Arquivo da Categoria: Céltica

Maire Ní Chathasaigh & Chris Newman – “Out Of Court”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993
WORLD


Maire Ní Chathasaigh & Chris Newman
Out Of Court
CD Old Bridge Music, distri. VGM



Maire Ní Chathasaigh, harpista. Já a conhecíamos de um bom álbum gravado na Temple, “The New Strung Harp”. Quanto ao senhor Newman, guitarrista, bandolinista, baixista, prazer em conhecer. Os dois juntos resolveram brincar e fazer experiências, sem lhe perder o respeito, com a música tradicional. Saíram-se bem da bricadeira. Sem ser excepcional, “Out of Court” ouve-se com agrado, sobretudo por quem não lhe exigir mergulhos de profundidade nem grandes rasgos emocionais. Socorre-se, para tal, das prestações de convidados acima de qualquer suspeita: Nollaigh Casey, violino, Liam O’Flynn (ex-Planxty), “uillean pipes”, Danny Thompson, contrabaixo, e Simon Mayor, actual menino bonito do bandolim.
Dividindo-se entre as composições próprias e os temas tradicionais, Maire Ní Chathasaigh (ah! Não há como as nossas Anas, Saras e Ritas…) e Chris Newman correm do jazz swingado até às chuvas de cristal de Turlough O’Carolan, o mítico harpista cego. Há solos de toda a gente, “overdubs” de Newman, armado em homem das sete cordas, que são do melhor que o disco tem para oferecer, “jigs” um bocadinho mais a sério e um “air” de ressonâncias épicas. Só é pena Maire cantar num ou noutro tema, o que manifestamente não parece ser o seu forte.
“Out of Court” pretende ainda contribuir para a revitalização e divulgação da harpa irlandesa, mostrando a sua versatilidade e adaptabilidade ao mundo moderno. Um divertimento bem sucedido que deixa a anos-luz de distância as recentes celto-saloices de Alan “Avalon” Stivell. (7)

Maighread Ní Dhomhnaill – “Gan Dhá Phingin Spré No Dowry”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993
WORLD


Maighread Ní Dhomhnaill
Gan Dhá Phingin Spré No Dowry
Gael-Linn, distri. VGM



Os Dhomhnaill são uma espécie de versão irlandesa dos portugueses Melo e Castro. Quer dizer, família de artistas. Os Dhomhnaill levam vantagem e Maighread não se chama Eugénia. Nem a sua irmã Triona, aliás, cantora e cravista de reconhecidos méritos conquistados nos Bothy Band, Relativity e Touchstone, e um pouco desbaratados nos “newagers” Nightnoise. Falta o irmão Michéal, também ele tornado ilustre nos Bothy Band e guitarrista de primeira apanha. Agora, chegou a vez de Maighreadlha tentar a sua sorte, com a ajuda da restante prole, incluindo o pai Aodh, colecionador de canções, e a tia Neili, fonte de inspiração. Antes desta aventura mais ou menos a solo, Maighread passou pelos Skara Brae, banda obscura com um álbum gravado, formada pelos três irmãos e Daithi Sproule.
“Gan Dhá Phingin” (“ganda pinguim”, numa tradução não muito literal) recupera a tradição vocal do Donegal. Descontando a prova real do canto solitário, onde a voz de Maighread, de timbre semelhante ao de Triona, não se revela particularmente brilhante, as atenções voltam-se para a parte instrumental, que, por sua vez, se aproxima bastante dos Bothy Band quando tocavam mais devagar. Predominam as sonoridades do cravo e das cordas sintetizadas de Triona, pontuados pelas ressonâncias metálicas da guitarra de Michéal e ocasionais incursões das “uillean pipes” de Lyam O’ Flynn, do “bouzouki” e “bodhran” de Donnal Lunny e do violino de Skip Parenti.
Há faixas excelentes, como “Amhrán pheadar breathnach” (nunca me cansarei de louvar a musicalidade e concisão desta língua…), “A mháithrin dhíleas” e “The green wood lady”, mas outras que, de tão lentas, desoladas e parecidas entre si, acabam por se desvalorizar. Sobretudo porque a voz não as consegue tornar suficientemente personalizadas. Mas a sonoridade cheia e o bom gosto da produção a cargo de Donal Lunny, mais os momentos altos da interpretação, chegam para fazer esquecer os deslizes. Das quatro “Ní” (ligação do nome próprio ao apelido) passadas hoje em revista, Maighread é a que tem mais caminho para andar. (7)

Deirbhile Ní Bhrolcháin – “Smaointe”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993


Deirbhile Ní Bhrolcháin
Smaointe
CD Gael-Linn, distri. VGM



Está encontrado o sucessor de “Chi Mín Emhreadh”, de Catherine-Ann MacPhee. A atribuição do prémio vai para um disco de reportório, sem mácula, de tradicionais da velha Irlanda, servido por uma voz onde se torna difícil encontrar o mínimo defeito. Ou seja, o canto gaélico no feminino e no máximo esplendor, com continuação garantida.
Deirbhile Ní Bhrolcháin retoma a tradição vocal “a capella”, considerada, de resto, a forma suprema de música gaélica na Irlanda e na Escócia. Deir (chamemos-lhe assim, à laia de diminutivo. Já agora refira-se que a editora não facilita nada. Até o nome dos instrumentos aparece escrito em gaélico) estudou e aprendeu primeiro na Universidade de Galway, com Bréandan Ó Madagáin (ufa) depois na Universidade de Cork, com o mestre, maestro e pianista Michéal ‘O Súilleabhain (ufa, ufa), sendo este último quem a fez optar por ser cantora em vez de astronauta. Em boa hora Deir preferiu a voz aos foguetões. A textura e timbre do seu órgão vocal são límpidos e expressivos. Não há hesitações de qualquer espécie, o que por vezes se nota, sobretudo ao nível das ornamentações, em quem não domina por completo a arte. A cantora resolve as respirações e as “nuances” mais complexas com uma facilidade e fluências espantosas.
Completam um álbum de aquisição sem reservas pelos amantes do género, arranjos instrumentais plenos de imaginação. Neste aspecto, uma faixa, “A stór, a stór, a ghrá”, distingue-se das restantes, pelo inusitado da trama rítmica e pelo virtuosismo dos intérpretes. O que não admira se atentarmos nos seus nomes: Brendan O’Reagan, o professor, no bouzouki e na guitarra, Máirtin O’ Connor, grande mestre dos acordeão, e Tommy Hayes (a VGM tem disponível dele o álbum “Na Rás”, um tratado de percussão, da Irlanda a John Coltrane e Paco de Lucia), bodhran e percussões africanas. Um achado. (8)