Arquivo mensal: Abril 2010

Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

25.03.2005
Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

LINK (“Sensus”)

Chegou a causar polémica a questão de se saber se Cristina Branco é fadista, cantora de fado ou nem uma coisa nem outra mas simplesmente uma cantora que também gosta de cantar fados. O imbróglio iniciou-se com os primeiros discos, como “Post-Scriptum”, quando Cristina tinha sede exclusiva da sua carreira na Holanda. Era então uma “fadista” exilada que no seu próprio país era encarada com certa estranheza.
Os últimos trabalhos, porém, baralharam a questão. “Corpo Iluminado” e, sobretudo, “Sensus”, inspirado na poesia erótica, mostravam já uma voz e uma sensibilidade adultas que de modo algum se confinavam ao universo do fado. “Ulisses”, o novo álbum, que apresenta amanhã no S. Luiz, em Lisboa (esta semana, ainda, quinta-feira em Aveiro), consuma a ruptura. Apenas um fado, “gaivota”. Todo o restante alinhamento respeita um outro roteiro de referências que passam pela música popular urbana. Em “Ulisses” Cristina Branco recusa terminantemente o epíteto de “fadista”. Não é um álbum de fados nem de fado mas um alinhamento, cuja lógica secreta apenas a sua intérprete detém, que inclui as assinaturas de Fausto, Vitorino, José Afonso e… Joni Mitchell. Custódio Castelo, como é hábito, completa musicalmente a maior parte do disco, com a sua guitarra portuguesa e uma inspiração que vai buscar inspiração ao fado, a Paredes, à música árabe e a outras tradições algumas delas existentes apenas dentro da sua cabeça. Cristina Branco dá voz e alento a visões poéticas construídas com as palavras de Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís gordo, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira e Paul Éluard.
Os velhos do Restelo ficam com os cabelos em pé, perante tanta e tamanha diversidade. A esses Cristina Branco faz ouvidos de mercador, prosseguindo um caminho que ela própria não sabe onde desembocará mas que forçosamente será da sua inteira e exclusiva responsabilidade. “Ulisses” é o disco das “vontades” e dos “desejos” da cantora, quase mimando os caprichos da mulher grávida, situação que viveu de facto e foi determinante na economia emotiva de “Ulisses”. “Ulisses” é o filho de uma cantora que não quer ver barreiras na linha de horizonte mas cujos pontos de exclamação são, ao mesmo tempo, pontos de interrogação. São vários os sentidos. Os sentidos que sentem, os sentidos que são setas, os sentidos que são dor. Os sentidos que também são línguas. Além do português, o sotaque brasileiro, o castelhano, o francês (na “Liberté” de Paul Éluard) e o inglês (em “A Case of You” de Joni Mitchell) são os idiomas usados em “Ulisses”, como ferramentas de um trabalho de exploração e descoberta. Poderiam parecer sinais de inquietação (e também são…) mas, mais do que sinais, são a carne e o espírito de canções provenientes de muitos mundos que Cristina Branco quer experimentar e transforma em verbos conjugados na primeira pessoa. Experiências alheias que se tornam suas. E no palco, a experiência amor e mais arriscada: a recusa de máscaras e a exposição nua no quadro da sua própria interioridade. Cristina Branco, por mais longe que a sua personalidade vá em busca de novas vivências, é sempre Cristina Branco. A exploradora. Que às vezes, quando o seu coração passa por lá, até canta o fado.

Cristina Branco
Sábado | 26
Lisboa | Teatro Municipal de S. Luiz
R. Antº Maria Cardoso, 38-58. Às 21h00. Tel.: 213257650. Bilhetes: €19,5 a €25,5. Na sala principal.
Quinta | 3
Aveiro | Teatro Aveirense
Pç. República. Às 21h30. Tel.: 234400920. Bilhetes: €17,5 (plateia); €15 (balcão)

Trio Patrekatt – Adam (conj.)

10.10.1997
World – Suécia
Cinco Violinos
A editora Xxource/Resource continua a fazer o seu trabalho de repescagem de clássicos, a par da edição de novos nomes da música da Suécia, na área tradicional mas também do progressivo (bo Hansson, Sammla Mannas Mama) ou de autores contemporâneos, como Lars Hollmer e o desconhecido Dan Gisen Malmqvist. Acabou de chegar mais um pacote de lançamentos. Cinco, uma equipa à base de viloinos.

Faz sentido começar pelo grupo mais antigo,, e também mais clássico, do pacote, os J P Nystroms, um quinteto oriundo da zona mineira que rodeia a cidade de Gallivare, onde, desde há séculos, está estabelecida uma comunidade de lapões. “Stockholm 1313 km” é uma colectânea de temas dos três ábuns de originais do grupo, gravados em 1979, 1980 e 1987, e de uma cassete editada em 1986. Joan Olafsson, dos Nörrlatar, refere-se aos J P Nystroms de forma entusiástica, insistindo no seu pioneirismo e na frescura das interpretações. Com base numa combinação de quatro violinos – tradição fortemente implantada em toda a Escandinávia – o som dos J P Nystroms não tem o poder de ruptura de alguns dos grupos suecos mais recentes, sendo antes uma abordagem calorosa e séria do folclore de uma região específica, equivalente ao que os Dubliners, por exemplo, fazem na Irlanda. (Resource, 6).

No capítulo das bandas novas, surgem pela primeira vez no mercado português os Trio Patrekatt, com “Adam”. A sua proposta é original, embora não propriamente destinada a impressionar uma quantidade grande de ouvidos: juntar duas “nyckelharpas” (violino arcaico munido de teclas, cuja sonoridade faz a ponte entre a rabeca e a sanfona) com um violoncelo. O som daqui resultante, não primando pela variedade, aposta necessariamente na expresiividade, aspecto em que o trio revela todas as suas capacidades. O reportório de “Adam” é constituído, além de originais do grupo, por “polskas”, ora de sabor clássico, ora de colorido mais popular e rural, que, se outro mérito não tivessem, constituem material de dança de primeira água. Depois, como acontece com frequência nesta região da Europa, a Escandinávia, a música popular está intimamente ligada às tradições mais antigas, da Idade Média e do Renascimento, o que lhe confere um sabor e poder evocativo muito especiais. Escute-se a este propósito, um tema como “Prefektens Favoriter”. A não perder, sobretudo para os apreciadores da escola violinística escandinava, que sabem apreciar as delícias de um grupo de referência como os JPP. (Xxource, 7).

Alegrem-se os furiosos do ritmo, que esperam a “next big thing” depois dos Hedningarna, Den Fule, Hoven Droven e Garmarna. Os Vasen têm tudo para corresponder a estas expectativas. O seu novo álbum, “Varldens Vasen”, assenta numa poderosa secção rítmica propulsionada pelas percussões do novo elemento do grupo, André Ferrari (um autêntico Fórmula Um…), sobre as quais os restantes três músicos, Olav Johansson, na “nyckelharpa”, Roger Tallroth, na guitarra, e Mikael Marin, na viola de arco, elaboram uma complexa tapeçaria de compassos e arranjos que, uma vez mais, estão fortemente enraizados na tradição, mas insistem na sua modernização. Reforçam a componente rítmica e – lá teremos que utilizar novamente o termo… – progressiva (“Börjar du fatta”, “Nitti pomfriti”, “Tartulingen”…) de uma música que se desenvolve em constantes alterações de andamento e soluções tímbricas, o que é notável se nos lembrarmos de que o grupo apenas dispõe de três instrumentos solistas. Curiosa a fusão Suécia-Indía em “Shapons vindaloo”. Esqueçam os preconceitos e saboreiem esta música de infinitos matizes. Bolas, os Vasen, conseguem ser tanto ou mais complexos que os Gentle Giant!… (Xxource, 8)

Dan Gisen Malmqvist é um compositor e clarinetista que andou nos anos 70 a tocar “jazz” com Ale Möller (actualmente um dos mais reputados músicos suecos, presença indispensável nos discos de Lena Willemark), quando travou conhecimento com o grupo Arbete & Fritid (já reeditado num dos primeiros álbuns da xxource), através dos quais descobriu uma nova forma de improvisação, intrinsecamente ligada à música tradicional. “Nattljus”, gravado já este ano, é o seu segundo álbum, após “Vattenringar”, de 1990. Nele encontramos uma música, quase sempre calma, que junta o lado mais introspectivo de Lars Hollmer com uma admiração pelo “bal musette” e a canção do “vaudeville” (“Motvals”, vocalizada por Karin Parrot) franceses e os folclores da Grécia e dos Balcãs, alternando com marchas mais próximas da fluidez de um Bo Hansson (“Glasskapet”) doq ue das lúgrubes fanfarras dos Arbete & Fritid. Se me é permitido escolher um tema, optaria pelo encantamento solena de “Sorg”, onde Malmqvist toca uma taragota (clarinete grego) a pensar na música de Charlie Haden. (Xxource, 7)

Para finalizar, e só para chatear, mais violinos, incluindo o típico “hardingfela” sueco, mais viola de arco, lira, violoncelo e órgaõ de vozes, gravados noutra editora sueca, a Drone, pelos Höök!. Se os J P Nystroms representam o lado maispopular deste instrumento, os “Höök!” representam a sua vertente erudita. “Höök!”, o disco, subintitulado “Musik Ur Svenska Handskrifter Fran 1600 – Och 1700-Talen”, incide no reportório do século XVII, constituindo, sem sombra de dúvida, matéria de regozijo para um melómano e música clássica, mas deixando o adepto mais intransigente da “folk” de mãos a abanar. Para este, sobra a voz de Susanne Raosenberg, cujas escassas aparições fazem lembrar as liturgias de Agnes Buen Barnas. (Drone, 7; todos os discos distri. MC – Mundo da Canção).

Curved Air – Phantasmagoria (conj.)

10.10.1997
Reedições
Fantasmas No Ar

Os coleccionadores da discografia progressiva dos anos 70 continuam a não ter mãos a medir, mesmo levando em conta que os mais ferrenhos não desistem de procurar furiosamente as edições originais em vinilo, tarefa por vezes difícil e bastante dispendiosa. Alheias a este tipo de purismo, as editoras continuam a retirar dos respectivos fundos de catálogo algumas referências que, à época da primeira edição, passaram praticamente despercebidas. Algumas destas novas reedições em compacto procuram revalorizar o produto de origem, quer através de uma apresentação e embalagem mais apelativas e contendo informação adicional, quer através da remasterização das fitas originais, de modo a melhorar significativamente as “perfomances” sonoras.

LINK

Os Curved Air viram, por fim, passar para o formato digital a sua obra-prima de 1972, “Phantasmagoria”. Com uma reprodução condigna da capa – uma deliciosa figura inspirada no imaginário de Lewis Carroll – e a inserção, no livrete, das letras de todas as canções. Em termos de informação, é tudo. Mas a qualidade e originalidade da música supera qualquer deficiência noutros aspectos. “Phantasmagoria” é o ponto culminante e, em simultâneo, o limite de uma música que nunca parou de evoluir nos três primeiros álbuns, começando por “Aircondittioning”, mais rock e imediatista, com passagem pela delicadeza sombria de “Second Album”. Em “Phantasmagoria” há, sobretudo, uma colecção de canções perfeitas que aliavam o pendor classicista do violinista Darryl Way (“Marie Antoinette”, “Cheetah” ou a aceleração electrónica de “Ultra-Vivaldi”, prolongamento do tema “Vivaldi”, incluído em “Aircondittioning”) com o experimentalismo do teclista Francios Monkman (explorado de forma magnífica no instrumental “Whose shoulder are you looking over anyway?”, um dos primeiros temas gravados por um grupo pop a utilizar um computador). Mas o que verdadeiramente projectava a identidade dos Curved Air eram as vocalizações de Sonja Kristina, cujas inclinações variavam entre dosi extremos, da visceralidade de uma Grace Slick à suavidade das cantoras folk. Uma voz que tanto era capaz de demonstrar a intensidade dramática de “Marie Antoinette”, o tropicalismo de “Once a ghost, always a ghost” e o encantamento mágico de “Melinda (more or less)”, como de segredar, com a maior candura, os prazeres da masturbação feminina. Um clássico. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 10)

Os Yes foram um dos pilares da música progressiva, odiados por uns e amados por outros. No centro do conflito esteve sempre a voz andrógina de Jon Anderson, para alguns insuportável mas para outros a incarnação do canto dos anjos. “Olias Of Sunhillow”, anteriormente apenas disponível em CD em edição japonesa (que incluía uma miniaturização do autêntico livro de gravuras que era a capa da edição inglesa original, na Atlantic), é o primeiro álbum a solo do cantor e, sem sombra de dúvida, o seu melhor. Em termos formais, é um conceptual – a história da ruína e salvação de um povo estelar, salvo por um profeta que os conduz pelo espaço-tempo até outro planeta – onde Jon Anderson tocava todos os instrumentos, incluindo a harpa, que aprendeu para o efeito, e os sintetizadores. A música oscila entre estranhas invocações vocais e sequências electrónicas que antecipavam as posteriores colaborações do cantor com Vangelis. É um álbum completamente à margem da grandiloquência dos yes, no qual Jon Anderson explanou da melhor forma a sua veia mística. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 8).

Hesitantes entre a grandiloquência, o jazz-rock, o progressivo e o comercialismo, estiveram sempre os Greenslade, projecto de dois ex-Colosseum, o teclista Dave Greenslade e o baixista Tony Reeves (que viria a integrar a formação derradeira dos Curved Air…). “Beside Manners Are Extra” apresenta progressos em relação ao álbum de estreia, na forma como equilibra boas canções pop com instrumentais entre o jaz-rock e o “rock sinfónico” (gulp!), que servia para mostrar as capacidades virtuosíticas de todos os elementos do grupo. Um aviso: a gravação não é famosa. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 7)

Poucos deviam conhecer, em 1970, a música dos Titus Groan, no único álbum gravado por esta simpática banda na sua curta carreira, aqui aumentado por três temas extra, incluindo os lados A e B de um “single”. Os Titus Groan faziam parte de um pacote de bandas progressivas lançadas pela editora Dawn, que incluía os Comus, Heron e Demon Fuzz, com quem realizaram digressões conjuntas. “Titus Groan” é um álbum que raramente consegue ser mais do que uma sequência de clichés do progressivo de segunda linha, tendo, porém, a seu favor a diversidade das canções, que vão da pop quase comercial ao puro psicadelismo e às muito curiosas divagações do saxofonista do grupo, cujas intervenções levavam a música para áreas invariavelmente mais criativas e tonalmente interessantes. (See For Miles, import. Torpedo, 6)

Referência ainda para a edição da totalidade da obra gravada por duas bandas folk-rock com estilos e “pedigree” diferentes. Os Tudor Lodge, um dos primeiros grupos a assinar pela Vertigo (a capa de “Tudor Lodge”, multidesdobrável, era um desperdício de cartão…), eram tipicamente progressivos, usando a “folk” como mero pretexto para alinharem a sua visão sonhadora, criada pela voz de rosas de Ann Stewart, e as guitarras acústicas de John Stannard e Lyndon Green com esporádicas inclusões de outros instrumentos e arranjos para naipes de corda e metais. A arrumar ao lado dos Magna Carta, Trader Horne e Mellow Candle. (Si Wan, import. Torpedo, 7)

Os Mr. Fox, pelo contrário, nasceram nos clubes “folk” ingleses, mas as concepções que sobre esta tipologia musical tinha o seu líder, Bob Pegg, eram de molde a marginalizar o grupo, mas capazes de agradar aos apreciadores de música progressiva e do folk-rock electrificado. A presente reedição reproduz a edição dupla em vinilo, “The Complete Mr. Fox”, lançada pela Transatlantic, que acoplava os dois únicos álbuns gravados pelos Mr. Fox, “Mr. Fox” e “The Gipsy” (um dos temas deste álbum, “Mendle”, foi retirado desta reedição por falta de espaço). O primeiro, mais declaradamente folk, continha originais harmonizações vocais de Bob com a sua então mulher Carolanne Pegg (também violinista, de parcos recursos, mas possuidora de indesmentível carisma) e uma concepção sinistra (ouça-se o título-tema, para se perceber como são os papões da “folk”) da rítmica “morris” e da “folk” inglesa em geral. “The Gipsy” é uma obra com outras ambições que integrava uma instrumentação mais vasta e eléctrica (incluindo a participação de dois antigos elementos dos Trees), cujo auge é atingido na “suite” “The Gipsy”, dividida em vários movimentos que contam a história e a viagem de um homem que persegue até ao desgosto final a sua apaixonada cigana. Trata-se de uma obra imprescindível do “folk-rock”, nas suas franjas mais obscuras. (See For Miles, import. Torpedo, 8).