Shu-De
Voices from the Distant Steppe
Real World, distri. EMI-Valentim de Carvalho
Tuva é o grande centro cultural da actualidade. Região citadina por excelência, situa-se a dois passos da Mongólia. Os seus habitantes dedicam-se à pastorícia e, nos fins-de-semana, à organização de etno-raves em plena estepe asiática, onde fazem as delícias dos turistas, graças ao seu famoso truque do canto multifónico: dois ou mais sons emitidos em simultâneo pela garganta do cantor.
“Voices from the Distant Steppe” apresenta a música destas vozes em mais um dos vários discos centrados na região de Tuva surgidos nos últimos tempos. Tem uma grande vantagem sobre todos os outros. Onde estes são na maioria gravações de campo, étnicas, rudes e quase sempre impenetráveis, o álbum dos Shu-De aposta, pela mãozinha sábia de Peter Gabriel, numa estilização discreta do som, audível na limpeza dos ruídos residuais e numa dinâmica extra, induzida pela reverberação de estúdio. (8)
Para que conste: “Year” é o melhor álbum de sempre na carreira, longa de quase 30 anos, de Maddy Prior. Incluindo os três discos, circunscritos a uma área específica – o cruzamento da folk com a música antiga –, que gravou com os Carnival Band e, obviamente, aqueles assinados em seu próprio nome, que até à data não faziam justiça à grandeza da cantora. Num plano superior, embora não muito, continuam a estar os álbuns fundamentais que gravou com os Steeleye Span entre 1971 e 1974, “Please to See the King”, “Tem Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt”, “Parcel of Rogues” e “Now We Are Six”. “Year” anda lá perto. Ao contrário dos anteriores discos a solo da “irmã tontinha” de June Tabor, em que a folk, o rock envernizado e a pop rural se misturavam de forma mais ou menos inconsequente, num veículo “mainstream” que, sem ser ofensivo, passava sem deixar marcas nem saudade, o novo “year” afirma-se logo de entrada com a força e a unidade de um clássico. Maddy está em grande forma. E o seu canto, um mimo, uma iguaria, nos arredores da perfeição. As composições não lhe ficam atrás. A principal é uma sequência de temas sobre as estações do ano, apresentado em estreia mundial, ao vivo, há dois anos, no festival Intercéltico do Porto. Um desses temas fica desde já como uma das melhores interpretações de sempre da cantora: “Marigold”, a canção do Outono. Emoção em estado puro, numa vocalização de sereia, sinuosa e insinuante. Maddy em verdadeiro estado de graça.
Não há momentos fracos, nem nas composições originais nem nas tradicionais, sem esquecer a melodia de Verão saída da pena de Loudon Wainwright III, “Swimming pool”, e que se pode considerar a mais próxima de uma sensibilidade pop, num disco que por três vezes se revê no passado dos Steeleye Span. Em “Saucy sailor”, de “Below the Salt”, “Boys of Bedlam”, de “Please to See the King” e “Twa corbies” – meditação sobre a morte incluída na estreia “Hark! the Village Wait”, neste disco com um texto do escocês antigo, cantado sobre uma melodia da Bretanha –, transpostos de forma gloriosa para novos arranjos. “Long shadows” e “Somewhere along the road” transportam consigo as sombras, os espectros e as lendas da Inglaterra rural como ninguém o havia feito depois de a grande, desaparecida e menosprezada banda chamada Mr. Fox, de Bob e Carole Pegg, o ter feito em dois álbuns seminais, “Mr. Fox” e “The Gipsy”. “The fabled hare”, “suite” dividida em seis partes, é uma homenagem à lebre, esse animal tantas vezes evocado nas canções da tradição inglesa e considerado na antiguidade como símbolo da deusa pagã da fertilidade e do renascimento (“re-birth”), Aestre. Começa por parecer-se um pouco com os Jethro Tull (refira-se a propósito que Ian Anderson colaborou em “Now We Are Six”) e segue em mudanças de velocidade, com as do quadrúpede em questão, que mostram o lado mais inovador deste “Year” de boa memória.
Um grande álbum que vem ocupar o lugar no trono, ao lado de “Angel Tiger” de June Tabor. Magnífico. (9)
LOREENA MCKENNITT
The Mask and Mirror
Quinlan Road, distri. Warner Music
Cada álbum de Loreena McKennitt tem tudo no lugar ou, para utilizar a terminologia actual, é politicamente correcto. “The Mask and Mirror”, como o anterior “The Visit”, vai beber nas fontes celtas, mas da forma mais saloia que se possa imaginar. Loreena esforça-se. A capa e embalagem são belíssimas (desta feita um bestiário boschiano e fundo de noite americana), a produção é perfumada e a voz dela é agradável. Em “The Visit”, a conotação celta fazia-se através dos Oriente. No novo disco é pela Espanha, dos Pirinéus à Galiza a até à Andaluzia, com passagem por Marrocos. Há sufis, trovadores, cátaros e templários, as mil e uma noites e os evangelhos gnósticos. Loreena interroga-se e interroga Deus. O Licórnio volta à carga, Yeats e Shakespeare também. Aparece S. João da Cruz, Stª Teresa d’Ávila, o mercado de Marrakesh, um mosteiro beneditino no Quebeque, Santiago de Compostela e outras figuras e lugares decorados dos compêndios. A música é doce, pegajosa e enjoativa. Cheia de corantes. Loreena entra a matar, com uma sugestão de cânticos gregorianos em fundo, que é o que está a dar, em “The mystic’s dream”. É, mesmo assim, o menos mau. O ultraje surge com a entrada de guitarras eléctricas à Scorpions, em “The Bonny swans”. “The dark night of the soul” é um vómito cor-de-rosa com pretensões metafísicas; “Marrakesh night market” mistura Gypsy Kings com tablas indianas. Em “Santiago”, a harpista e cantora canadiana vai à cartilha do “medieval” e serve, embevecida, o equivalente em música antiga a “Scarborough fair” na tradicional: o óbvio e requentado. As “uillean pipes” dão um cheirinho da sua graça no “tema irlandês”, “The two trees”, e tudo acaba às voltas com Shakespeare e a condição humana em “Prospero’s speech”. “The Mask and Mirror” é bem capaz de vender como ginjas, mas são discos como este que dão mau nome não só à música tradicional como à música em geral. Discos enganadores, que procuram vender gato por lebre. Muito provavelmente, Loreena até estará inocente. Porque, lá na visão dela, as lebres são capazes de andar sobre os muros e fazer “miau”. (3)