Arquivo mensal: Outubro 2016

Ray Lema – “Green Light”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
world

Ray Lema
Green Light
BUDA, DISTRI. DARGIL


Ray Lema – “Green Light”

Há um certo preconceito que pretende que toda a música composta por africanos deve soar “africana”, isto é, obedecer a esquemas imediatamente identificáveis como africanos e com produções que, embora condescendendo na sofisticação do estúdio, devem mergulhar fundo na tradição, leia-se, folclore, africano. É a mesma lógica que obriga a que um músico nascido no Minho esteja condenado a compor chulas ou que um parisiense tenha de usar boina e bigode e tocar uma valsa “musette” junto às margens do Sena. Precisamente, o cantor zairense está-se nas tintas para se a sua música é africana ou não. “Green Light” é “apenas” um lote de boas canções, interpretadas nos dialectos “douala”, “kikongo”, “swahili”, “mango” e “lingala” (sim, claro, mas nada impede um cantor venezuelano de cantar em “kikongo”…), com acompanhamento de piano e retocadas por percussões discretas, apoios vocais femininos em aguarela e um didjeridu. O segundo tema, “Soma loba”, por exemplo, é introduzido pelas notas de “Bonny & Clyde”, o qual, muito sinceramente, se duvida que seja um tradicional do continente negro. Esqueça-se então a proveniência geográfica da pessoa para nos concentrarmos na doçura da voz e na subtileza da composição. Não é um álbum de antologia, mas não é todos os dias que se faz História. Luz verde para Ray Lema, de quem se fica à espera de um próximo álbum de música irlandesa. (7)



Bùrach – “The Weird Set”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
world

Bùrach
The Weird Set
GREENTRAX, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


burach

I-m-p-r-e-s-s-i-o-n-a-n-t-e é o mínimo que se pode dizer da velocidade de execução e da excitação provocada pelo violino de Gavin Marwick, elemento dos electrofolkers The Iron Horse, que aqui, na qualidade de músico convidado, incendeia por completo a estreia dos Bùrach, grupo escocês vencedor, em 1994-1995, do “Scottish folk group competition”. O “set” de “three reels” é, neste particular, qualquer coisa de épico e de cortar a respiração, remetendo para a lendária prestação do velho “fiddler” dos Fairport Convention, Dave Swarbrick, no “medley” “Dirty linen”, de “Full House”. Marwick desvaira e, a meio do tema, parte a galope na direcção dos Balcãs. Poucos grupos rock conseguirão provocar tamanha descarga de adrenalina, por obra e graça de um violino em estado de furiosa aceleração. Além do “bonus” da presença de MAarwick, os Bùrach dispõem ainda de uma magnífica acordeonista, Sandy Brechin, e uma vocalista com alguma graça, Alison Cherry, ainda que pouco inspirada. Para aguentarem a pedalada, sempre que o violino ataca, os Bùrach chamam em seu socorro a velha batida binária “ceilidh”, pobre mas incomparavelmente útil à míngua de outros argumentos. De falta de sentido de humor é que ninguém os pode acusar, os safados. Chamar “Is our brain a house? No, it’s a life enhancing intergalactic electro virus” a um tema merece uma medalha. Interessante de ouvir, óptimo para dançar. (7)



Eliza Carthy & Nancy Kerr – “Shape of Scrape”

Pop Rock

17 de Abril de 1996
world

Eliza Carthy & Nancy Kerr
Shape of Scrape
MRS. CASEY, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


ec

Depois da companhia dos pais, Martin Carthy e Norma Waterson, Eliza, uma das actuais coqueluches do “fiddle” em Inglaterra, juntou forças com a não menos promissora Nancy Kerr. O resultado deste segundo esforço conjunto saldou-se por um lugar de destaque na lista dos melhores do ano passado para a “Folk Roots”. Para os aficionados do violino, num estilo, o inglês, menos fluido e mais sincopado que o irlandês “estandardizado”, é um “must”, com o bónus de excepcionais prestações vocais, a solo, como no “a capella” de Eliza, em “Lay down in broom”, “Growing (the trees they do grow high)” (transmitido pelo grande Walter Pardon) e “Bonny light horseman”, ou em harmonizações em duo, como “I know my love”, “The keek (or ride) in the creel” e “The wanton wife of Castlegate”, que estão ao nível de referências como The Watersons, Peter Bellamy, Shirley & Dolly Collis ou John Kikpatrick com Sue Harris. Nancy, uma voz mais juvenil, curiosamente possuidora de um tipo de textura velada que recorda Carole Pegg (Mr. Fox), tem o seu momento em “The poor & young single sailor”. Interessante é verificar como um número cada vez maior de aspirantes prefere a opção purista às facilidades e maior apelo mediático das fusões. Neste caso, nem admira. Quem sai aos seus… (8)