Arquivo da Categoria: Percussão

Tim Tim Por Tim Tum – Diálogos De Bateria

28.11.1997
Tim Tim Por Tim Tum
Diálogos De Bateria (7)
Ed. e distri. Farol

Há uns meses assistimos a um concerto dos Tim Tim por Tim Tum no qual a faceta performativa do grupo chegava a ofuscar a vertente estritamente musical. O disco de estreia do colectivo de José Salgueiro, Acácio Saleiro, Alexandre Frazão e Marco Franco elimina o primeiro daqueles dois aspectos, revelando-se a música do grupo dentro de uma estética ssumidamente jazzística. Ao contrário dos = Ó Que Som Tem, grupo de percussões em que, acima de tudo, é trabalhado o som colectivo, os Tim Tim Por Tim Tum privilegiam a individualidade e idiossincrasias da cada músico, numa perspectiva de solistas. Os O Ó Que Som Tem preocupam-se com o padrão rítmico e tímbrico dos instrumentos de percussões, criando atmosferas de transe, enquanto os Tim Tim concentram a atenção na continuidade do discurso, em solos ou em diálogos de bateria de onde se destacam as contribuições das respectivas partes. O único tema em que se impõe uma trama minimalista e textural do som percutivo é “Aqui Há Latas”, já que nos restantes de torna notório um carácter narrativo com centro no “jazz”, como acontece em “Jim Tónico”, colorido pelo saxofone (simultaneamente livre e integrado) de Marco Franco, no longo solo de bateria do convidado Jim Black, “Jim Solo”, ou no ainda mais extenso “Max Roach”, dedicado ao mestre com este nome. A curiosidade que é “Pop larucho”, em torno de uma base rítmica popular (que em portugal, como sabemos, não permite oos muito rasgados…), e a brincadeira final de “Sax e Vassouras” não acrescentam muito aos enunciados principais dos Tim Tim por Tim Tum, que pecarão, por agora, talvez apenas pela falta de ousadia, em contraste aliás com a sua psotura em palco.

Kodo, Depois Do Concerto, Apresentam O Álbum “Ibuki” – Entrevista –

24.07.1998
Kodo, Depois Do Concerto, Apresentam O Álbum “Ibuki”
Zen, Tambores E Monty Python
A espiritualidade é um termo inventado pelos ocidentais para explicar as coisas simples. Tão simples que a razão as desconhece. É esta a filosofia dos Kodo, que actuaram no passado fim-de-semana na Expo. Quem faltou, ainda tem à sua disposição o novo álbum do grupo, “Ibuki”, produzido por Bill Laswell.

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Como já acontecera há cinco anos, no Mosteiro dos Jerónimo, a combinação do poder das percussões com os efeitos cénicos dos Kodo voltou a causar a admiração geral. O álbum é menos espectacular. Falta-lhe o teatro, o lado visual que é parte essencial de qualquer apresentação ao vivo dos Kodo. Takashi Akamine, um dos elementos do grupo, explicou ao PÚBLICO como bate o coração de um tambor taiko.

FM – A que é mais importante na música dos Kodo, a disciplina, a precisão, o som, o teatro, a atenção?…

TAKASHI AKAMINE – É iso tudo junto. A nossa “perfomance” é muito visual, um aspecto tão importante como a música.

FM – A disciplina é dos factores mais impressionates nas vossas aprsentações. Como é que a treinam?

TAKASHI AKAMINE – Uma das vantagens de viver em comunidade é poder estabelecer uma intimidade. Como ser casado, conhecer em profundidade a mulher e os filhos com quem se vive.

FM – É difícil não especular sobre o que se passará nas vossas cabeças, sempre com o som dos tambores a ressoar lá dentro.

TAKASHI AKAMINE – Alguém fez uma vez a mesma pergunta a um dos músicos e ele respondeu que queria transformar-se no som do tambor. Quando se toca um instrumento como este tem que se lhe dar tudo, 100 ou 200 por cento de nós próprios. É uma luta connosco próprios. Não é possível representar, no sentido de fingir. De certa forma é essa a beleza da nossa música. Não representamos, oferecemo-nos à música.

FM – O modo como interpretam certas peças sugere uma relação com as artes marciais. Existe, de facto, essa ligação?

TAKASHI AKAMINE – É semelhante, mas nenhum de nós pratica artes marciais. Há uma quantidade de informação relativa ao que sepassa em palco nos nossos espectáculos mas nenhuma das interpretações esgota aquilo que na realidade somos. Há, é verdade, algo de espiritual na nossa música. Mas isso acontece com qualquer músico que acredite verdadeiramente naquilo que faz. Mas as pessoas colam-nos essa espiritualidade porque vimos do Oriente longínquo, com trajes e luzes diferentes. As pessoas acham tudo isto misterioso…

FM – E o zen?

TAKASHI AKAMINE – Isso é mais difícil de responder. Nenhum de nós pratica zen mas à medida que crescemos há determinadas influências que nos atravessam quase sem nos darmos conta. É como o Cristianismo que, consciente ou inconscientemente, está presente nos ocidentais. Mas é verdade que alguns dos músicos fazem meditação antes de entrar em palco, mas talvez de uma maneira diferente do zen. É mais uma abordagem mental.

FM – Como se processa a ligação entre a vossa música e a música tradicional japonesa?

TAKASHI AKAMINE – Há uma combinação de ambas. Os instrumentos são antigos, feitos por construtores tradicionais mas a maneira como nos expresamos é contemporânea. Em “Ibuki” existem temas tradicionais e composições originais. Mesmo alguns dos trajes tradicionais que usamos em cena foram uma ideia do estilista francês Pierre Cardin…

FM – Que significado tem o tambor taiko na cultura japonesa?

TAKASHI AKAMINE – O tambor taiko sempre esteve associado a aspectos rituais e religiosos ou ao teatro nô. Os mais pequenos costuma ser tocados em festas nas aldeias. Para nós é apenas um instrumento musical que adaptamos ao nosso próprio estilo.

FM – Um dos momentos mais espectaculares do vosso concerto é o longo “combate” solitário travado por um dos músicos que percute até exaustão o tambor maior. Há nesta peça algum significado especial?

TAKASHI AKAMINE – Significado… Não é importante perceber o significado. Porque não apenas sentir? E divertirmo-nos? Que sentido faz analisar?

FM – Eis uma perfeita asserção zen…

TAKASHI AKAMINE – Provavelmente, sim. Não renego que faça parte do meu passado. As pessoas querem sempre consultar o programa antes dos concertos, para saber o que se irá passar. No Japão não se distribuem programas. Se alguém quiser saber alguma coisa, só depois dos concertos. Preferimos que as pessoas façam a sua própria interpretação. Que achem a nossa música triste ou alegre. Que criem a sua própria história, a sua própria imagem no cérebro. Alguém definiu um dos nossos temas como gotas de chuva. Maravilhoso!

FM – Há alguma abordagem colectiva na forma como os Kodo encaram o ritmo?

TAKASHI AKAMINE – Há músicos com antecedentes diferentes dentro do grupo. Vê do jazz, do rock, da música clássica. Cada um traz o seu próprio “aroma” para a música. Alguns introduzem um lado jazzístico nas percussões japonesas. Digamos que o compositor específico de cada peça assume um papel determinante. Mas todos os outros ajudam contribuind com as suas ideias.

FM – Quem teve a ideia de entregar a produção de “Ibuki” a Bill Laswell?

TAKASHI AKAMINE – Fomos nós. Pedimos à editora se podíamos trazer um produtor de fora. ele ouviu a nossa música e achou que o disco devia reforçar o lado mais grave e profundo dos tambores…

FM – É o disco mais variado dos Kodo…

TAKASHI AKAMINE – Sim, tem música africana, peças que soam a jazz… É o lado excitante de gravar CDs, poder fazer coisas que são impossíveis de pôr em prática nos espectáculos ao vivo.

FM – Existe uma essência na música dos Kodo?

TAKASHI AKAMINE – Há alguns anos Michael Palin, um dos actores dos Monty Phyton, de quem sou grande admirador [N.R.: Nesta altura da entrevista ficámos definitivamente rendidos à imensa sabedoria dos Kodo] assistiu a um dos nosos espectáculos e insistiu que o deixássemos tocar um dos tambores. Acedemos, mas para nossa surpresa, bateu muito suavemente, quase sem fazer som. Perguntámos-lhe por que razão não batia com mais força. Respondeu-nos que qualquer inglês que se preze, em qualquer circunstância, não deve, não pode fazer barulho. Nós somos o contrário. Temos orgulho em fazer o maior barulho possível. Transgredir as regras socialmente aceites, aquilo que se deve ou não fazer. Fazemos todo o barulho que queremos. Penso que esta é uma das razões por que as pessoas se sentem mais livres ao ouvir a nossa música.

Tim Tim Por Tim Tum Na Sua Estreia Discográfica

05.12.1997
Tim Tim Por Tim Tum Na Sua Estreia Discográfica
Homens Com O Centro Na Bateria

“Diálogo de Baterias” é o álbum de estreia dos Tim Tim por Tim tum, quarteto de bateristas formado por José Salgueiro, Acácio Salero, Alexandre Frazão e Marco Franco. Quem assistiu ao seu concerto realizado na Primavera passada no CCB terá reparado na forte componente cénica e lúdica do grupo, algo impossível de passar para uma gravação. A questão foi contornada com o recurso a uma faixa interactiva em CD-ROM para PC-Windows que inclui imagens de actuações ao vivo do grupo, Às quais se acede através de uma espécie de jogo.
A oportunidade para a gravação do disco surgiu na altura em que se encontrava em Portugal o baterista norte-americano Jim Black – acompanhante habitual do contrabaixista português Carlos Bica e músico de créditos firmados na cena jazzística internacional -, convidado para um “workshop” com os bateristas dos Tim Tim. Foram juntos para o teatro da Malaposta, onde estiveram dois dias a trabalhar. “Senti que havia ali uma forma espontânea do que estava a acontecer e pedi os meios para gravar”, explica José Salgueiro, principal força impulsionadora deste projecto único em Portugal. “gravou-se como se grava um disco de ‘jazz’, um disco de ‘takes’, tocado em tempo real com o técnico de som junto a nós, com a mesa e os gravadores na borda do palco. Criámos um ambiente, carregámos no “rec” [“record”, gravar] e estava a andar.”
Disco de bateristas, por oposição a um disco de percussionistas, “Diálogos de Bateria” constrói-se a partir de um respeito mútuo entre todos os músicos participantes e da sua capacidade para se “ouvirem uns aos outros”. “Não tentamos sacar malhas uns aos outros”, garante José Salgueiro, para quem “Tim Tim por Tim Tum é igual a comunicar”. Representou ainda a possibilidade de explorar um instrumento, a bateria, do qual andara arredado nos últimos tempos. “Sempre fui baterista, toquei bateria nos Trovante durante oito anos. Depois, quando o grupo acabou, houve uma altura em que comecei a ser requisitado como percussionista. De repente dei por mim sem trabalho na bateria”, diz José Salgueiro, baterista de gema mas que nos últimos anos se tem notabilizado como percussionista em grupos como os O Ó Que Som Tem, de Rui Júnior, que abandonou recentemente, ou nos Gaiteiros de Lisboa.
“Diálogo de Baterias” tem sabor a “jazz”. Alimentado pela improvisação. Um dos temas, “um verdadeiro diálogo de baterias, sobre um ritmo típico do Max Roach”, é dedicado a este baterista, uma das lendas vivas do jazz que, de certa forma, foi também responsável pela génese do grupo. “Fiz um ‘workshop’ com ele e o seu grupo, só de percussionistas, os M’Boum, em Barcelona. Foi um estalo. a experiência repetiu-se em Portugal, na Gulbenkian, desta feita sem o grupo, e foi aqui que se decidiu fazer a coisa com músicos portugueses. O Max Roach falou connosco e pôs-nos a tocar, dando-nos pistas musicais, mais do que ensinando-nos pormenores técnicos. Os Tim Tim germinaram nessa altura na minha cabeça.”
No horizonte do grupo perfila-se a hipótese de realização de uma série de espectáculos no estrangeiro. “Há imenso espaço para os Tim tim”, diz José Salgueiro. “Para já, começámos a trabalhar com a companhia de dança do Paulo Ribeiro, na mesma peça de percussões com as mãos e o corpo que fizemos no CCB, só que agora também dançamos, eu e o Marco Franco.” Além disso, já existem contactos no Brasil, Bélgica e talvez nos Estados Unidos.
Neste momento, além dos Tim Tim por Tim Tum, José Salgueiro reparte a sua actividade pelos Gaiteiros de Lisboa, pelo projecto “Suite da Terra”, com Carlos Barreto e Mário Delgado, uma tentativa de recriação original da música tradicional, “com linguagem de improvisação”, que sairá proximamente em disco, e pelo quarteto de João Paulo Esteves da Silva, com o qual irá também gravar em breve. Quando chegar a Expo-98, José Salgueiro terá em mãos espectáculos com os Tim Tim, com os Gaiteiros e com João Paulo Esteves da Silva, além de um outro girando em torno do adufe. “É um instrumento sobre o qual, curiosamente, não percebo muito. Vou ter que pesquisar para fazer um espectáculo de percussão em que o adufe seja a estrela.” “Já tenho uma agenda nova e ando a ver se consigo conciliar estas coisas”, desabafa com satisfação José Salgueiro, um músico para quem o ritmo é uma paixão.