Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Electronic System – Disco Machine

05.11.2004
Electronic System
Disco Machine
Musique Belgique Archive, distri. Musicáctiva
6/10

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Em 1977, quem quisesse fazer música electrónica era tocar ou largar, nada de MIDIs nem de programações. Dan Lacksman, um dos elementos do grupo tecnopop belga Telex, ainda antes da formação desta banda, amassou todos os sons de “Disco Machine” com o suor dos seus Polymoog, Moog Model III P, EMS VCS3 e sequenciador. Tudo máquinas analógicas, daquelas que necessitavam que se ligassem cabos e se rodassem botões, com os seus filtros VCF e VCO que tornaram mítica a sonoridade cheia dos sintetizadores fabricados por Robert Moog. “Disco Machine” começa com três temas encadeados sobre a mesma batida “disco” que Giorgio Moroder popularizou em “I Feel Love”, cantado por Donna Summer, com efeitos cósmicos por cima. O mais monocórdico que se possa imaginar para fazer baloiçar o corpo e a mente em viagens intituladas “Flight to Tokyo”, “Cosmos Trip” e “Fly to Venus”. A pop electrónica sinfónica faz o seu aparecimento em “Sailing to an unknown plante” antes da batida – uma mistura de Moroder com os Tangerine Dream – regressar infatigável, apenas ligeiramente modificada para dar entrada, em “Rock machine”, a uma antecipação de “Twist à Saint-Tropez”, dos Telex. É verdade que neste mesmo ano Jean-Michel Jarre fazia “Oxygène” e os Kraftwerk punham os robôs a viajar sobre carris pela Europa, em “Trans Europe Express”, mas isso não impede que “Disco Machine” seja um delicioso anacronismo.

Martin Carthy – Waiting for Angels

05.11.2004
Martin Carthy – O Anjo da Folk
Martin Carthy
Waiting for Angels
Topic, distri. Megamúsica
9/10

LINK (“Shearwater” – 1972)

O homem canta de forma imperial. Chama-se Martin Carthy e é o maior mito da folk inglesa contemporânea. Após um interregno de seis anos, “Signs of Life”, de 1998, encontrou um sucessor. O antigo elemento dos Martin Carthy e fundador dos Brass Monkey está melhor do que nunca e aos talentos de cantor e guitarrista junta agora o de arranjador. “Waiting for Angels”, ao contrário de outras obras suas marcadas pelo despojamento, prima pela inclusão de sonoridades variadas que vão do violoncelo, oboé, trompete e trombone à “slide guitar” de Martin Simpson e ao órgão de foles e rabeca da filha e produtora do disco, Eliza Carthy. A voz traz o paraíso. Uma voz cuja amplitude torna cada canção tradicional num salmo de proporções épicas. Esse é um dos sinais do génio de Carthy, a capacidade de fazer de cada história uma narrativa intemporal onde os sentimentos de gente concreta, de cortes antigas ou do mar, mas também entidades etéreas das lendas, são ampliados de modo a ecoarem dentro de nós como uma força que se confunde com a glória.
A música e o canto de Carthy nunca são ambíguos, o seu mistério é o da revelação. Como se ainda não chegasse, há um “swing” sem igual. Logo nas primeiras notas de “The foggy dew” sente-se o balanço. Martin canta como nenhum outro, juntando a genuinidade e a técnica vocal da música tradicional a uma religiosidade que encontramos na música antiga sacra. O canto eleva-se na melodia principal – sempre judiciosamente escolhida do melhor cancioneiro, de Walter Pardon ou dos Copper Family – mas também nas subtis ornamentações ou nas ligeiras alterações tímbricas que interpõem ao veludo pedaços de um tecido mais áspero. “The foggy dew” é uma interpretação fabulosa, mas é apenas a primeira procissão, com percussão ritual e um violino tão sensual como um acto de amor. Carthy desvenda o segredo. “Existe algo em aprender uma canção de a ouvir cantar por uma pessoa, em vez de a lermos numa página impressa. Há uma diferença enorme. Refiro-me a ouvir pessoas a quem chamaria os ‘velhos cantores à moda antiga’, que estão habituados a cantar sem mais adornos do que os da sua própria imaginação, comunicando toda a espécie de variações internas, pausas, etc. e deixando o ritmo das palavras ser o ditador absoluto”.
É isso mesmo que Carthy vem fazendo e a que neste disco acrescenta “novos horizontes”. Será então esse contacto íntimo com a alma que nos faz exaltar. Lamentos de reis, navios trazendo novas do mundo, elegias, guerras e jardins, saúde aos amigos e a saudade atravessam-nos como facas de luz, ao ouvirmos esta voz que parece transportar a sabedoria de séculos sem que uma nota soe antiquada.
Em “Young Morgan” a bateria, tão funda como um poço escavado no granito, torna ainda mais pungente o gemido vocal. De novo a bateria majestosa e uma guitarra eléctrica de deuses antigos tornam “A ship to old England came” numa marcha solene que transcende tudo o que os Brass Monkey e os Albion Band fizeram neste domínio. O título-tema é um instrumental de folk de câmara de prece aos anjos enquanto outro instrumental, “The royal lament”, cria uma suave neblina entre a guitarra acústica (na qual Carthy se confirma como mestre) e a “slide” de Simpson. O terceiro instrumental, “Bloody fields of Flanders/MacGregor of Rora”, será o único obstáculo a que “Waiting for Angels” seja obra-prima. Mas o fim compensa-nos, oferecendo-nos, nos dez minutos de “Famous flower of serving men”, outra vocalização de antologia.
“Waiting for Angels” é o testemunho de um génio e uma lição de vida. São álbuns como este que nos fazem amar a “folk”.

Steeleye Span – They Called Her Babylon

19.11.2004
Steeleye Span
They Called Her Babylon
Park, distri. Megamúsica
7/10

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pwd: folkyourself.blogspot.com

Nunca nada está perdido para os Steeleye Span, a banda de folk rock inglesa que tem sete vidas como um gato. Sobrevivendo Às modas, às investidas da “world” e a sucessivas alterações na formação, o grupo regressa com uma vitalidade digna de registo. O equilíbrio entre as vertentes “folk” e rock nem sempre é o mais adequado, nalguns casos fazendo-se valer uma veia mais “hard rock” progressiva que ora recorda os Jethro Tull ora os Gentle Giant. Mas para aqueles para quem a profusão de guitarras eléctricas e bateria não constituem obstáculo, “They Called Her Babylon” oferece “riffs” e refrões irresistíveis. Houve já quem, talvez apressadamente, considerasse este álbum um dos clássicos do grupo. Na verdade, se há temas em que os Steeleye Span tocam o esplendor de outros tempos esses devem-se às vocalizações de Maddy Prior. Clássicas são, sem dúvida, as suas interpretações em “Van Diemen´s Land”, “Heir of Linne” e “Child Owlet”, esta última de antologia. Num álbum marcado pela temática religiosa, soa a débil a execução no violino de Peter Knight em “Si begh si mohr”, de Turlough O’Carolan, longe de fazer esquecer a inultrapassável versão dos Chieftains.