Arquivo mensal: Março 2024

Ganhões de Castro Verde – Ganhões Alentejanos Em Compacto”

pop rock >> quarta-feira, 09.06.1993


GANHÕES ALENTEJANOS EM COMPACTO

Pela primeira vez, um grupo de cantares alentejanos vai ter a sua música editada em compacto. Maurizio Martinotti e Beppe Greppi, dos La Ciapa Rusa, estiveram no Alentejo e gravaram os Ganhões de Castro Verde, na primeira produção conjunta entre a Robi Droli e a Etnia.



Os Ganhões de Castro Verde são umm dos muitos grupos de “cante” alentejano que proliferam pelas planícies e planaltos do Alentejo. Ao longo dos anos, este género de agrupamentos, cuja música remonta aos cânticos religiosos da Idade Média, tem sido sistematicamente manipulado pelas forças políticas. Votado ao ostracismo antes do 25 de Abril, depois utilizados, no período posterior à revolução, pelos partidos de esquerda, que dels quiseram fazer cavalo de batalha da luta de classes e da sua música porta-voz do proletariado. À esquerda ou à direita, a mesma cegueira e a mesma visão estreita. E a incapacidade de reconhecer nas “modas” alentejanas o canto vivo de uma tradição secular, sem dúvida ligada aos ritmos do trabalho e da terra, mas também à mensagem das estrelas, à ondulação das searas e ao sussurro do vento.
Com uma formação actual de 27 elementos, os Ganhões (nome dado aos assalariados que trabalhavam sem quaisquer contratos ou garantias) existem com esta designação desde 1972, com direcção artística de Francisco Caipirra, tendo ganho já vários prémios de “cante” alentejano. O grupo funciona no âmbito da Sociedade Filarmónica 1º de Janeiro, uma das mais antigas associações recreativas e culturais da localidade. A Câmara Municipal de Castro Verde, através do seu presidente, Fernando Caeiros, à frente dos destinos camarários da vila desde 1976, garantiu o apoio monetário e a disponibilização das infra-estruturas necessárias para levar por diante a iniciativa.
Durante cinco dias, entre 28 de Maio e e de Junho, Maurizio Martinotti e Beppe Greppi gravaram “modas” escolhidas pelo grupo, no Auditório do Cine Teatro da vila, com a selecção final dos temas a cargo de um dos solistas, o “alto” António Revez. Agora falta a prensagem e o desenho da capa, que incluirá as letras em português, italiano e inglês, compiladas por Mário Alves, da Cooperativa Cultural Etnia, fotos do grupo, da autoria de Rui Mota, membro da mesma cooperativa, e desenhos sobre os Ganhões e quotidiano rural no Alentejo, da autoria do artista popular Joaquim Rosa. Tudo terá de estar pronto até 13 de Julho, antes da realização, com início a 16, do festival de Vancôver, no Canadá, um dos mais importantes festivais de música tradicional, que este ano vai estar subordinado ao tema das polifonias vocais e para o qual os Ganhões de Castro Verde foram convidados, de novo com o apoio das entidades camarárias e da Sociedade 1º de Janeiro.
O compacto – primeiro com selo Etnia, na série Vozes (fazendo ainda parte dos projectos da nova editora mais duas colecções, uma dedicada aos novos grupos de música tradicional portuguesa e outra de reedição de gravações históricas existentes (em arquivo) – terá o seu lançamento oficial em Portugal no Outono, por ocasião da feira de Castro Verde, com um espectáculo dos Ganhões e dos La Ciapa Rusa em agenda.

Four Men And A Dog – “Shifting Gravel”

pop rock >> quarta-feira, 09.06.1993
WORLD


Four Men And A Dog
Shifting Gravel
CD Special Delivery, distri. MC – Mundo da Canção



A música tradicional dá pano para mangas, é verdade, mas nem toda a indumentária lhe fica bem. Os Four Men and a Dog, incensados pela, por vezes suspeita, “Folk Roots” (o álbum de estreia “Barking Mad” foi considerado álbum do ano por esta revista), chegam ao segundo álbum aureolados com a etiqueta de “grande revelação da música irlandesa tradicional”. Poderiam sê-lo, na realidade. Para tal, bastaria o facto de contarem nas suas fileiras com Arty McGlynn (o homem tem o dom da ubiquidade), o mago da guitarra contrapontística, e Gerry O’Connor, (Lá Lugh, Skylark) não menos assombroso, no banjo e no violino. Afinal, perdem-se. Não nos temas tradicionais, onde a prestação instrumental é imaculada, mas nas composições pessoais, onde o vector tradicional é totalmente posto de parte, em favor da energia dos “rhythm ‘n’ blues” de batida infernal, no atropelo de “Work Together”, da pop roçando à tangente na tradição, de “Another irish rover” ou em baladas que passam sem deixar marcas, como “Joh”. Pouco, para uma banda com as suas potencialidades, ainda por cima com sentido de humor, como dão a entender em “The Kilfenora sexy jig”. (6)

Compagnia Strumentale Tre Violini – “Matuzine”

pop rock >> quarta-feira, 09.06.1993
WORLD


Compagnia Strumentale Tre Violini
Matuzine
CD Associazone Culturale Barabàn, distri. MC – Mundo da Canção



Formação especializada na tradição violinística dos Apeninos e dos Alpes italianos, os Tre Violini são a face complementar dos La Ciapa Rusa e Barabàn, cujas obras se realizam dentro de parâmetros formais mais latos. Neste caso os arranjos primam pela fidelidade às respectivas fontes, sobressaindo, por oposição à sofisticação, o jogo cruzado dos três violinos, entre os quais o de Giuliano Grasso, membro dos Barabàn. Bailes de carnaval, matuzinas (daí o nome do grupo), valsas, mazurcas, polkas, um “scotis” (equivalente da “scottishe” britânica) e contradanças que, nalguns casos, põem em relevo estruturas que radicam na música italiana da Renascença. Guitarras acústica e renascentista, “bassetto” e contrabaixo acompanham as deambulações melódicas dos violinos e das violas de arco. Um álbum com maior ou menor apelo, consoante o gosto, para o consumidor generalista, mas de aquisição indispensável para quem já retira prazer das incursões pelos territórios delimitados por um determinado instrumento. (7)