Arquivo mensal: Março 2009

Soft Machine – Six (conj.)

21.11.2000
Jazz
Música Dura Da Máquina Mole


sm

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Do jazz os Soft Machine retêm mais os nervos e as ramificações cerebrais do que o coração. No final dos anos 60, ainda com os lunáticos Daevid Allen e Kevin Ayers, semearam o jardim de Canterbury, com um delicioso álbum de estreia “The Soft Machine”. Mas com a saída destes dois, o primeiro para formar os Gong, o segundo para se dedicar a apanhar sol, beber champagne e compor obras-primas de Pop-Valium como “Joy of a Toy” e “Shooting at the Moon”, Mike Ratledge, o teclista intelectual, Hugh Hopper, o baixista experimentalista e Robert Wyatt, o baterista que gostava de cantar, tomaram conta da “máquina mole” (“la machine molle”, como lhes chamavam em França, onde o grupo gozou sempre de uma enorme popularidade trocadilho fonético que Wyatt aproveitaria para dar nome a uma das suas bandas, os Matching Mole…).
A pop desapareceu para dar lugar a um híbrido de jazz-rock difícil de tragar para muitos mas indubitavelmente criativo e na origem de uma nova corrente que não parou de conquistar novos discípulos ao longo das décadas seguintes, dos parentes próximos Nucleus aos Isotope, passando pelos italianos Dedalus e os alemães Brainstorm. Depois de um álbum de transição, “Volume Two”, os Soft Machine entraram nos anos 70, com um álbum marcante dessa década, o duplo “Third”, cuja intricada rede feita de um jazz complexo e cerebral era cortada apenas por Wyatt numa estranha e longa canção de pop psicadélico intitulada “The moon in June”.
Mas a vertente matemática venceria nos seguintes e herméticos “Fourth” e “5”, obras instrumentais densas onde o swing é uma miragem e os executantes se comprazem em sobrepor compassos impossíveis. “Six” e “Seven”, agora reeditados sem qualquer mais valia em relação às edições anteriores, introduziram mudanças significativas na sonoridade dos Soft Machine. “Six”, outro duplo-álbum (na edição original em vinilo, de 1973) é composto por um disco ao vivo e outro de estúdio. Não se notam grandes diferenças. O jazz, ou o que lhe quiserem chamar, da “máquina mole” tornara-se minimalista, com as deambulações do saxofone e o oboé de Elton Dean e o fraseado cerrado e saturado de “fuzz” do órgão electrónico de Mike Ratledge (cujo estilo continua inimitável) empenhados em traçar equações de extrema rigidez sobre gotas de piano eléctrico e drones psicóticas. Karl Jenkins que viera dos Nucleus para se tornar aos poucos no líder incontestado dos Softs, empurrando cada vez mais Ratledge para um lugar secundário, até ao definitivo afastamento em “Softs”, dirigia ao piano eléctrico o futuro próximo da banda, “Seven”, também de 1973, é o derradeiro álbum em que Ratledge faz valer a sua originalidade, acrescentando ao som dos Soft Machine a novidade de solos de sintetizador (Alan Gowen, dos Gilgamesh, seria, neste aspecto, o seu principal discípulo) numa música geométrica e minimalista que já não era jazz, nem pop, mas um universo próprio definido pelas idossincrasias individuais de cada executante. A música electro-acústica, sequências de falso ambientalismo, solos de percussão pelo exímio John Marshall, divagações modais do soprador Jenkins corporizam em “Seven” um objecto único na discografia dos Soft Machine, indiscutivelmente uma das bandas mais originais e “difíceis” da década de 70. (Columbia, distri. Sony Música, 7/10 e 8/10).

Outro grande teclista da cena inglesa dos anos 60 e 70 foi Brian Auger – Herbie Hancock considerava-o o melhor executante de órgão Hammond B-3 que alguma vez ouvira – autor de uma extensa e praticamente desconhecida discografia (para cima de duas dezenas de álbuns), agora reeditada na totalidade em versões remasterizadas e em formato digipak pela Disconforme. Antes de percorrer toda a década de 70 com os Oblivion Express, Brian fundou na década anterior os Trinity que cedo convocou para as suas fileiras uma voz feminina que se viria a tornar um dos ícones do flower power revolucionário: Julie Driscoll. Em “Open”, de 1968, com produção de Giorgio Gomelsky, o funk e o jazz rock proto-progressivo do organista introduz, na segunda metade do disco, a voz forte de Driscoll, como as de outras cantoras dessa época, como Grace Slick ou Janis Joplin as quais, num mundo dominado pelos homens, necessitava, de se impor pelo grito e pela agressividade. “Streetnoise”, do ano seguinte, daria mais espaço de manobra a esta vocalista tornada célebre com o single “This wheel’s on fire” (Disconforme, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).
A emancipação definitiva ocorre nesse mesmo ano com o primeiro álbum a solo, “1969”, entrada decisiva nos domínios do jazz, onde Julie Driscoll se fazia acompanhar por luminárias como Chris Spedding, Keith Tippett (o pianista com quem viria a casar, passando a chamar-se Julie Tippetts), Elton Dean (então saxofonista dos Soft machine), nick Evans, Brian Godding, jeff Clynne, Trevor Tomkins (um dos parceiros do derradeiro álbum gravado com o malogrado Alan Gowen, “Before a Word os Said”), marc Charig, Karl Jenkins e Bob Downes, entre outros. Metamorfose que se completaria no belíssimo “Sunset Glow”, já com o apelido Tippetts, um álbum apaixonado pelas cristalizações e pelos gemidos de alma de Robert Wyatt. (One Way, import. FNAC, 7/10)

George Duke, outro pianista famoso do jazz rock, produziu e arranjou em 1970, para a MPS, “Here and Now”, do grupo vocal feminino The Third Wave, cinco irmãs adolescentes de ascendência japonesa, de voz cristalina e empenhadas em açucarar canções que vão de “Eleanor Rigby”, dos Beatles, a “Maiden Voyage”, de Herbie Hancock a “standards” como “Chloe” e “Stormy”. Jazz de Verão com sabor a bossa-nova. (Crippled Dick Hot Wax, distri. Symbiose, 6/10).

Nos anos 60 a chamada “free music” explodiu nas Ilhas Britânicas. Formações como os Trio (de John Surman, Stu Martin e Barre Philips), Spontaneous Music Ensemble, AMM ou Ovary Lodge (com Keith e Julie Tippets) abriram o “free jazz” a um tipo de improvisação mais conceptual e formalista que integrava elementos da música contemporânea, electrónica e elementos extraídos do rock. “A Genuine Tongue Funeral” de Gary Burton com Carla bley e “Escalator over the hill”, de Carla Bley tipificam exemplarmente formas mais organizadas dessa liberade redescoberta fora dos parâmetros definidos pelo “free” negro. A par destas formações em constante mutação surgiram várias big bands como Chris McGregor’s Brotherhood of Breath, os Centiped e as agora reeditadas e remasterizadas orquestras dos pianistas Mike Westbrook e Mike Gibbs. “Mike Westbrook’s Metropolis”, de 1971, com Kenny Wheeler, Harold Beckett, Henry Lowther, Alan Skidmore, John Taylor, Gary Boyle, John Marshall, Malcolm Griffiths, Paul Rutherford e Norma Winstone, entre outros, centra algumas das coordenadas da “free music”, firme em bases rítmicas (de Miles a Mingus, passando pelo funk e pelo rock) e referências alicerçadas no passado (como na belíssima “Part IV”, com voos do trompete de Lowther e do trombone de Griffiths sobre um horizonte Ellingtoniano) mas que não hesita em lançar-se num espaço sem margens como acontece sempre que a voz de Norma Winstone se lança sem rede no que de mais “free” o canto e pode permitir, em jorro de onomatopeias e altercações emocionais. Abrasiva, a oitava parte, com a orquestra a arder em múltiplas improvisações colectivas antes do piano do líder apagar as labaredas. (BGO, distri. Megamúsica, 8/10)

Na formação e Mike Gibbs, em “The Only Chrome-Waterfall Orchestra”, de 1975, pontificam como solistas Charlie Mariano, Philipe Catherine e Steve Swallow, a par de acompanhantes de luxo como Stan Sulzmann, outra vez Kenny Wheeler e Henry Lowther, Chris Pyne, Ray Warleigh, Alan Skidmore e Tony Coe. Evitando os paroxismos da “Metropolis” de Westbrook, Mike Gibbs desenha neste álbum uma espécie de alter-ego musculado do melodicismo da escola de Canterbury, na linha de “Kaleidoscope of Rainbows”, de Neil Ardley, com base em fraseados lineares e num romantismo e numa excentricidade tipicamente britânicos, nos antípodas da grande música negra. Jazz Rock, elegante como só os ingleses o conseguem ser. Extraordinário o tema “Blackgang”, a fazer lembrar o inclassificável ”Fictious Sports” organizados por Carla Bley com a conivência de Nick Mason, baterista dos Pink Floyd. “Unfinished Sympathy” é tipicamente Mahavishnu Orchestra (de “Birds of Fire” com o guitarrista Philip Catherine entregue a uma mais do que razoável personificação de John McLaughlin” (BGO, distri. Megamúsica, 8/10).

À semelhança de inúmeras bandas de rock progressivo (os King Crimson de “Lizard”, Egg, Bem, Running Man, etc.) os The Greatest Show on Earth enriqueceram a sua música com apontamentos de jazz. Nos dois únicos álbuns que gravaram para a Harvest, “Horizons” e “The Going’s Easy”, ambos de 1970, canções pop psicadélicas, resquícios de rhythm ‘n’ blues, colagens progressivas e melodias esquizóides tropeçam em solos de sax, palacetes barrocos de cravo e bebedeiras de órgão electrónico. Não é jazz, nem de perto nem de longe, mas pode bem ser divertido entrar neste museu de figuras de cera. (Repertoire, distri. Megamúsica, 7/10 e 6/10).

José Peixoto fala do seu terceiro álbum a solo

07.04.2000
José Peixoto fala do seu terceiro álbum a solo
À Luz da Manhã
Manhã cedo. Nas horas claras do dia em que o próprio silêncio ainda não acordou. O tempo certo para José Peixoto tocar os reflexos desta luz nas cordas da sua guitarra. É o que ele nos diz, e o que o espelho lhe diz no novo álbum. “O Que me Diz o Espelho de Água”. Um “puzzle” de cristais gravado numa igreja.

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Choveu durante todo o tempo em que conversámos com José Peixoto, de tarde, no bar do Centro Cultural de Belém, a propósito do lançamento do seu novo álbum, “O Que me Diz o Espelho de Água”. Pareceu adequado, atendendo ao elemento líquido citado no título. Uma tarde mais escura do que a música do guitarrista dos Madredeus que não impediu as palavras de, como as notas do disco, correrem na direcção certa.
“O Que me Diz o Espelho de Água” é o terceiro álbum a solo de José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, depois de “As Vozes dos Passos” e “A Vida de um Dia”. E o que diz o espelho de água a José Peixoto? “Diz muito com o seu silêncio. Fala-me da quietude, da ilusão do tempo fixo, da solidez líquida, do espaço infinito contido no seu reflexo e também da fragilidade e da constante procura do repouso que existe no mistério da sua alma. Também me seduz pela certeza da sua vida escondida”, responde o músico.
De facto, também nós olhámos e vimos mais ou menos a mesma coisa. Por isso, nada mais natural que conversar com José Peixoto, confrontando-o com os reflexos do seu próprio trabalho.
Ao ver-se ao espelho da alma, José Peixoto compõe unicamente com base na intuição. “Sem esboço nenhum nem qualquer ideia pré-determinada.” “É como se estivesse a montar um “puzzle”, diz. “Há uma altura em que se tem uma ideia global da forma, embora ainda não se tenham as peças todas, é preciso encaixá-las, encontrar as notas certas.” O “puzzle” de “O Que me Diz o Espelho de Água” tem dez peças, algumas das quais com a participação do contrabaixista Mário Franco e do percussionista Rui Júnior.

Uma Excursão Na Igreja
“O Que me Diz o Espelho de Água” foi gravado nos dias 10 e 11 de Novembro do ano passado na Igreja da Cartuxa em Caxias, “durante o dia”, com muito bom tempo. “Um local que me proporciona um certo conforto acústico e uma atmosfera de recolhimento”, diz o músico, que, mesmo assim, se viu forçado a enfrentar algumas contrariedades durante as sessões de gravação, “Houve interrupções motivadas por barulhos exteriores.” Seria terrível, presumimos, se tala acontecesse precisamente num take mais inspirado em que tudo correu bem. Pois foi mesmo isso que aconteceu durante a captação do tema “A memória contempla o reflexo”. “A igreja fica ao pé de um colégio e numa tarde saiu de lá uma excursão com miúdos. Esteve uma camioneta parada com o motor a trabalhar, mesmo em frente à igreja, com os miúdos a fazer toda aquela algazarra normal nestas circunstâncias. Ficámos sujeitos a uma assobiadela, a um grito. O pior é que o take estava bom até esse ponto. Foi preciso fazer um novo take em que me concentrei sobretudo ma parte que faltava, para a seguir fazer o ‘editing’.”
José Peixoto faz questão de explicar que todas as gravações tiveram lugar durante o dia: “O meu ritmo é diurno. Gosto de trabalhar de manhã, é a parte do dia de que gosto mais, mas também porque sou obrigado… como levo todos os dias os meus filhos para a escola… Levanto-me Às sete, sete e meia, um horário um bocado inconcebível para quem está de fora. Ninguém associa a música e os músicos a estas horas. Mas é um facto que à noite o meu rendimento é muito inferior, já estou cansado, cheio de sono…”
Não sabemos o que pensarão sobre isto os restantes Madredeus, perante a perspectiva de um José Peixoto a ressonar em pleno concerto. É que o guitarrista “preferia tocar de manhã”. Têm a palavra os promotores.
Pelo menos Marco Franco, principal parceiro do guitarrista neste seu mais recente projecto, acedeu em satisfazer este desejo, nas gravações de “O Que Me Diz o Espelho de Água”. Com ele, diz Peixoto, “algumas peças ficaram enriquecidas com a cor do contrabaixo”. Houve também uma necessidade de partilha” mais forte do que em anteriores ocasiões.
Além da música, destacam-se em “O Que Me Diz o Espelho de Água” o extremo cuidado posto na apresentação do digipak, com as belíssimas fotos de Alexander Koch – “a obra começa na composição da música, passa pelo processo de gravação e da qualidade da captação de som e termina no grafismo da capa” – e o poder evocativo dos títulos, na tradição de outros dois músicos apaixonados pelo silêncio, como Benjamin Lew e Harold Budd: “O que não se vê”, “Que sente uma nuvem sozinha no céu?”, “Outra luz diferente”.

O Que Se Vê No Ténis
Outra luz diferente da que antes iluminava os passos do guitarrista? “Sinto que estou mais próximo de qualquer coisa que também não sei definir muito bem o que é, que a minha linguagem está mais amadurecida e controlada, no sentido de mais bem dirigida, e que estou a manusear melhor as minhas ideias. Anda não vi a meta, não sei onde está a meta, se é que existe.”
Palavras sábias, repletas de serenidade, admiráveis por serem proferidas por alguém cujos compromissos com os Madredeus obrigam ao rodopio das viagens, dos hotéis e dos concertos, ainda por cima à noite. Parece faltar o tempo mas José Peixoto inventa-o: “Há mais horas disponíveis do que se pensa, durante as viagens, por exemplo. Nos hotéis, nos camarins, quando se está à espera de fazer o ensaio de som, como tenho esta disciplina diurna, aproveito sempre as manhãs ou bocados da tarde para compor.” O tema de abertura do álbum por exemplo, “O que não se vê”, “foi composto na altura do torneio de ténis de Roland Garros, o torneio feminino. Entretinha-me com a televisão sem som a ver as tenistas, aquela tensão bola cá, bola lá, as falhas, o serviço…, embora o tema não seja propriamente a banda sonora de um jogo de ténis” (risos).
No final deste ano, José Peixoto e Marco Franco pensam partir para a estrada para “fazer uma coisa com pés e cabeça” com música ao vivo de “O Que Me Diz o Espelho de Água”. De preferência de manhã.

Compêndio de Química

02.06.2000
Compêndio de Química

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O amor é uma reacção química. O mundo é um lugar de falsidade onde nada é aquilo que parece. São duas das ideias presentes em “Chemical Love Songs”, o novo álbum dos More República Masónica produzido por Jack Endino, o mesmo dos Nirvana. Um álbum de militância rock com a porta aberta para o psicadelismo e para “a essência das coisas”.

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“Chemical Love Songs”, subintitulado “Soundtrack inspired by achievements and failures of everyday life” começa e acaba com um sample de “sitar”, lançando de imediato a suspeita de que os More República Masónica andaram em viagem. Eles confirmam. Viajaram pelo interior deles próprios, mas apenas através de um trabalho de introspecção que dispensou qualquer tipo de aditivos químicos, garantem.
Com um som mais “electrónico” e cheio que o das bandas anteriormente produzidas por Endino (Nirvana, Soundgarden, Mudhoney…), “Chemical Love Songs” é, na óptica dos MRM, ainda e sempre um álbum de “rock”, que não tem medo de usar as máquinas nem de experimentar novas ideias. Endino soube “captar a essência da banda”, esclarece Jorge Dias, baixista, ocasional teclista e autor de algumas das letras da banda. O resultado é um “álbum com bom som, bem gravado”.
Um “bom som” que capta a energia das referências musicais dos More, dos velhos Led Zeppelin e dos anarcas de Detroit aos grupos de psicadélicos, mas que sabe reconvertê-los numa perspectiva pessoal. “Fizemos coisas que nunca tínhamos feito, como gravar canções a partir de ‘loops’”. Essa perspectiva pessoal levou, inclusive, os MRM a tomar como ponto de partida para a gravação, as suas experiências pessoais, ilustradas na tal banda sonora interior que o subtítulo refere. “Não vivemos em nenhum filme estranho, em nenhuma realidade paralela. Vivemos aqui e aquilo que fazemos reflecte aquilo que somos. As canções falam da nossa vida e dos nossos pensamentos. Explorámos as catacumbas que temos cá dentro. E descemos tanto que acabámos por chegar aos elementos químicos, à essência das coisas”, explica Jorge Dias, para quem “as letras não se fecham sobre si, para que toda a gente se possa identificar um bocado com elas”. O álbum era para ter em todos os títulos das canções o nome de elementos químicos. Acabaram por ficar “Oxygen” e “Mercury”, na tabela onde se escreve, também, a essência do rock.
Temas como “A prayer for the year 2K”, “Megastore” ou “Answer Machine” alertam para uma realidade feita de aparências onde o próprio amor, “em última análise, é o produto de reacções químicas”. “UST”, outro dos temas de “Chemical Love Songs” significa “Unresolved Sexual Tension”, uma “figura de estilo utilizada no cinema onde duas ou mais personagens têm uma ligação de tensão sexual entre elas que nunca se resolve, como no ‘x-files’, onde o par protagonista passa o tempo a flirtar uma com a outra mas aquilo nunca se resolve…”.
“Chemical Love Songs” descreve, no fundo, diz Jorge Dias, “uma época em que as pessoas se ligam mais através de factores externos do que propriamente por motivos pessoais. Pelos estilos de música ou pelas drogas que consomem em conjunto”. No caso dos MRM a química entre os quatro elementos da banda – Jorge Dias, Paulo Coelho, Paulo Vitorino e Nuno Castedo – funcionou em pleno. Para os More não é a música electrónica ou de dança, que consideram uma “moda passageira” e um “universo hedonista”, que faz mexer as multidões mas o rock, a única música que “consegue encher estádios”. Sente-se isso, ao escutar uma faixa como “Celebrating the Sun”, uma corrente de energia que liga “um rock mais pesado, Às vezes quase metal, e o psicadelismo, a um lado mais atmosférico”. Os More República Masónica fazem, afinal de contas, a defesa da canção. “É a molécula fundamental do nosso trabalho”, reconhece Jorge Dias: “É esta tradição que queremos perpetuar à nossa maneira”.
Na caixa de “Chemical Love Songs”, sob o suporte do CD, pode ver-se o desenho de um labirinto. As volutas do cérebro? “Isso é que tem piada, cada pessoa lê o disco à sua maneira”, diz Jorge Dias, para quem “o labirinto tem a ver com o facto de o amor ser uma coisa tortuosa. Para se chegar a algum lugar, podia andar-se a direito, mas não, tem que se andar de um lado para o outro, para trás e para a frente, até se conseguir encontrar esse caminho”.