Arquivo mensal: Outubro 2016

Linda Thompson – “Dreams Fly Away”

Pop Rock

3 de Julho de 1996
world

O último que apague a luz

Linda Thompson
Dreams Fly Away (8)
HANNIBAL, DISTRI. MVM


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“O álbum para as pessoas que adoram as canções de Richard Thompson mas preferem ouvi-las cantadas por Linda”, diz-se no folheto promocional. É o nosso caso, para quem as composições do antigo guitarrista dos Fairport Convention sempre adquiriram um brilho mais intenso na voz da sua então companheira. “A grande voz perdida”, anuncia, por sua vez, um título à largura de duas páginas, a encabeçar o extenso artigo que lhe é dedicado na última edição da “Folkroots”.
Linda Thompson – ou Linda Peters, nome de solteira – nunca gozou, de facto, a projecção mediática que o seu talento merecia. “Merecia”, e não “merece”, porque decidiu deixar de cantar ao vivo já há algum tempo, encontrando-se o grosso da sua obra nos álbuns que gravou com o marido, “Pour down like Silver”, “First Light”, “Hokey Pokey”, a obra-prima de 1973, “I Want to See the Bright Lights Tonight”, “Sunnyvista” e “Shoot out the Lights”, de 1982, que assinala o final da colaboração. “Dreams Fly away” reúne em 78 minutos 20 canções retiradas da sua discografia a duo com Richard Thompson, diversas remisturas, duas versões ao vivo e uma série de inéditos do formato de demonstração.
Linda Thompson é uma espécie de Nico do circuito “folk”. Conheceu toda a gente que se agitava no meio, na transição dos anos 60 para os 70 – Sandy Denny, Nick Drake, os Incredible String Band, Bert e John Renbourn, dos Pentangle, a nata do “folk rock” – e viveu com algumas dessas pessoas. Martin Carthy e o lendário produtor da Island, Joe Boyd, antes do casamento, que durou 12 anos, com Richard Thompson.
Não teve nem a fama nem o proveito. Começou por cantar em clubes, como o Troubadour, acabando o casamento com o guitarrista por lhe ser, de certa forma, fatal, já que se acomodou a uma posição de subalternidade em relação ao marido, entretanto tornado celebridade graças aos Fairport. Um pouco o mesmo que aconteceu com Beverly Martyn, mulher de John Martyn.
Ainda gravou um álbum a solo, “One Clear Moment”, de 1985, mas uma timidez extrema (chegou a perder a voz, vergada pela responsabilidade de trabalhar com Richard Thompson e pela tensão que lhe causava a competição, nunca assumida, com Sandy Denny, diva querida de todos os “folkies”) e o pânico que sentia de actuar ao vivo impediram-na de voar mais alto. Chegou a colaborar com os Home Service numa produção do National Theatre, “The Mysteries”, antes de se recolher sob a protecção do marido. Preferiu sempre manifestar a sua admiração pelos seus ídolos (Martin Carthy, Shirley Collins, Maddy Prior, June Tabor) do que valorizar as suas próprias capacidades.
“Dreams Fly away” traça uma panorâmica geral sobre a obra desta cantora, que, de certa forma, foi o “Doppelgänger” (duplo-sombra) de Sandy Denny, com quem se compara pela intensidade dramática posta na interpretação. Estranhamente, ou não, Linda dá aqui voz a um tema da antiga vocalista dos Fairport Convention e dos Fotheringay, “I’m a dreamer”, cujo título – outra coincidência? – se associa ao da própria antologia. É ainda a verificação do acento “country”, influência exercida sobre Linda Thompson, no início de carreira, por Bob Dylan e Tom Paxton.
“Lonely hearts”, “First light”, todos os inéditos (cinco), “Talking like a man” (remistura do lado “b” de um “single”), “I want to see the bright lights tonight”, “For shame of doing wrong” ou “Telling me lies” são alguns dos destaques possíveis, num lote de canções ao qual faltam talvez outras peças do fundamental “I Want to See the Bright Lights Tonight”, como a pungente “Has he got a friend for me”, aparecendo “The great Valerio”, outro clássico, num registo ao vivo algo apagado. Única falha deste testemunho tardio de uma das vozes mais originais e menosprezadas da “folk” britânica.



Norma Waterson – “Norma Waterson”

Pop Rock

26 de Junho de 1996
world

Cumprir a Norma

NORMA WATERSON
Norma Waterson (8)
Hannibal, distri. MVM


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Desde as primeiras notas de “Black muddy river”, o tema de abertura, escrito pelo Grateful Dead recentemente falecido, Jerry Garcia, que percebemos estar diante de um daqueles álbuns que hão-de perdurar por muitos e muitos anos. “Norma Waterson” é o primeiro disco a solo desta senhora cujo nome se confunde com a lenda na “folk” inglesa e que até agora se confinara a cantar num dos colectivos mais antigos da tradição desta ilha, os Watersons (dos quais também faz parte o seu marido Martin Carthy, outra instituição) ou, mais recentemente, em família, com Martin e a filha do casal, Eliza Carthy, no fabuloso “Waterson: Carthy”. O reportório, na maioria preenchido por versões de temas alheios, funciona de certa forma como um complemento da veia tradicionalista de “Waterson: Carthy”, com a particularidade de dar a conhecer o lado mais plástico e dramático, carregado de diversas “nuances” emocionais, da voz de Norma Waterson.
Há aqui uma sabedoria e uma experiência acumuladas que, juntas, resultam em pura magia. Como resulta igualmente perfeita a combinação da voz com a guitarra de Richard Thompson, num tema da autoria deste último, “God loves a drunk”, sombras e luz, o desespero habitual do ex-Fairport Convention transportado nas asas da ternura da cantora. Thompson é a presença instrumental mais forte que se faz sentir nesta viagem de Norma Waterson pela escrita de autores como Billy Bragg, Elvis Costello, Fred Fisher, Ben Harper, Lal Waterson e John B. Spencer com Graeme Taylor, um ex-Gryphon, além dos já citados Jerry Garcia e Thompson e de uma composição da própria cantora, “Hard times heart” e um tradicional. Martin Carthy, Eliza Carthy, Roger Swallow e Danny Thompson completam o grupo de músicos participantes.
Se Maddy Prior e June Tabor são hoje as mais legítimas representantes da sofisticação e do apuro técnico do canto inglês de raiz tradicional, Norma Waterson simboliza e incarna a expressividade e o sentimento, a voz esculpida pelos anos até ter adquirido um “bouquet” de sugestões e sentimentos que apenas a passagem do tempo consegue conferir. Os temas falam quase todos de experiências dolorosas, de cicatrizes deixadas pela vida, de becos e vielas do amor, mas a música flui com a tranquilidade de um rio antigo, desde as águas onduladas de “There ain’t no sweet man that’s worth the salt of my tears”, escrito em 1965 por Fred Fisher, numa evocação dos dias da rádio, até ao hino “Pleasure and pain”, de Ben Harper.
Uma descida iniciática às profundezas do canto e da memória, entronizada na miséria sublime de “God loves a drunk” (“Deus ama o bêbedo, o mais baixo dos homens/ como os cães vadios e os porcos na pocilga/ mas um bêbedo apenas tenta libertar-se do seu corpo/ e paira nos ares como uma águia voando alto no paraíso…”) mas também em oração, no tradicional “There is a fountain in Christ’s blood”. E se o calor e a doçura da voz de Norma podem induzir os mais incautos ao sonho, não nos iludamos: a guitarra de Richard Thompson nunca se esquece de nos entornar para cima as suas vagas delicadas de ácido e metal.



Milladoiro – “As Fadas de Estraño Nome”

Pop Rock

26 de Junho de 1996
world

“…De encantos non sabidos”

MILLADOIRO
As Fadas de Estraño Nome (9)
2xCD Discmedi, distri. MC – Mundo da Canção


milla

Os Milladoiro dão voz a uma Galiza profunda que os olhos profanos não vêem. Há quem fale de “folclore imaginário” e, de facto, a música deste agrupamento cedo de afastou de quaisquer purismos ou tentativas de fidelidade canina a estruturas tradicionais rígidas. Desde sempre a sua “Galicia de Maeloc” se confundiu com o onirismo de uma “Galicia no País das Maravillas”, para utilizar dois títulos de trabalhos seus. Viagem iniciática de peregrinação ao âmago de uma região eu procura recuperar a sua unidade espiritual, o percurso musical, filosófico e, porque não dizê-lo, religioso dos Milladoiro tem-se pautado, na prática, por um intenso trabalho de depuração e estudo dos modos e formas de funcionamento simbólico da cultura e música galegas. Iniciação e peregrinação assumidas em pleno de forma sistemática a partir, sobretudo, do manifesto “Galicia no Tempo”, de 1991, até “Iacobus Magnus” (ambos com distribuição portuguesa), de 1994, passando decerto pelas bandas sonoras “Os Camiños de Santiago” (para uma co-produção da TVE com a TVG galega), “A Vía Láctea” (para teatro), “A Xeometría da Alma” (para uma exposição antológica de Maruja Mallo, no âmbito da inauguração do Centro galego de Arte Contemporânea) e “Gallaecia Fulget”, para a exposição do V centenário da Universidade de Santiago.
“As Fadas de Estraño Nome” – registo ao vivo de concertos realizados em Buenos Aires, no Teatro Nacional Cervantes, em Abril do ano passado e em Ortigueira, no Teatro da Beneficiencia, em Novembro do mesmo ano -, juntamente com um tema gravado em estúdio (precisamente e título-tema de “Gallaecia Fulget”), mergulham-nos num universo de mitos e magia, conduzidos pela combinação única de instrumentos que fazem dos Milladoiro, um septeto, uma verdadeira orquestra de magos celtas: “gaita”, oboé”, bouzouki, bandolim, “uillean pipes”, pandeireta, castanholas, “bodhran”, “darbouka”, teclados, acordeão, guitarra, flautas, harpa céltica, berimbau, ocarina, violino, clarinete e “tin whistle”.
Tecnicamente sem uma única falha, o sortilégio destas fadas cumpre-se num tempo que não se esgota na audição do disco. “Muiñeiras”, foliadas, xotas e ailalás ganham ressonâncias do outro mundo, um mundo que existe escondido à espera do sinal dos novos tempos. Um mundo que, nas palavras de Rosalía de Castro, “hai nas ribeiras verdes, hai nas risoñas praias e nos penedos ásperos do noso inmenso mar, fadas de estraño nome, de encantos non sabidos que só con nós comparten seu prácido folgar”.