Arquivo mensal: Dezembro 2015

Milladoiro – “Iacobus Magnus (Suite Orquestral)”

Pop Rock

19 de Outubro de 1994
WORLD

ENTRE O GRANITO E AS ESTRELAS

MILLADOIRO
Iacobus Magnus (Suite Orquestral)

Discmedi, distri. Megamúsica

milladoiro

Como escreve Xoan Manuel Estévez no título da sua nota sobre o grupo, os Milladoiro são “algo mais que um grupo folk”. Depois do anterior “Galicia no Tempo”, os Milladoiro tiraram mais um dos véus que ocultam a Galiza profunda, de Rosalia, Casto Sampedro, Conqueiro e Ricardo Portela. Neles, o termo “classicismo” adquire o mesmo significado que tem para os Chieftains, na Irlanda, ou para Alan Stivell, na Bretanha, nos anos 70. Existe uma identificação absoluta entre estes músicos e as terras onde nasceram. No caso dos Milladoiro pode falar-se numa verdadeira peregrinação ao santuário que une passado, presente e futuro. “Iacobus Magnus” – suite orquestral gravada nos míticos estúdios “Abbey Road” com a English Chamber Orchestra e, numa das faixas, a Orquestra Sinfónica de Galicia – como “O Berro Seco”, “Galicia de Maeloc” ou “Galicia no Tempo” é uma viagem pelo interior das lendas e mistérios celtas e em particular pelo interior do especial receptáculo de vibrações mágicas que tem a forma da Galiza. “Iacobus Magnus” – inspirado num pentagrama mágico, labirinto de silêncio cujas linhas os Milladoiro preenchem com o sangue e as vozes da Galiza essencial, oculta – baliza um percurso que é exterior e interior, de granito, água, fogo e intuição. Um percurso ao qual os Milladoiro conseguiram arrancar o segredo dos sons. Entre um “Portico” orquestral e “No cabo da viaxe”, um caminho sinalizado pelos “milladoiro”, montes de pedra dispostos de maneira a indicar a direcção certa a seguir, até à conclusão da “obra”. Um “longo camiño branco”, tema belo de estarrecer, onde a sanfona, primeiro, uma harpa, depois, e as “uillean pipes” levam por terra e pelo ar um desejo de eternidade, algo que nos chama e pelo qual muitos de nós suspiramos, aprisionados numa ilusão de cimento e noutra, mais difícil de romper, fabricada pelo cérebro. “Onde vai aquele romeiro?”, pergunta uma flauta embalada por um órgão com voz de realejo. “Per loca maritima”, respondem a harpa, as cordas, as percussões e um “tin whistle”, num arranjo que lembra a fase boa de Mike Oldfield ou o “folk rock medieval” dos ingleses Gryphon. “No primeiro milladoiro”, as “gaitas” rompem finalmente a cantar, secundadas pela delicadeza da harpa (Rodrigo Romani, o harpista do grupo, assume grande parte do protagonismo neste disco) sobre um fundo orquestral. Segue-se novo capítulo, “A noite estrelecida”, no qual a orquestra acende as estrelas que iluminam o céu e guiam os peregrinos, culminando em “No cabo da viaxe”, etapa derradeira, primeiro numa transformação subtil de uma dança irlandesa, com sabor aos Planxty, por último numa explosão de fulgor, na despedida das “gaitas”, símbolo vivo da terra galega, pátria de Maeloc. Pátria dos Milladoiro. Uma viagem sem fim. (8)



Cran – “The Crooked Stair”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
WORLD

Cran
The Crooked Stair

CBM, distri. MC-Mundo da Canção


cran

Começa por ser um “show” de flauta de Desi Wilkinson, que já conhecíamos e até desgostáramos de ouvir na passagem ao vivo por Lisboa integrado no projecto Hent San Jakez. O homem transfigurou-se, alguma coisa se passou. O solo que assina em “Corsican waltz” é de ficar embasbacado, pela técnica, velocidade, bom-gosto e constantes variações de que dá mostras.
Desi é ainda um bom executante de “Highland pipes”, como demonstra logo nas duas exaltantes sequências de jigs e reels que iniciam “The Crooked Stair”. Também toca rabeca, “whistle” e percussão. Ele e Neil Martin (“Uillean pipes”, violoncelo, sintetizador, excelente “tin whistle”) formam o núcleo sonoro dos Cran, com a ajuda de um terceiro elemento, Seán Corcoran, na voz, guitarra e bouzouki, e um convidado, Ray Gallen, no “bodhran”. Tudo nomes praticamente desconhecidos do público, mas que fazem daquela que julgamos ser a estreia discográfica dos Cran um álbum notável.
Há aqui energia, sinónimo de confiança nas capacidades próprias, posta ao serviço de uma via que opta pela descentralização e, amiúde, numa perspectiva sonora que entronca nos grandes grupos dos anos 70. Nomeadamente nas vocalizações, que, por sinal, sem serem fracas, são todavia o elo menos consistente do álbum.
Mais próximas no tempo estão algumas semelhanças com os House Band, no modo por vezes heterodoxo como as “vozes” da gaita-de-foles e das flautas se colocam, ou nos desvios pelos folclores de várias regiões da Europa, como é o caso de um “an dro” bretão que evolui de forma absolutamente harmoniosa para um tema da Roménia. Em suma, uma visão pujante, imaginativa e não fundamentalista da música tradicional irlandesa que escapa à sensação de “déja vu” que por vezes assola quem tem por hábito e gosto a audição sistemática de tudo o que nos chega destas paragens. (8)



June Tabor – “Against the Streams”

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
WORLD

O ESPÍRITO DA PAZ

JUNE TABOR
Against the Streams

Cooking Vinyl, distri. MVM


jt

Ouve-se uma primeira vez e pensa-se: “É bom, mas não tão bom como ‘Angel Tiger’.” Ouve-se pela segunda vez e concede-se: “Afinal, é tão bom como ‘Angel Tiger’.” À terceira, é-se forçado a concluir: “É melhor que ‘Angel Tiger’!” A partir daqui, nasce a paixão e cada um fará dela o que quiser. “Against the Streams” é o cume de um percurso exemplar de uma mulher que se vem descobrindo através do canto e, álbum após álbum, tem procurado a depuração definitiva, o ponto de equilíbrio onde, com um mínimo de meios, se atinge o máximo de emoção. “Against the Streams” é, ainda, se tivermos presente toda a discografia anterior da cantora, um ciclo que se fecha e o regresso à música tradicional, que finalmente e June Tabor se transformou em algo de novo e muito pessoal. Ciclo de afastamento iniciado nos anos 70, a partir do brilhante “Ashes and Diamonds”, que teve o seu apogeu em “Some Other Time” (uma experiência pelos “standards” do jazz e por muitos difícil de digerir) e, finalmente, a correcção da órbita de aproximação à folk empreendida no anterior “Angel Tiger”.
June Tabor encontrou, em “Against the Streams”, o seu lugar natural – um lugar de paz, equidistante de todas as emoções, que lhe permite enfrentar todas as correntes com um mínimo de atrito, centrado na sua voz de deusa (nos antípodas de outra deusa lunar, Nico) e numa pose hierática, de quem olha de frente o destino. Aqui, tudo flui com a naturalidade das coisas que regressam ao leito. June é simplesmente perfeita quando canta os tradicionais “False, false”, “Apples and potatoes” (variante da “puirt a beul” ou “mouth music” irlandesa que depois o acordeão de Andy Cutting leva às proximidades da Albion Band, nos seus tempos de glória) e “The turn of the road”. “The Irish girl” e “Waiting for the lark” (o encantamento final, uma “lullabye” que concilia o calor da lar e a geada do campo, a noite e a madrugada, o sono e o trabalho) trazem ao conhecimento do público dois dos mais importantes autores da folk britânica contemporânea, respectivamente Peter Bond e Bill Cadick. Elvis Costello, Ian Telfer e Richard Thompson voltam a ter as preferências de June, que, com suavidade, depõe as suas músicas no universo da música tradicional. Mais do que nunca, o piano de Huw Warren funciona como veículo ideal de transporte e elevação das canções. June Tabor cuida e segura nelas como se fossem feitas de cristal. “Against the Streams” é uma noite de luar brilhante como o dia, onde todas as coisas coincidem consigo próprias e cantam – banhadas pelo espírito da paz. (10)

Nota: na calha para distribuição portuguesa estão alguns álbuns potenciais candidatos a “melhor do ano”: “Swing and Tears”, dos Skolvan, “Quatre”, de Gabriel Yacoub, “Aji & Safràn”, dos Ciapa Rusa, e “À la Source”, dos Yole (PopRock adquriu-o em Madrid; é um disco espantoso). Já nos escaparates está o excelente “The Crooked Stair”, dos Cran, numa linha próxima dos House Band. Crítica para breve.