Arquivo da Categoria: Artigos 2003

Nina Simone – “Nina Simone (1933-2003)” / “A indomável” / “Nina Simone, rainha da música negra” (artigo de opinião / obituário)

(público >> cultura >> jazz >> artigo de opinião)
quarta-feira, 23 Abril 2003


Nina Simone (1933-2003)

A indomável




Nina Simone, rainha da música negra

Sacerdotisa da “soul” e do “gospel”, cantora de jazz, intérprete de Brel, Nina Simone foi acima de tudo uma voz do tamanho do mundo que lutou contra os preconceitos. Musicais e raciais. Encontrou-se a si própria a sós com um piano. Morreu na segunda-feira

Amada e odiada. Quase sempre incompreendida. Nina Simone esteve sempre à margem de onde queriam que estivesse. E quando a encontravam, mudava de lugar. O jazz olhou-a de soslaio. A pop condescendeu em aceitá-la. Não foi nem uma cantora de jazz nem uma cantora pop. Foi uma cantora. Morreu na segunda-feira, aos 70 anos, em casa, em Carry-le-Rouet, nos arredores de Marselha, e o corpo vai ser cremado na sexta-feira, no cemitério de Saint-Pierre, na mesma cidade.
“Se tiver que ser chamada alguma coisa” – escreveu na autobiografia “I Put a Spell on You”, de 1991 – “que seja cantora folk, porque houve mais folk e blues do que jazz na minha música”.
“I put a spell on you”, também a emblemática canção de Screamin’ Jay Hawkins, e que integrou no seu reportório, define na perfeição a sua atitude perante a música e os que a ouviam. Folk era gospel na sua indomável voz de contralto de vagabunda entre o céu e o inferno. E gospel é “God” e “spell”, Deus e feitiço.
Nina Simone lançou um feitiço, uma maldição. Impacientava-se e exigia dos outros o que muitas vezes não exigia de si. Uma entrevista mal conduzida, um ruído entre a assistência, eram suficientes para a exasperar. Como consequência, e de acordo com o efeito de retorno que é uma das principais leis da magia, foi paga na mesma moeda: a sua música leva, por sua vez, alguns ouvintes ao desespero.
Houve, sem dúvida, cedências e falhas na gestão da sua carreira. De gosto e de coerência. Que se perdoam. Nina Simone era uma força da Natureza, um grito gutural num momento, uma oração rezada em segredo, no outro. É difícil descobrir o centro do ciclone, o ponto onde o orgulho e a revolta, a visão e o caos, o grito e o silêncio nela se reconciliaram em obra de arte. Mas ele existe e assombranos e essa obra tem nome: “Nina Simone and the Piano!”, álbum de 1969, reeditado pela primeira vez em CD, em versão remasterizada, pela RCA, no ano passado, e considerado pela crítica de jazz nacional como uma das reedições do ano.
“Nina Simone and the Piano!” apresenta a cantora e compositora no formato mais despojado e intenso que é possível desejar. Voz e piano, energia e disciplina, por uma vez unem-se com a finalidade de nos fazer estremecer. É um álbum de gospel e de blues, de périplos solitários, de ascese e queda. Para alguns soará como o seu álbum mais incompreensível, porque absolutamente criado no interior de uma espécie de universo paralelo onde as emoções e o instinto se casam segundo uma lógica indecifrável pela razão. Mas esse é precisamente o caminho que não se deve seguir para dar com a música de Nina Simone. Pelo contrário, se nos abandonarmos ao vento (“Wild is the Wind” é o título de um dos seus álbuns), à água e ao fogo, à tempestade e à bonança, aí sim, encontraremos o sentido mágico em que todas as partes se juntam para revelar a imagem do Todo. Uma das canções do álbum, “Everyone’s gone to the moon”, é “crooning” astral, rito de passagem de alguém eternamente em trânsito, de uma sociedade injusta e desumanizada – que Nina sempre condenou – para um mundo ideal onde se diz que vivem os poetas.
Nina, a nómada, que viajou na música como pela vida, deixando os EUA em 1973, falida e divorciada, para habitar na Libéria, Barbados, Suíça, Holanda, Inglaterra e França, onde se estabeleceu há oito anos, vindo aí a morrer. Nina, a “jazz singer” que o jazz esteve perto de condenar ao degredo. A ela que, numa entrevista, confessara: “Foi sempre meu propósito permanecer afastada de quaisquer categorias – é a minha liberdade. Porém, liberdade é, para mim, a própria definição do jazz, por isso não posso afirmar que não sou uma cantora de jazz.”
Noutra canção de “Nina Simone and Piano!”, “Who am I?”, de Leonard Bernstein, é mostrada outra faceta, a do seu próprio espanto frente ao espelho, mas também a transcendência. “Acreditas na encarnação? Já aqui estiveste? Tiveste essa experiência? Então deverás questionar todas as verdades conhecidas…” Foi o que ela fez.

Jovem, prendada e negra
Eunice Kathleen Waymon (o seu verdadeiro nome) nasceu em Tryon, Carolina do Norte, há 70 anos. Filha de músicos, estudou órgão e piano na prestigiada Juilliard School, de Nova Iorque, encetando a sua carreira como pianista em 1954, num bar-churrascaria de Atlantic City, ao mesmo tempo que assumia o nome artístico por que ficou conhecida, Nina Simone, para não ser descoberta pela mãe.
Entre dois churrascos e uma escala de piano, pediram-lhe, ou forçaram-na, a cantar. Nina cantou como se fosse Billie Holiday. Ou, por outras palavras, como se cantar fosse uma forma de sobrevivência. Já nessa altura havia quem, entretido a deglutir um bife, não se deixasse tocar. Nina vingava-se, carregando, ao piano, nas notas do classicismo, compondo a figura paradoxal de um piano de fraque a dançar com uma voz de guerreira-amazona.
Em 1957 assinou o seu primeiro contrato discográfico, com o selo Bethlehem, conseguindo o primeiro “hit” com “I loves you, Porgy”, um tema de Gershwin extraído do musical ”Porgy and Bess”, dispersando a partir daí a sua extensa discografia (demasiado extensa e pouco criteriosa, bradam os porta-vozes do cepticismo) pela Colpix, Charly, Roulette, Philips, Verve, Mercury, Canyon, Carrere, Accord e RCA, entre outras editoras. “Nina Simone and her Friends” (1957), “The Amazing Nina Simone” (1959), “Pastel Blues” (1965), “I Put a Spell on you” (1965), “Nina Simone Sings the Blues” 1966), “Wild is the Wind” (1966), “Silk and Soul” (1967), “High Priestess of Soul” (1966), “Emergency Ward!” (1973), “Baltimore” (1978), “Live at Ronnie Scott’s” (1984) e “A Single Woman” (1993, o disco que marcou a sua reentrada no mercado norte-americano) são exemplos de uma coleção infindável de registos nos quais se inclui uma percentagem elevada de gravações ao vivo. Nina Simone actuou em Portugal, no Casino do Estoril, em Setembro de 1987.

Cantora de protesto
Tudo cabia nesta voz que levou talvez longe de mais o seu poder mas que deixou marcas em Aretha Franklin, Roberta Flack, Laura Nyro, Dee Dee Bridgewater, Rickie Lee Jones, Norah Jones e, surpreendentemente, Beth Gibbons, vocalista dos Portishead. De onde se depreende que a ”soul” girava com mais intensidade. Chamaram-lhe, aliás, “the high priestess of soul” (como o álbum), a suma sacerdotisa
da “soul”.
Gospel, blues, jazz, pop, cabaré foram atravessados pela sua voz sem fronteiras. E a canção de protesto, fruto de uma aguda consciência social e política, que veiculou em canções como “Mississipi goddamn”, composta em resposta ao assassínio de Medgar Evers, um advogado defensor dos direitos civis da população negra, o manifesto feminista “Four women”, “Why the king of love is dead”, inspirada no assassínio de Martin Luther King Jr. e “To be young, gifted and black”, de Simone e Weldon Irvine Jr., posteriormente interpretada por Aretha Franklin e eregida hino do “black pride” norte-americano. Posição que terá levado algumas vozes críticas, como as do jornalista nova-iorquino Whitney Balliett, a afirmar que Nina se tornara “mais interessada na mensagem das suas canções do que na maneira de as cantar”. Hollie West, do “Washington Post”, preferiu chamar-lhe a representante da “indomabilidade humana”. Há cerca de cinco anos, interrogada sobre o estado do racismo nos EUA, Nina Simone declarou simplesmente: “Pior do que nunca!”
Nina Simone cantou George e Ira Gershwin, Richard Rodgers, Billie Holiday, Duke Ellington, Weill/Brecht (“Pirate Jenny”, enquanto reflexão amarga da experiência das populações negras africanas e americanas), Jacques Brel (há quem prefira a sua versão de “Ne me quitte pas” ao original), Bob Dylan, Leonard Cohen (“Suzanne”), Bee Gees (“To love somebody”), George Harrison (“My sweet Lord”) e um tema do musical ”Hair”, “Aint’t got no – I got life”.
Cantou como se o mundo fosse acabar num minuto e se recompusesse no seguinte. De certa forma foi isso que aconteceu quando uma das suas canções mais antigas, “My baby just cares for me”, foi usada em 1987 num anúncio de televisão do perfume Chanel e se tornou um êxito.
Em “Nina Simone and the Piano!” alberga-se ainda uma canção, “The desperate ones”, cujos versos poderiam servir de epitáfio: “The desperate ones, they walk without a sound, the desperate ones”. Os desesperados caminham sem um ruído, os desesperados. Nina Simone disfarçou tal facto, cantando com quanta força tinha.

DISCOS PARA RECORDAR NINA SIMONE
“My baby just cares for me”
“Don’t explain”

Escolho duas canções, duas interpretações fabulosas, “My baby just cares for me” e “Don’t explain”. Ao ouvi-las, penso no legado de Billie Holliday, de Sarah Vaughan, sinto uma grande afinidade com o meu universo. Sendo Nina Simone uma cantora tão versátil, nesses dois temas consegue estar muito próxima do jazz.
Bernardo Moreira, contrabaixista

“Nina’s Choice”
É uma cantora que opta por cantar a partir do coração, da alma, de dentro. Isso dá-lhe um carisma e verdade que passa através de tudo o que ela canta. E cantar é isso. É-me difícil eleger um disco. Opto por escolher um pelo título, um álbum que se chama “Nina’s Choice”, porque se a escolha é dela certamente é soberba.
Anamar, cantora e atriz

“Nina Simone and Piano!”
Qualquer tema cantado em inglês, desde que tenha o tempo lento em que ela era genial. Qualquer disco em que ela também toque piano. Todos vão escolher a interpretação de “Ne
me quitte pas”, de Jacques Brel, uma obra genial cantada com o sotaque americano/francês. Como os grandes autores que são intérpretes, nunca ninguém cantou ou cantará como ela esta canção de Brel.
José Duarte, crítico de jazz

“In Concert/I Put a Spell on You”
“The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”

Não escolho tanto discos, mas antes canções. “Feeling good” foi a primeira música que descobri da Nina Simone. Ouvi primeiro a versão dos Mighty Bop e depois cheguei à da Nina Simone, é do CD “In Concert/I Put a Spell on You”. Fiquei completamente apaixonada. Já fiz três desfiles com músicas dela, as outras duas são “Mr. Bojangles” e “My father/dialog”, do disco “The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”.
Maria Gambina, criadora de moda

“I loves you Porgy”
A canção que melhor recordo é “I loves you Porgy”. Das muitas versões que existem do “Porgy & Bess”, a maior de todas é a dela. É de uma negritude, uma declaração de raça absolutamente tocante, maravilhosa. Como cantora foi uma referência, tinha uma voz magnificamente grave, muito emotiva. Mas as duas experiências que tive com ela em festivais foram horrorosas – era uma pessoa insuportável.
Maria João, cantora

“Feeling good”
“Feeling good” foi uma canção de Nina Simone que escolhi para o [filme] “Jaime”. Havia mais canções previstas, mas esta foi a única que ficou. Eu tinha visto a imagem final com essa canção, o tom e a letra adequavam-se, havia uma ambiguidade na voz, alguém a convencer-se que é feliz. Era uma grande voz, inconfundível.”
António-Pedro de Vasconcelos, cineasta

“The Blues”
A arte de Nina Simone é ausente de complacência. A sua maneira de cantar leva-nos ao fundo da emoção, ao coração da vida. A sua representação do mundo está na sua obra e é isso que a torna única e universal.
Mísia, fadista

Drew Gress – “Spin & Drift” + Pharoah Sanders – “Spirits” + François Bourassa Trio – “Live” + Lee Konitz & Martial Solal – “European Episode” + François Théberge 5 c/ Lee Konitz – “Music Of Konitz”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 12 Abril 2003

A selva de Sanders. O gozo de Dress. E grande jazz do Hexágono, de ontem e de hoje. Espirituoso ou espiritual.


Espíritos à solta

DREW GRESS
Spin & Drift
Premonition
8 | 10

PHAROAH SANDERS
Spirits
Meta
7 | 10

FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi
10 | 10

LEE KONITZ & MARTIAL SOLAL
European Episode
CamJazz
9 | 10

FRANÇOIS THÉBERGE 5 c/LEE KONITZ
Music of Konitz
Effendi
6 | 10

Todos distri. Multidisc



Simbiose, com Drew Gress a trocar de papéis com o saxofonista Tim Berne, passando em “Spin & Drift” a assumir o papel de líder. Mas a cumplicidade entre ambos é tão grande que se torna irrelevante falar em liderança a propósito desta música em que a força do coletivo é superior à da soma das partes. Berne não é um saxofonista dramático, mas o timbre carnudo do seu alto permite colorir cada tema com os tons do folguedo. “Disappearing” é comunicação direta a quatro vozes entre o alto, o contrabaixo, o piano de Uri Caine e a bateria de Tom Rainey. Em “Torque”, o contrabaixista faz jus a um “swing” largo, Berne desce com agilidade às profundezas do barítono e Caine parece querer desmentir quem acusa o seu piano de frigidez. “It was after rain that the angel came”, outonal, reflete cambiantes de nostalgia nas notas do contrabaixo, com Caine resplandecente na sua faceta de recitalista clássico. A faixa exótica, e uma das mais belas do disco, chama-se “Aquamarine” e nela a “pedal steel guitar” de Gress escorre como um riacho pelo empedrado, com Caine a fazer tombar notas de chuva. Álbum belíssimo, forte sem gorduras, pujante sem gritar ao megafone, imaginativo sem cair no delírio.
“Spirits”, gravado ao vivo em 1998 em local não identificado, é o prolongamento lógico de toda a obra anterior de Pharoah Sanders, coltraniano coberto de missangas, cuja música viajou entre o “hard bop”, o “free”, a improvisação ascética e a música étnica. Os 19 minutos de abertura de “Sunrise” soltam os espíritos do mundo, em “drone” de ressonâncias indianas, com florescências de uma “mbira” africana, apontamentos de pequena percussão saídos da cornucópia de Adam Rudolph e o veterano Sanders a dividir-se entre a contemplação indolente no sax tenor e cânticos de chamamento. Organizado como um louvor à sabedoria “sufi ” e à intuição, “Spirits” oferece nesta longa prece introdutória mais do que um motivo de agrado aos apreciadores tanto do jazz como da “world music”. As restantes faixas oscilam entre o exotismo exuberante das percussões de Rudolph e Hamid Drake, o “free” do “quarto mundo”, como o saboroso piscar de olhos a Coltrane, “The thousand petalled lotus”, ou o “satori” de gongos e “overtone singing”, ecos da fauna e flora de uma selva tropical incrustada no cérebro. Flautas de bambu, tablas, batuques rituais, borboletas e flores canibais, “Spirits” une com as pontas de um arco-íris o passado ancestral a um futuro onírico, em que jazz e o folclore imaginário se entrelaçam, numa celebração exterior a qualquer noção de urbanidade como aquela que anima os Art Ensemble of Chicago. Um “Sunset” de fogo fecha como começou o ciclo do dia – “drone”, suspiros “aum” e os murmúrios da floresta. Pharoah Sanders encontrou o seu nirvana.
O disco da semana é o “Live”, do trio do pianista François Bourassa, registado em Toronto em Maio de 2001, com Guy Boisvert (contrabaixo), Yves Boisvert (bateria) e o convidado André Leroux, nos saxofones tenor e soprano e flauta. Bourassa é um fabuloso arquiteto e desenhador com uma fluência e imaginação inesgotáveis. O modo como constrói em crescendo “30 Octobre 85”, partindo de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de Leroux, no tenor, constitui daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação.
A contrastar, “W! U! W!” surge de seguida como um “pizzicato” de sombras e silêncios. Frases sintéticas, revelação de perspetivas oblíquas, que, uma vez iluminadas, adquirem a inevitabilidade das evidências. Como cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas. “Arico – Afab” confirma Bourassa como um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives. Mão esquerda de mago negro, mão direita de pintor renascentista, Leroux brilha e inventa a cada momento, acrescentando novas ideias e soluções inusitadas ao terreno, já de si fértil, semeado pelo pianista. Uma paisagem impressionista, ”13”, e uma homenagem, em duas partes, ao pianista Herbie Nichols dão a conhecer o outro lado da moeda. Flauta e piano em diálogo intimista, com Leroux a utilizar, sem exibicionismos, um leque de técnicas e respirações ”extensivas” e Bourassa, uma vez mais, a operar prodígios. Tudo isto a transbordar de ”swing”, a oferecer um espetacular momento de bop (“Chambrette”) e, a culminar, um “medley” de 16 minutos ao redor de Monk (“Four in one”/“Round midnight”/“Epistrophy”/“Trinkle tinkle”) que entra diretamente para a galeria dos clássicos. Um dos discos do ano.
A música de Lee Konitz ocupa o centro das atenções, em dois discos registados em épocas diferentes. ”European Episiode” recupera em versão remasterizada uma sessão de 1968 com o pianista francês Martial Solal e dois compatriotas seus, Henri Texier (contrabaixo) e Daniel Humair (bateria), nomes de referência do jazz com origem no ”hexágono”. Uma colagem de ”standards”, com Konitz no alto eletrificado, ”Anthropology”, de Parker e Gillespie, um clássico do ”bop”, a balada ”Lover man” e o blues “Roman blues” têm a companhia de “Duet for saxophone and drums, and piano”, um “divertimento” em forma de improvisação “free” que pode servir de manual de aprendizagem. Criatividade e liberdade exigem ordem, seja de que natureza for. Konitz, Solal, Texier e Humair são professores de Direito. Descodificar o código de leis elaborado pelos quatro é um dos muitos aliciantes deste episódio europeu.
É um Konitz mais velho e cansado que escutamos a enriquecer com a sua participação um álbum que lhe é dedicado, “Music of Konitz”, pelo quinteto do saxofonista tenor francês François Théberge. Mestre e discípulos mantêm distâncias, neste encontro que ocorreu em 2002 no clube Duc des Lombards, em Paris. O encontro das autocitações do “bopper” com a reverência dos cinco franceses não faz faísca.



Clifford Jordan & John Gilmore – “Blowing In From Chicago” + Jimmy Smith – “House Party” + Jimmy Smith – “The Sermon!” + Lou Donaldson – “The Natural Soul” + The Horace Silver Quintet – “Finger Poppin’” + Donald Byrd – “Byrd In Hand” + Jackie Mclean – “Jackie’s Bag” + Freddie Hubbard – “Hub Cap”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 05 Abril 2003

Clifford Jordan & John Gilmore
Blowing In From Chicago
8 | 10

Jimmy Smith
House Party
7 | 10

Jimmy Smith
The Sermon!
8 | 10

Lou Donaldson
The Natural Soul
7 | 10

The Horace Silver Quintet
Finger Poppin’
8 | 10

Donald Byrd
Byrd In Hand
7 | 10

Jackie Mclean
Jackie’s Bag
8 | 10

Freddie Hubbard
Hub Cap
9 | 10

Todos Blue Note, Distri. Emi – Vc

O hard bop teve na Blue Note um lar e uma escola. Oito novas remasterizações com selo Rudy van Gelder mostram outras tantas nuances do movimento que voltou a pintar o jazz com a raiva e as tintas negras do blues.


‘Hard bop’, 1º escalão

Chicago, onde os “blues” são mais tórridos e John Coltrane descobriu “mais jovens saxofonistas tenor do que em qualquer outra parte do país”. Nos anos 50, dois destes jovens tenoristas eram Clifford Jordan e John Gilmore. O primeiro herdeiro de Lester Young e Ben Webster, o segundo notabilizado na Arkestra de Sun Ra. “Blowing in from Chicago” é uma demonstração “hot”, plena de “swing”, das muitas que, nesta época, fizeram da Blue Note um dos lares privilegiados do “hard bop”. Os dois tenores entrelaçam-se em “Bo-till”. O “blues” reina, nas lições de piano de Horace Silver e nos mini-solos de Art Blakey, mestres absolutos do “hard”.
O “blues” do organista Jimmy Smith desliza de maneira diferente. Jimmy Smith integra na sua música a “soul”, o “rhythm’n’blues” e um lado “lounge” difícil de separar da sonoridade típica do Hammond. Duas sessões, a 25 de Agosto de 1957 e 25 de Fevereiro do ano seguinte, juntaram-se para dar origem aos álbuns “House Party” e “The Sermon!”. “House Party” inclui dois temas de Charlie Parker e inspirados desempenhos, no alto, de um dos seus discípulos, Lou Donaldson, deslumbrante na balada “Lover man”. “Just friends”, nas suas duas longas versões de 15 minutos dão azo a um entusiasmo “funky”, com o organista a fazer dançar e suar a sua mão direita e Lee Morgan a swingar na trompete num solo em que é visível o seu timbre “brilhante” e uma gama mais vasta de soluções harmónicas e melódicas que as evidenciadas pelo alto de Donaldson.
“The Sermon” soa a “jam” tocada no céu, com todos os participantes possuídos pelo “groove”. Soa mais descontraído e “cool” que “House Party”, como no título-tema. 20 min. de ondulação inalterável que quase recorda, respeitando a devida distância, as sessões de hipnose funk dos Can em “Future Days”. “J.O.S.” é easy listening na densidade (o Hammond parece pairar sobre as nuvens), tempo mais acelerado, cortado por um imaginativo solo de George Coleman, no alto. E que ninguém se assuste se ouvir Jimmy Smith a apitar pelo meio, marcando a duração dos solos, nem se choque se Lee Morgan fingir que não ouviu as buzinadelas insistentes e continuar a fazer o seu solo…
Mais “blues” e mais Lou Donaldson, em “The Natural Soul” (1962), pretexto para este saxofonista revisitar com mestria as escalas e “clichés” da matéria-prima do jazz. Ainda a devoção sem pecado do “gospel” e do “funk”. Tommy Turrentine, na trompete, mostra competência sem rasgos. John Patton é um organista mais linear e mais “pesado” que Smith, mas surpreende “dissonando” e fracionando o “bop” em “Sow belly blues”. Grant Green desenha na guitarra os “blues” com a distanciação do asceta e a nitidez que são seu timbre.
“Finger Poppin’” (1959) é um tratado de “hard bop” com assinatura de Horace Silver. Por vezes próximo de Monk, nomeadamente nos métodos de composição mas também no modo como parece querer abrir ao meio o piano até arrancar todos os segredos do seu ventre (ouça-se, a este propósito, “Juicy Lucy” ou as lentas e magistrais investigações involutivas, “Sweet stuff” e “You happened my way”). Blue Mitchell (trompete) e Junior Cook (sax tenor) “bopam” com agilidade horizontal. Silver sobe e desce. O que, no jazz, é bastante mais arriscado.
Donald Byrd é um dos trompetistas mais erráticos da história do jazz, tecnicamente competente, fluente quanto baste, mas sem uma verdadeira voz interior. Mesmo no ano do fogo de 1959, quando lançou um “Fuego” mal ateado e neste “Byrd in Hand”, agora reeditado, se pôs a falar de “Witchcraft” e “Devil whip”. Um dos temas, porém, redime o disco, “Here am I”, salvo por um daqueles motivos mágicos em que o jazz é fértil. Salvo pelo piano de Walter Davis Jr. e o saxofone barítono de Pepper Adams (volta a estar imparável em “Clarion calls”) aliados nesta síncope rítmica que fornece a senha para a volúpia.
“Jackie’s Bag”, de Jackie McLean (sessões compreendidas entre 1959 e 1960), constitui mais um motivo para andar na montanha-russa. Parkeriano na síntese da frase, metálico, agudo e acutilante no timbre, rude por vezes na transposição do discurso interior para o exterior, Jackie McLean entrou com o seu sax alto pelas ousadias do “free”, como de resto se pode comprovar pelas derradeiras frases de “Quadrangle”, de recorte ornettiano. Em “Isle of Java” encontramos o McLean quintessencial: obsessivo, flirtando tanto tempo quanto o necessário com a matemática harmónica do tema até pôr a nu todas as suas virtualidades.
A finalizar este périplo pelo “hard”, deparamo-nos com uma obra maior, por outra das suas figuras-chave, o trompetista Freddie Hubbard, tecnicista de um bom gosto e cultura irrepreensíveis, que no ano anterior a “Hub Cap” (1961) estivera presente no “Free Jazz” de Ornette Coleman e que, quatro anos mais tarde, integraria o grupo de eleitos que John Coltrane levou consigo, não se sabe se para o Paraíso ou para o Inferno, em “Ascension”. “Hub Cap” é um clássico, transcendente nos arranjos, nas variações contrapontísticas de “Cry me not”, de Randy Weston, no “swing” sensual de “Luana”, na perfeita articulação de um coletivo em que um Cedar Walton imperial, no piano, Julian Priester, no trombone, e Jimmy Heath, no saxofone tenor, levados ao colo por Philly Joe Jones, na bateria, e Larry Ridley, no contrabaixo, encontraram o plano ideal de compreensão e articulação, quase telepática, entre as ideias expostas na composição e a sua concretização instrumental.
Todas as reedições, com selo “The Rudy Van Gelder Edition”, além de temas extra, foram recuperadas em remasterizações de 24 bits e incluem novas notas informativas.