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Hedningarna – “Kaksi!”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

WORLD

GLACIAR DE OURO E SANGUE


HEDNINGARNA
Kaksi!
CD Silence, import. Etnia



Aos primeiros acordes de “Kaksi!”, o mundo refaz-se. Da Escandinávia sopram novos ventos e com eles uma nova alma anima o corpo da música tradicional da velha Europa. É difícil traduzir o entusiasmo, o estado quase febril que a audição deste disco provoca. Como se fosse a primeira vez e tudo estivesse por inventar. Diga-se desde já, e sem grande dose de exagero, que “Kaksi!” entra directamente para a lista dos de sempre da música tradicional. Como consequência, parece estar encontrado o disco do ano, pese embora a ameaça de um trio de sérios contendores: “Vox de Nube”, já aqui criticado a semana passada, “The Fire Aflame”, de Matt Molloy, Seán Keane e Lyam O’Flynn, e o novo dos franceses Lo Jai, ambos objecto de textos a publicar em breve. Dos Hedningarna, grupo sueco que recentemente integrou no seu seio duas vocalistas finlandesas, Sanna Kurki-Suonio e Tellu Paulasto, disse a “Folk Roots” na sua edição de Janeiro / Fevereiro que inauguraram “uma nova categoria da música europeia”. De facto, desprende-se de “Kaksi!” uma sensação de novidade, de frescura e de força, no modo como o quinteto traduz e interpreta o passado. Sabemos que a música, na origem, não era assim e, contudo, sentimos que assim é que deveria ser. Descore-se-lhe novos sentidos. Resultado de um trabalho de depuração a fogo lento. Alquimia. Atinge-nos logo, como um murro, a energia e a pujança instrumental, só possíveis graças a uma autoconfiança inquebrantável. Depois a atenção deleita-se na abundância de pormenores, no requinte de cada nota, esculpida como uma jóia pela mão de um ourives experimentado. A música de “Kaksi!” abrange uma geografia vasta de sons e emoções. De uma harpa de granizo às erupções de um “hardingfele” (rabeca de construção tosca, esculpida directamente num tronco de árvore, utilizada com frequência no folclore nórdico, sobretudo na Noruega) ou da sanfona-baixo inventada por Anders Stake, o multinstrumentista do grupo. As vozes vão do registo gutural a cânticos de querubim. Sanna e Tellu banharam decerto as cordas vocais na água-régia do céu. A surpresa acontece a cada instante. Transportada em berimbaus hipnóticos que soam como didgeridoos, percussões de catedral, gaotas-de-foles retorcidas em contorções dignas dos Perlinpinpin Folc, flautas interestelares, teorbas medievais, samples arrancados à pré-história, mil sonoridades que se multiplicam num caleidoscópio multicor. Por vezes (“Kruspolska”) carregando consigo ecos de um continente perdido, À maneira de uns Light in a Fat City (Electroworld aborígene) transpostos para a Idade Média. Em “Aivoton” as vozes femininas tornam-se meninas e entretêm-se a descobrir novas harmonias. As “irmãs loucas” escandinavas trocam timbres e tocam-nos na corda mais sensível. Sensualidade? “Kaksi!” revela a anatomia de um corpo perfeito, o fruto mais carnudo e apetecido. Espírito de carne que apetece morder. “Kaksi!” tem o sabor do hidromel, a bebida dos deuses. As danças ora apontam para o Leste, em compassos impossíveis, ora explodem em binários de apelo imediato. A sanfona desenha “Dervishes” que tocam as entranhas. Neste aspecto temas como “Viktorin” mostram o que os Blowzabella poderiam ter sido se Nigel Eaton tivesse levado a aventura até às últimas consequências. “Ful-valsen” volta a inventar o folk-rock, numa valsa de guitarra eléctrica e gaita-de-foles todo o terreno para os novos tempos, além de todas as sínteses. Spillanes e Stivéis deste mundo, fora! “Kaksi!” vai tão fundo quanto é possível na exploração das tradições e dos mitos escandinavos, recuperados para a actualidade como algo de radicalmente inovador. Um disco com capacidade para provocar igualmente a admiração nos apreciadores de música antiga e nos puristas mais empedernidos. Depois da voz das nuvens, chegou a vez dos gelos ardentes se fazer ouvir. Da Escandinávia escorre o sangue dourado de uma nova glaciação. (10)

Hedningarna – “Hippjokk” + Garmarna – “Guds Spelemän”

POP ROCK

12 Março 1997
world

Companheiros de escola

HEDNINGARNA
Hippjokk (8)
Silence, distri. MC – Mundo da Canção

GARMARNA
Guds Spelemän (8)
Xxource, distri. MC – Mundo da Canção


hed


gar

Olhem lá para a pinta de malucos dos meninos. São os suecos Hedningarna, a coqueluche da música, hã…, tradicional escandinava, no seu muito aguardado regresso discográfico, agora reduzidos a um trio. Quer dizer que neste seu novo álbum os três meninos – Anders Stake, Hällbus Totte Mattsson e Bjӧrn Tollin – ficaram sem as meninas, Sanna e Tellu, as bruxinhas boas dos anteriores e fabulosos “Kaksi” e “Trä”. Foi-se também embora a sanfona assassina (se calhar explodiu mesmo…). A loucura instrumental, essa, permanece, se bem que, agora, num registo mais normalizado e, por isso, menos escandaloso. Além disso – surpresa –, as vozes de Stake e Mattsson cumprem satisfatoriamente o registo de arrebatamento xamânico característico dos Hedningarna, tarefa que antes pertencia à falange feminina.
Fazendo o ponto da situação, temos que o grupo sedimentou um estilo que tem vindo a fazer escola, não só no seu país de origem: um tribalismo exacerbado – nalguns casos de ressonâncias quase africanas – que, paradoxalmente, levando em conta a evolução sofrida pelo grupo de “Kaksi” para “Trä”, dispensa nesta sua nova fase, quase por completo, a componente electrónica. Nesta medida, “Hippjokk” pode ser encarado como um retorno discreto às proximidades da tradição, como acontecia no álbum de estreia, “Hedningarna”. Algo que se pode verificar com nitidez em temas como “Dufwa” ou “Skåne”, o que poderá significar uma tomada de consciência quanto ao esgotamento de uma fórmula de ruptura que terá atingido em “Trä” os seus limites.
Poderoso, como seria de esperar, mais do que nunca apoiado no frenesim das percussões (estonteantes, faixas como “Bierdna” ou “Kina”), “Hippjokk” deixa de fazer da estratégia de choque uma questão de honra, ao mesmo tempo que mostra que os Hedningarna estão bem se saúda, provavelmente até libertos do peso de uma responsabilidade que os obrigava a transportar, sozinhos, o fardo da revolução.
Libertos de qualquer pressão, os Garmarna prosseguem, por seu lado, o seu caminho de renovação da música de raiz tradicional sueca, neste caso ainda com a voz de Emma Hårdelin a conferir uma força adicional às polifonias colectivas, “drones” de sanfona, samplagens e percussões etno-rock que tornam único o som dos Garmarna, inovadores dentro da tradição sueca, sem contudo a atirarem pela borda fora, como, apesar de tudo, ainda fazem os Hedningarna. Todavia, a aproximação entre estes dois grupos faz-se sentir em temas como “Min man”, “Varulven” ou “Herr Holger”, fenómeno de simbiose, não de todo desejável, provocado pelo atrás mencionado “efeito de escola” dos autores de “Kaksi”, o que não acontecia no anterior álbum dos Garmarna, “Vittrad”. Apetece dizer que os Garmarna, num altura em que os Hedningarna parecem ter chegado a uma encruzilhada, foram buscar influências a “Kaksi” e “Trä”, assumindo-se como os continuadores de um trabalho ainda com novas potencialidades por explorar.
“Hallings” da Noruega, um poema do povo “saami”, baladas medievais, histórias de lobisomens e tragédias de família desdobram-se nos tons de vermelho que se tornou a cor fundamental, tanto da embalagem como dos sons, de “Gude Spelemän”. Os Garmarna decidiram trocar a poesia pela energia.





Hedningarna – “Trä”

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
WORLD

NO EXCESSO ESTÁ A VIRTUDE

HEDNINGARNA
Trä (10)

Silence, distri. MC – Mundo da Canção


hed

O novo disco dos Hednigarna! Só de pensar será para muitos o êxtase antecipado. Que poderão ter estes suecos para apresentar depois da superbomba “Kaksi!”, unanimemente clamado como um dos grandes discos de folk, ou algo do aparentado, do ano? A resposta, consumada a audição, só pode ser uma: música! Se parte do impacto causado por “Kaksi!” derivava precisamente de factores como “novidade” e “diferença”, de um som sem antecedentes próximos da música de raiz tradicional oriunda não só da Escandinávia como do resto do planeta, em “Trä” (“madeira”) esse elemento-surpresa, como é óbvio, esbateu-se ou desapareceu mesmo por completo, o que permite agora à atenção concentrar-se por inteiro na própria música, independentemente de uma atitude ou do desenho de uma estética geral que em “Kaksi!” causaram o estrondo que se sabe.
Com a entrada triunfal do som de madeira de uma gaita-de-foles, sobre as percussões majestosas de Bjӧrn Tollin (de resto com um trabalho portentoso ao longo de todo o álbum), em “Täss’ on nainen”, tem início a passagem de novo vendaval dos Hedningarna. Uma serra eléctrica introduz o tema seguinte, “Min skog”, outra vez com percussões demenciais e a sanfona de Andres Stake, como de costume, ameaçando estoirar a qualquer momento. “Varg Timmen”, com percussões electrónicas a lançarem para o espaço o violino “hardingfela”, é pop, é tradicional, é tudo o que se lhe quiser chamar, é irresistível e decerto o tema em que as rádios vão pegar. Em “Gorrlaus”, a voz de Sanna Kurki-Suonio aparece filtrada e a sanfona volta a ranger os dentes sobre percussões totalitaristas. Os Hedningarna são os Laibach da folk! “Skrau Tvål” é uma dança xamânica e “Pornopolka” (!) uma segunda hipótese a considerar do ponto de vista radiofónico.
O experimentalismo respiratório de “Räven” remete para a importância que as “drones” detêm na música dos Hedningarna, cuja dupla de vocalistas femininas (além de Sanna, Tellu Paulasto) volta a atear-se em “Såglåten”. “Tuuli” é tecno da idade do gelo e nova demonstração de que os Hedningarna não receiam pisar o risco. É necessário esperar pelo penúltimo tema, “Täppmarschen”, o mais “tradicional” na forma, de “Trä”, para se ter direito a um pouco de calma. Se ainda não adivinharam, “Trä”, mais ainda do que “Kaksi!”, tem um “speed” que ronda o frenesi e não dá um segundo de descanso a ninguém. Um fogo incontrolável parece possuir os Hedningarna, demónios à solta que, por enquanto, não se sabe se estão a destruir ou a construir uma nova música tradicional. Mas as chamas acabam por baixar por fim de intensidade, deixando ouvir, no princípio e durante largos segundos no final do último tema, “Tina Vieri”, o som de água a correr. A própria voz feminina brota de uma fonte mais fresca antes de a gaita-de-foles soltar um emocionado canto de despedida.
“Trä” trará decerto um público ainda mais vasto para os Hedningarna, “vikings” com o freio nos dentes para quem, mais do que nunca, a virtude está no excesso.