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Soul Center – Soul Center

18.02.2000
Soul Center – Soul Center (6/10)
W.v.B. Enterprises, distri. Ananana

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Uma das perguntas que ao longo dos últimos anos fiz a mim próprio foi: “Para que serve a música de dança?”. Sem que me desse conta, fez-se luz e a resposta brotou, luminosa, no meu cérebro: “Para dançar”. Armado com esta descoberta encarei de frente a tarefa de escrever sobre este álbum sobre o qual a informação é nula, exceptuando o facto de me terem dito que o mentor dos Soul Center é o alemão Thomas Brinkmann, o mesmo que no ano passado, no concerto de encerramento do Festival Reset!, me fez corar de vergonha, pondo-me a dançar ritmos tecno, ali em frente de toda a gente! O tema de abertura de “Soul Center” prolonga aquilo que se ouviu nessa ocasião: música electrónica primária mas extremamente eficaz. As coisas mudam de figura no tema seguinte, com um swing construído a partir de samples vocais que lembra “Idioglossia”, um excelente e ignorado álbum de Chris Burke. A batida tecno-tribal regressa no tema nº 3, o que me obrigou a saltar mais uma vez do computador para o meio da sala, possuído pelo furor da dança. “Funky Man!”, gritei de entusiasmo, os olhos injectados de sangue, as pernas fora de controle. Mais “funk” e vozes sampladas na faixa 4. Começo a ficar preocupado. Estou a gostar. Vejo ao longe James Brown acenar com os braços. Uma coberta de sintetizador de cetim analógico aumenta ainda mais a sedução. Thomas Brinkmann é um pragmático, tudo na sua música converge para a sagrada função de fazer dançar, custe o que custar, de forma por vezes linear mas sempre sob o comando, mais do que da inteligência, dos estímulos disparados pelos sentidos. Sem ser inovador, soando mesmo a anacronismo, “Soul Center” toca, afinal, nesse tal centro da alma – lugar onde convergem e de onde partem todas as danças.

Gas – “Pop” + Sciss – “Azoiphon”

04.08.2000
Gas
Pop (7/10)
Mille Plateaux, distri. Ananana
Sciss
Azoiphon (7/10)
Tabu 2000, distri. Ananana

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Só por ironia o trabalho do alemão Wolfgang Voigt, sob a designação Gas, tem o título que tem: “Pop”. O que aqui é dado a ouvir é um longo e mântrico oceano de “chill out” e “ambient techno” cujos efeitos são semelhantes aos provocados pela inalação de um algodão embebido em clorofórmio ou à progressiva intoxicação de alguém que adormeceu no banho, asfixiado por uma nuvem de gás e de vapor num longo adeus de sonhos. Por detrás desta música ambiental parasitada por miasmas permanece uma cortina constante de sons de água inquinada a escorrer de um cano ou da tal fuga de gás. Perante este adormecimento dos sentidos reage-se de duas maneiras: ou se foge em pânico à procura de ar puro, ou se respira até ao fim e então a vontade esvai-se para se confundir com a nuvem tóxica que, inexoravelmente, tolherá a mente até a tornar inerte. Um álbum perigoso e sedutor, complemento tropical (com os mosquitos de malária incluídos…) da elegância gelada dos Biosphere. A música dos Sciss (alemães, sempre alemães…), pelo contrário, não pára quieta num constante desafio à atenção. Electrónica em regime de metamorfose, menos apostada em divertir do que em fazer trabalhar e em pregar sustos à imaginação. Pense-se nuns FX Randomiz com laivos de crueldade (quem se lembra dos The Art Barbecque?) ou nuns Cluster cortados aos bocados que depois são colados fora do sítio (“Blinder zaungast”), num caleidoscópio fosco de programações sem alma e melodias microscópicas. Apenas faltará “swing” a esta obra com matéria mais do que suficiente para dar de comer aos neurónios.

Enigma – Le Roi Est Mort, Vive Le Roi

11.12.1996
Enigma
Le Roi Est Mort, Vive Le Roi
VIRGIN, DISTR. EMI – VC

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“O segredo da magia? O ‘groove’ dominante, a repetição meditativa, o ambiente envolvente, a certeza de que todos os sons se vão dissolver numa harmonia perfeita no final de cada crescendo”, assegura a folha de promoção. Não negue à partida uma ciência que não conhece. Por nós, ficamos calados, recolhidos em profunda meditação, de ouvidos e alma atentos a estas vozes com raízes profundamente mergulhadas nas etnias do planeta e o poder da tecnologia à mão de semear. E, como nós, muitos outros quedarão de olhos brilhantes em frente à lareira de Natal, com a convicção reconfortante de que o mundo até nem é um sítio muito mau para se viver. Apagar-se-ão os males do mundo, os anjos descerão com a sua benção, enquanto os Enigma vão dispondo nom tabuleiro as peças do seu presépio de plástico. O grupo fez evoluir o género “etno seca” retirando-lhe o “etno”. Fica a “certeza de que todos os sons se vão dissolver numa harmonia perfeita no final de cada crescendo”. A harmonia perfeita da morte. Os dois priomeiros álbuns dos Enigma venderam, até ao momento, mais de 17 milhões de cópias em todo o mundo. Não há dúvida: este mundo é mesmo o local melhor para se viver. Oremos, irmãos. No santuários de uma loja dos trezentos. Compre enquanto pode. Pague um e leve dois. Relaxe. A vida são dois dias e o elevador dos Enigma há-de levá-lo ao céu. Lá, a cor da “saison” é o dourado. (0)