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Beach Boys – 40 Anos

27.04.2001
Beach Boys – 40 Anos

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Terá sido o sol que esturricou os miolos aos Beach Boys? O ciúme provocado pela audição de “Sgt. Pepper’s”, dos Beatles? Ou será que, como diz a sabedoria popular, Brian Wilson, como todos os génios, teria forçosamente que ser louco? Quando passam 40 anos sobre a fundação do grupo, reedita-se a totalidade da discografia da banda dos irmãos Wilson.

Sobre a personalidade de Brian Wilson – tão desequilibrada como musicalmente capaz de criar algumas das melhores canções pop que o mundo alguma vez conheceu -, já foram escritas páginas e páginas de texto nos quais a realidade se confunde com a lenda. Brian Wilson é o menino gordo, surdo de um dos ouvidos, o tímido que se encerrava no quarto e nas drogas para compor e fazia de conta que o estúdio era o quarto, para aí criar obras-primas como “Summer Days (and Summer Nights)”, “Wild Honey”, “Friends” e, claro, o universalmente aclamado “Pet Sounds”.
Mas os Beach Boys não eram só Brian Wilson e a sua loucura privada, nem o melhor da sua obra pode ser confinado aos anos 60. Quando passam 40 anos sobre a fundação do grupo (em Hawthorne, 1961) a reedição, em remasterizações de 24 bits, pela EMI, da totalidade da discografia da banda dos irmãos Wilson, permite traçar uma panorâmica mais larga que faz, finalmente, justiça ao “output” dos anos 70.
O presente pacote inclui seis CDs. “Sunflower” (1970 acoplado a “Surf’s Up” (1971), “Carl and the Passions – So Tough” (1927 mais “Holland” (1973 e “15 Big Ones” (1976) com “The Beach Boys Love You” (1977), são os mais importantes. Além destes saíram igualmente “The Beach Boys in Concert” (1973) e obras menores como “M.I.U. Album” (1978), na mesma caixa com “LA (Light Album” (1979), e “Keepin’ the Summer Alive” (1980) junto com “The Beach Boys” (1985).
Diz a história e o coração dos que amam a pop que era impossível reproduzir os raios de luz gloriosos lançados, primeiro por uma música banhada pela alegria, o sol e o mar das praias californianas, sustentada por harmonias vocais que se diriam ser cantadas por anjos rendidos aos prazeres do surf, depois pela alquimia espiritual que o tal louco iluminado chamado Brian Wilson traduziu em estúdio para uma obra que muitos colocam no topo da lista das melhores de sempre da pop: “Pet Sounds”.
Mas o progressivo auto-enclausuramento de Brian Wilson nos seus medos se, por um lado, privou os Beach Boys da centelha do seu génio, permitiu, por outro, à música respirar de forma mais livre e mostrar o grupo como um colectivo.

Água de Deus
Sem nunca ter conseguido ultrapassara o episódio “Smile”, álbum maldito que o brilhantismo de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles, impediu de ver a luz do dia (o seu substituto, “Smiley Smile” é, para todos os efeitos, notável, sem dúvida mais repleto de ideias que “Pet Sounds”, avassalador sobretudo ao nível da riqueza da produção e dos arranjos), Brian Wilson afastara-se aos poucos da ribalta. Desde 1964 deixara de acompanhar os restantes Beach Boys nos espectáculos ao vivo, refugiando-se no estúdio e no consumo crescente de barbitúricos. Ele que na altura das gravações de “Pet Sounds” fizera ruir a lenda do artesão inspirado por Deus, ao afirmar, a propósito da estratégia utilizada numa das canções: “Tinha acabado de fumar um haxe fantástico de Marrocos e calhou tropeçar num acordeão. Decidi logo utilizá-lo!”.
O final dos anos 60, marcado, além, de “Smiley Smile” (1967), pelos fantásticos “Wild Honey” (1967) e “Friends” (a968), parecia ter reservado para os Beach Boys pouco mais do que uma lápide dourada e uma inscrição no “hall off fame” da pop. Enquanto Brian se afogava nas drogas, o irmão Dennis envolvera-se com Charles Manson, condenado a prisão perpétua na sequência do assassinato ritual de nove pessoas (entre as quais Sharon Tate, então mulher do realizador Roman Polanski) levado a cabo por seguidores da sua seita entre 8 e 10 de Agosto de 1969. Por ironia do destino, dessa estranha ligação entre um músico de uma banda conotada com o sol e um psicopata adepto da magia negra, resultaria uma canção dos Beach Boys, “Never learn to love”, que chegou aos tops. Menos radical, Mike Love, tornara-se entretanto devoto das doutrinas do yogi Maharishi Mahesh.
Mas 1969 reservava afinal uma surpresa contendo os germens daquela que seria a primeira “ressurreição” oficial do grupo. No final desse ano, a 18 de Novembro, no dia a seguir ao começo das conversações entre os EUA e a então U.S.S.R. sobre a redução de armamento, em Helsínquia, e poucas horas antes dos astronautas da Apolo 12 pisarem o solo lunar, os Beach Boys assinavam com a Warner Brothers para a distribuição mundial do seu selo, Brother records, pondo fim a uma ligação litigiosa com a Capitol que durara sete anos.
O projecto inical previa a edição de um álbum com o título “Add Some Music To Your Day – Na Album Offering from the Beach Boys”. Analisado á lupa pelo staff dos novos patrões da Warner, acabaria por ser recusado, sob a alegação de ser “demasiado fraco”. Foi, porém, um A&R executivo da Warner, Lenny Waronker, quem acabou por dar luz verde a um novo registo gravado dos Beach Boys, depois de, numa das visitas ao estúdio, ter ficado impressionado com uma das novas canções de Brian Wilson, “cool, cool water”, descrita, modestamente, pelo seu autor, como tendo sido “inspirada por Deus”.

O Apelo Do Grande Espírito
O novo disco saiu finalmente com o título “Sunflower” e a mesma capa idealizada para “Add Some Music”. Apesar da música corresponder às expectativas (a Rolling Stone chegou a compará-lo, em importância, a “Pet Sounds”) e dar a conhecer a influência crescente, como compositor, de Dennis Wilson, as vendas resultaram num fiasco. Atrofiados, os Beach Boys concentraram-se nos espectáculos ao vivo, indo a todas. Dos pequenos clubes aos estádios, a correria não parou, chegando uma ocasião a juntar em São Francisco, no mesmo show, os Beach Boys e os Grateful Dead.
“Surf’s Up” surge em 1971 rodeado de controvérsia, ao recuperar para o título uma canção de “Smile”. O álbum é marcado por preocupações ecológicas e uma espiritualidade profunda, “um amor espiritual”, nas palavras de Brian Wilson, de resto já ilustrado no logótipo da editora Brother – uma figura de um chefe índio de braços abertos para o céu, inspirada numa escultura de Cyrus Edward Dallin intitulada “O Apelo do Grande Espírito”. Dallin tecera aliás, sobre esta sua obra, um comentário que se aplica, como uma profecia, aos Beach Boys: “Quando as ajudas e os planos materiais falham, acedemos ao espiritual”. Mais uma vez, Brian Wilson teve a palavra certa para descrever uma música que continuava a ser banhada pela Graça ao citar “Forever”, uma canção de “Sunflower”, como uma “oração rock ‘n’ roll”. Mas a prédicas e o contacto com a transcendência estavam prestes a ser, uma vez mais, interrompidos. Fisicamente, Brian Wilson não parava de engordar, fruto de longos períodos de inactividade, deitado na cama, provavelmente num delírio criativo de canções que jamais deixariam a cela do seu cérebro doente. A melhor homenagem que poderia ser prestada a este álbum chegou 20 anos mais tarde, da parte de outro gordo, tímido e genial americano, David Thomas, num álbum de dor e arrebatamento a que chamou também “Surf’s Up”.

Navega, Marinheiro!
Depois da edição de “Carl & The Passions – So Tough”, dominado desta feita pelo terceiro dos irmãos Wilson, Carl, os Beach Boys partiram com armas e bagagens, mulheres e filhos, para a Holanda. Mas Brian Wilson não seguiu viagem. O seu estado psicológico era já patológico, tendo-se entregue aos tratamentos do psiquiatra seu amigo, Eugene Landy. Mas Brian Wilson contribuíra ainda com duas canções para “Holland”, uma delas, na abertura do alinhamento, o clássico “Sail on, sailor”, escrito com Tandy Almer, Ray Kennedy e Van Dyke Parks. Blondie Chaplin e Ricky Fataar, dosi músicos sul-africanos, tinham entrado entretanto para a formação permanente dos Beach Boys.
Em 1973 morria Murry Wilson, pai dos três irmãos, mas tanto Brian como Dennis não estiveram presentes no funeral, e os Beach Boys subiriam de novo ao top com o duplo ao vivo “The Beach Boys in Concert” e a colectânea “Endless Summer”. Para o grupo era confirmação de que, apesar dos seus esforços na busca de novas ondas, o público apenas queria ouvir os velhos hinos adolescentes sobre surf, descapotáveis e miúdas em biquíni. Em 1974 os Beach Boys eram considerados a “melhor banda do ano” pela Rolling Stone e a frequência e êxito dos concertos pareciam ser suficientes para justificar a existência de uma banda marcada pelos revezes da fortuna.
Num golpe de oportunismo musical, o álbum seguinte, “15 Big Ones” (1976), foi anunciado como o regresso de Brian Wilson aos Beach Boys. Se foi, o próprio, na altura um zombie obeso, não chegou a dar por isso. Mas se Brain Wilson se revelou então incapaz como antes de voltar a subir um palco ao lado do grupo, o mesmo não aconteceu quando conseguiu arrancar-se da sua letargia para encarar de frente o estúdio, e aí reciclar velhos “standards” como “Rock & Roll Music”, de Chuck Berry, e “hits” antigos dos Beach Boys num sonho tão “naive” como nostálgico, de uma simplicidade e rusticidade a anos-luz do puzzle Phil Spectoriano de “Pet Sounds”.
Finalmente, em 1977, em plena explosão punk, os Beach Boys editariam a sua derradeira obra relevante, “The Beach Boys Love You”, já com Brian Wilson regressado do reino dos mortos-vivos. Canções sobre o sistema solar, aviões, crianças e os bons velhos tempos. E o tema eterno do coração de um homem que fica preso ao coração de uma mulher. É um dos álbuns preferidos de Peter Buck, dos R.E.M., que assina as notas de capa da presente reedição, e a antecipação de uma carreira a solo, de Brian Wilson, que rolou até aos dias de hoje em velocidade cruzeiro.
Dennis Wilson morreu em 1983, afogado no mar. Carl Wilson morreu há três anos, vítima de cancro. Mas os Beach Boys estavam já mortos quando em 1985 fizeram para “LA (Light Album)” uma versão de “Here Comes The Night”, dez minutos de disco sound que arrasaram os fãs e estrangularam o sonho num show de “Saturday Night Live”. Os rapazes da praia fizeram-se homens. Dois dos Wilson morreram, o outro enlouqueceu. E como alguém disse: “Beach Boys sem nenhum dos Wilson é como fazer surf num mar sem ondas”.

Nick Cave – Chamam Ao Diabo Old Nick

20.04.2001
Chamam Ao Diabo Old Nick

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LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)

Quando Nick Cave tem uma canção do seu novo álbum, “No More Shall We Part”, chamada “Oh My Lord”, não devemos metê-la, apesar do título, no mesmo compartimento de “My Sweet Lord”, de George Harrison. Ao contrário do ex-Beatle, cuja carreira está bem fornecida de deuses e gurus, a do ex-Birthday Party continua a carregar uma caderneta de apostas com o diabo.
A “conversão” de Nick – como é que alguém com apelido “Cave” e um grupo designado “As Sementes Más” pode converter-se ao que quer que seja?… – é do mesmo tipo da de Diamanda Galas ou, em diferente medida, da de Blixa Bargeld, dos Einsturzende Neubauten, seu companheiro musical de longa data.
A “gospel” e os espirituais de Nick Cave ou de Diamanda Galas são pragas rezadas em surdina a um anjo de asas negras. O mesmo que preside ao disco contendo textos declamados deste australiano esquelético com ar de rufia, “And The Ass Saw The Angel”. O escritor Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont, escreveu “Os Cantos de Maldoror”, uma das obras da literatura que mais perto tocou o coração das trevas. Logo a seguir o mesmo autor assinou um tratado sobre a virtude. O mal foi redimido ou descobriu na beatitude da palavra a forma mais perfeita de camuflagem?
Não se duvide da genuína religiosidade destas estratégias. Nem das intenções de culto demonstradas com sinceridade pelos seus intervenientes. “Religião” significa, “religação”, convém não esquecer. Resta saber a quê ou a quem. O satanismo é uma religião. Não temos dúvidas que Nick Cave seja um crente.
O caminho que leva a esta “iluminação” pela luz negra é um caminho de flores de uma natureza morta como as da capa de “No More Shal We Part”. Conduz a um altar em forma de espelho. Da imagem que esse espelho devolve é difícil sair sem o quebrar. Nick Cave tem percorrido este caminho. “The Good Son” (1990), “Henry’s Dream” (1992), “Let Love In” (1994), “Murder Ballads” (1996) ou “The Boatman’s Call” (1997) são estações prévias desta ascese para baixo onde o cinismo, a decadência, a febre dos trópicos, o deserto, o assassínio como uma das belas artes, uma garrafa de veneno e um crucifixo voltado do avesso servem de paramento a Cave, o evangelizador. A esta transposição da raiva para o sussurro corresponde a descoberta de formas de inoculação mais subtis do mal. É um sinal de crescimento, sem dúvida também de cansaço, mas os efeitos desta apropriação do silêncio pelas hostes do inferno não são menos nefastos.
Lou Reed gravou a sua “Metal Machine Music”. Hoje carrega aos ombros os cadáveres que Nova Iorque espalha pelas ruas. Bowie lavou-se da cocaína e celebrou a sua missa negra em louvor a Berlim em “Low”, pondo fim a um baile de máscaras. John Cale, que como Reed demorou anos a descolar da pele os vermes dos Velvet Underground, cravou fundo o escalpelo em “Music for a New Society”. Peter Hammill fez girar em aceleração máxima os seus demónios interiores em “In Camera”, antes de os sacudir e deslocar a visão para os filmes do mundo. Os Einsturzende, depois de anos a estoirarem edifícios com o napalm da música industrial, acendem fósforos no escuro e garantem que o silêncio é sexy. Todos acederam ao olho do furacão, a esse lugar vazio que é o motor do caos.
Resta Leonard Cohen, que desde o início soube que o mal age melhor quando se infiltra devagar, e que a melhor maneira de o domar/exorcizar é aprisioná-lo pela poesia numa história. Depois, cada um fará com ele o que quiser. A sombra de Cohen alarga-se cada vez mais sobre Nick Cave. Em “No More Shall We Part” o crooning do australiano evoca as profundezas interiores do veterano canadiano. Em “Fifteen feet of puré snow” podemos mesmo imaginar a neve que em silêncio tomba sobre o mosteiro-zen que é a poesia do autor de “Avalanche”. Mas Cohen é Buda. E Cave um zombie num labirinto sem saída. “The Ladders of life that w escale merrily/Move mysteriously around/So that when you think you’re climbing up, man/In fact you’re climbing down”, canta em “Oh my lord”. O espelho continua intacto.
Decididamente, nem Nick Cave é George Harrison nem é pelas suas sementes terem um sabor mais doce que deixaram de ser venenosas. Os ingleses chamam ao diabo “Old Nick”.
Nick Cave
Lisboa | Coliseu dos Recreios
24, 3ª, às 21h30
Tel. 213240585. Bilhetes a 4500$00

Mola Dudle – Homens Da Casa

19.01.2001
Homens Da Casa

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Mobília. Os objectos do quotidiano. Entre o visionário e a patine retro, é o tempo de esculpir o mistério na casa – lugar de todos os encontros e experiências para os Mola Dudle, no seu álbum de estreia.

Um vive em Faro. O outro em Sintra. Conheceram-se em Lisboa e tocaram pela primeira vez juntos ao vivo no Bairro Alto. “Uma coisa experimental, sem ensaios, sem nada”. O telefone fazia, já então, parte dos seus utensílios de trabalho. “trocámos impressões”.
Mas na gravação de “Mobília”, álbum de estreia dos Mola Dudle (ver crítica no “Y” de 12/1), editado pela Ananana, Nanu e Miguel Cabral foram ainda mais longe. Uma das faixas, “300km” (a distância entre os respectivos locais de residência) foi totalmente composta por telefone. Nos restantes 24 temas o processo de composição resultou da troca de cassetes e CD por correio, em que cada um apresentava material pré-gravado para ser posteriormente tratado pelo outro.
“Criámos algumas regras, a primeira das quais foi a de cada um de nós restringir-se a apresentar um número certo de 12 temas, inacabados. A ideia era surpreender o outro”. Mais tarde, na casa de Nanu, em Sintra, encontraram-se para ver o que cada um “tinha espatifado”.
O resultado final é um dos mais originais álbuns de música, digamos electrónica, de que há memória em Portugal. Chama-se “mobília” e na sua feitura Miguel e Nanu utilizaram, além de instrumentos convencionais (teclados, guitarras, sampler, programações, banjo, flauta, bateria), objectos e fontes sonoras como panelas, água, janela, telefonias, televisão, atendedor de chamadas, bule, relógio de cuco, escova de dentes, garrafas de plástico, gira-discos, caldeira, lâminas, moinho de pimenta… Ainda gravações de campo recolhidas na cozinha e no Bairro Alto e a presença dos convidados Miguel Pereira (contrabaixo), Cristina Parreira, Fernanda Rodrigues, Filipa Sousa e Patrícia Tello (vozes).
Nanu e Miguel têm sensibilidades musicais diferentes. Nanu tem trabalhado no teatro e feito “música experimental” embora antes tenha “estado muito ligado ao rock alternativo dos anos 80, da 4AD e Rough Trade” e, nos anos 70, à música de Frank Zappa, Genesis, Gentle Giant – “com os quais cada vez me identifico mais, é curioso…”.
Miguel inclina-se mais para a construção e utilização de instrumentos artesanais e para a tecnologia. “Cresci a ouvir rock-lixo, tipo Iron Maiden, Faith No more”. Mas cedo o heavy-metal deixou de figurar nos meus hábitos, sendo substituído por John Zorn. “o lado experimental é a única coisa que temos em comum”, diz.
Compõem e gravam ambos em casa. Nanu com o programa Q-Base, sampler Akai e módulos Midi, além de fazer captação de exteriores. Miguel utiliza o computador “como um gravador”. Não usa Midi. Os dois trabalham também com programas “com quem mais ninguém trabalha, incluindo alguns ‘roubados’ na internet”.

Espaços
Um “affaire” doméstico. Arrumação de mobília em moldes inusitados. Colagens. De sensibilidades. De exteriores com interiores. Da vanguarda com o retro. As gravuras de móveis e electrodomésticos da contracapa de “Mobília” ostentam design antigo, quase barroco, metamorfose do funcional em objecto de arte.
Nanu chama a atenção para o facto de haver “ambiências sempre relacionadas com o espaço da casa”. Quer “espaços interiores, psicológicos, quer espaços interiores, quer espaços físicos”. E para a importância da dialéctica “contemporâneo” vs. “retro”.
“gostamos de música que não se pode datar muito bem e por isso vamos buscar referências um bocado fora de prazo para dar ao som um ar bolorento”, diz Miguel. Nanu alude por sua vez ao fascínio que desde sempre sentiu pela rádio, os meus aparelhos, “a má rádio”: “É curioso, quando ouço as coisas distorcidas dá-me a impressão que elas ganham a patine do tempo e um valor que as outras não têm. Só as coisas meio escondidas, meio alteradas é que são verdadeiramente novas e causam alguma surpresa. Por isso conservámos na música uma certa sujidade. Queremos manter o mistério”.
“E a distância”, acrescenta Miguel. “Casa” e “distância” são dois conceitos-chave que permitem entender a peculiar arrumação de “Mobília”. Numa casa há de tudo: “vivências, histórias, vidas, tempo, interiores…”. As palavras são como os “bibelots”. Sampladas ou em tempo real. “Aí já não havia regras”, diz Miguel. Ou, como Nanu contrapões, “existia a regra de ter sempre que trabalhar em casa”. Um dos temas, “Jefferies!”, ouve-se “como se estivéssemos a ler as legendas de um filme”. No caso, um trecho da “Janela Indiscreta” de Hitchcock. O tal mistério e suspense que os Mola Dudle pretendem conservar. Em “O postal” a letra foi mesmo tirada do cartão: “Acabo de receber o teu postal, muito estimando que continuem bem…”.
Os Mola Dudle estimam os objectos. E, como mágicos, extraem deles música.
O próximo álbum poderá bem ser “um projecto só sobre telefones”.