Arquivo da Categoria: Críticas 1997

Emma Junaro – “Canta a Matilde Casazola: ‘Mi Corazón en la Ciudad’”

POP ROCK

9 Abril 1997
world

Emma Junaro
Canta a Matilde Casazola: “Mi Corazón en la Ciudad”
RIVERBOAT, DISTRI. MVM


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Confessamos que a música sul-americana não faz parte do nosso “top” de preferências. A combinação das composições de Matilde Casazola com a voz de Emma Junaro, duas bolivianas de gerações diferentes, abalou as nossas convicções e o gosto relativos à matéria. Por exemplo, a canção número três, “De regreso”, tem o que habitualmente associamos à música andina, com as flautas de Pan, a “quena” e o “charango”. Mas as entoações de Emma acrescentam-lhe algo mais, um registo indefinível cujo segredo escapa a quaisquer conotações regionais.
Emma Junaro é considerada uma das vozes actuais mais importantes da Bolívia, inspirada na música tradicional do seu país e na “nueva cancion” e “Mi Corazón en la Ciudad” é o terceiro álbum da sua discografia, gravado no Uruguai após um período de estudo com o seu professor de canto, Nellie Pacheco. A decisão de interpretar apenas as canções de Matilde Casazola – compositora, poetisa, cantora, guitarrista, pintora e verdadeira instituição da Bolívia – foi tomada em conjunto com o director musical e arranjador deste projecto, Fernando Cabrera.
Emma “flirta” com a balada jazz, abrigando-se sob a aura de um folk latino progressivo nas margens da intemporalidade. É mais suave e misterioso do que poderíamos imaginar, num jogo de cobra entre os tons maior e menor, conferindo a cada canção flutuações que a cada momento fogem às tonalidades típicas da música boliviana. Sensual, possuído por uma serenidade mágica e receptivo a experimentações formais, “Mi Corazón en la Ciudad” é uma sedução que, finalmente, não podemos explicar. (8)



Eduardo Niebla & Adel Salameh – “Mediterraneo”

POP ROCK

9 Abril 1997
world

Eduardo Niebla & Adel Salameh
Mediterraneo
RIVERBOAT, DISTRI. MVM


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Eduardo Niebla é um reputado executante andaluz de guitarra acústica que tocou, entre outros, com Lol Coxhill, Belinda Carlisle, George Michael e o tocador indiano de “sarod” Vajahat-Khan. Adel Salameh é um jovem palestiniano para quem o “‘ud”, alaúde árabe, não tem segredos, cujas técnicas musicais e de desenvolvimento espiritual lhe foram ensinadas, em Bagdad, pelo mestre Mu’laz Mohammed Bayati. Em “Mediterraneo” o diálogo entre ambos estende-se por quatro longas composições, garantindo deste modo a completa exposição dos respectivos talentos e a sua mútua capacidade de interligação.
Nesse território vasto e de múltiplas sedimentações civilizacionais que é o Mediterrâneo, a improvisação constitui a base de um ritmo interior (o exterior está a cargo de umas tablas, por um músico não identificado) ditado por um tempo, um clima e uma luz particulares. Niebla e Salameh improvisam com apreciável destreza técnica e razoável entrega aos fluxos inspiracionais, ainda que sem arriscar os arrebatamentos e rupturas que também fazem parte da linguagem que tanto um como o outro partilham. Música introspectiva e de grande tranquilidade, nela se esbatem as arestas do flamenco e do “taqasin” mais inflamado. Para ouvir e meditar. (7)



Boris Feoktistov – “Russian Chants, Parastas – Ambient Mix” + Nikola Parov “Kilim”

POP ROCK

9 Abril 1997
world

Boris Feoktistov
Russian Chants, Parastas – Ambient Mix (7)
99, DISTRI. SYMBIOSE

Nikola Parov
Kilim (3)
HANNIBAL, DISTRI. MVM


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Do Leste europeu chegam-nos dois projectos com estética e ambições divergentes. “Parastas” pretende ser obra profunda, enquanto “Kilim” se contenta em entrar para a grande feira das fusões. No primeiro caso trata-se de cânticos religiosos russos remisturados por Bill Laswell. No segundo, o multinstrumentista búlgaro Nikola Parov (voz, guitarra, gaita-de-foles, “gadulka”, “kaval”, teclados, “‘ud”, clarinete, bateria, “bouzouki”, “tin whistle”, programações, sequenciações de baixo e efeitos especiais) fica-se pela world a metro, decalcada dos manuais chunga.
Bill Laswell mostra-se mais comedido do que é habitual, embora também toque no disco o seu baixo vulcânico na criação das suas “construções ambientais”. “Parastas” conta ainda com a engenharia sonora, processamento de sons e guitarra eléctrica de Robert Musso, outro nova-iorquino adepto das sonoridades peso-pesadas. Curiosamente, as três longas composições de Feoktistov, “Cold chamber”, “Four sided vortex” e “Relative motion”, todas subdivididas em várias partes, não sofrem demasiados maus tratos com as manipulações a que são sujeitas, primando o trabalho de Laswell e Musso pela discrição, de maneira a não perturbar a atmosfera de liturgia fúnebre desta obra. “Parastas” escorre como um néctar, a religiosidade das polifonias russas descendo ao Hades do ambientalismo mais negativo, num lugar de sombras e choro onde Arvo Pärt se cruza com “Low”, a missa negra de David Bowie. Não é “sombient” mas evoca as mesmas paisagens desoladas, já não do espaço, mas de uma natureza humana gelada e triste arrastando-se pelas câmaras do desespero.
“Kilim” é pouca coisa. Não faltam convidados de luxo com o selo “celta”, neste caso da Riverdance Orchestra, entre os quais Mairtin O’Connor, Noel Eccles e o omnipresente Davy Spillane, mais um punhado de músicos húngaros. Muita gente para a escassez de ideias, num pastelão daqueles que dá má fama ao já muito sovado emblema da world music.