Martial Solal e dois compatriotas seus, Henri Texier (contrabaixo) e Daniel Humair (bateria), nomes de referência do jazz com origem no ”hexágono”. Uma colagem de ”standards”, com Konitz no alto eletrificado, ”Anthropology”, de Parker e Gillespie, um clássico do ”bop”, a balada ”Lover man” e o blues “Roman blues” têm a companhia de “Duet for saxophone and drums, and piano”, um “divertimento” em forma de improvisação “free” que pode servir de manual de aprendizagem. Criatividade e liberdade exigem ordem, seja de que natureza for. Konitz, Solal, Texier e Humair são professores de Direito. Descodificar o código de leis elaborado pelos quatro é um dos muitos aliciantes deste episódio europeu.
É um Konitz mais velho e cansado que escutamos a enriquecer com a sua participação um álbum que lhe é dedicado, “Music of Konitz”, pelo quinteto do saxofonista tenor francês François Théberge. Mestre e discípulos mantêm distâncias, neste encontro que ocorreu em 2002 no clube Duc des Lombards, em Paris. O encontro das autocitações do “bopper” com a reverência dos cinco franceses não faz faísca.