Arquivo mensal: Maio 2009

Sei Miguel – Token (conj.)

06.08.1999
Portugueses
Silêncio Do Fundo

seimiguel_token

Sei Miguel
Token (8)
Ed. e distri. Ananana
Ernesto Rodrigues e Jorge Valente
Self Eater And Drinker (6)
Ed. e distri. Audeo
“Token” e “Self Eater And Drinker” são dois álbuns arrumados na gaveta larga das “novas músicas”. Dos dois, “Self Eater and Drinker” é o que, de modo inequívoco, se situa no epicentro da música improvisada. Estruturado como uma “suite em oito partes”, “Self Eater” vive, como Rui Eduardo Paes cita nas excelentes notas de capa, da “dinâmica criativa dialéctica” e da exploração sistemática do instantes” entre o violino, quase sempre traficado electronicamente, de Ernesto Rodrigues, nos últimos anos acompanhante regular de Jorge Palma, e a parafernália electrónica de Jorge Valente, conotado com projectos de natureza mais esotérica, como os Trioto Flêumico e Fromage Digital.
O problema com que “Self Eater” se debate é, por natureza, irresolúvel. É que, se a “exploração sistemática do instante” pode representar a expressão mais verdadeira do acto de criação musical, a mesma deixa, contudo, de fazer sentido quando “enclausurada” no suporte discográfico. Que sentido faz falar do “instante”, quando o auditor pode avançar ou recuar, seleccionar, repetir ou truncar, sempre que quiser, a música contida no CD? Rui Eduardo Paes diz que, para os dois executantes, “o acto musical é mais importante do que aquilo que dele resulta”, o que aproxima “Self Eater and Drinker” menos das teorias integracionistas de John Cage e mais das tomadas de posição de Derek Bailey sobre o primado do processo sobre o produto final. Mas o problema mantém-se e o que dele resulta em “Self Eater” é uma massa, por vezes impenetrável, por vezes atraente, de estímulos e texturas electrónicos supersaturados em que os programas “composicionais” do computador de Jorge Valente fazem valer os seus direitos sobre a respiração mais visceral (mas não menos abstracta) de Ernesto Rodrigues.
Sei Miguel soube ultrapassar este dilema. Não sem alguma surpresa, atendendo a que, num passado não muito distante, o seu trompete amiúde se escudou num discurso demasiado fechado sobre si mesmo. “Token” (sinal, símbolo), pelo contrário, foi assumido como objecto “estético”, não redutível aos processos da sua elaboração. Mesmo que uma lógica secreta se esconda por detrás, como sugere um dos títulos: “Cube magic (visible sides)”.
“Token é um álbum de composições, grande parte delas sem a presença do trompetista. A improvisação aconteceu, sem dúvida, mas Sei Miguel desatou o nó que Ernesto Rodrigues e Jorge Valente não suberam, ou não quiseram, desatar. Seja ou não fruto do momento, nada em “token” parece resultar do acaso ou da espontaneidade. Nesta medida, é menos um trabalho sobre o “eterno presente” da improvisação do que a congelação de formas que, paradoxalmente, nascem do jazz. Dos blues ao free, passando pelo bebop. “Token” não transcende o tempo, mas tira-lhe as medidas.
Electrónico, nas texturas saborosas que lhe emprestam as intervenções parasitárias de Rafael Toral ou as percussões sintéticas de Luís Desirat, ou no free tropical de “Twilight”, ou com a secura de uma miragem do deserto projectada pelo saxofone barítono de Rodrigo Amado, “Token” leva o archote às profundezas nos 31 minutos de violoncelo solo, por Rute Praça, em “The Ring – for one mixed cello”. Um tema sobre naufrágio e afundamento, como “The Sinking of Titanic”, de Gavin Bryars. E sobre o silêncio do fundo.

Anabela Duarte – Delito

02.07.1999
Portugueses
Anabela Duarte
Delito (8)
Ed. e distri. Ananana

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LINK

Como uma serpente, Anabela Duarte tem evoluído na música portuguesa com a imprevisibilidade de quem busca a tentação derradeira, a forma depurada do pecado ou a inocência perdida. Do caleidoscópio dos Mler Ife Dada, para ofado orientado para o Sul e para a electricidade, dos “lieder” de Verdi e Schubert para a poesia de Hélder Moura Pereira e Paulo Costa Domingos, Anabela Duarte exemplifica a personalidade não catalogável que cultiva o gosto pelo risco. “Delito”, gravado ao vivo no Instituto Franco-Português em Abril de 1991, não representará propriamente as tendências mais recentes da cantora. Nove anos são muito tempo e, no caso de Anabela Duarte, ainda mais. Com assinaturas várias (Berio, Nuno Rebelo, Kurt Weill/Brecht) a assinalar alguns dos seus 14 yrmas, “Delito” une os estilhaços de um espelho. O fado futurista de “Planeta Phado” e o fado em sangue de “Alfama” harmonizam-se com a canção lírica, segundo Luicano Berio, de “loosin Yelav”. A “new wave” sintética dos Tuxedomoon, de “Subtimente” e “Murmúrios”, e dos Unknownmix (em “Asiaouasi”) dissolve-se na chuva ácida e nos gritos de “Visão Lynch”. Os Mler Ife Dada revisitados em “Ela-ela” partem-se em mil bocados numa personificação de Lili Marlene. “Avant Fado” ou “design sonoro de ritual divinatório com cyborgs africanos em busca do Graal” (em “Mangissa”, minimissa electrogótica), “Delito” não propõe qualquer sentimento único nem qualquer coerância fora dos sentidos da voz. Talvez a resposta, caso haja interesse em dar alguma, se encontre na nota aposta a “Planeta Phado”: Sentimentalizar a máquina ou maquinizar o senimento é uma tarefa árdua, mas não impossível. Simbiose é o futuro. Ciberlizem-se. “Simbiose dos contrários da alma”.

Kathryn Tickell – Debatable Lands (conj.)

09.07.1999
World
Verdadeira instituição no seu país, os Whistlebinkies cumprem, pela enésima vez, o papel que já interiorizaram, os dos Chieftains da Escócia, com “Timber Timbre”, um álbum de nuances delicadas onde os sets de dança alternam com ambientes de introspecção, respectivamente personificados pela gaita-de-foles de Rab Wallace e a harpa de Judith Peacock, ao longo de onze temas irreprensivelmente executados e produzidos. Um dos focos de interesse de “Timber Timbre” é a voz de Judith Peacock, cuja frescura, num tema como “The Sailor’s Wife”, nos faz recuar ao prodigioso “Old Hag You Have Killed Me”, dos Bothy Band, e às vocalizações de fada de Triona Ní Dhomnaill. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

Outra das vozes da música tradicional britânica que continua a fazer história é a de Maddy Prior, cuja obra a solo deixou, finalmente, de se desenrolar em paralelo com a dos Steeleye Span, não participando já no último álbum do grupo, “Horkstow Grange”. “Ravenchild” reforça a tendência da cantora para assinar álbuns conceptuais, com a inclusão de duas “suites”, “With Napoleon in Russia” e, sobretudo, a mais longa “In the Company of Ravens”, ciclo de canções em torno da simbologia do corvo, onde é posto em evidência o ponto de maturação a que chegou a sua voz. Entre diversos momentos de excepção, destaca-se “Rigs of the Time”, um clássico, ao nível dos melhores temas se sempre interpretados pela cantora, que tanto evoca a solenidade da sua antiga parceira, June Tabor, como a classe pura de Martin Carthy, que, curiosamente, gravou um álbum com este nome. “In The Company of the Ravens” é uma história a várias vozes que vai da balada clássica acompanhada ao piano até ao tom Grace Slickiano de “Young Bloods”, passando pelo “prog folk” de “Rich Pickings” e a pausa “new age celtic” de “Dance on the Wind”. (Park, distri. Megamúsica, 8)

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LINK (Kathryn Tickell & Friends – The Northumberland Collection)

Kathryn Tickell tem o rosto, o corpo e a música mais sensuais da folk actual. Ainda para mais, desde “On Kielder Side”, só grava obras-primas, como “The Gathering” e “The Northumberland Collection”. “Debatable Lands” volta a fazer-nos babar de prazer. Confessamos a nossa fraqueza: não conseguimos resistir a esta mulher que toca gaita-de-foles e violino como uma deusa e que, recentemente, destroçou mais do que um coração (o nosso há muito que está reduzido a cacos) no festival Multimúsicas realizado em Lisboa. Que fazer quando a perícia e sensualidade de execução nas “Northumbrian Pipes” nos esmaga, o que acontece logo no tema de abertura, “the wedding / Because he was”? “Our Kate” (quem nos dera, suspiro…) provoca suores frios, tal a graça da melodia e a delicadeza com que Kathryn a executa. O violino é uma fonte de carícias, em “Road to the North / Hanging Bridge / All at Sea”, o mesmo acontecendo ainda no mesmo “set”, com a gaita-de-foles, antes de ser abruptamente despertada pelo acordeão de Julian Sutton. Não nos responsabilizamos pelos espasmos que as “pipes” possam causar, em “The magpie” e “Stories from Debatable Lands”, da mesma forma que achamos negativa toda e qualquer dependência que esta música possa provocar. O álbum termina com uma segunda versão de “Our Kate”, mais uma massagem erótica das “pipes”. Mas elea faz de propósito, ou quê? (Park, distri. Megamúsica, 9)

Eram umas moçoilas do campo, mas a fama transformou-as num grupo de profissionais da “world-music”. Falamos das norueguesas “Varttina”, que também actuaram no festival Multimúsicas, onde foram comparadas a Madonna e às Spice Girls, salvaguardadas as devidas distâncias, é claro. “Vihma” soa melhor que a sessão quasi-tecno de Lisboa, embora seja evidente que o quarteto vocal se está a afastar cada vez mais das raízes, ainda que as melodias mantenham o traço tradicional e o timbre das vozes conserve o típico “vibrato” rural. Entre a ânsia de fazer dançar a todo o custo e a simplicidade da maior parte dos arranjos, “Vihma” respira melhor em baladas como “Emoton”, “Uskottu ei Uupuvani” e “Aamu”. As concessões das Varttina podem desagradar a alguns – na verdade, apenas o tema final, “Vihmax (Vihma Remix)”, uma descarga redundante de “etno tecno”, descamba na facilidade sem contrapartidas – mas é impossível escapar à alegria que a sua música e as suas interpretações transmitem. Estas raparigas são fogo. (Ed e distri. BMG, 7).

Os La Bottine Souriante (nas fotos em cima) já actuaram duas vezes em Portugal, a última delas no festival Cantigas do Maio, no Seixal. Como as Varttina, também estes canadianos transbordam de alegria, quer ao nível do reportório quer da vivacidade das execuções. A diferença está em que, no seu caso, tudo soa mais espontâneo, como uma festa onde a música tradicional é a forma mais rápida para fazer as pessoas felizes. Em Rock & Reel”, versão actualizada e com nova distribuição do álbum do ano passado editado no Canadá com o selo Mille-Pattes, os “reels” do Quebeque rolam rolam como o de locomotiva, os jigs saltam como aguardente na garganta (“Ami de la boteille” é um verdadeiro hino a Baco), a secção de metais é um lança-chamas de “swing”, enquanto as canções francófonas exalam o charme que lhes confere o característico sotaque do Quebeque. Folia garantida! (Hemisphere, distri. EMI-VC, 8).