Arquivo da Categoria: Críticas 1994

June Tabor – “Against the Streams”

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
WORLD

O ESPÍRITO DA PAZ

JUNE TABOR
Against the Streams

Cooking Vinyl, distri. MVM


jt

Ouve-se uma primeira vez e pensa-se: “É bom, mas não tão bom como ‘Angel Tiger’.” Ouve-se pela segunda vez e concede-se: “Afinal, é tão bom como ‘Angel Tiger’.” À terceira, é-se forçado a concluir: “É melhor que ‘Angel Tiger’!” A partir daqui, nasce a paixão e cada um fará dela o que quiser. “Against the Streams” é o cume de um percurso exemplar de uma mulher que se vem descobrindo através do canto e, álbum após álbum, tem procurado a depuração definitiva, o ponto de equilíbrio onde, com um mínimo de meios, se atinge o máximo de emoção. “Against the Streams” é, ainda, se tivermos presente toda a discografia anterior da cantora, um ciclo que se fecha e o regresso à música tradicional, que finalmente e June Tabor se transformou em algo de novo e muito pessoal. Ciclo de afastamento iniciado nos anos 70, a partir do brilhante “Ashes and Diamonds”, que teve o seu apogeu em “Some Other Time” (uma experiência pelos “standards” do jazz e por muitos difícil de digerir) e, finalmente, a correcção da órbita de aproximação à folk empreendida no anterior “Angel Tiger”.
June Tabor encontrou, em “Against the Streams”, o seu lugar natural – um lugar de paz, equidistante de todas as emoções, que lhe permite enfrentar todas as correntes com um mínimo de atrito, centrado na sua voz de deusa (nos antípodas de outra deusa lunar, Nico) e numa pose hierática, de quem olha de frente o destino. Aqui, tudo flui com a naturalidade das coisas que regressam ao leito. June é simplesmente perfeita quando canta os tradicionais “False, false”, “Apples and potatoes” (variante da “puirt a beul” ou “mouth music” irlandesa que depois o acordeão de Andy Cutting leva às proximidades da Albion Band, nos seus tempos de glória) e “The turn of the road”. “The Irish girl” e “Waiting for the lark” (o encantamento final, uma “lullabye” que concilia o calor da lar e a geada do campo, a noite e a madrugada, o sono e o trabalho) trazem ao conhecimento do público dois dos mais importantes autores da folk britânica contemporânea, respectivamente Peter Bond e Bill Cadick. Elvis Costello, Ian Telfer e Richard Thompson voltam a ter as preferências de June, que, com suavidade, depõe as suas músicas no universo da música tradicional. Mais do que nunca, o piano de Huw Warren funciona como veículo ideal de transporte e elevação das canções. June Tabor cuida e segura nelas como se fossem feitas de cristal. “Against the Streams” é uma noite de luar brilhante como o dia, onde todas as coisas coincidem consigo próprias e cantam – banhadas pelo espírito da paz. (10)

Nota: na calha para distribuição portuguesa estão alguns álbuns potenciais candidatos a “melhor do ano”: “Swing and Tears”, dos Skolvan, “Quatre”, de Gabriel Yacoub, “Aji & Safràn”, dos Ciapa Rusa, e “À la Source”, dos Yole (PopRock adquriu-o em Madrid; é um disco espantoso). Já nos escaparates está o excelente “The Crooked Stair”, dos Cran, numa linha próxima dos House Band. Crítica para breve.



Davy Spillane – “A Place Among the Stones”

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
WORLD

Davy Spillane
A Place Among the Stones

Columbia, distri. Sony Music


ds

Os puristas odeiam-no, mas têm que reconhecer que é um dos grandes tocadores de “uillean pipes” da actualidade. Tecnicamente falando, claro, porque em matéria de gosto e reportório estamos conversados. Nos Moving Hearts, grupo de folk rock no qual Spillane se notabilizou, ainda se suportava a energia e o entusiasmo. Controlado por Andy Irvine, acertou em “East Wind”, um álbum de música da Bulgária “à irlandesa”. Depois, a solo, Spillane foi-se afastando cada vez mais das raízes tradicionais, enveredando pelo rock, esgares de “blues” e baladas que procuram promover a Irlanda como região turística por excelência. Neste seu novo álbum Spillane voltou a enveredar pelo postal ilustrado, só que numa maré de calmaria, prescindindo em grande parte dos solos, estilo demonstração, nas “uillean pipes”, para apostar no maior “intimismo” do “tin whistle”. Mas a música continua a não conseguir livrar-se de uma superficialidade irritante, por muito que Spillane se esforce em “aprofundar”. Maire Brennan, dos Clannad, toca harpa, canta e compõe o título-tema. Steve Winwood faz uma perninha, a recordar os bons velhos tempos de álbum pró-folk dos Traffic “John Barleycorn must Die”. Bonitinho. Há quem se reveja e delicie com este tipo de sonoridades. A música irlandesa tem as costas largas. (4)



Alec Finn – “Blue Shamrock”

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
WORLD

Alec Finn
Blue Shamrock

CBM, distri. MC – Mundo da Canção


bs

Que desilusão! Não há direito que alguém com o nome de Alec Finn, nada mais nada menos que o guitarrista dos De Dannan, faça uma coisa tão insossa como esta. A totalidade do disco baseia-se nos “airs” irlandeses que, como se sabe, são a vertente menos frenética e mais poética de todos os géneros instrumentais da Irlanda. O “tin whistle” é, neste caso, o instrumento de eleição e, como tal, foi recrutada uma das suas maiores especialistas, Mary Bergin. Tommy Keane, nas “pipes” e no “low whistle”, é outra das personalidades presentes neste trevo azul que infelizmente não tem quatro folhas. Porque tanta suavidade e poesia pode às tantas, como é o caso, ser soporífero. Tudo aqui é feito com cuidado e sofisticação, numa perspectiva estética que não anda longe da de alguns trabalhos de Andrew Cronshaw. Ou seja, delicadeza acima de tudo. “Blue Shamrock” não chega a ir ao fundo da questão e tem mais o sabor de um copo de água fresca que o travo forte de um Bushmills ou a densidade quente de uma Guiness que demorou eternidades a tirar. (5)