Arquivo mensal: Setembro 2015

Margarida Antunes – Entrevista

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
EM PÚBLICO

MARGARIDA ANTUNES *


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O que distingue o canto tradicional na voz das mulheres do campo desse mesmo canto na voz de mulheres da cidade, como é o caso dos Cramol?
São seguramente diferentes. Quando se está a cantar a chamada canção popular ou tradicional no lugar próprio, a música tem que ver directamente com o trabalho, as folias, o contacto com a terra, com uma certa religiosidade fruto desse contacto directo com a natureza. Há (ou havia, porque até isto se vai perdendo) uma autenticidade. Cantar é para estas mulheres (e homens) algo tão natural como andar ou falar. Através de reprodução das técnicas tradicionais?
Sim. Tivemos a sorte de ter tido pessoas que nos ajudaram nesse aspecto, que aprenderam e nos transmitiram os seus conhecimentos. O Cramol raramente vai aos próprios locais ouvir, embora houvesse algumas de nós que fizeram isso. Uma parte do nosso trabalho semanal é precisamente a procura de um determinado som.

A prática do canto tradicional reflecte-se de algum modo na sua vivência do quotidiano citadino?
Tive a sorte de poder viajar pelo país e de contactar com as pessoas. Isso teve seguramente uma influência incrível na minha forma de estar, de ver as coisas. Uma transformação interior. Não é um escape. Num um apêndice. Foi algo que interiorizei.

Tendo a cidade e o campo os seus ritmos e vivências próprios e contraditórios entre si, a união dessas duas perspectivas e práticas opostas no seio de grupo implica, de algum modo, conflitos ou angústia?
É um facto. Inclusive ao aprender, por exemplo, uma certa técnica que leva a obter um determinado tom ou som, há sempre a tendência de nos virarmos mais para o aspecto técnico da questão. O momento em que conseguimos alhear-nos desse aspecto e, de facto, sentir aquilo que se está a cantar é que é importante e único.

Como é que o público do campo, da província, reage aos vossos espectáculos?
Bem. As pessoas sobretudo revêem-se em nós. Vêm ter connosco e dizem: “Costumava cantar isso” ou “Na minha terra, cantava-se assim”. E ficam contentes por ouvir cantar essas canções de maneira diferente.

No Cramol, existem 22 mulheres a cantar. Que tipo de dificuldades concretas surgem no grupo?
Ainda por cima, é um grupo extremamente heterogéneo – na postura, em tudo. É evidente que isso traz dificuldades. Algumas delas, se calhar, ridículas. Coisas tão simples como a maneira de nos apresentarmos em público, por exemplo, não são nada, nada fáceis. A única coisa – única entre aspas – que une estas pessoas é o facto de gostarem deste tipo de música.

Qual a importância desse aspecto, da maneira como se apresentam em público?
É importante para o público e para nós. Se calhar, as mulheres do campo não têm, ou têm menos, essa preocupação. A forma como nos costumamos vestir depende do sítio onde vamos. O importante é a relação que se cria com as pessoas, nesses sítios. Há vezes em que não temos preocupação nenhuma, cada uma vai como bem lhe aprouver. Noutras, achamos que deve haver um elemento comum, uma cor, de terra por exemplo. É algo que tem dado algumas chatices e discussões. Mas acabamos sempre por chegar a consensos.

Sem qualquer ajuda exterior?
Temos um director artístico que, neste momento, é o Luís Pedro Faro. Está connosco há três anos. É ele que trabalha todo o aspecto técnico. E nos transmite as suas experiências fruto das recolhas que fez. É uma colaboração que funciona nos dois sentidos, uma vez que, às vezes, somos nós a propor uma determinada direcção. Há um aspecto importante que distingue o Cramol dos outros coros. É que, no nosso caso, não há um maestro à frente a dirigir. No nosso caso, apresentamo-nos em palco sem nenhum maestro. Cantamos sozinhas. O facto de não haver ninguém a dirigir implica uma determinada responsabilidade e cumplicidade. Quando se está, por exemplo, a cantar um canto polifónico, essa cumplicidade tem mesmo que existir. Outra pessoa que foi extremamente importante para a forma de estar do grupo é o Rui Vaz [que faz parte, actualmente, do Grupo de Gaiteiros de Lisboa], que esteve connosco durante quase onze anos.

Como é constituído o vosso reportório?
Essencialmente coisas portuguesas, embora também alguns temas da Galiza; polifonias das Beiras, Douro Litoral e Minho. É engraçado que o canto polifónico, à excepção do Alentejo, seja no resto do país, só é interpretado por mulheres. Também com a excepção de alguns cânticos rituais entoados por homens nas Beiras Baixa e Litoral. Mas não contamos só polifonias. Por exemplo, fizemos um espectáculo de comemoração do nosso décimo aniversário em que, na primeira parte, cantámos canções de embalar. Além disso, experimentamos combinações com um número maior ou menos de vozes.

Amélia Muge costuma referir que o estilo e orientação de um cantor devem fazer parte de um processo mais lato onde, em última análise, os meios se identificam com os resultados que se pretende atingir. No fundo, a interiorização de um processo coerente que deverá determinar as suas próprias formas de expressão. Quer comentar?
Concordo. Há grupos a fazerem a chamada música popular, ou de raiz tradicional que vão pela facilidade, sem procurarem essa interiorização. É, aliás, uma questão que vem na linha do que eu dizia há pouco, relativa à interiorização. Eu faço isso. É uma sensação indescritível quando se consegue e, ao mesmo tempo, nos apercebemos de que não estamos sozinhas. No meio de 22 pessoas, é-se um pauzinho; mas, quando se sente que todas as outras pessoas estão igualmente a interiorizar com toda a força, é de arrepiar.

Nunca teve vontade de experimentar o canto num contexto diferente?
Não, nunca senti. Durante muito tempo, não sei se por timidez, por achar que não tinha voz, aquelas coisas, não gostava de cantar sozinha. Pensava sempre que estar juntamente com não sei quantas mais me diluía, não sobressaía nem ninguém me notava. Até que, pela primeira vez, cantei sozinha, num grupo chamado Bago de Milho. A princípio, até nos ensaios tinha vergonha de cantar. Mas, uma vez, tive mesmo que cantar uma canção sozinha e, de repente, ultrapassado o nervosismo, aquele medo, uma coisa terrível, senti uma sensação óptima. Estar perante uma plateia, a cantar em frente de um número enorme de pessoas. Voltei a repetir a experiência no Cramol mas não tenho isso como objectivo. E voltava a repetir se me convidassem para outro grupo e eu gostasse do projecto. E se fosse capaz [risos].

* Vocalista do Cramol, grupo coral com década e meia de existência, composta por 22 mulheres com uma paixão comum: a música vocal tradicional portuguesa.



Miguel Teixeira – Entrevista

Pop Rock

18 de Junho de 1994
EM PÚBLICO

MIGUEL TEIXEIRA *


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Qual é o seu percurso anterior aos Toque de Caixa?
Comecei a tocar com 14, 15 anos, e a ouvir muita música sul-americana, toquei nalguns grupos que praticavam este tipo de música. Entretanto, comecei a interessar-me pela música tradicional portuguesa, com o Zeca Afonso e o Adriano – convém dizer que tenho 36 anos… Toquei também num grupo chamado Siga a Rusga, que durou dez anos e lançou dois discos. O Siga a Rusga acabou e fui convidado pelo Tentúgal para fazer parte da segunda formação dos Vai de Roda e, quase ao mesmo tempo, para integrar a formação do actual Toque de Caixa.

De uma vez por todas, aceita a comparação que muita gente faz dos Toque de Caixa com os Vai de Roda?
Há uma confusão. O estigma de dois grupos serem idênticos em termos de arranjos. Mas as pessoas não se podem esquecer de que o Vai de Roda, para além do director musical comum com o Toque de Caixa que era o Tentúgal, tinha três músicos que agora estão no Toque de Caixa. Pessoas com formação musical e a tendência para pôr a sua maneira de tocar no grupo. No meu caso, a minha forma de tocar esteve presente no Vai de Roda e em particular no álbum “Terreiro das Bruxas” quando se começou a fazer arranjos baseados na música sul-americana.

Tanto quanto se sabe as relações actuais entre os dois grupos não são as melhores. Quer explicar as razões por que isso acontece?
A minha relação pessoal com o Tentúgal não é boa nem é má, é de “bom dia, boa tarde, estás bom, pouco gosto em ver-te e poucas vezes”… Houve coisas que se passaram em relação ao Manuel Tentúgal e ao Vai de Roda, nomeadamente com alguns elementos do grupo que não foram muito correctos para com o actual Toque de Caixa. Por uma razão ou por outra, eles não tiveram um comportamento à altura, nem de músicos, nem de amigos que éramos.
O problema concreto surgiu porque ensaiávamos todos no mesmo sítio e, a determinada altura, começaram a surgir problemas de dinheiro, enfim, um problema de afirmação de um grupo perante outro. O Manuel Tentúgal achou que os músicos deviam tocar ou num grupo ou noutro e que o local de ensaio deveria ser apenas de um deles. Houve uma opção do Bilão, que na altura era o dono do espaço onde ensaiávamos e puseram o Toque de Caixa lá para fora. Não aceitámos isso com muito bons olhos e daí as relações terem esfriado.

O vosso primeiro álbum, “Histórias do Som”, pode considerar-se bastante experimental, dentro do campo da chamada música de raiz tradicional. Como se processa a relação do grupo com a tradição?
Não é nada complicada. Como já disse, o meu percurso tem a ver com a música tradicional portuguesa e da América latina. No grupo, procuramos dar um determinado cariz à música tradicional, com um tipo de arranjos que estejam de acordo com a nossa forma de sentir actual. Não estamos muito preocupados em pegar em temas tradicionais e em tratá-los de forma a que as pessoas achem ou não fiel. Embora neste campo tenhamos muita coisa recolhida, desde material escrito em pauta, recolhido de livros, coisas que vamos buscar aos alfarrabistas, muito antigas e que pouca gente conhece, até gravações que tanto podem ser feitas por nós em locais que visitamos como de gravações pré-existentes, caso dos discos do Giacometti.

No seu caso e na qualidade de principal compositor do grupo, como articula a sua escrita com o material tradicional?
Há sempre qualquer coisa naquilo que componho que é “tradicional”, na forma que tenho de ver a música. É uma coisa que está dentro do corpo. Para além disso, há outro tipo de músicas que vão entrando…

Como a dos Penguin Cafe Orchestra, por exemplo, uma das influências óbvias do Toque de Caixa?
É capaz de ser normal porque é um grupo que, se repararmos bem, tem também uma influência – nomeadamente com a introdução do “Cuatro” – dos ritmos e baixos sul-americanos. É um tipo de música onde eu pessoalmente me sinto à vontade, porque o facto de ter tocado e ouvido durante tantos anos música sul-americana me dá um grande à-vontade em termos de tempos e contratempos – esse tipo de coisas. Ainda agora acabei de oferecer, como presente de aniversário a um dos membros do grupo – o Horácio –, um disco da Linda Ronstadt, da fase em que ela cantava música sul-americana. Sempre que posso, aprendo com os sul-americanos, nomeadamente em termos de ritmo instrumental.

Concorda que a música dos Toque de Caixa privilegia um certo classicismo formal, em detrimento da espontaneidade que, por regra, se associa aos grupos ligados à música tradicional?
Penso que ainda há muito pouco à-vontade… este é o primeiro disco gravado pelo Toque de Caixa. Além disso, o conceito de estúdio põe às pessoas um problema que é o de ter de trabalhar o mais depressa possível, porque o estúdio é caro. Nos grupos de música tradicional, isto torna-se ainda mais evidente. Sentimos que em estúdio somos mais pressionados. Fora isso, os arranjos que fazemos são igualmente para serem tocados em estúdio e ao vivo. É evidente que ao vivo as coisas resultam de outra forma. Por exemplo, no disco, o tema “Aula de música”, com a miúda a cantar. Experimentámos duas vezes ao vivo e não resultou, porque a miúda não estava à vontade. Então passámos a ser nós a fazer essa parte, com um grande berreiro. O que, em estúdio, não resultou, porque ninguém conseguiu reproduzir esse ambiente de festa. Pelo contrário, em estúdio, a voz da miúda resultou perfeitamente.

Uma das características comuns a muitos grupos portugueses da vossa área é o número elevado de elementos dos grupos, como é o vosso caso. Na Irlanda, por exemplo, dois ou três chegam para fazer muito boa música. A que se deve tal facto? Não será uma dificuldade adicional? Ou, pelo contrário, serve para disfarçar insuficiências técnicas?
Sim, provoca algumas dificuldades, nomeadamente logísticas. Temos sempre o problema de sermos nove elementos, para ir a qualquer sítio. Mas é de facto um apanágio dos grupos portugueses, terem sete, oito músicos. Quanto ao aspecto de execução técnica, como sabe, nem o Toque de Caixa, nem a maioria dos grupos portugueses são formados por músicos profissionais. Daí não podermos ensaiar nem todos os dias, nem sequer dia sim dia não.
A esse nível, há de facto falta de ensaios, se levarmos em conta que um grupo profissional tem pelo menos que ensaiar todos os dias, estar agarrado ao instrumento umas horas por dia. Talvez essa seja uma das razões e nós tenhamos que nos apoiar, podendo haver um músico que colmata as dificuldades do outro. Mas não sei até que ponto isso não será um falso problema, porque dentro deste género de grupos existem muito bons instrumentistas. Mas ao vivo há de facto que ter mais cuidado, são muitas pessoas, com cabos, problemas de equilíbrio de som. Aí sim, é pior.

Como se explica que o Toque de Caixa seja um dos grupos portugueses ligados à música tradicional que mais actua no estrangeiro?
A Etnia tem sido até agora uma das vias que nos tem permitido chegar mais facilmente ao estrangeiro. Mas temos tocado bastante em Espanha, ou em França, sem termos nada que ver com a Etnia. Temos os nossos canais privados e enviamos discos a pessoas que conhecemos e estão bem colocados ao nível de organização de concertos e festivais. O facto de o Toque de Caixa ter uma postura agradável em palco talvez também ajude.

Depois de “Histórias de Som” têm já algum novo projecto em perspectiva?
Estamos a pensar muito seriamente em começar a gravar o segundo disco no início do ano que vem. Já estamos a fazer ensaios, a trabalhar nos arranjos. Só estamos à espera que a editora [Numérica, do Porto] em Janeiro dê o sim ou o não.

* Director musical e multi-instrumentista dos Toque de Caixa que recentemente editaram o álbum “Histórias do Som” e actuaram com sucesso no Festival Intercéltico do Porto.



Edgar Nogueira – Entrevista

Pop Rock

12 FEVEREIRO 1994
EM PÚBLICO

EDGAR NOGUEIRA *


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Quando começou a interessar-se e a tocar guitarra portuguesa?
Comecei aos 13, 14 anos, em Ansiães de Amarante, a tocar violino, em várias reconstituições de tunas. Mais tarde vi um instrumento que os velhotes de lá admiravam muito, que era a guitarra. Comecei a ficar com o bichinho no ouvido. Um velhote ensinou-me algum fado corrido, num instrumento ainda com cinco cordas. Mais tarde acabei por pôr-lhe mais uma “ida” de cordas [corda dupla], à maneira da guitarra de Coimbra. Frequentei depois o Instituto Gregoriano durante um ano ou dois. Mas dedicar-me à guitarra a sério foi só quando já era homem. Vim para Lisboa em 67 e a partir daí apaixonei-me de facto pela guitarra. Comecei a procurar escolas mas não as havia ou então ninguém sabia da guitarra portuguesa. Ninguém dava aulas nessa altura, era um círculo muito fechado, reduzido às casas de fado. Fui obrigado a pegar nos discos – de José Nunes, o trio de Jorge Fontes, Jaime Santos, Francisco Carvalhinho, Carlos Paredes – e a ouvi-los para aprender. Até conhecer Fernando Freitas, que me deu por fim algumas aulas. Mais tarde tive o prazer de conhecer o professor Martinho da Assunção, esse sim, grande conhecedor de música e do fado. O profissionalismo aconteceu só em 1974. Acompanhei todos os fadistas menos a Amália, que tinha o seu grupo privativo, e o Carlos do Carmo: Maria Velejo, Tristão da Silva, Fernando Maurício, a Cidália, Maria da Fé… Mais tarde, no restaurante típico Luso, toquei com o Francisco José, Tony de Matos, Rui de Mascarenhas, etc.

Mas prefere a guitarra instrumental solista, não é verdade?
Sempre me disseram que era bom a fazer variações. Onde eu me sinto de facto eu é como solista. No meu disco mais recente, todo instrumental, o CD “Abril em Portugal”, juntei o fado com temas clássicos. Mas mesmo os fados têm sempre um pequeno arranjo. O próprio tema “Abril em Portugal” que lá está não é o do Raul Ferrão, mas o meu, embora o mote seja dele. Ao Camões também lhe deram motes para ele fazer redondilhas e não foi por isso que ele deixou de ser Camões. Agora, tenho uma profundidade maior, mas não nesse disco, que é para o povo. Para o público mais sectário, mais erudito, tenho outros números, que já fizeram com que eu em tempos fosse chamado o “Paganini português” da guitarra. Por exemplo, “A Dor do Verbo”, o verbo como um todo, Deus ou a natureza. Só para pessoas já muito evoluídas.

Quer comentar uma frase de Carlos Paredes, quando ele disse que a guitarra portuguesa era um instrumento moribundo?
Pois, em relação ao Carlos Paredes, somos contrários. Não na arte – sempre o admirei e vou continuar a admirá-lo – mas noutro aspecto. Ele disse sempre isso da guitarra, que era um instrumento moribundo e que só dá para tocar a música que sai dos dedos. Eu já há anos que digo que não. E provei-o. Quando pus um “Voo do Moscardo”, uma “Marcha Turca”, umas “Czardas” ou um “Para Elisa”, todas estas músicas que se dão no Conservatório, no disco. A guitarra pode tocar as pautas. Gosto de tocar música clássica com o cunho próprio da guitarra que tem a ver com o fado. Mas considero a guitarra um instrumento erudito por natureza. E que me toca o coração. Tem muito a ver com o nosso corpo. Num disco como “Peças imortais”, de 88, estudei peças de Mozart ou de Beethoven e dei-lhes uma forma nova.

“A Dor do Verbo” é um título que remete de imediato para um certo misticismo. Considera-se um místico?
Está a tocar num ponto que acho muito giro. Houve uma altura em que as pessoas se riram por eu ter dito que na “Marcha Turca” o Mozart me tinha autorizado a tocá-la na guitarra. Andava às voltas com a adaptação da pauta para a guitarra, quando um dia tive um sonho. Sabe o que é uma pessoa estar a dormir e ouvir uma pessoa, com a figura de Mozart – admito que possa ter sido uma imagem criada pelo cérebro – a dizer assim: “Eh pá, põe! Fica bem à guitarra!” não tem nada a ver com bruxaria. Também já estive à beira do mar e tentar fazer um exército com os peixes. São experiências. Na lagoa de Santo André, ia para lá, despia-me, entrava na água e pensava no que Cristo dizia, que quem tem fé faz tudo. Depois desisti. Já fazia essas experiências antes de aparecerem os livros do Rampa [Lobsang Rampa]. Senti-me uma ve deitado no chão e estar de fora a ver o m eu corpo de cima. Nessa altura tinha tido uma paixão muito grande, estava só, depois casei e deixei de ter tanto tempo para pensar nisso. De facto o pensamento humano é incontrolável. Podemos ir muito longe.

Projecta todas essas crenças e experiências na música que faz?
Sabe como é que saiu “A Dor do Verbo”? Relaciona-se com um tema meu antigo, “Canção de amor”, que o Artur Albarran nessa época passava na rádio, num programa para os pescadores. Tinha acabado de conversar, logo a seguir ao 25 de Abril, sobre o MPLA e os acontecimentos de Angola. Comecei a ficar um bocado… como dizer, a arrefecer… Vi que as coisas não estavam a ser bem, bem aquilo que a gente desejava. Quando há uma mutação na sociedade, ela só pode ser considerada positiva se tudo for para melhor. Agora se for só numas coisas e as outras ficarem ainda piores, já não é a mutação perfeita. Nessa altura andava com uma espiritualidade muito avançada. Mas regressando à história. Vinha de carro da Taberna d’El Rey, a ouvir rádio, quando comecei a sentir uma dor, psicológica e no corpo todo. Trazia a guitarra no carro – foi numa altura em que estava casado só com a guitarra –, parei o carro e foi então que ouvi o Artur Albarran apresentar a tal minha “Canção de amor”. Peguei na guitarra e consolei-me a mi próprio. Pus-lhe a mão como nunca tinha posto e saiu-me um tema de jacto. Cheguei a casa, voltei a tocá-lo e gravei-o logo. Era aquilo. Toda a dor que tinha desapareceu. Dormi descansado. Em segundos tinha-me sido transmitida uma ideia que depois me levou cinco minutos a desenvolver. Na altura houve que pusesse a hipótese de ter sido a influência de um espírito do ar que andasse por ali.

Acredita em Deus? Quem é Deus para si?
Está a fazer a pergunta a um indivíduo que também sabe algumas coisas de ciência. Mas que acredita num ser único que comanda. Mas claro, o meu Deus não será aquele Deus com uma chibata para nos bater. Está a falar com um cristão. Acredito em Cristo, por aquilo que ele disse, continuo a acreditar que ele detém tudo. Acredito nele, não porque tenha falado comigo, embora gostasse de o ter conhecido na sua época. Acredito nele como filho de Deus, o único que venceu a morte. Só por isso ele é o verdadeiro herói, filho do todo. Mas é óbvio que se Deus disse a Moisés que era superior ao sol, e que ele nem o podia ver, mandando-lhe enterrar o rosto na areia para não o ver passar, não posso sequer imaginá-lo como ser. Ele é que fez a natureza, que nós pensamos que dominamos, quando afinal somos é dominados. Acredito em Deus, mas não sei como defini-lo.

Como é que o sente?
Ah, como o sinto, sim! Sinto-o e obedeço-lhe sempre nos momentos críticos. E tento que ele, o espírito, me oiça. Sou um pecador, mas, como costumo dizer, um pecador ameno. Cumpro as leis da humanidade. Acho que Deus nunca me tem abandonado. Não vou atrás de fanatismos – essas novas igrejas aparecem só por causa da solidão –, estou muito seguro no aspecto teológico, religioso. Com isto não quero dizer que sou o mais perfeito de todos, mas sou muito seguro. Só acredito em Cristo, não nesse malucos que vão aparecendo por aí. Quando vier um homem à Terra que, na altura em que um russo ou um americano quiserem carregar num botão para lançar bombas de neutrões, só com o dedo fizer desaparecer tudo – esse será o Cristo. Está escrito que ele aparecerá de novo. Não acredito é nos milagres e nos milagreiros de agora. A também acredito no homem. Se estiver doente, vou a um bom médico. Porque acho que Cristo só não cura. Aqui parece que fiquei um bocado sem fé, não é?

* Intérprete, compositor e professor de guitarra portuguesa. Autor de três álbuns e um CD, “Abril em Portugal”, editado no ano passado pela Metrosom.