Arquivo mensal: Abril 2021

Vários – “Lament”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993


Vários
Lament
CD Real World, distri. Edisom



O conceito e a intenção são imaculados. Um lamento pela Irlanda do presente, em particular pela Irlanda do Norte. Resultado de um projecto inicial dedicado à cidade de Derry e inspirado no modo musical “goltrai” da mitologia antiga, que exprime a tristeza, “Lament” foi intencionalmente reduzido à expressão mais simples, de modo a concentrar ao máximo a emoção, sem ambiguidades. Assim, cada faixa limita-se a uma prestação individual, instrumental ou cantada, que procura canalizar os vários matizes da tristeza. A música é na generalidade destituída de arranjos complexos. São choros, gritos, suspiros, sobressaltos solitários. E silêncio, que pode ser a forma mais profunda de dizer a dor. “Lament” é ainda uma espécie de mostruário dos diversos instrumentos musicais típicos da Irlanda: “Tin whistle”, “uillean pipes”, rabeca, acordeão, “bodhran” e harpa. Os demosntradores foram escolhidos a dedo: Davy Spillane, Declan Masterson (ex-Moving Hearts), Maighread Ní Dhomhnaill, Paddy Glackin, Micheal ‘O Suilleabháin (pianista e compositor erudito), Christy Moore, Kevin Conneff, John Sheahan (Dubliners), Séan Potts (ex-Chieftains, Bakerswell) e Derek Bell, entre outros. O resultado é decepcionate, por demasiado monocórdico, sem contrastes. Três momentos de excepção: a prestação vocal de Alann O’ Kelly, em estranha aproximação a Meredith Monk, um Christy Moore no fundo de um poço e uma versão de “O’Carolan’s Farewell” distendida até ao limite por Derek Bell. Um tiro desperdiçado. Lamento. (6)

Wendy Stewart – “About Time”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993


Wendy Stewart
About Time
CD Greentrax, distri. VGM



Instrumento sagrado, o mais antigo tocado pelos bardos, a harpa céltica tem sido nos últimos anos objecto de renovação, um pouco por toda a Europa. Na Escócia, harpistas como William Jackson, Robin Williamson, Savourna Stevenson, Alison Kinnaird, Patsy Seddon e Mary McMaster (duo Sileas) avançam novas técnicas, ao mesmo tempo que fazem novas leituras do legado tradicional. Wendy Stewart tocou no álbum estreia de Alison Kinnaird, “The Harp Key”, de 1977, demorando até hoje para confirmar a solo todas as potencialidades que se lhe reconheciam. Utilizando o modelo tradicional de harpa céltica (“clasach”, na Escócia), com cordas de tripa, e a variante electrificada, encordoada a nylon, Wendy Stewart rebvela um estilo que privilegia a suavidade e a harmonia, semelhante ao de William Jackson. No par de temas vocalizados (a maior parte das harpistas tradicionais não resiste à tentação de cantar…), Wendy não escandaliza, embora não seja o seu ponto forte. Vários membros dos Ceolbeg emprestam à música – que inclui temas de França, Escandinávia, Paraguai e “cajun” – um colorido adicional. “About Time” flui como um riacho de águas calmas a abrir a Primavera. (7)