Arquivo mensal: Abril 2019

Andrew Hill + Liam Noble Trio – “Andrew Hill no Seixal, Liam Noble no Porto” (antevisão / concertos / jazz / seixal jazz 2003 / festival de jazz do porto)

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sábado, 1 Novembro 2003


Andrew Hill no Seixal, Liam Noble no Porto


Andrew Hill entrou no jazz pela mão de Earl Hines


Dois pianistas de gerações e sensibilidades diferentes atuam hoje à noite em Portugal. Andrew Hill, a fechar o Seixal Jazz 2003. Liam Noble, no Festival de Jazz do Porto (1ª parte pelo quinteto de Pedro Guedes). O primeiro faz já parte da História, com lugar no panteão. O segundo prossegue uma linhagem nobre de pianistas ingleses como John Taylor, Gordon Beck, Keith Tippett, Mike Westbrook ou Michael Gibbs. Embora a sua “britishness”, ao contrário de qualquer um dos nomes citados, deixe algo a desejar…
Hill, 66 anos, natural de Chicago, entrou no jazz pela mão de Earl Hines, tocou com Charlie Parker, Coleman Hawkins, Miles Davis, Johnny Griffin, Joe Henderson, Hank Mobley, Lee Konitz, Roland Kirk… Mas foi depois de conhecer Alfred Lyons, fundador da Blue Note, nos anos 60, que a sua música ganhou uma dimensão tal que hoje todos reconhecem o seu álbum gravado para este selo em 1964, “Point of Departure” – com Kenny Dorham, um sublime Eric Dolphy, Joe Henderson, Richard Davis e Tony Williams – como uma das obras-primas do jazz.
Exótico, imbuído de uma negritude profunda, a arte pianística de Andrew Hill recebeu a influência de Bud Powell e Thelonious Monk, ao mesmo tempo impregnada da tradição rítmica do bop e de um sentido inato de experimentação. Entre as suas várias obras disponíveis em Portugal, contam-se, como de audição urgente, além de “Point of Departure” (reeditada e remasterizada para as “The Rudy Van Gelder Editions”, da Blue Note), “Passing Ships” (1969, acabada de reeditar em remasterização de 24 bits para as “Connoisseur Series”, também da Blue Note), com Joe Farrell, Woody Shaw, Dizzy Reece, Julian Priester, Bob Northern, Howard Johnson, Ron Carter e Lenny White, “But not Farwell” (Blue Note, 1990), com Greg Osby e Robin Eubanks, e “A Beautiful Day” (Palmetto, 2002) considerado um dos melhores discos de jazz do ano passado, em formato de “big band”, com Marty Ehrlich.
No Seixal, Andrew Hill apresenta-se em sexteto com Ron Horton (trompete), Marty Ehrlich (saxofones alto e soprano, clarinete), Greg Tardy (saxofones tenor e soprano), John Hebert (contrabaixo) e Nasheet Waits (bateria).
Liam Noble teve a bênção de John Taylor e acompanhou Kenny Wheeler e o desalinhado Lol Coxill. Além de um álbum de piano solo, “Close Your Eyes”, o seu novo trabalho, “In the Time”, apresenta-o na companhia do grupo que esta noite atuará no Porto, em cuja formação se destaca a presença do saxofonista Stan Sulzmann. Um particular conceito estilístico, mais próximo das heterodoxias em tons de “film noir” americano do que da escola inglesa, levou o crítico da revista “The Jazz Review” a comparar o seu autor a Wayne Horvitz e a considerar que “é o mais perto que um compositor britânico chegou à vívida anti-ortodoxia da cena ‘downtown’ nova-iorquina”.

Andrew Hill
SEIXAL Auditório Municipal do Fórum Cultural.
Tel.: 212276500.
Às 21h30 e 23h30. Bilhetes a 10 euros.

Liam Noble Group
PORTO Teatro Rivoli (Grande Auditório).
Tel.: 223392201.
Às 22h. Bilhetes a 15 e 20 euros.

Jason Moran Trio com Sam Rivers + Kenny Werner Trio – “Pianos, Para Que Vos Querem” (concertos / festivais / jazz / seixal jazz 2003)

(público >> cultura >> jazz >> concertos / festivais)
terça-feira, 28 Outubro 2003


Pianos, para que vos querem


Jason Moran Trio com Sam Rivers
SEIXAL Auditório Municipal
23 Outubro, às 21h30
Lotação esgotada

Kenny Werner Trio
SEIXAL Auditório Municipal
25 Outubro, às 21h30
Sala quase cheia

Cumpriu-se o primeiro fim-de-semana internacional do Seixal Jazz, mas ficaram por cumprir promessas de melhor jazz. Na quinta-feira, Sam Rivers, o mestre, não teve nos jovens músicos que o acompanharam parceiros musicais à altura das circunstâncias. Jason Moran e o seu trio deram mostras de um entusiasmo que, amiúde, se traduziu em despropósito, praticamente abafando o discurso do músico convidado. Rivers sorriu, encolheu os ombros, adaptou-se e, embora já sem o pulmão de outros tempos, desencantou mesmo assim sortilégios. Em compensação, Kenny Werner mostrou que o seu piano sabe fazer a distinção entre o essencial e o supérfluo, bem apoiado por uma secção rítmica onde a subtileza imperou sobre a espetacularidade.
Jason Moran veio ao Seixal com Tarus Mateen (baixo) e Nasheet Waits (bateria). Para distribuir um mostruário de poses de “jovens leões” modernaços e tecnicamente dotados. Mateen a cultivar um ar desleixado e a mostrar que velocidade de dedos – assim a modos como um Alvin Lee do jazz – é com ele. Waits a bater com força e a fazer transbordar os tambores e os pratos, assumindo um protagonismo nervoso. Moran é um bom decorador. Desenhou arabescos, núcleos melódicos, timbres aquáticos, cores berrantes, o problema está em que estes se enquadraram com dificuldade na lógica do “3 mais um”. Um solo romântico teve a adorná-lo o tipo de fraseados neoclássicos que das lições de Bill Evans retiveram um lado de “rock progressivo” à maneira dos Renaissance… Um catálogo de moda, pronto a folhear.
Que fez Sam Rivers, convidado de honra, no meio de tudo isto? Fez o que pôde, abdicando de submeter ao sufrágio do coletivo as suas ideias para, ao invés, se resignar aos delírios e sofreguidão do trio. Foi vê-lo sorrir com ar travesso, como quem diz, “são novos, perdoa-se-lhes a distração”. No saxofone tenor mostrou, mesmo assim, que na sua cabeça se entrecruzam, em simultâneo, mais ideias por segundo do que todas as que ficaram asfixiadas debaixo do chapéu de Jason Moran ao longo das mais de duas horas que durou o duplo “set”. O soprano girou suavemente em módulos circulares e acabou por ser na flauta que a imaginação se apoderou de mais espaço para respirar e improvisar com outra liberdade. Seja como for, a ligação Moran/Rivers soou a diálogo mal ensaiado. Mais por culpa do centralismo do primeiro do que por falta de empenho do segundo.

A voz essencial de Kenny Werner

Dois dias mais tarde, o piano teve a sua “vingança” com Kenny Werner. Tudo o que em Moran é artifício, em Werner transmuta-se em voz essencial. Num “Amonkst” de homenagem ao mítico bopper Thelonious Monk ou nas divagações em torno de uma “Siciliana” de Bach, Werner personificou a concentração, a clareza e a arte de navegar. Como em Moran, foram recorrentes as “saídas” e as viagens para o exterior dos temas centrais, com a diferença de que nunca soaram extemporâneas ou artificiais, como se um cordão invisível impedisse a imaginação de cortar os fios que a ligam à razão. Fluência, uma noção do ritmo próprio de um construtor de catedrais e um swing omnipresente criaram as bases sólidas sobre as quais foram edificadas imagens de extraordinária beleza, a uma escala mais evidente do que no último álbum do trio, “Beat Degeneration”. A dupla rítmica alemã formada por Johannes Weidenmueller (contrabaixo) e Ari Hoenig (bateria) evidenciou, por seu lado, uma leveza e subtileza extremas, nos antípodas da dupla de apoio a Moran. Filigranas, variações de compasso e pontuações milimétricas no caso do baterista. Pulsação orgânica, discrição e controle de velocidade no caso do contrabaixista.
Noutro local do festival, músicos portugueses em ação, um balcão de venda de CDs que foi a perdição de muita gente e uma exposição de cartazes pedagógico alusivos à história do jazz com enfoque na editora Blue Note criaram um ambiente acolhedor, ideal para se saborear o jazz. No sábado, mal se deu pela chuva e pelos trovões que ribombaram pela noite fora.

EM RESUMO
No duelo de pianos, Kenny Werner levou a melhor sobre Jason Moran. A vitória do essencial sobre o acessório. Sam Rivers fez parte de outra história.

Dave Liebman, Michael Brecker, Joe Lovano – “Gigantes Do Saxofone Em Lisboa” (concertos / jazz)

(público >> cultura >> jazz >> concertos)
domingo, 26 Outubro 2003


Gigantes do saxofone em Lisboa

No jazz o que não faltam é gigantes. “Giant” para aqui, “giant” para ali, pescoços esticados até acima das nuvens. Compreende-se e faz parte do jogo. Verdadeiros gigantes, daqueles que os homens a princípio não compreendem mas mais tarde veneram, houve muito poucos. Gigantes, porém de menor estatura, já se encontram em maior número. Hoje tocam em Lisboa três deles: Joe Lovano, Dave Liebman e Michael Brecker, num “Saxophone Summit”, genérico de grupo reconvertido para português num pouco fiel “Encontro de Gigantes” agendado para o Coliseu dos Recreios.
Pertencem os três à mesma geração (Lovano tem 50 anos, Liebman, 57, Brecker, 54) e dominam como poucos o saxofone tenor (o que, atenção, não faz o génio), embora Lovano também estenda os seus talentos ao alto e ao clarinete, Liebman ao soprano e à flauta, e Brecker, sempre “up to date” toque regularmente um EWI (“electronic wind instrument”). Vão desafiar-se mutuamente, competir e gerar empatias. E lançar um repto a uma secção rítmica composta por nomes não menos “gigantescos”, Phil Markovitz (piano) e, principalmente, Cecil McBee (contrabaixo) e Billy Hart (bateria).
Liebman e Brecker não escondem a sua admiração e a influência de Coltrane. Lovano afasta-se mais dos cânones. Liebman e Brecker não receiam aventurar-se pelos domínios do jazz rock. O primeiro tocou com Miles Davis nos anos 70, o segundo formou com Billy Cobham e John Abercrombie o grupo Dreams, com Mike Manieri os muito rentáveis Steps Ahead e, ao lado do seu irmão Randy, os Brecker Brothers, amados por muitos e odiados por outros.
Brecker e Lovano chegam a Portugal com álbuns novos na bagagem. Lovano e o seu “Nonet” com um “On this Day at the Vanguard” que está longe de fazer esquecer o unanimemente aclamado “From the Soul”. Lovano sabe, sem dúvida, encontrar o som certo do afago ou da aspereza com conta, peso e medida mas nem sempre o que agrada a um nível superficial é garantia de prazeres mais duradouros. Brecker, pelo contrário, merece toda a admiração pela forma como deu a volta ao texto da música de fusão, no admirável “Wide Angles”, com uma formação de 14 elementos, onde mostra ser, além de um saxofonista tenor de técnica imaculada, arranjador e líder de apreciáveis recursos.
Juntar as forças dos três poderá ser fórmula de sucesso, mas só depois do jogo começar se verá se as respetivas táticas encaixam sem conflito ou se, ao invés – o que até poderá se mais estimulante –, farão saltar faísca.

“SAXOPHONE SUMMIT” – ENCONTRO DE GIGANTES
Dave Liebman, Michael Brecker, Joe Lovano
LISBOA Coliseu dos Recreios.
Às 21h30. Tel. 213240585. Bilhetes entre 10 e 27,50 euros.