Arquivo da Categoria: Artigos 2003

Nathalie Loriers Trio + Extensions – “Tombouctou” + Defoort, Turner, Thys, Black – “Sound Plaza” + Stephan Oliva, Bruno Chevillon, Paul Motian – “Intérieur Nuit” + Antonio Faraò – “Far Out” + Tommaso/Rava Quartet – “La Dolce Vita”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 17 Maio 2003

Pianos do melhor jazz belga. Piano para ouvir de noite. Piano de um faraó. E um velho animatógrafo restaurado no ecrã do presente.


Pianos

NATHALIE LORIERS TRIO + EXTENSIONS
Tombouctou
De Werf
6 | 10

DEFOORT, TURNER, THYS, BLACK
Sound Plaza
De Werf
8 | 10

STEPHAN OLIVA, BRUNO CHEVILLON, PAUL MOTIAN
Intérieur Nuit
Night Bird
8 | 10

ANTONIO FARAÒ
Far Out
Camjazz
7 | 10

TOMMASO/RAVA QUARTET
La Dolce Vita
Camjazz
8 | 10

Todos distri. Multidisc



“The finest in Belgian Jazz”, “o melhor do jazz belga” é o nome de afixado na frente das capas desta série, composta por dez nomes, representativos do novo jazz belga, selecionados por um painel de 50 jornalistas e promotores de concertos. Todos eles com direito a gravação. Atrás, são enumerados os diversos apoios e patrocínios, incluindo os governamentais, ao projeto.
Não que o “melhor do jazz belga” seja propriamente o melhor jazz do mundo, mas fica o exemplo do que deve ser feito para apoiar uma música minoritária, num país pequeno. Como a Bélgica, à qual o jazz deve Toots Thielemans, Philip Catherine ou, o menos conhecido René Thomas.
A mais recente coqueluche do jazz belga chama-se Nathalie Loriers, pianista que ainda recentemente atuou em Portugal. “Tombouctou” (título inspirado na novela “Timbuktu”, de Paul Auster), apresenta-a com o seu trio habitual, aumentado pelo grupo Extensions e é ela que assina a totalidade dos temas.
Jazz bem balançado, elegante, delicado, frágil, compensa a ocasional pouca presença da pianista, com o vigor dos sopros de Laurent Blondiau (trompete e fliscórnio) e Kurt van Herck (saxofones soprano e tenor). “La rivière du présent” arrisca soluções mais abstratas, enquanto, com sinal oposto, “Mémoire d’Ô” se concentra no intimismo e lirismo de frases simples mas sentidas, com Blondiau a desempenhar o papel de Chet Baker. Nas “Obsessions”, o ataque (afago?) às teclas liberta uma feminilidade que, no posterior desenvolvimento, se retrai numa mera dissertação ao nível da pele. Bill Evans deu a solução: No jazz de jardim só há um caminho que faça brotar a força — para dentro, escavando a terra dos sentimentos. Nathalie dança, com as mãos e o espírito leves.
Outro dos escolhidos pelo painel dos “odd jazz journalists” foi o também pianista Kris Defoort que, em “Sound Plaza”, tem a companhia de Mark Turner (saxofone tenor), Nic Thys (contrabaixo e baixo elétrico), mais a estrela emergente da bateria, Jim Black, bem conhecido do público português.
“Sound Plaza” exige outra disponibilidade. Defoort compõe e improvisa numa gama mais larga de registos que a sua compatriota, percorrendo, resolvendo e explorando escalas cromáticas, fraseados multidimensionais, fracionando o ritmo e a melodia, oferecendo aos sopros matéria rica de trabalho. Como vem acontecendo com alguma frequência em várias latitudes do jazz contemporâneo, por vezes a música (como no título-tema) recorre a fórmulas e a uma respiração rítmica típicas do pós-jazz de Chicago, mas a energia, criada a partir de sobreposições e saturações, situações que o piano de Defoort domina como ninguém, flui, ora com a naturalidade de um rio, ora descentrada pelos polos de tensão criados pela percussão de Black, fabricante de ideias a um ritmo alarmante. “Subconsciouslee”, de Lee Konitz, recebe um tratamento à altura, com o pianista e o baterista a pesquisarem no fundo, sem perder de vista a rota que Konitz traçara em 1949 no álbum com este nome, ainda sob a tutela de Lennie Tristano. “Floating” é um instante de suspensão e recapitulação, cordas do piano percutidas, tambores Duracel e subidas e descidas do tenor em escada-rolante, logo interrompido pela diversão, na segunda ocorrência de “Blues is on the way”, com o “blues” teimosamente a deixar ver-se, para logo desaparecer de vista por detrás do horizonte, com passagem para o “one man show” do percussionista, em “Solo Jim”. A finalizar, “Tranen” faz a homenagem a Coltrane, um dos músicos favoritos deste belga, em cuja discografia figura, de resto, o álbum “Variations on a Love Supreme”. “Sound Plaza” é como banda desenhada — uma música fracionada numa sucessão de quadros, onomatopeias e episódios rocambolescos. E nisto, como se sabe, os belgas são bons.
Os franceses, idem. Mas “Intérieur Nuit” do trio do pianista Stephan Oliva, com Bruno Chevillon (baixo) e Paul Motian (bateria), a mesma formação que há três anos já fizera “Fantasm”, é literatura de outro quilate.
Músico de formação clássica, discípulo de Eric Watson, Oliva dispensa fronteiras e balizas, embora se possa detetar nele alguns excessos de formalismo. Sozinho, o piano sofre uma atração irresistível pela música contemporânea e por uma abordagem “concreta” do instrumento. Mas estão lá Chevillon e, sobretudo Motian (autor da maioria dos temas) a segurá-lo e a manter o balanço, num álbum de estudos, esquissos e cosmologias incompletas, por vezes difícil de acompanhar mas inesgotável nas propostas nele contidas. Os admiradores de Paul Bley, por exemplo, saberão apreciá-lo devidamente.
“Far out”, do pianista italiano Antonio Faraò, devolve as cores do jazz de Nova Iorque, pela simples razão de o seu principal parceiro se chamar Bob Berg, notável tenorista. Dois homens do Leste fecham a formação: Martin Gjakonovski (baixo) e Dejan Terzic (bateria). Nada de novo resulta desta inusitada geografia humana, mas é bom voltar, uma vez mais, ao berço. Ao local de todos os imaginários, onde as baladas solitárias se cruzam com o “hard bop” e a luz do Mediterrâneo alterna com a dos semáforos da 5ª Avenida. Quanto a Faraò, diz sobre ele Herbie Hancock que “não é somente um bom pianista, mas um grande pianista”. Se “Walking with my soul” e “Simple” são sufi cientes para lhe dar razão é, contudo, Berg quem “rouba o show”.
“La Dolce Vita”, de Tommaso/Rava Quartet, é um tratado de nostalgia sobre bandas sonoras de clássicos do cinema italiano. “Movie-ing jazz” através do qual o contrabaixista italiano Giovanni Tommaso refaz não só antigas afinidades com a música de Nino Rotta para “La Dolce Vita”, como estende o seu amor a “Perfume de Mulher” de Dino Risi, “A Aventura”, de Antonioni, ou “Il Prato”, de Paolo e Vittorio Taviani, entre outros filmes, e às respetivas partituras com assinatura de Armando Trovaioli, Giovanni Fusco e Ennio Morricone, com um “Sonho de Hitchcock”, de Enrico Rava, pelo meio.
Jazz para se ver. Ver o que ficou de um tempo feito de outras imagens e sons inventados dentro de outro tempo. Em criança, Tommaso apreciava acima de todos, Tótó e Stan Laurel, de cujas peripécias se enchia nas “matinées” do Cinema Nazionale de Lucca. Mas foi com Rotta e “La Dolce Vita” que reconheceu, e se reconheceu, nas “atmosferas”, “movimentos” e “circunstâncias” de um “passado indifi nível” a que, neste álbum, procura dar de novo vida. A este “Movieing jazz” apenas se pode e deve responder com igual devoção.

David S. Ware Quartet – “Freedom Suite” + Daniel Carter & Reuben Radding – “Luminescence” + Alexander Von Slippenbach – “The Living Music” + Fred Van Hove – “Complete Vogel Recordings” + Maneri Ensemble – “Going To Church” + Manfred Schoof – “European Echoes” + Brötzmann, Van Hove, Bennink – “Balls” + Sun Ra & His Arkestra – “Music From Tomorrow’s World”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 10 Maio 2003

A liberdade que David S. Ware recria hoje por via da obra de Sonny Rollins é a mesma liberdade que 30 anos antes se espraiava pelas formações de “free music” europeias, agora recuperadas pela Unheard Music Series.


Música livre, música viva

DAVID S. WARE QUARTET
Freedom Suite
Aum Fidelity
8|10

DANIEL CARTER & REUBEN RADDING
Luminescence
Aum Fidelity
8|10

ALEXANDER VON SLIPPENBACH
The Living Music
Unheard Music Series
9|10

FRED VAN HOVE
Complete Vogel Recordings
2xCD Unheard Music Series
8|10

MANERI ENSEMBLE
Going to Church
Aum Fidelity
7|10

MANFRED SCHOOF
European Echoes
Unheard Music Series
9|10

BRÖTZMANN, VAN HOVE, BENNINK
Balls
Unheard Music Series
8|10

SUN RA & HIS ARKESTRA
Music from Tomorrow’s World
Unheard Music Series
7|10

Todos distri. Ananana



David S. Ware lança-se na “Freedom Suite” de Sonny Rollins, repetindo o que Branford Marsalis já fizera, ao incluir a mesma peça em “Footsteps of Our Fathers”, à qual, juntara, aliás, o “Love Supreme” de Coltrane. Rollins e Coltrane, dois músicos para quem os conceitos de composição e improvisação se confundiam na plasticidade de um discurso sempre renovado. Ware, provavelmente o mais coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “rollinsoniana” (ele que já recriara, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional a uma obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”. Sem atingir os paroxismos de espiritualidade de “Godspellized”, esta “Freedom Suite” confirma, ainda assim, Ware como um dos expoentes do jazz contemporâneo.
Matthew Shipp é um dos participantes em “Going to Church”, do Maneri Ensemble, do pai, Joe (clarinete, saxofones alto e tenor) e do filho, Mat (viola de arco), numa formação que integra ainda Roy Campbell (trompete), Barre Phillips (baixo) e Randy Peterson (bateria). Álbum de devoção (à liberdade de improvisação), é composto por três únicos temas, dos quais se destaca “Blood and body”, 31 minutos de desmantelamento harmónico e melódico pautado pelos diálogos entre pai e filho, sob a supervisão do piano de Shipp e a intromissão de “drones”, gritos, entropia rítmica e sessões de catarse.
Na mesma editora, uma estimulante surpresa: “Luminescence”, de Daniel Carter (saxofone alto) e Reuben Radding (contrabaixo). Forçado pelas circunstâncias a limitar-se ao sax alto, Daniel Carter (o saxofonista, parceiro de projetos de “neo free” como Other Dimensions in Music Test, toca uma parafernália de sopros, mas o atentado de 11 de Setembro impediu que os transportasse a todos nos porões do avião…) concentra-se na exploração conjunta com o contrabaixo telúrico de Radding (amiúde tocado com arco) de microuniversos concentracionários como “Ancestral voyage-mystery suceed” e de um “free” de baixas e íntimas frequências, cruzadas pelo “hard” e pelos “blues” (“Refracted light and grace”, “Vignettes”) com o recurso a uma depuração de meios que, por vezes, lembra Joe McPhee, embora Carter faça questão de manter intactas e “redondas” as suas estruturas, feitas, como se diz no tema de fecho, de “Occurrences, places, entities and the sea”.

Sons da Europa livre
Recuemos ao passado, até ao período de transição dos anos 60 para os 70. Na Europa fervilhava uma música libertária que adaptava o manifesto “free” dos negros americanos às idiossincrasias da música contemporânea, do serialismo e da improvisação sobre moldes “folk”, clássicos, etc. No mais recente pacote de reedições da Unheard Music Series/Atavistic, compiladas pelo escritor, jornalista e músico John Corbett, a partir de arquivos da FMP (Free Music Productions), encontram-se raridades e entidades mutantes do novo jazz que então se produzia longe das margens do “mainstream”, álbuns feéricos, deslumbrantes, desconcertantes ou desopilantes, tão representativos como ignorados, deste intenso período de atividade do jazz europeu.
“European Echoes” é um “monstro” gravado em 1969 por um coletivo de 16 elementos liderados pelo trompetista alemão Manfred Schoof, que aglutinava uma série de pequenos combos onde estavam presentes, entre outros, Enrico Rava, Peter Brötzmann, Gerd Dudek, Evan Parker, Paul Rutherford, Derek Bailey, Fred van Hove, Alexander von Slippenbach, Ireen Schweizer, Peter Kowald, Han Bennink e Pierre Favre, a nata da música improvisada de então. A sessão, aproveitando a convergência musical, mas sobretudo ideológica, que unia todos estes músicos, teve como base uma sessão radiofónica em Bremen. Três pianistas, três baixistas, três trompetistas, três saxofonistas, dois bateristas unidos na criação de um magma explosivo de ideias, o fragor e a excitação do “free” tornado palco de batalha, mas também lugar de exteriorização de uma energia sem limites. Não convém estar no meio quando os pianos de Slippenbach, Van Hove e Schweizer partem a louça e as convenções, nem quando Han Bennink e Pierre Favre juntam forças para fazer deflagrar os seus torpedos e granadas. Seria como ser-se esmagado por placas tectónicas.
No mesmo ano, alguns destes músicos voltariam a reunir-se em “The Living Music”, num grupo mais reduzido, desta feita sob a liderança de Alexander von Slippenbach, estando presentes, além do mentor da Globe Unity Orchestra, Peter Brötzmann, Paul Rutherford, Han Bennink e J. B.Niebergall, participando pela primeira vez Michel Pilz, no clarinete baixo e saxofone barítono. A gravação decorreu sob a égide do engenheiro de som alemão Conny Plank, responsável nos anos 70 por inúmeros álbuns importantes do “krautrock”. E sente-se a sua mão.
Se “European Echoes” é um vulcão em atividade, “The Living Music” é “free music” com assento na eletro-acústica mais sofisticada e segundo a mesma conceção de som “cósmico”, ou espacial, que marca inconfundivelmente toda a produção de Conny Plank (convém esclarecer que, na Alemanha, o “krautrock” rondou de perto, neste período, o jazz. Wolfgang Dauner cortejou a música eletrónica e o rock progressivo, Jaki Liebezeit, baterista dos Can, integrou a Globe Unity Orchestra, Mani Neumeier, baterista dos Guru Guru fez parte de várias formações de “free jazz”…). As percussões e o piano ganham dimensões extra, abrindo novas hipóteses de exploração interna. Vislumbra-se o gozo da revisitação aos primórdios do “free”, em “Into the staggerin”, mas o que de facto permanece como absolutamente atuante e atual é a extrema vitalidade e organicidade desta música, que ousou, mais do que romper a tradição, revolvê-la e introduzir nas suas entranhas novos enxertos e sementes.
Em “Balls” (1970) já só encontramos Peter Brötzmann e o seu tenor embruxado, Fred van Hove, e as suas marionetas de piano, e Han Bennink, fabricante de percussões ilimitadas. Dois temas extra, “Untitled 1” e “2”, foram acrescentados ao alinhamento original do que foi a primeira gravação oficial do trio. Brötzmann é de uma fisicalidade extrema, levando a estética do grito contínuo ao esgotamento e, finalmente, ao silêncio. Fred van Hove dá uma amostra da heterodoxia que pauta o seu discurso pianístico, Bennink inventa ritmos como uma criança que constantemente troca de brinquedo. Quem tem “balls” que apare os golpes desta música lançada como facas aos que a ela se encostam como simples figurantes.
Posto à venda originalmente em edição limitada, “Complete Vogel Recordings” reúne as duas gravações efetuadas pelo pianista belga Fred van Hove entre 1972 e 1974, para o selo Vogel: “Live at the University”, piano solo registado nas universidades de Bruxelas e Antuérpia, e “Een Tweede Vogel”, em duo e em estúdio com o saxofonista tenor Cel Overberghe, mais um 45 rotações raro. A solo, Fred van Hove vai dos delírios mais livres ao “ragtime”, da balada e da marcha funerária ao exibicionismo, ao romantismo traficado e ao teatro burlesco, sem esquecer o ricochete de bolas de pingue-pongue nas cordas do piano. Já os duetos com o saxofonista vão do “free” e do exercício de escalas (num irónico “Bas la police”) até “New Orleans”. Em “Alle eendjes”, Van Hove troca o piano pelo órgão Hammond, enquanto no tema seguinte, introduzido por um excerto
de música concreta, é a vez de
Overberghe trocar, graças ao
“overdubbing”, o saxofone pelo
baixo e pela bateria.
Aproximemo-nos, por fim, do outro mundo, com “Music from Tomorrow’s World”, de Sun Ra e da sua Arkestra, captado ao vivo em 1960 na Wonder Inn de Chicago e, em estúdio, num obscuro The Majestic Hall. Infelizmente, o som ao vivo é pavoroso, o que faz diminuir um pouco o prazer de acompanhar as sessões quase clandestinas realizadas de madrugada pela Arkestra, ao longo de um ano de residência, entre mesas apinhadas e as paredes apertadas de uma taberna. Por lá passaram, como assistentes e participantes, Roland Kirk e Stan Getz (John Coltrane também quis, mas, reza a lenda, o porteiro ou quaisquer outras razões misteriosas não terão permitido a sua entrada…). Lá dentro, o som de uma festa. A Arkestra a tocar uma música primitiva, swing, batuques, cânticos de “music hall”, ritmos e flautas infantis (“Spontaneous simplicity” poderia pertencer a Raymond Scott) e fanfarra (Roscoe Mitchell e Joseph Jarman assistiram igualmente a estas sessões, aprendendo com elas muito do que viriam a pôr em prática nos Art Ensemble of Chicago), aos poucos fazendo coincidir “primitivo” com “ancestral”, levando os sons da selva para o desconhecido ou para a música de salão, nas várias versões de “Majestic”. Música de magos. Em mangas de camisa.

The Bad Plus – “These Are The Vistas” + Mark O’Connors Hot Swing Trio – “In Full Swing” + Judy Niemark – “About Time” + Clare Teal – “Orsino’s Songs” + Alexi Tuomarila Quartet – “02” + Christian McBride – “Vertical Vision” + Kenny Garrett – “Standard Of Language” + Marty Ehrlich – “The Long View”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 3 Maio 2003

O ponto de vista determina a visão da música. Há jazz para se ouvir de pantufas, jazz para não se pensar em nada e jazz que obriga a pensar. Descubra o leitor o lugar onde se sente mais confortável.


Vistas, vision, view

THE BAD PLUS
These are the Vistas
Columbia, distri. Sony Music
7|10

Os músicos não têm aspeto de músicos de jazz, conforme os cânones vigentes na “Enciclopédia dos Mitos do Jazz” (ed. Parker & Son, 1990), mais parecendo uma trupe de “grunge”, e “These are the Vistas” também não será um disco de jazz convencional. Os Bad Plus não são, aliás, normais. Reid Anderson (baixo), Ethan Iverson (bateria) e Dave King (piano) são descritos como um “power piano trio” de arrasar e é de facto sobre a torrente energética deste instrumento que o poder se instala. Encaixadas entre os vários originais do grupo, chamam a atenção as versões de “Smells like teen spirit”, dos Nirvana, “Flim”, de Aphex Twin, e “Heart of glass”, dos Blondie. O tema dos Nirvana chove com tristeza e beleza inauditas, com o piano de King a fazer lembrar os tempos de Roger Miller com os Birdsongs of the Mesozoic: notas soltas, marteladas, musculadas em regime de romantismo machista, clusters e cordas percutidas. Com a energia do rock & roll. King swinga como se estivesse na parada, de armas na mão, de compasso preparado para a batalha. Não é um pianista subtil, o seu “approach” refugia-se na dureza e no desafio, quando o lirismo assoma, tem ainda o jeito desengonçado dos pesos-pesados apaixonados pelos “blues”, como em “Guilty”, ou o sabor na boca dos impressionistas, como em “Silence is the question”. “Flim” (com o “gimmick” de um megafone traficado) e “Heart of glass” são, por sua vez, sujeitos a um processo de desconstrução que, de caminho, transforma as melodias em mutantes. Pós-jazz, se quiserem, a música dos Bad Plus é a de rapazes malcomportados com bom coração.

MARK O’CONNORS HOT SWING TRIO
In Full Swing
Odyssey, distri. Sony Music
7|10

Mark O’Connors (violino) e Frank Vignola (guitarra) recuperam em “In Full Swing” a estética “duelística” do violinista cigano Stéphane Grapelli e do guitarrista, também cigano, Django Reinhardt, no célebre Quinteto do Hot Clube de Paris, em meados dos anos 30. O “swing” acontece quando tudo entra nos eixos na “performance” de um músico ou de um grupo. “In Full Swing” swinga, não no modo “full”, mas com a fluência e o rigor de quem estudou bem a lição. Wynton Marsalis é o trompetista convidado (é interessante escutá-lo nos pouco usuais registos de “ragtime”) e Jane Monheit dá voz a “standards” ultra-explorados como “Honeysuckle Rose”, “Misty” e “As time goes by”. Escutamos a música de Grapelli e Django como se estivesse simultaneamente perto e longe. Sentem-se as afinidades mas percebe-se, por mais tecnicistas que O’Connors e Vignola se revelem, que o génio é fogo intransmissível.

JUDY NIEMARK
About Time
Ed. e distri. Sony Music
6|10

Já que se fala de jazz tradicional e bonito, porque não deixarmo-nos embalar pelas vozes de Judy Niemark e Clare Teal? Judy Niemark tem um registo próximo do de Matilde Santing, morno e insinuante, e a música de “About time” serve-a às mil maravilhas. Uma música que flutua nas ondas da bossa nova, no vibrafone etéreo de David Friedman, no baixo estival de Eddie Gomez e no saxofone, aqui também sonhador, de Lee Konitz. Sem riscos nem coriscos, o programa percorre “standards” de Rodgers/Hart e Bernstein, “’Round midnight” de Monk, “Time remembered”, de Bill Evans e “Time after time”, de Cindy Lauper. Curiosamente, a totalidade dos doze temas refere-se ao tempo e Judy não perde tempo em tentar seduzir-nos. Se nos refastelarmos num sofá, descansa e conforta. Quem procurar demónios, esqueça!

CLARE TEAL
Orsino’s Songs
Candid, distri. Dargil
7|10

Se a voz de Judy é veludo, a de Clare Teal alia aos tecidos macios um “vibrato” que, quando quer, sabe arranhar. Embora o início não pudesse ser mais soalheiro, com uma estonteante versão de “California dreamin”, hino do “flower power” popularizado nos anos 60 pelos The Mamas and The Papas, massajado por um solo de rebuçado de saxofone alto por Alan Barnes. Mas depois anoitece e desce-se aos bares e Clare senta-se ao balcão como Jessica Rabbit no filme, cromo animado de enredos de sedução que já não há. “The way you look tonight”, Porter, Rodgers/Hart, Gershwin e um pacote de originais confirmam o calor, a plasticidade e o “feeling” vocal da cantora. Continua a ser jazz para se ouvir de pantufas (“Ready for love to begin” é “Mary Poppins”…) mas, com mil raios, sabe tão bem fechar os olhos e sonhar…

ALEXI TUOMARILA QUARTET
02
Finlandia, distri. Warner Music
7|10

O jazz nórdico também vive fora da ECM. Oriundo da Finlândia, o quarteto do jovem pianista Alexi Tuomarila, se não é uma locomotiva que leve esta música às estações terminais, confirma pelo menos que o “mainstream” não está seguro por alfinetes. Tuomarila estudou pop e jazz em Oulunkylä, passou pelo Conservatório de Bruxelas e as suas principais influências são Keith Jarrett, Bill Evans, Bobo Stenson e Brad Meldhau que, na capa, lhe tece os mais rasgados elogios, enaltecendo o seu sentido rítmico. Sibelius (“Sacrament”) e o quinteto de Miles Davis (presente, aliás, na assinatura de um dos temas, “Solar”) são igualmente apontados como balizas. “Noàdi” e um “Goodbye little godfather” jarrettiano comprovam a força e naturalidade do “riffing”, acentuando essa proficiência rítmica que lhe é apontada, mas é o lirismo distendido de Bill Evans que amiúde prevalece no desenho melódico. Como segundo solista, o saxofonista Nicolas Kummert revela-se um bom discípulo da escola, com raízes nas tradições nórdicas, de Jan Garbarek.

CHRISTIAN MCBRIDE
Vertical Vision
Warner Bros., distri. Warner Music
7|10

Começa com uma “blague”: quinze segundos de um velho vinilo riscado com música dos primórdios do jazz. “No, no, put another record!”, grita uma voz, e “Vertical Vision” embrenha-se nos meandros do “jazz rock” através de um “groove” alimentado pelo baixo de McBride. Jazz moderno não será lá muito, mas o “funk” tornou-se uma benesse nos dias atuais de “lounge” e espuma. E “funk” mais “funky” que o do tema de Joe Zawinul (“Boogie woogie waltz”) que fecha esta visão vertical, não há. Ron Blake é razoavelmente plástico nas ornamentações dos saxofones tenor e soprano e David Gilmore mostra-se um competente guitarrista de rock, sedento de eletricidade. São “riffs” e motivos transcritos dos anos 70 e do “jazz rock” de bandas como os Soft Machine, Nucleus, Passport e Soft Heap (“Taihitian pearl” assenta a matar no gosto dos apreciadores de jazz progressivo) ou da fase mais “groovy” de Herbie Hancock. A boa notícia é que McBride e os seus companheiros entregam-se à música com uma jovialidade que dá a entender que esta foi uma sessão feliz.

KENNY GARRETT
Standard of Language
Warner Bros., distri. Warner Music
8|10

Outra boa notícia é que Kenny Garrett deixou de lado as concessões ao “bonito para pendurar na parede” que marcavam o disco anterior, “Happy People”, regressando em “Standard of Language” a uma música pujante que faz jus ao estatuto alcançado por este antigo “sideman” de Miles Davis. Digitação fluida, timbre cheio e uma imaginação em ação permanente, a impedir o recurso ao bordão dos “clichés”, caracterizam este retorno ao grande jazz, enquanto discurso que passa de dentro para fora e não o contrário. O hard-bop está na massa do sangue de “Standard of language”, seja na recriação do “standard” de Cole Porter, “What is this thing called love?”, seja na citação a McCoy Tyner de “Chief blackwater”, seja ainda nos três movimentos que constituem o título-tema, um tratado de swing e a confirmação da extraordinária coesão de um grupo que parece ter ressuscitado de “Happy People” para este novo registo, com particular evidência para o pianista Vernell Brown e o baterista Chris Dave.

MARTY EHRLICH
The Long View
Enja, distri. Dargil
8|10

Impressionista, a música de Marty Ehrlich (saxofones soprano, alto e tenor, clarinete baixo, flauta), como a de Satie ou Debussy, justapõe células melódicas, harmónicas e rítmicas de modo a criar uma estrutura que vive tanto da sua arquitetura intrínseca como da relação sensorial e afetiva com o ouvinte. “The Long View” é uma “suite” em seis movimentos e um poslúdio, cada um deles correspondente a um quadro do pintor Oliver Jackson, com quem Ehrlich travou conhecimento nos anos 70, através de Julius Hemphill, e cujas obras, estamos em crer, já por várias vezes foram aproveitadas graficamente para algumas capas de álbuns do saxofonista. Como numa auto-estrada de múltiplas faixas de rodagem, os solos e as sequências coletivas caminham lado a lado em velocidades diferentes, criando ilusões de aceleração e retardamento em que apenas a visão aérea, ou a “long view” do título, permitem distinguir a totalidade e intensidade gerais do tráfego. Sequências de pura matemática instrumental, interlúdios de música de câmara, instantes de lirismo (como os criados pelo piano de Wayne Horvitz no “Movement IV”), pinceladas “free”, instantes de pausa num bar da “downtown” e os “blues” (num “Movement V” etilizado pelo trombone de Ray Anderson) convergem numa obra de fôlego que, entre os vários participantes, conta com Ned Rothenberg, Mark Dresser, Mark Feldman, Bobby Previte, e os já citados Ray Anderson e Wayne Horvitz.