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Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão

16.07.1999
Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão
O Elefante Visto De Muito Perto
Sei Miguel situa a origem da sua música nos blues. Um blues, definido como um bicho “de que não se consegue ver a totalidade por se estar mesmo em cima dele”, é a longa peça de violoncelo solo que ocupa meia hora do seu novo trabalho, um CD duplo intitulado “Token”

Contando com um naipe de colaboradores mais numeroso do que o habitual (Rodrigo Amdado, Rafael Toral, Bernardo Devlin, Luis Desirat, Manuel Mota, Pedro Chuva, Fala Miriam e Rute Praça, entre outros) e com uma diversificação de sonoridades que vão da bateria electrónica ao theremin e do trombone ao violoncelo, “Token” permite uma aproximação diferente da de álbuns anteriores. A sua estranheza é o seu principal fascínio.
Sei Miguel faz uma apresentação mais simples: “É o meu disco mais concreto.” Um disco “muito elaborado” que demorou “quatro anos ou mais” a fazer. E também bem-humorado, como atesta a referência a um “djembé temperado”. “É francamente irónico”, admite, referindo-se também ao tema que abre “Token”, uma suite estruturada segundo os andamentos clássicos do barroco, com o título “real dancer suite”. “Estou a ironizar sobre a própria noção de ‘suite’ que, neste caso, foi composta para ‘ballet’. Gravei-a praticamente sob contrato e acabou por dar em nada, daí ter assumido a suite até ao fim. É um objecto um pouco sarcástico.” No fundo “é mais um blues”, diz, desta feita a brincar.
São os blues que animam por dentro muita da música composta por Sei Miguel. “Estão na essência de ‘The ring’, tema que já me disseram ser demasiado longo.” O “demasiado longo” deste tema incluído em “Token” significa mais de meia hora de um desempenho de um violoncelo solo por Rute Praça. “E eu respondo: nem queiram saber até que ponto eu acho que é demasiado longo!”, corrobora Sei Miguel para logo acrescentar que foi de “propósito”. “Faz parte intrínseca do peso do blues. Esse peso está ali. É um blues à primeira irreconhecível, como um desenho de um elefante visto de muito perto, em que não se consegue ver com a sua presença, enquanto instrumentista, embora isso se deva, também, a ter sido feito, como acima se entende “em circunstâncias muito duras”.
Todos os paradoxos se desvanecem e todas as abstracções se iluminam se conseguirmos entrarmos nos meandros do pensamento do músico, encontrando no significado de cada palavra desvios ao que a norma lhes impôs. “Token”, insiste, “é um disco muito técnico.” Não usa o termo como um elogio. “Talvez seja o desequilíbrio dele – o Paulo [da editora Ananana] mata-me [Risos.] – em comparação com ‘Showtime’ que é um disco muito mais ‘soft’, no bom sentido”. “Showtime” é “um disco de jazz”, afirma, enquanto “Token” é “um disco de músico de jazz”. Diferença subtil onde se manifesta o sentido essencial de alguém que, contra todas as aparências, a si mesmo se define como “um músico de jazz”.
“A composição e improvisação são termos úteis à tradição ocidental, académica, mas que o jazz transcendeu.” Ser músico de jazz é “participar na forma mais inacabada e mais actual de fazer música. E mais contraditória, também, porque é a música que tende mais para o abstracto”, embora continue “longe das academias e a ser uma música de rua”. E se à improvisação é possível arranjar uma definição, então ela é “estar mais próximo do mais antigo, do mais básico, do material musical e, ao mesmo tempo, estar obrigatoriamente, como consequência, na última vertente, no que se está a fazer. Na vanguarda, para utilizar uma palavra que hoje não está muito na moda”.

Sei Miguel – Token (conj.)

06.08.1999
Portugueses
Silêncio Do Fundo

seimiguel_token

Sei Miguel
Token (8)
Ed. e distri. Ananana
Ernesto Rodrigues e Jorge Valente
Self Eater And Drinker (6)
Ed. e distri. Audeo
“Token” e “Self Eater And Drinker” são dois álbuns arrumados na gaveta larga das “novas músicas”. Dos dois, “Self Eater and Drinker” é o que, de modo inequívoco, se situa no epicentro da música improvisada. Estruturado como uma “suite em oito partes”, “Self Eater” vive, como Rui Eduardo Paes cita nas excelentes notas de capa, da “dinâmica criativa dialéctica” e da exploração sistemática do instantes” entre o violino, quase sempre traficado electronicamente, de Ernesto Rodrigues, nos últimos anos acompanhante regular de Jorge Palma, e a parafernália electrónica de Jorge Valente, conotado com projectos de natureza mais esotérica, como os Trioto Flêumico e Fromage Digital.
O problema com que “Self Eater” se debate é, por natureza, irresolúvel. É que, se a “exploração sistemática do instante” pode representar a expressão mais verdadeira do acto de criação musical, a mesma deixa, contudo, de fazer sentido quando “enclausurada” no suporte discográfico. Que sentido faz falar do “instante”, quando o auditor pode avançar ou recuar, seleccionar, repetir ou truncar, sempre que quiser, a música contida no CD? Rui Eduardo Paes diz que, para os dois executantes, “o acto musical é mais importante do que aquilo que dele resulta”, o que aproxima “Self Eater and Drinker” menos das teorias integracionistas de John Cage e mais das tomadas de posição de Derek Bailey sobre o primado do processo sobre o produto final. Mas o problema mantém-se e o que dele resulta em “Self Eater” é uma massa, por vezes impenetrável, por vezes atraente, de estímulos e texturas electrónicos supersaturados em que os programas “composicionais” do computador de Jorge Valente fazem valer os seus direitos sobre a respiração mais visceral (mas não menos abstracta) de Ernesto Rodrigues.
Sei Miguel soube ultrapassar este dilema. Não sem alguma surpresa, atendendo a que, num passado não muito distante, o seu trompete amiúde se escudou num discurso demasiado fechado sobre si mesmo. “Token” (sinal, símbolo), pelo contrário, foi assumido como objecto “estético”, não redutível aos processos da sua elaboração. Mesmo que uma lógica secreta se esconda por detrás, como sugere um dos títulos: “Cube magic (visible sides)”.
“Token é um álbum de composições, grande parte delas sem a presença do trompetista. A improvisação aconteceu, sem dúvida, mas Sei Miguel desatou o nó que Ernesto Rodrigues e Jorge Valente não suberam, ou não quiseram, desatar. Seja ou não fruto do momento, nada em “token” parece resultar do acaso ou da espontaneidade. Nesta medida, é menos um trabalho sobre o “eterno presente” da improvisação do que a congelação de formas que, paradoxalmente, nascem do jazz. Dos blues ao free, passando pelo bebop. “Token” não transcende o tempo, mas tira-lhe as medidas.
Electrónico, nas texturas saborosas que lhe emprestam as intervenções parasitárias de Rafael Toral ou as percussões sintéticas de Luís Desirat, ou no free tropical de “Twilight”, ou com a secura de uma miragem do deserto projectada pelo saxofone barítono de Rodrigo Amado, “Token” leva o archote às profundezas nos 31 minutos de violoncelo solo, por Rute Praça, em “The Ring – for one mixed cello”. Um tema sobre naufrágio e afundamento, como “The Sinking of Titanic”, de Gavin Bryars. E sobre o silêncio do fundo.