Arquivo mensal: Dezembro 2009

Beach Boys – 40 Anos

27.04.2001
Beach Boys – 40 Anos

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Terá sido o sol que esturricou os miolos aos Beach Boys? O ciúme provocado pela audição de “Sgt. Pepper’s”, dos Beatles? Ou será que, como diz a sabedoria popular, Brian Wilson, como todos os génios, teria forçosamente que ser louco? Quando passam 40 anos sobre a fundação do grupo, reedita-se a totalidade da discografia da banda dos irmãos Wilson.

Sobre a personalidade de Brian Wilson – tão desequilibrada como musicalmente capaz de criar algumas das melhores canções pop que o mundo alguma vez conheceu -, já foram escritas páginas e páginas de texto nos quais a realidade se confunde com a lenda. Brian Wilson é o menino gordo, surdo de um dos ouvidos, o tímido que se encerrava no quarto e nas drogas para compor e fazia de conta que o estúdio era o quarto, para aí criar obras-primas como “Summer Days (and Summer Nights)”, “Wild Honey”, “Friends” e, claro, o universalmente aclamado “Pet Sounds”.
Mas os Beach Boys não eram só Brian Wilson e a sua loucura privada, nem o melhor da sua obra pode ser confinado aos anos 60. Quando passam 40 anos sobre a fundação do grupo (em Hawthorne, 1961) a reedição, em remasterizações de 24 bits, pela EMI, da totalidade da discografia da banda dos irmãos Wilson, permite traçar uma panorâmica mais larga que faz, finalmente, justiça ao “output” dos anos 70.
O presente pacote inclui seis CDs. “Sunflower” (1970 acoplado a “Surf’s Up” (1971), “Carl and the Passions – So Tough” (1927 mais “Holland” (1973 e “15 Big Ones” (1976) com “The Beach Boys Love You” (1977), são os mais importantes. Além destes saíram igualmente “The Beach Boys in Concert” (1973) e obras menores como “M.I.U. Album” (1978), na mesma caixa com “LA (Light Album” (1979), e “Keepin’ the Summer Alive” (1980) junto com “The Beach Boys” (1985).
Diz a história e o coração dos que amam a pop que era impossível reproduzir os raios de luz gloriosos lançados, primeiro por uma música banhada pela alegria, o sol e o mar das praias californianas, sustentada por harmonias vocais que se diriam ser cantadas por anjos rendidos aos prazeres do surf, depois pela alquimia espiritual que o tal louco iluminado chamado Brian Wilson traduziu em estúdio para uma obra que muitos colocam no topo da lista das melhores de sempre da pop: “Pet Sounds”.
Mas o progressivo auto-enclausuramento de Brian Wilson nos seus medos se, por um lado, privou os Beach Boys da centelha do seu génio, permitiu, por outro, à música respirar de forma mais livre e mostrar o grupo como um colectivo.

Água de Deus
Sem nunca ter conseguido ultrapassara o episódio “Smile”, álbum maldito que o brilhantismo de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles, impediu de ver a luz do dia (o seu substituto, “Smiley Smile” é, para todos os efeitos, notável, sem dúvida mais repleto de ideias que “Pet Sounds”, avassalador sobretudo ao nível da riqueza da produção e dos arranjos), Brian Wilson afastara-se aos poucos da ribalta. Desde 1964 deixara de acompanhar os restantes Beach Boys nos espectáculos ao vivo, refugiando-se no estúdio e no consumo crescente de barbitúricos. Ele que na altura das gravações de “Pet Sounds” fizera ruir a lenda do artesão inspirado por Deus, ao afirmar, a propósito da estratégia utilizada numa das canções: “Tinha acabado de fumar um haxe fantástico de Marrocos e calhou tropeçar num acordeão. Decidi logo utilizá-lo!”.
O final dos anos 60, marcado, além, de “Smiley Smile” (1967), pelos fantásticos “Wild Honey” (1967) e “Friends” (a968), parecia ter reservado para os Beach Boys pouco mais do que uma lápide dourada e uma inscrição no “hall off fame” da pop. Enquanto Brian se afogava nas drogas, o irmão Dennis envolvera-se com Charles Manson, condenado a prisão perpétua na sequência do assassinato ritual de nove pessoas (entre as quais Sharon Tate, então mulher do realizador Roman Polanski) levado a cabo por seguidores da sua seita entre 8 e 10 de Agosto de 1969. Por ironia do destino, dessa estranha ligação entre um músico de uma banda conotada com o sol e um psicopata adepto da magia negra, resultaria uma canção dos Beach Boys, “Never learn to love”, que chegou aos tops. Menos radical, Mike Love, tornara-se entretanto devoto das doutrinas do yogi Maharishi Mahesh.
Mas 1969 reservava afinal uma surpresa contendo os germens daquela que seria a primeira “ressurreição” oficial do grupo. No final desse ano, a 18 de Novembro, no dia a seguir ao começo das conversações entre os EUA e a então U.S.S.R. sobre a redução de armamento, em Helsínquia, e poucas horas antes dos astronautas da Apolo 12 pisarem o solo lunar, os Beach Boys assinavam com a Warner Brothers para a distribuição mundial do seu selo, Brother records, pondo fim a uma ligação litigiosa com a Capitol que durara sete anos.
O projecto inical previa a edição de um álbum com o título “Add Some Music To Your Day – Na Album Offering from the Beach Boys”. Analisado á lupa pelo staff dos novos patrões da Warner, acabaria por ser recusado, sob a alegação de ser “demasiado fraco”. Foi, porém, um A&R executivo da Warner, Lenny Waronker, quem acabou por dar luz verde a um novo registo gravado dos Beach Boys, depois de, numa das visitas ao estúdio, ter ficado impressionado com uma das novas canções de Brian Wilson, “cool, cool water”, descrita, modestamente, pelo seu autor, como tendo sido “inspirada por Deus”.

O Apelo Do Grande Espírito
O novo disco saiu finalmente com o título “Sunflower” e a mesma capa idealizada para “Add Some Music”. Apesar da música corresponder às expectativas (a Rolling Stone chegou a compará-lo, em importância, a “Pet Sounds”) e dar a conhecer a influência crescente, como compositor, de Dennis Wilson, as vendas resultaram num fiasco. Atrofiados, os Beach Boys concentraram-se nos espectáculos ao vivo, indo a todas. Dos pequenos clubes aos estádios, a correria não parou, chegando uma ocasião a juntar em São Francisco, no mesmo show, os Beach Boys e os Grateful Dead.
“Surf’s Up” surge em 1971 rodeado de controvérsia, ao recuperar para o título uma canção de “Smile”. O álbum é marcado por preocupações ecológicas e uma espiritualidade profunda, “um amor espiritual”, nas palavras de Brian Wilson, de resto já ilustrado no logótipo da editora Brother – uma figura de um chefe índio de braços abertos para o céu, inspirada numa escultura de Cyrus Edward Dallin intitulada “O Apelo do Grande Espírito”. Dallin tecera aliás, sobre esta sua obra, um comentário que se aplica, como uma profecia, aos Beach Boys: “Quando as ajudas e os planos materiais falham, acedemos ao espiritual”. Mais uma vez, Brian Wilson teve a palavra certa para descrever uma música que continuava a ser banhada pela Graça ao citar “Forever”, uma canção de “Sunflower”, como uma “oração rock ‘n’ roll”. Mas a prédicas e o contacto com a transcendência estavam prestes a ser, uma vez mais, interrompidos. Fisicamente, Brian Wilson não parava de engordar, fruto de longos períodos de inactividade, deitado na cama, provavelmente num delírio criativo de canções que jamais deixariam a cela do seu cérebro doente. A melhor homenagem que poderia ser prestada a este álbum chegou 20 anos mais tarde, da parte de outro gordo, tímido e genial americano, David Thomas, num álbum de dor e arrebatamento a que chamou também “Surf’s Up”.

Navega, Marinheiro!
Depois da edição de “Carl & The Passions – So Tough”, dominado desta feita pelo terceiro dos irmãos Wilson, Carl, os Beach Boys partiram com armas e bagagens, mulheres e filhos, para a Holanda. Mas Brian Wilson não seguiu viagem. O seu estado psicológico era já patológico, tendo-se entregue aos tratamentos do psiquiatra seu amigo, Eugene Landy. Mas Brian Wilson contribuíra ainda com duas canções para “Holland”, uma delas, na abertura do alinhamento, o clássico “Sail on, sailor”, escrito com Tandy Almer, Ray Kennedy e Van Dyke Parks. Blondie Chaplin e Ricky Fataar, dosi músicos sul-africanos, tinham entrado entretanto para a formação permanente dos Beach Boys.
Em 1973 morria Murry Wilson, pai dos três irmãos, mas tanto Brian como Dennis não estiveram presentes no funeral, e os Beach Boys subiriam de novo ao top com o duplo ao vivo “The Beach Boys in Concert” e a colectânea “Endless Summer”. Para o grupo era confirmação de que, apesar dos seus esforços na busca de novas ondas, o público apenas queria ouvir os velhos hinos adolescentes sobre surf, descapotáveis e miúdas em biquíni. Em 1974 os Beach Boys eram considerados a “melhor banda do ano” pela Rolling Stone e a frequência e êxito dos concertos pareciam ser suficientes para justificar a existência de uma banda marcada pelos revezes da fortuna.
Num golpe de oportunismo musical, o álbum seguinte, “15 Big Ones” (1976), foi anunciado como o regresso de Brian Wilson aos Beach Boys. Se foi, o próprio, na altura um zombie obeso, não chegou a dar por isso. Mas se Brain Wilson se revelou então incapaz como antes de voltar a subir um palco ao lado do grupo, o mesmo não aconteceu quando conseguiu arrancar-se da sua letargia para encarar de frente o estúdio, e aí reciclar velhos “standards” como “Rock & Roll Music”, de Chuck Berry, e “hits” antigos dos Beach Boys num sonho tão “naive” como nostálgico, de uma simplicidade e rusticidade a anos-luz do puzzle Phil Spectoriano de “Pet Sounds”.
Finalmente, em 1977, em plena explosão punk, os Beach Boys editariam a sua derradeira obra relevante, “The Beach Boys Love You”, já com Brian Wilson regressado do reino dos mortos-vivos. Canções sobre o sistema solar, aviões, crianças e os bons velhos tempos. E o tema eterno do coração de um homem que fica preso ao coração de uma mulher. É um dos álbuns preferidos de Peter Buck, dos R.E.M., que assina as notas de capa da presente reedição, e a antecipação de uma carreira a solo, de Brian Wilson, que rolou até aos dias de hoje em velocidade cruzeiro.
Dennis Wilson morreu em 1983, afogado no mar. Carl Wilson morreu há três anos, vítima de cancro. Mas os Beach Boys estavam já mortos quando em 1985 fizeram para “LA (Light Album)” uma versão de “Here Comes The Night”, dez minutos de disco sound que arrasaram os fãs e estrangularam o sonho num show de “Saturday Night Live”. Os rapazes da praia fizeram-se homens. Dois dos Wilson morreram, o outro enlouqueceu. E como alguém disse: “Beach Boys sem nenhum dos Wilson é como fazer surf num mar sem ondas”.

Mafalda Arnauth – Esta Voz Que Me Atravessa

27.04.2001
Mafalda Arnauth
Esta Voz Que Me Atravessa
Ed. e distri. EMI-VC
8/10

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Mafalda, a Travessa
Para Mafalda Arnauth memorável intérprete ao vivo de “Foi Deus” em mais do que uma ocasião, Amália foi a mestra e afigura de referência, mas enquanto o seu álbum homónimo de estreia denotava uma contenção que podia ser confundida com receio e um encosto a leituras mais ligeiras do fado, este segundo trabalho, com produção de Amélia Muge e José Martins, apresenta um território definitivamente aberto à emoção.
Além da conquista de uma maturidade no capítulo da composição que a autoriza a emparceirar, sem complexos, fados seus ao lado de clássicos como “Até logo meu amor”, de Alfredo Marceneiro, Mafalda Arnauth ganhou confiança nas palavras que canta, descobrindo nelas novas fontes para exercitar quer a alma quer a sua voz extraordinária. Uma voz que agora se volta menos para o espelho e mais para o sentido dos poemas, mudança que tem como principal consequência o largamento dos próprios registos vocais que assim acompanham com outra agilidade a pluralidade de emoções desencadeada por textos de Hélia Correia, José Joaquim Carvalheiro, Amélia Muge ou da sua própria autoria.
As palavras escritas por Hélia Correia para o título-tema, de “Esta Voz que me Atravessa”, dizem muito sobre esta deslocação de atitude e redescoberta da música que a palavra poética contém: “Esta voz que me atravessa/Sem que eu queira, sem que eu peça/Não mora dentro de mim/Vive na sombra a meu lado/Dando ao meu fado outro fado/Que me faz cantar assim”.
Entre a universalidade dos arranjos (Stephan Micus gostaria das guitarras de “De não saber ser loucura”), uma inspirada apropriação de Fausto (“Lusitania”) e um tom mais popular que faria sorrir de agrado Amália (Coisa assim”), “Esta Voz que me Atravessa”, depois de “Esta Coisa da Alma”, de Camané, e da emergência de fadistas ou cantoras de fado como Cristina Branco, Ana Sofia Varela ou Joana Amendoeira, confirma o período de ouro que o fado actualmente atravessa, pela voz e pelo empenhamento de uma nova geração que soube compreender e assimilar os ensinamentos da tradição.

Labradford – Fixed::Context (conj.)

02.03.2001
Tortoise
Standards
Thrill Jockey, distri. Zona Música
7/10
Labradford
Fixed::Context
Blast First, distri. Zona Música
7/10

labradford_fixedcontext

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pwd: MOODSWINGSmusic

Depois do “Big Bang”
Tortoise e Labradford correspondem a dois estágios distintos de evolução do pós-rock. “Standards” será, segundo os próprios, o “disco punk” dos Tortoise. O grupo voltou-se para uma via energética que estava ausente no anterior “TNT”. Se este era uma montagem de módulos sonoros em permanente flutuação, o novo “Standards” sujou, por um lado, o som, ao mesmo tempo que o ar de “inacabado” surge agora imbuído de uma carga libertária. O lado ideológico de crítica a alguns dos sinais da América pós-Clinton, servirão de caução a uma música que alterna achados sonoros com “jams” inconsequentes. Electrónica manipulada com mestria, devaneios jazzísticos, um pouco de “lounge” e “film music” e constantes truques de ilusionismo formam uma argamassa em ebulição, sem que este retorno ao “big bang” faça esquecer a galáxia em expansão que continua a ser “Millions now Living will never Die”. Os Labradford, esses, há muito que se afastaram do rock. Desde “Mi Media Naranja” que a banada se vem embrenhando numa música “espacial” que tanto evoca bandas da 4AD – Dif Juz ou This Mortal Coil -, como Pink Floyd e Brian Eno. “Fixed::Context” cria ambientes talvez menos susceptíveis de aprofundamento do que o anterior “E Luxo So”, embora imbuídos de forte pendor hipnótico. Em “Twenty”, pulsações no limite dos infrasons sustentam uma frase de guitarra eterna repescada de “Wish you were here”, dos Floyd. “Up to pizmo” e “David” vivem do mesmo tipo de tecituras de guitarra criadas por Vini Reilly nos Durutti Column, e “Wien” fecha em voo silencioso de baixo, sintetizador e piano eléctrico sobre regiões de “Apollo Atmospheres” de Eno. Música para sonhar, alguns furos acima do postal retro dos Sigur Rós.