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Sétima Legião: “Sexto Sentido” Muda Sonoridade Do Grupo – entrevista –

19.02.1999
“Sexto Sentido” Muda Sonoridade Do Grupo
Legião Estrangeira

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Seis anos depois de “O Fogo”, os Sétima Legião voltaram a reunir-se para gravar um novo álbum, “Sexto Sentido”, um trabalho marcado pela tecnologia e pelo tratamento de samples que funde a alma da Sétima numa alface virtual. Música menos física e mais mental, nas palavras do grupo. E muito mais internacional.

Tão ou mais surpreendente do que a mudança radical nos métodos de trabalho e gravação deste novo álbum da Sétima é o facto de, passado um interregno de seis anos, os intervenientes serem os memso e, ainda por cima, estarem sintonizados na mesma onda musical. Um caso de fé inabalável num projecto e num conceito que passou a ter forma exclusiva nas máquinas e nas mentes dos músicos. “Sexto Sentido” existe apenas enquanto utopia sonora e espaço convergente de diversas sensibilidades unidas pelo propósito da descoberta e reconversão. Daquilo a que, com boa vontade, ainda poderemos chamar tradição, mas agora já transmutada num mutante abstracto que se alimenta do imaginário planetário. O PÚBLICO samplou as ideias de três dos alquimistas, Gabriel Gomes, Pedro Oliveira e Paulo Abelho.
FM – Ao escutar-se “Sexto Sentido” tem-se a impressão de que a música se esgota numa dimensão exterior, não só à anterior realidade do grupo, como à própria fisicalidade do som. Como conceitos a pairarem num mundo de imponderabilidade…
GABRIEL GOMES – Isso deve-se ao diferente método de produção que utilizámos. Nem toda a gente estava disposta a ir para uma garagem passar quatro meses a ensaiar. Foi muito mais fácil agarrar nos compositores e respectivas composições e juntá-los consoante a disponibilidade de cada um.
PAULO ABELHO – Além do facto de cada um de nós ter desenvolvido, entretanto, diferentes métodos de trabalho.
FM – As composições deixaram de ser assinadas pelo colectivo para passarem a ser assinadas pelos nomes próprios dos músicos, em diversas combinações.
GABRIEL GOMES – O que não quer dizer que não haja um intercâmbio e uma comunhão.
FM – Querem dizer que, embora tivessem seguido carreiras separadas, acabaram todos por convergir ao mesmo tempo numa estética comum?
PAULO ABELHO – O que acontece é que, desde o início, há 15 anos, que somos amigos. Continuámos todos a andar juntos, a sairmos à noite, com negócios comuns…
GABRIEL GOMES – O Pedro, sobretudo, serviu de elo entre todos. Mas o que uniu tudo foi a matéria musical. E isso é que foi o mais engraçado. Embora separados, quando nos juntámos para estúdio, estávamos todos no mesmo sítio.
FM – Como é que surgiu a ideia de erguer toda a arquitectura de “Sexto Sentido” com alicerces nos samplers? É um mundo alheio à Sétima Legião antiga…
PAULO ABELHO – É verdade que operámos com base em samples e nos sintetizadores, mas sem qualquer sentido arquivista.
PEDRO OLIVEIRA – Deixámos de respeitar as regras de um grupo pop. Este disco é um disco de vários compositores com um elo comum.
FM – Mas não acham que álbum soa um pouco a produto de laboratório?
GABRIEL GOMES – Usámos métodos diferentes para trabalhar o som. É evidente que, quando se trabalha com tecnologia, tem que se utilizar métodos laboratoriais. Mas acho que, por exemplo, nas figuras da gaita-de-foles ou do acordeão, tentámos criar “takes” o mais espontâneos possível, gravados á primeira. Inclusive, deixámos algumas coisas que não quisemos corrigir. A grande inovação deste disco é, de facto, o som.
FM – No caso das vocalizações sobre vozes sampladas, de que forma é que esta interacção modifica a interpretação em tempo real? Esta questão dirige-se, como é óbvio, ao Pedro.
PEDRO OLIVEIRA – É intuitivo. Quando sentes que alguém está a cantar ao teu lado, de uma maneira não física, isso molda a nossa maneira de cantar. Se não houvesse a voz de uma senhora do campo a cantar, eu cantaria, de certeza, e outra maneira.
FM – Até que ponto “Sexto Sentido” foi composto, não só no, mas com o próprio estúdio?
PAULO ABELHO – Sobretudo na fase final, nos últimos meses, começámos a simplificar as coisas. Sem dúvida que houve pormenores que só apareceram no estúdio.
FM – Concordam que, com este disco, a Sétima respira já alguns ares de música de dança?
GABRIEL GOMES – Há uma sonoridade mais contemporânea, mais próxima de algumas correntes actuais. Mas não se trata de um “beat” de música de dança. Mas, se reparar, todos os concertos da Sétima Legião eram de dança, as pessoas dançavam do princípio ao fim…
FM – “Sexto Sentido” é um disco de fusão. Em que sentido é que aceitam, se é que aceitam, este termo?
GABRIEL GOMES – Não se tratou de agarrar em tudo e meter numa panela, mas de fundir as sonoridades, os instrumentos acústicos com os electrónicos.
FM – Mas naõ concordam que a sonoridade global do disco se insere numa vertente internacional bastante identificável?
PEDRO OLIVEIRA – Não foi propositado. Mas o que é isso de ser ou não português? Os Gaiteiros de Lisboa, por exemplo, estão cada vez menos portugueses.
GABRIEL GOMES – Tem a ver com a produção, com a forma de tratar os om. E aí, concordo, é um som mais interbnacional do que português. Outro exemplo: ouvi no outro dia os DNA, têm um som exactamente igual aos U2… Incrível. Mas são portugueses. O som de uma banda de recolha?
PEDRO OLIVEIRA – Desde o início tivemos sempre a preocupação de não ter como objectivo estético o aproveitamento da portucalidade, da tradição, etc… Há 15 anos usávamos uma gaita-de-foles apenas porque ficava bem. Nunca quisemos fazer qualquer transposição da tradição para música pop.

Alfaces e Fractais

FM – Existem facções diferentes na Sétima, uma mais tecnológica e outra mais acústica? Referimo-nos ao Paulo Marinho…
PEDRO OLIVEIRA – Não, embora não exerça muito, também tem o fascínio pelos computadores. Aliás, o papel dele, neste disco, foi o mais ingrato, por ser o único músico cem por cento acústico. Ingrato, por não poder repetir neste caso o que sempre fez. No passado havia algumas coisas prvisíveis, sabia-se sempre onde é que entrava um solo de gaita. Neste disco ele fez um esforço de não ser previsível, no sentido de produzir um som muito menos trabalhado. É uma contradição com alguma graça, inclusive há algumas “gralhas” que optámos, ou optou ele, por aproveitar. Muitas vezes esperávamos que ele fizesse de determinada maneira e ele fazia exactamente o oposto.
FM – A capa do álbum insiste na tecla tecnológica. É um fractal?
PAULO ABELHO – Não. É uma alface. Com filtros.
GABRIEL GOMES – reflecte a dualidade da terra e da tecnologia. Ema simbisose biológica.
FM – Têm opinião sobre o actual retorno aos sintetizadores analógicos?
PAULO ABELHO – Houve uma altura em que se passou do analógico para sistemas como o “PCM”, com pequenas amostras de som pré-programados no sintetizador. Acabou por acontecer uma certa saturação disso. Eram aqueles sons e só aqueles. Agora, construir algo a partir do zero, que é o que acontece no analógico, é muito mais fascinante, em termos de criatividade.
FM – Usaram sintetizadores analógicos neste disco?
GABRIEL GOMES – Sim, como um JP 8000, dos anos 80, que recupera todos os analógicos da Roland antigos, sintetizados na mesma máquina.
FM – Nada de Moogs nem A.R.P.?
PAULO ABELHO – Eu tenho um Korg MS-10 onde é possível criar qualquer coisa de raiz. Posso partir do ruído branco e daí construir um novo som em tempo real. O que vai acontecer na próxima fase é o aparecimento de uma nova tecnologia que utiliza estes métodos de síntese, mas já em conjunto com samplersd. Todas as marcas estão a lançar analógicos, mas mesmo isso vai chegar a um limite. É preciso inventar novos métodos de síntese, como já acontece com a Yamaha, com síntese FM, que recorre a algoritmos. Mas nunca vou samplar uma gaita-de-foles (a não ser que pretenda desmontar ou manipular o seu som), se puder usar o instrumento real.

Entrevista: Coldfinger Acenam com “Lefthand”

22.09.2000
Coldfinger Acenam com “Lefthand”
Quem é a Favor, Levante a Mão Esquerda

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Mãos ao ar! A esquerda! “Lefthand”. O álbum de estreia dos Coldfinger electrifica filmes negros, comete crimes na noite, faz scratch de sentimentos obscuros e corta à faca versos de Álvaro de Campos. E se entrar para um autocarro a uma hora de ponta e olhar para dentro da cabeça de uma pessoa – isso é drum ‘n’ bass. O PÚBLICO armou-se em detective e foi investigar.

Ele, Miguel Cardona, faz filmes sonoros, sente o poder de tocar na teclas de um piano Fender Rhodes ou de um Mini-Moog, arreganha os dentes a quem ousa proclamar a morte do drum ‘n’ bass e não consegue aguentar até ao fim a beleza excessiva de um filme como “Magnolia”. Ela, Margarida Pinto, veste-se das grandes cantoras clássicas e assume-se como a “face escura” da banda. Em “Lefthand” cada um é o braço do outro.
FM – Como é que Álvaro de Campos aparece metido nesta história, no tema de abertura, “Para um poema”?
Margarida Pinto – Foi um poema que me veio parar Às mãos. Normalmente trago sempre comigo a “Tabacaria” mas neste caso li os versos na casa de um amigo meu e achei-os extremamente musicais. Fiquei com o poema na cabeça. Acabámos por utilizá-lo com uma base musical que também não é nossa, mas do Arkham Hi*Fi.
FM – “Lefthand” junta electrónica, lounge, jazz, bossa-nova… Não se pode dizer que não estejam na crista da onda.
Miguel Cardona – No meu caso, que estou mais ligado à produção, se não estiver a fzer música estou a ouvir. Em minha casa ou na de coleccionadores de discos. Ainda na semana passada comprei o “Room With a View”, que é uma compilação dos Amalgamation of Soundz, que são eles próprios coleccionadores, a colectânea “Jazz in the House 8” do Phil Asher, alguém que passa este tipo de som que agora está na moda, um álbum já antigo de Q-Tip. A verdade é que todas estas modas, como o fat garage, ou o Larry Levan, já me andam a chatear. São cada vez mais rápidas, as pessoas não têm tempo para absorver o que é importante.
Margarida Pinto – Eu ouço Billie Holiday, Nina Simone, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan…
FM – Dizia o Miguel que as pessoas já não absorvem o que é importante?
Miguel Cardona – Às tantas forma-se um bloqueio. De repente gosta-se de bossa e já não se gosta de drum ‘n’ bass, de que se gostava há três meses. Ouvir música torna-se um fenómeno consumista e “racista”. A moda leva as pessoas a terem sensações apenas pelo facto de ser algo que está na moda e não simplesmente pela música em si. Diz-se: “Sinto-me bem porque estou num ambiente lounge a ouvir Masters at Work na versão “Bossa Très Jazz” e pronto, estou bem porque estou com o pessoal, sei que o que está a tocar é a faixa três, sei que isto foi roubado pelos Moloko e que deu milhões de contos em “Sing it Back”, portanto sou uma pessoa especial porque sei isto, porque li numa revista ou um amigo meu ou um jornalista informadíssimo me disse!”…
FM – Mas isso não faz parte da própria natureza do circuito da música de dança, essa socialização? Mesmo a música de “Lefthand” está mais próxima do que nos primórdios da banda, dessa vertente, digamos, mais mundana…
Miguel Cardona – Isso é porque ficámos mais sozinhos a produzir o disco, apenas nós os dois e o Joe Fossard. É um disco mais vasto onde se torna mais fácil darmos largas a todas as nossas ambições musicais e se calhar porque estamos mais perto dessa ideia de contemporaneidade social do que de uma ideia de contemporaneidade intelectual.
FM – E a Margarida, sente o mesmo apelo do gozo directo, de uma música mais conotada com o conceito de diversão?
Margarida Pinto – Não, normalmente sou eu a “face escura”. O Miguel é uma pessoa com mais energia que assume esse lado de provocar uma experiência sensitiva, de provocar nas pessoas uma vontade de dançar. Eu vou menos por aí…

Duke Já Havia

FM – “Duke Interlude” é obviamente uma dedicatória a Duke Ellington, embora pela música ninguém adivinhasse…
Miguel Cardona – Esse tema tem uma história. Ao registar as faixas na SPA, o tema chamava-se “Rude Interlude”. A senhora que lá estava, muito simpática, disse logo “não, não! Esse tema não pode registar com esse nome porque há aqui um senhor que é o (soletra) D-u-k-e E-ll-in-g-ton…”. Já eu me estava a partir a rir. Exactamente, é mesmo o senhor Duke Ellington. Entre gargalhadas acabei por “agradecer” à senhora ter ficado a conhecer um grande vulto da orquestração jazz e um dos músicos do séc. XX. Ficou “Duke Interlude”.
FM – Pelos títulos, percebe-se que gostam de brincar com as palavras…
Miguel Cardona – É uma necessidade. Por exemplo, “B com 1”, que no poema original da Margarida se chama “One Alone”. Mas também tivemos dificuldade com o registo dessa faixa… “Mondo” faz-me lembrar o nome de uma bebida, ou uma paisagem…
FM – Quem são os Lisbon City Rockers que produzem os temas “Criminal Behaviour” e “Trans Interlude”?
Miguel Cardona – É segredo. Também foram eles que produziram o nosso single, “Single plus”. Digamos que são um colectivo cujo anonimato tem a ver com a ideia de criar uma imagem, um espaço lúdico, uma etiqueta que possa incluir Os Faíscas, António Variações ou os Mler Ife Dada, passando pelo Rock Rendez-Vous. Uma ideia de unidade, de movimento e que também tem a ver com o rock fora da sua conotação anglo-saxónica, um “Lisbon rock!”. Mas fazem essencialmente música de dança ligada ao “house” ou um “electro” mais pop, da velha escola. São uma espécie de testemunhas silenciosas.

Condução de Pesados

FM – Foram buscar para a gravação os velhos sintetizador Moog, o órgão Hammond e o piano eléctrico Fender Rhodes.
Miguel Cardona – O que o Fender Rhodes tem de melhor é o peso das teclas. Podes ter um bom som de Fender samplado mas depois não tens a relação com o instrumento, que vibra e é bonito, e em que a sua própria imagem inspira o músico. Quanto ao Moog, assiste-se a um regresso brutal. No analógico, a parte eléctrica é muito mais rica, os componentes, os próprios materiais, permitem ao instrumento ter um som muito mais poderoso. Sente-se que está ali qualquer coisa. É como conduzir um veículo pesado. É diferente teres um tecladozinho Midi onde podes chamar um “som Rhodes” ou um “som Moog”. Perde-se essa relação.
FM – Cada um dos temas de “Lefthand” podia passar por um pequeno filme. Há uma relação directa da música dos Coldfinger com o cinema?
Miguel Cardona – O cinema é algo que transporto comigo. O último filme que vi foi “Magnolia”. Achei-o tão bom, de tal forma intenso, que me levantei e fui-me embora, já não aguentava mais, comecei a ficar transtornado. Deviam parar a meio para as pessoas descansarem. As imagens cinematográficas determinam por um lado o facto de nos expressarmos em inglês e, por outro, a relação com personagens, com heróis, que acabam por influenciar a minha escrita musical. O último tema, por exemplo, “The tree and the bird”, é uma fábula que vejo na minha cabeça como um filme de animação. Sobre um fundo branco, há uma arvora a falar a um pássaro dizendo-lhe “Tu também fazes parte de mim, não vou poder ir contigo, mas se puderes levar um pouco de mim dentro de ti quando te fores embora…”. Claro que há outras imagens bastante mais pesadas…
FM – “Lucky Star” é um dos temas de “Lefthand” mais declaradamente inserido no drum ‘n’ bass. Afinal em que ficamos, o d ‘n’ b morreu ou veio para ficar? Um músico como Amon Tobin enterrou ou salvou o d ‘n’ b?
Miguel Cardona – Não acredito nessas mortes anunciadas. Já quando era miúdo tentaram matar o punk, depois tentaram matar o rock… O Amon Tobin trabalha com o som de uma forma quase dada, cola os elementos, muito na escola dos Coldcut e da Ninja Tune, apesar de ser diferente. Não acho que ele seja um típico autor de drum ‘n’ bass. O James Hardway também fez agora um disco um bocado diferente, mas faltam os gurus… O LTJ Bukem, que seria um dj de d ‘n b, fez um disco que não é de d ‘n’ b. Mas o d ‘n’ b não morreu. É uma ideia que existia já no jazz be-bop, com uma atitude tipicamente humana. Se um gajo apanhar um autocarro numa hora de ponta, lá dentro é um concreto de d ‘n’ b na cabeça das pessoas…

Cathy Jordan, dos Dervish, em entrevista exclusiva

30.06.2000
Cathy Jordan, dos Dervish, em entrevista exclusiva ao PÚBLICO
A Cola Invisível Dos Génios

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Admiradores dos Bothy Band, os Dervish consideram-se sobreviventes. Apesar da energia que transmitem numa sala de concertos, garantem que poderiam tocar num “pub” dias a fio, sem se repetirem. Uma cola invisível mantém-los unidos há uma década. O PÚBLICO conversou com a vocalista Cathy Jordan.

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Com dez anos de vida e seis álbuns editados, os Dervish atingiram o topo, proeza que poucos grupos de música tradicional na Irlanda se podem orgulhar. Cathy Jordan explicou ao PÚBLICO as razões deste sucesso, fruto de um trabalho árduo e de uma fidelidade constante às raízes. O novo álbum “Midsummer’s Night” e mais uma actuação, a terceira, em Portugal, no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas, fizeram aumentar ainda mais o cartel do grupo em Portugal.

FM – Antes de ser convidada para ser a vocalista dos Dervish, que relação tinha com a música?
Cathy Jordan – Canto desde miúda. Toda a gente na minha família canta, pai, mãe, irmãos e irmãs. Nasci numa quinta isolada, na Irlanda rural, e a única distracção que havia era música. Os vizinhos vinham a minha casa, traziam consigo os instrumentos, tocava-se e cantava-se durante toda a noite. A minha irmã estudava num colégio em Sligo e foi lá, numa sessão de música tradicional, que encontrei os músicos dos Dervish.
FM – Conhecia nessa altura os principais grupos irlandese dos anos 70, como o Planxty ou os Bothy Band? O seu estilo vocal lembra, por vezes, o de Triona Ní Dhomnaill, dos Bothy Band…
Cathy Jordan – Tomo isso como um cumprimento. Eu não diria que canto como ela mas admito que tanto os Dervish como muitas outras bandas irlandesas nunca teriam existido se os Bothy Band não tivessem existido. Eram génios que revolucionaram por completo os arranjos da música tradicional, introduzindo-lhes instrumentos como a guitarra, o bouzouki ou o mandocello.
FM – Quando uma das tendências actuais mais fortes é a produção de fusões de toda a espécie, os Dervish mantêm-se relativamente próximos da ortodoxia…
Cathy Jordan – Poderíamos tocar música tradicional irlandesa na atmosfera de um “pub” durante horas a fio, durante dias, e nunca repetir um tema. É o que gostamos de fazer e é o núcleo central do nosso trabalho. Não queremos mudar por mudar. Se a música é suficientemente boa num “pub” é porque é, de facto, boa. Tocamos os temas na sua forma mais tradicional, com o violino e o acordeão fiéis ao original. É ao nível do acompanhamento que adaptamos ou modificamos a estrutura dos acordes e dos ritmos.
FM – Essa tradição genuína continua viva na Irlanda?
Cathy Jordan – Com certeza. Viva e de boa saúde. Existem milhares de músicos na Irlanda que passam essa tradição de geração para geração.
FM – Continua a ouvir os velhos cantores?
Cathy Jordan – Absolutamente! São os professores. Um dos primeiros músicos irlandeses a gravar um disco, nos anos 20, era de Sligo, o violinista Michael Coleman. Todos os actuais músicos de Sligo olham para ele como um génio. A um nível técnico, nenhum outro músico conseguiu até hoje igualá-lo.
FM – Na sua primeira apresentação em Portugal, no Festival Intercéltico do Porto, actuaram ao lado dos Déanta. Eles desapareceram depois disso, enquanto os Dervish não pararam de crescer e de conquistar prestígio. A competição é de tal forma forte que os mais fracos ficam pelo caminho?
Cathy Jordan – Essa competição existe. Mas quando começámos, no início dos anos 90, havia apenas os Chieftains, os Altan existiam há cinco anos… Foi uma época sem qualquer “boom” da música irlandesa, ao contrário do que se verifica hoje. Não havia então uma competição forte mas também não havia grandes incentivos. Trabalhámos arduamente, tivemos que comprar o nosso próprio autocarro e formar a nossa própria editora. Foi um processo gradual. Quando chegámos a um degrau mais alto da escada começaram a aparecer uma quantidade de outras bandas que viram o que nós tínhamos feito e evitaram cometer os mesmos erros que nós cometemos. Essas bandas atingiram o mesmo nível que nós em menos tempo.
FM – Que erros foram esses?
Cathy Jordan – Bem, nos negócios, sobretudo nas relações com as editoras, na promoção e “marketing” dos discos. Quando começámos nenhuma editora se interessou por nós. Ninguém queria arriscar na música tradicional irlandesa. Hoje é diferente, as novas bandas têm facilidade em assinar contratos. As companhias pressionam-nas desde cedo a participar em festivais e a verdade é que ganham rapidamente bastante dinheiro. Nós estamos juntos há todo este tempo – ao fim de dez anos é preciso que haja uma cola invisível que permita a qualquer grupo sobreviver – e só agora começámos verdadeiramente a ter alguns lucros. Ao ponto de pensarmos financiar alguns projectos, como compormos música para uma mini-série de televisão, na Irlanda, e fazermos um vídeo sobre o grupo.

Do “pub” para o auditório

FM – Não é costume as bandas irlandesas durarem tanto tempo. A regra é os músicos saltarem de um projecto para outro…
Cathy Jordan – Sim, mas se já conseguimos chegar tão longe, achamos que é possível continuar. Seria interessante verificar quantas das bandas hoje em actividade conseguirão sobreviver nos próximos anos… algumas delas fantásticas, como os Danú ou os Lúnasa. Mas vai ser difícil. Se conseguirem ultrapassar os primeiros cinco anos e gravarem pelo menos três álbuns, então sim, talvez consigam… Mas há quem fique cego ao tocar para grandes audiências. Depois há as contas para pagar. Não chega ser-se bom músico, também é preciso tratar dos negócios. Os Bothy Band ou os Planxty não ganharam um “penny” enquanto existiram! Por outro lado, quando se assina por uma grande editora, surgem pressões, como aconteceu com os Altan.
FM – É possível uma banda como os Dervish sobreviver sem sair do circuito da Irlanda e entrar no circuito europeu?
Cathy Jordan – Não como uma banda. Pode fazer-se carreira mas apenas como músicos de sessões. Uma banda não tem qualquer hipótese. Nós podemos dar 150 concertos por ano e apenas dois ou três são na Irlanda. Embora haja hoje mais dinheiro na Irlanda do que havia antes, escasseiam as salas de concerto e há uma falta de interesse. Para a maioria das pessoas não faz sentido pagar para ver uma banda tocar numa sala de concertos se pode ouvir esta música de graça num “pub”. Não vêem a diferença entre o músico que toca à esquina da rua e a banda que actua num auditório – é tudo “deedle-didle-dee” [fonética aproximada…]. É uma pena, porque algumas dessas pessoas, que se “arriscaram” a pagar bilhete para nos ver actuar numa sala, ficaram espantadas e deliciadas com o poder e a energia, com algo a que nunca assistiram antes.
FM – “Midsummer’s Night” é um álbum “clássico”. Não a preocupa que o grande público, para quem a música irlandesa não passa de uma moda, possa perder o interesse pelo grupo, até porque os Dervish não condescendem em alterações radicais da sonoridade?
Cathy Jordan – “Midsummer’s Night” foi o primeiro álbum que gravámos com a formação actual de sete músicos, o que aumentou o leque de opções dos arranjos. As possibilidades tornaram-se infinitas. Temos uma base de dados com o nome de cerca de 15 mil fãs, de todo o mundo. É claro que as pessoas que compram os nossos álbuns è espera de ouvir rock abandonarão de imediato o grupo. Mas se o nosso objectivo principal fosse agradar às grandes audiências nunca teríamos optado por tocar música tradicional! É verdade que existe hoje uma moda mas nós já cá estávamos antes dela aparecer e tudo aponta para que continuemos depois de desaparecer.