Arquivo mensal: Setembro 2015

Yole – “L’Amour d’Eloїse”

Pop Rock

21 JULHO 1993
WORLD

A ARTE DA JARDINAGEM

YOLE
L’Amour d’Eloїse

CD Several, distri. MC-Mundo da Canção


yole

Em primeiro lugar, esqueça-se o título, capaz de desencorajar qualquer um. Mas não, não tem nada a ver com Richard Clayderman. Agora – segurem-se bem – a melhor parte: “L’Amour d’Eloїse” é um sério candidato a ocupar um lugar de mérito na corte onde reinam os Lo Jai, com a sua obra-magna “Acrobates et Musiciens”, agora finalmente disponível em quantidades decentes nas lojas do costume. Os Yole são um quinteto francês, cujos membros (não vale a pena dizer os nomes porque ninguém os conhece) tocam uma quantidade apreciável de instrumentos: acordeão, harmónica, guitarra, baixo, sanfona, gaita-de-foles, clarinete, saxofone, oboé, violino, percussões e bateria (desculpem se gasto várias linhas a nomear a instrumentação, mas penso que esta serve para dar uma ideia da tonalidade, de uma concepção geral do som…). Dedicam-se a inventariar e, melhor ainda, a enriquecer a música tradicional da região de Vendée, um enclave situado na costa atlântica, a sul da Bretanha. Percebe-se a vizinhança. Nas formas vocais de canto e resposta, na construção sincopada dos compassos, embora menos bruscos que no Norte. A diferença está em que, divergindo das duas principais tendências seguidas pelos grupos bretões – uma de fidelidade extrema às raízes, caso dos Skolvan, Storvan, Stronibell ou Gwerz, outra, oposta, de fusão com o jazz e o rock, caso dos Gwendal, Triskell, Bleizi Ruz ou Sonerien Du –, os Yole são antes, utilizando o título de uma canção dos Malicorne, “jardineiros do convento”. Expressão, neste tipo de música, equivalente ao trabalho do jardineiro que transforma, adapta e recria a vegetação natural, de maneira a transformá-la num jardim. Escute-se, por exemplo, o resultado, no canteiro de delícias que é “Bonsoir madame la mariée/Pás d’ êté”. O mesmo que fizeram os Lo Jai, no álbum citado (o primeiro, “Musiques Traditionelles du Limousin”, é outra coisa) e, anos antes, grupos como os Maluzerne, Mélusine, Malicorne ou La Bamboche. Uma visão “palaciana” e aristocrata da folk francesa, já de si bastante sofisticada na forma e na variedade, cujo objectivo principal é a procura de uma essência, de um som ideal, obtido a partir da depuração e transformação do material étnico original. Dentro desta corrente, ““L’Amour d’Eloїse” pode desde já considerar-se uma das grandes surpresas deste ano. (9)

Sainkho – “Out Of Tuva”

Pop Rock

23 JUNHO 1993
WORLD

SAINKHO
Out of Tuva

CD Cramworld, distri. Megamúsica


sainkho

Tuva, região da Sibéria situada perto da Mongólia, está na moda. Hector Zazou e Vincent Kenis, produziram este trabalho onde a tradição vocal de Tuva ora se submete a uma batida de “disco” mutante, ora se aproxima das entoações das vozes búlgaras, ora ainda se deixa enlear em orquestrações heterodoxas, que recordam obras de Zazou como “Géographies” ou “Géologies”. Sainkho Namchylak diz-se influenciada por Yma Sumac e é detentora de um currículo estranho. Fez parte da banda Tri-O, considerada a resposta russa a Diamanda Galas, acompanhou Andreas Villenweider, estudou as tradições dos xamãs e lamas tibetanos, emigrou para Viena, para finalmente juntar uma das músicas populares mais estranhas do planeta com a electrónica de modo a, segundo diz, “transformar invocações rituais em canções pop”.
Entre Kyliz, capital de Tuva, Moscovo, Paris e Bruxelas, alguns dos locais onde o álbum foi gravado, “Out of Tuva” perfila-se no panorama da “world music” como um objecto sem classificação possível (uma das canções é uma “lullaby” entoada pelos xamãs com o fim de convencer uma cabra a adoptar um cabritinho…) e fonte inesgotável de fascínio. (8)

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