Arquivo mensal: Maio 2009

Holosud – Fijnewas Afpompen

26.02.1999
Holosud
Fijnewas Afpompen (8)
a-Musik, distri. Matéria Prima / Ananana

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pwd: sickness-abounds.blogspot.com

“Fijnewas” e “afpompen” são duas palavras engraçadas. Consultando o dicionário de alemão, encontramos como significados, respectivamente, “fiz chichi nas caças” e “com pompa e circunstância”. Felizmente, o álbum inclui títulos e decifração bastante mais fácil como “La backbrettspielerin brummtschi” (em português, “rio”) ou “Chön chaaf gechnitten” (em português xonchaveguechenite, o nome de um minearl). Já em relação à origem e natureza dos Holosud, é possível encontrar dados mais concretos. Trata-se de uma aglutinação de dois dos grupos de música electrónica alemães mais interessantes da actualidade, os Schlampeitziger (autores de uma das surpresas alternativas do ano transacto, “Spacerokkmountainrutschquartier”) e dos mais gélidos e computorizados FX Randomiz, autores do também interessante “Goflex”. Aos primeiros sons de “Fijnewas Afpompen”, somos assaltados por uma vaga de sintetizadores analógicos (neste caso, suspeitamos que filtrados por tecnologia digital) que nos lançam de imediato, uma vez mais, para os braços dos Cluster e do seu seminal álbum “Zuckerzeit”, de 1974, uma das bíblias inspiradoras de Brian Eno e, cada vez mais, manual de consulta obrigatória para a facção electrónica do pós-rock. São os mesmos ritmos e programação de carrossel, possuidores de um sentido lúdico quase infantil, características que fazem daquele álbum da dupla Moebius/Roedelius um objecto único e que aqui reaparecem em forma de recriação sofisticada. Mais próximo da variedade de registos dos Schlampeitziger do que da placa de algoritmos dos FX Randomiz, o som dos Holosud volta a apertar os parafusos que prendem as aventuras dos novos cósmico/industriais alemães às experiências pioneiras dos seus antepassados.

Eileen Ivers – Crossing The Bridge (conj.)

19.02.1999
Folk
Dos Dois Lados Da Ponte

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“Wild Blue”, o anterior álbum de Eileen Ivers, apresentava já os sinais inconfundíveis de uma intérprete com aspirações ao estrelato, ou, pelo menos, a uma maior projecção mediática. O novo passo da violinista, “Crossing the Bridge”, assinala, de facto, a passagem de uma ponte. Da anterior editora Green Linnet para a actual Sony vai a distância que separa uma executante dedicada, prioritariamente, à música tradicional (embora já numa perspectiva não redutora) de uma aspirante a voos mai saltos. “Gravewalk”, o tema de abertura, comprova de imediato a mudança de agulhas, com uma guitarra eléctrica a fazer as despesas e um ritmo bem marcado de folk rock, mais rock do que folk. E, se os compassos do “reel” ou do “jig” ainda são perceptíveis nos “sets” instrumentais, as orquestrações, em ecrã gigante e technicolor, remetem temas como “Bygone Days” para as exposições galantes de “Riverdance” oupara a vertente mais “superstar” dos Chieftains. “Whiskey & Sangria” é um flamenco-reel com muito pouco “whiskey” e “Crossing The Bridge” um exercício de hip hop com direito a sopros de jazz, violinices grapellianas e, pasme-se, riscos de “scratch”.
Seja qual for o ponto de vista com que se encare esta evolução brutal de Eileen Ivers, o resusltado soa como uma fusão e altíssima qualidade, a milhas de distância dos arremedos, com o mesmo intuito e bem menos conseguidos, da violinista rival, Eliza Carthy, em “Red Rice”. A partir daqui as coisas tornam-se mais tradicionais, o mesmo não é dizer convencionais. As sonoridades “cool” de um órgão Hammond, compassos híbridos (de calipso, em “Islanders”) e, sempre, execuções violoinísticas de altíssimo quilate (como numa, talvez demasiado rebuscada e ávida de exibicionismo, “Polka.com”, ou no fantástico “drive” de “Crowley’s/Jackson’s”) estão longe de se pautar pelo convencionalismo. Num álbum com estas características é condição necessária a presença de convidados de renome e, neste aspecto, “Croosing The Bridge” não fica atrás de nenhuma das listas elaboradas pelos Chieftains, Dan Ar Braz ou Carlos Nunez apresentando como credenciais os nomes de Seamus Egan, Steve Gadd (baterista de jazz), Jerry O’Sullivan, Joanie Madden, John Boswell (pianista new age), A Di Meola (guitarrista de jazz rock que dispensa apresentações), Alex Acuna, Tommy Hayes e Lew Soloff (trompetista de jazz). Com múltiplos sabores, dos mais tradicionais à nova cozinha, “Crossing the Bridge” pretende agradar a gregos e troianos. E agrada, se o cortarmos em fatias. (Sony Classics, distri. Sony Music, 7.)

Sempre em forma, há longos anos, estão os escoceses Tannahill Weavers. O seu mais recente trabalho, “Epona” (deusa celta identificada com o cavalo), é a continuação de um trabalho cuja qualidade, dignidade, seriedade e longevidade apenas terão paralelo, em terras do Norte, com os Whistlebinkies ou os House Band. Uma seriedade que aqui chega ao ponto de incluir, no livrete, um glossário de termos gaélicos ou simplesmente da gíria popular. Logo no tema inicial, sentimo-nos imediatamente fulminados por uma execução “assassina”, nas “highland pipes” e nas “scottish small pipes”, de Duncan J. Nicholson, num “Interceltic set” de fazer gemer de prazer. A voz de Roy Gullane, daquelas nasaladas e com tudo no sítio, como se costuma dizer, provoca o mesmo efeito no tema seguinte, “When the kye come hame”. E assim sucesivamente, até ao fim, com o prazer a renovar-se, faixa a faixa, através daquilo que de melhor a boa música celta tem para oferecer: poder de evocação, a poesia e forças que a massificação e os sonhos virtuais não conseguem vencer. Nas notas de capa o grupo declara, aliás, num texto cheio de ironia, que este seu 14º álbum será o último deste século, avisando que o próximo poderá “ser gravado num suporte suficientemente pequeno para subsituir um botão de camisa” ou até “ser metido, por engano, na ranhura de um parquímetro”.
“Epona” faz brotar algo de profundo, que não pode ser traduzido por palavras. As entoações e ornamentações e a consonância interior que provocam não se eencontram em mais nenhuma música do mundo. Chamem-lhe magia. Chamem-lhe um sonho com a capacidade de, respondendo ao chamamento, se tornar realidade. Chamem-lhe a brisa, a pedra e o musgo que nascem dentro de cada um de nós. A deusa “Epona” leva-nos no seu dorso até ao coração do mistério. (Green Linnet, distri. MC – Mundo da Canção, 8.)

Sem surpresas, mas com o virtuosismo que sempre acompanha as melhores formações irlandesas, os Moving Cloud apresentamse no mercado português com “Foxglove”, um álbum ortodoxo pautado pelas prestações instrumentais de Paul Brock, no acordeão de botões, Maove Donnelly e Manus NcGuire, ambos no violino, e Kevin Crawford, na flauta, “tin whistle” e “bodhran”, com o acompanhamento de piano de Carl Hession. A estes juntam-se as participações de três convidados muito especiais, Gerry O’Connor, ex-Four Men & A Dog, no banjo, Johnny “Ringo” McDonnagh, ex-De Danann e membro actual dos Arcady, nos “bones”, Garry O’Briain, ex-Skaylark, actualmente nos Buttons & Bows, na guitarra rítmica, e Trevor Hutchinson, da banda de Sharon Shannon, no contrabaixo. Sequências imaculadamente interpretadas de “reels”, “jigs” e outras danças dos reportórios irlandês, baile musette, franco-canadiano, escocês e de Cape Breton formam um todo instrumental que coloca os Moving Cloud na primeira divisão das bandas exclusivamente dedicadas à música de dança. (Green Linnet, distri. MC – Mundo da Canção, 8.)

David Thomas – Mirror Man

11.06.1999
David Thomas
Mirror Man (7)
Cooking Vinyl, distri. Megamúsica

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LINK (Monster Walks The Winter Lake – 1986)

Composto para uma encomenda do South Bank Center, em Londres, e estreado ao vivo em Abril de 1998 no Queen Elizabeth Hall, no âmbito de um festival de quatro dias organizado pelo vocalista dos Pere Ubu, o David Thomas:Disastrodome!, “Mirror Man” avança um pouco mais na via de estranheza percorrida pelo cantor com corpo de gorila e cara de bebé. Mesmo sem entrar nos meandros filosóficos do conceito a que David Thomas chamou “disastrodome!” (espécie de manual do apocalipse na primeira pessoa do singular, é tarefa difícil decifrar este “Mirror Man”, subintitulado “Jack & The General”. Fala de formas de comunicação. Como metáfora de formas de controlo. Thomas começa por citar o Presidente Eisenhower que, “numa voz paciente e utilizando palavras curtas” terá dito qualquer coisa como isto: “Um sistema de estradas interestadual não tem nada a ver com chegar a algum lado e tudo a ver com o tempo e o espaço e com os hieróglifos da mente.” Logo a seguir, interroga-nos: “não ouviram, pois não?” Entre declamações e canções estranhas vocalizadas pelo próprio Thomas (apenas creditado em “Nowheresville” embora a sua voz apareça noutros temas), ou por convidados como Linda Thompson, Jackie Leven e Robert Kidney, “mirror Man” é o equivalente d eum “road movie” como “Ao Correr do Tempo” de Wim Wenders, por vezes evocativo da viagem do “homem no elevador” de Heiner Goebbels e Heiner Muller, outras possuído pela estranheza de um David Lynch ou por uma teatralidade brechtiana. Um álbum de palavras, solidão e pesadelos, acompanhado pela Pale Orchestra, de cuja formação fazem parte Peter Hammill, no órgão de pedais, e Chris Cutler, na bateria electrificada.