Arquivo mensal: Junho 2009

More República Masónica – Chemical Love Songs

29.09.2000
More República Masónica
Chemical Love Songs (7/10)
Metrodiscos, distri. Zona Música

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Os More República Masónica são um caso raro de fidelidade a uma causa que muitos consideram perdida: o rock. É dentro deste quadro que o quarteto tem evoluído, acrescentando sucessivos ingredientes a uma música que insiste em não se desvincular das raízes, sejam elas o som de Seattle do início da década ou, recuando ainda mais na procura de alicerces, o clássico hard rock dos anos 70 personificado pelos Led Zeppelin. “Chemical Love Songs”, com produção de luxo entregue a Jack Endino, é definido pelo grupo como a “banda sonora inspirada nos fracassos e nos sucessos da vida diária”. Logo no tema de abertura, “Chemical love intro”, os More investem numa vertente, o Psicadelismo, ao qual têm dado crescente atenção à medida que o som tem progredido do clube dos pesos-pesados para a garagem do ácido, local onde as perspectivas perderão em evidência para ganhar em longo alcance. A República Masónica faz-se hoje, mais do que nunca, com canções, ainda que os versos valham tanto como os “riffs”. “Celebrating the Sun”, um dos momentos mais fortes de “Chemical Love Songs”, vive de um crescendo de guitarras incandescentes, “acid jam” dedicada ao sol, filtrada, todavia, por um par de óculos-escuros, menos filiada nos Verões californianos dos Greatful Dead (o título podia ser deles…) do que nas trips dos Amon Düül II de “Phallus Dei”. “Diary” lembra-se de que nos anos 60 existiram e de que os Velvet Underground foram (também) uma banda pop mas é a corrosão lisérgica do tema final, “Emptiness song”, a demonstrar que os MRM não ficaram surdos ao krautrock nem, provavelmente se importariam que o próximo álbum fosse produzido por Julian Cope…

Na Lua – Feitizo (conj.)

26.05.2000
Folk
O Círculo das “Meigas”
Desde há alguns anos na vanguarda do movimento de renovação da música tradicional da Bretanha, os Skolvan assinaram em “Swing & Tears” um dos melhores álbuns folk do ano de 1994. Regressam com “Chenchet’n na Amzer” (“Os Tempos Mudam”) e, de facto, algo mudou na música do grupo. Uma mudança que terá a ver com as profundas alterações que entretanto se processaram no seio da banda, com as saídas de Fanch Landreau e Yann-Fanch Perroches, respectivamente, no violino e no acordeão diatónico, e as entradas de três novos elementos, Dominique Molard (percussão), Loig Troel (acordeão) e Bernard Le Dréau (saxofone e clarinete), mantendo-se Gilles le Bigot (guitarra) e Youen le Bihan (bombarda e “piston”). De banda que revolucionou o folk bretão, sem desvirtuar as suas origens, os Skolvan cederam desta vez terreno ao compromisso, resvalando nalguns temas para a feira popular e para um tom rockeiro que contraria e contradiz toda a evolução do passado. Ao lado de um irresostível “na dro” pop em quatro andamentos como “Arc’hwezh nevez”, a inclusão do “standard” “My Favourite Things” (de Roger & Hammerstein, cantado na banda sonora de “Música no Coração” põe Julie Andrews), um dos temas preferidos de John Coltrane, confirma a importância do novo soprador na música do grupo e, ao mesmo tempo, o desvio que poderá, ou não, conduzir os Skolvan ao caminho da fama. (Keltia, distri. Megamúsica, 7/10).

Se os Skolvan deram um passo à retaguarda, Patrick Molard (ex-Gwerz, especialista de vários tipos de gaita-de-foles, das “uillean pipes” irlandesas à “biniou” bretã, passando pelas “highland” e “small pipes” escocesas) avança em “Deliou” ao encontro do futuro com os pés e a alma bem assentes na rocha, nos bosques e no mar da Bretanha. Rodeado de dois dos expoentes da música tradicional do seu país, o seu irmão e antigo companheiro nos Gwerz, Jacky Molard (violino, bandolim, guitarras, baixo e direcção artística) e Jacques Pellen (guitarras), mas também de outro seu irmão, Dominique Molard (percussões) e Yves Berthou (bombarda), o gaiteiro bretão contou ainda com a colaboração de um dos “virtuosos” das “uillean pipes” da nova geração, o irlandês Mick O’Brien (de quem se recomenda a audição de “May Morning Dew”). Mas é outro dos convidados, a cantora búlgara Kalinka Vulcheva (da Rádio de Sófia e da formação Le Mystère dês Voix Bulgares) que contribui para um dos momentos mais exaltantes de “Deliou”, no tema que lhe é dedicado, “Kalinka”, encontro tocante dos Balcãs com a Bretanha, mas também no tradicional da Bulgária que dá o título ao álbum, diálogo sagrado da voz com as “uillean pipes”. É, de resto, a Bretanha na sua vocação mais universalista (como acontecia com o Alan Stivell nos primórdios) que reencontramos ao longo deste álbum, seja na renovação e devoção às suas origens mais puras, seja no cruzamento coma Bulgária, ou com outros territórios centrados na espiritualidade céltica, como a Galiza, que Patrick Molard homenageia em “Ton Budino”, marcah processional aprendida com o jovem gaiteiro Xosé Manuel Budino e de “Ricardo Portela”, citação a um dos esteios da “gaita galega”, aqui na miscigenação de uma muineira com um “jig” irlandês. “Deliou” é, além do mais, um magnífico exemplo da música mais bela e profunda que pode sair do fole de uma gaita-de-foles. (Naive, distri. Megamúsica, 8/10).

Os digníssimos Chouteira, da Galiza, perderam definitivamente um parafuso (devolvido, aliás, no interior da caixa…). Depois de “Ghuaue!”, a atenção voltou-se para a música do Norte de Portugal, nomeadamente para o Minho, ali mesmo ao lado. E se o álbum tem por título “Folla de Lata” não é caso para se dizer que foi preciso tê-la, para abrir com a nossa bem conhecida “Ai, ai, ai a minha machadinha”… A lata tem sobretudo a ver com a utilização exaustiva de instrumentos de metal, nomeadamente uma tuba que, mais do que remeter para as experiências pioneiras de grupos como os Home Service e Brass Monkey, mostra que os Chouteira perderam algum tempo a ouvir os Gaiteiros de Lisboa, também eles adeptos da tradição colorida por sopros de metal. Se dúvidas ainda houvesse quanto a isto, elas desaparecem quando se verifica que o grupo português toca num dos temas de “Folla de Lata”, “O Arvoredo”. Como os Gaiteiros, os Chouteira aprenderam a brincar com sons estranhos (“As sete mulheres do Minho”), ainda que a estrela da companhia seja ainda, e até ver, a voz da cantora Uxia Pedreira. (Do Fol, distri. Farol Música, 8/10).

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Outra Uxia, bem mais conhecida dos portugueses, fez parte durante muitos anos dos Na Lua. Depois foram cada um para seu lado mas a separação fez bem aos dois lados. Primeiro à cantora, que se emancipou. O grupo demorou mais tempo a adaptar-se à situação mas se o álbum anterior, “Os tempos son chegados”, já indicava uma total reavaliação de processos, o novo “Feitizo” coloca definitivamente o nome dos Na Lua na fila da frente dos grupos galegos mais importantes da actualidade. Com uma embalagem de luxo, “Feitizo” debruça-se sobre as histórias e lendas das “meigas” (feiticeiras) e outras mafarricas que povoam o imaginário da cultura galega tradicional. Curiosamente, também neste caso o processo de renovação passou por uma consulta ao folclore português, com três viras repescados do “Cancioneiro Minhoto” de Gonçalo Sampaio, além de uma versão da “Ronda dos Mafarricos” de José Afonso (de “Cantigas do Maio”). “As meigas chegan” e a música dos Na Lua só tem a ganhar com a chegada das feiticeiras, das fadas e do mistério. “Estas san cousas de encantamento, ir pólo Aire, vir pólo vento”, cantam em “Fum pólo vento”, antes da ronda das gaitas varrer a terra da lua com um furacaõ de alegria, em “Meigallo” e a voz da convidada Aloia Martinez, também ela com uma transparência de uma fada, pousar “Para fazer un feitizo”. Que fez com que este álbum seja o melhor de sempre dos Na Lua. (Do Fol, distri. Farol Música, 8/10).

Joni Mitchell – Both Sides Now

24.03.2000
Joni Mitchell
Both Sides Now (8/10)
Reprise, distri. Warner Music

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Joni Mitchell – Both Sides Now (DTS-CD)
FLAC – Lossless Format
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Uma só palavra é suficiente para definer toda a obra da cantor canadiana Joni Mitchell: Class. “Both Sides Now” (título de uma velha canção de Judy Collins) utiliza como tema as várias fases de uma relação amorosa “moderna”, desde o “flirt” inicial ao auge da paixão e o consequente esfriamento e possível separação. Curiosa a ênfase posta no adjectivo “moderna” já que para ilustrar as diversas etapas do jogo amoroso a cantora se socorreu de versões orquestrais de “standards”, sobretudo dos anos 20, 30, 40 e 50 que, paradoxalmente remetem para os velhos filmes de Hollywood de uma América ainda inocente. Assim clássicos como “You’re my thrill”, “At last”, “Comes love”, “Answer me, my love”, “Don’t go to strangers”, “Sometimes I’m happy”, “Don’t worry ‘bout me”, “I wish I was in love again” e o mítico “Stormy weather” desfilam sob neons numa rua chuvosa onde se adivinham mil e um enredos de sedução. No tema de abertura de “Both Sides Now”, o registo vocal de Joni Mitchell remete de imediato para Billie Holiday” no que poderá ser encarado como uma homenagem a esta cantora cuja vida ficou marcada por múltiplos dramas amorosos. Dois dos temas, “A case of you” e o título que nome ao álbum levam a assinatura da própria Mitchell, o mesmo acontecendo, como vem sendo hábito nos seus últimos trabalhos, com as pinturas que decoram a capa. Participam em “Both sides now”, Wayne Shorter (saxofones), Herbie Hancock (piano), Mark Isham (trompete), Peter Erskine (bateria) e Chuck Berghof (baixo).