Arquivo da Categoria: Críticas 1997

Gabin Dabiré – “Afriki Djamana: Music from Burkina Faso”

POP ROCK

30 Abril 1997
world

Gabin Dabiré
Afriki Djamana: Music from Burkina Faso
AMIATA, DISTRI. MOVIEPLAY


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Gabin Dabiré nasceu no Burkina Faso, no seio da tribo Dagari, ocupando um território entre o Gana e a Costa do Marfim. Mas Gabin vive há 20 anos em Itália, estando, como tal, há largos anos afastado de África. “Afriki Djamana” é uma tentativa de recriação do ambiente da sua aldeia natal e, ao mesmo tempo, uma demonstração luxuriante das sonoridades produzidas por uma quantidade assinalável de instrumentos tradicionais africanos que, no Burkina Faso, se dividem nas categorias de solista e acompanhante. Assumindo-se como “griot” (feiticeiro) dos tempos modernos, Gabin Dabiré faz o papel de demiurgo, cujas criações se destinam a agitar múltiplas dimensões do ser. O canto e os ritmos são hipnóticos, levitando nas cintilações de uma marimba, em cordas iluminadas, em flautas de água ou em percussões de polirritmias intrincadas. Imagine-se o transe cruzado dos Farafina como Boni Bikaye, de “Noir et Blanc” (com Hector Zazou), mas sem a tecnologia. Irresistível. (8)



Bohinta – “Bohinta”

POP ROCK

30 Abril 1997
world

Bohinta
Bohinta
VELO, DISTRI. STRAUSS


bo

A capa promete, com um melro fantasmagórico especado num bosque de Tolkien. A música não é menos surpreendente. Quem são e de onde vieram os Bohinta? Segundo eles, a ideia começou a germinar há sete anos, passando os Bohinta de uma banda convencional para o actual “colectivo musical”, formado por 17 elementos. Uma autêntica orquestra folk, com direcção de Martin Furey (voz, guitarras, “whistle” e gaita-de-foles), coadjuvado pela sua mulher Áine (voz e “bodhran”). O grupo, embora irlandês, tem pontos de contacto com a escola inglesa dos anos 70 (Fairport Convention, Mellow Candle, Spirogyra) com Áine a revelar-se uma cantora de vastos recursos, plena de expressividade, num registo que oscila entre o “vibrato” de Carolane Pegg e as ornamentações de Sandy Denny. Talento que só por si não seria suficiente se não tivesse a apoiá-lo o notável trabalho de composição do seu marido. Temos homem. E temos um álbum, no mínimo, capaz de surpreender a cada momento, uma vez que esses dotes de Martin Furey se estendem por áreas bastante pouco frequentadas e, amiúde, contraditórias, do “folk rock”, possuindo aquilo que, em qualquer caso, distingue um objecto único da massa: magia. Inclassificável nos múltiplos pormenores e universos musicais que percorre, remetendo para diversos recantos da memória e da História sem, contudo, descurar a inovação, “Bohinta” constitui uma das revelações do ano. (8)



Hassan Erraji & Arabesque – “Marhaba”

POP ROCK

9 Abril 1997
world

Hassan Erraji & Arabesque
Marhaba
RIVERBOAT, DISTRI. MVM


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Embora o currículo deste músico, natural de Marrocos, esteja repleto de louvores, é difícil não pressentir na sua música algumas cedências a um modo ocidental de entender a música árabe. Estamos longe do postal ilustrado e da viagem turística, mas é um facto que os ouvidos se habituam, talvez com demasiada facilidade, aos arabescos desenhados por Hassan Erraji e a sua banda.
Erraji estudou música árabe e clássica europeia mas os seu primeiro instrumento não foi comprado numa loja, mas sim construído com uma lata, um bocado de madeira e os raios de uma bicicleta. Esta cultura de rua terá inculcado em Hassan um espírito de abertura e uma atitude populista que abriram caminho a tentações como a de convidar músicos ocidentais para tocarem consigo, como é, aqui, o caso do saxofonista Phil Brown, do baixista Jean Demey e do percussionista Pierre Narcisse, elementos dos Arabesque.
Quanto a Hassan, divide-se pelo “ud”, o violino, a flauta “ney” e a al-ghita (instrumento de sopro de palheta dupla, parente da bombarda e do oboé). Os compassos não são de modo a tropeçar, “Trance beat” é um festim de percussões e o clima geral de extroversão não andará longe das obras mais imediatistas de um Nusrat Fateh Ali Khan (como em “Fin fin”), salvo as devidas distâncias e diferenças. Para quem, porventura, nutre alguma embirração pela matemática intrincada de Rabih Abou-Khalil, Hassan Erraji e os seus Arabesque poderão revelar-se o substituto ideal. (7)