NEIL YOUNG
Harvest Moon (7)
LP/MC/CD Reprise, distri. Warner Music
É difícil dissociarmos “Harvest Moon” do seu antepassado “Harvest”, por muito que o seu autor insista em que se tratou de uma simples coincidência. “Harvest”, gravado em 1972, prolongamento lógico de “After the Goldrush”, projectou o nome do autor canadiano na cena rock internacional e vendeu bastante bem, na ordem do milhão de exemplares, chegando a número um no top de vendas de álbuns nos Estados Unidos. Talvez seja possível ver então na semi-sequela que é “Harvest Moon” um desejo, não necessariamente da parte do músico, em alargar o leque de potenciais consumidores.
As semelhanças começam logo pela escolha da banda, que é a mesma de “Harvest”: os Stray Gators, formados por Kenny Buttrey (bateria), Tim Drummond (baixo), Bem Keith (“steel guitar”) e Spooner Oldham (piano). Jack Nietzsche volta a ser convidado para assinar os arranjos de cordas de um tema, neste caso “Such a woman”, à semelhança do que havia feito em “Harvest”, com “A man needs a maid”. Citem-se ainda os nomes de Linda Ronstadt, James Taylor e Nicolette Larson (que já participara em “Harvest”), presentes em “Harvest Moon” para darem um ajuda nos apoios vocais.
“Harvest Moon” significa uma rotação de 180 graus em relação ao anterior “Weld”. Depois da neurose, a pacificação. Depois da violência e do ódio, o amor. A guitarra eléctrica ultra-saturada e à beira do colapso cede o lugar às reverberações da sua irmã acústica. “Weld” retratava a paranóia urbana, registada no centro do furacão, em plena guerra do Golfo. “Harvest Moon” retorna à serenidade dos campos americanos, iluminados pela Lua, contra a qual se recorta uma figura de espantalho. Um tom de abandono que serve de pano de fundo a canções de amor, nas quais Neil Young volta a enfrentar alguns dos seus fantasmas, mas agora em tempo de paz, no silêncio permitido pela solidão.
O som é amplo, espelhado, feito de pausas e ecos. A serenidade raramente é quebrada. Uma “steel guitar”, uma harmónica e coros celestiais dão logo no tema de inicial, “Unknown legend”, o tom que domina todo o álbum. Música dos grandes espaços, da América ainda com capacidade de sonhar. “From Hank to Hendrix”, primeiro grande tema de “Harvest Moon”, convoca as imagens dos ídolos, os verdadeiros e os de barro, enquanto ao longe assoma o espectro de Bob Dylan.
“You & me”, “Harvest Moon”, “War of man”, este impelido por uma poderosa linha de baixo, e “One of these days” não se afastam do ambiente geral de intimismo e introspecção. Convocam-se amores e amigos, escrevem-se cartas, trocam-se palavras e recordações.
O segundo lado consegue ser ainda mais amplo. O som torna-se espacial. O piano e as cordas embalam a história de amor que se conta em “Such a woman”. “Old king” (não é sobre Elvis mas sobre a morte do cão de estimação que acompanhava o músico a todo o lado) quebra por instantes a superfície lisa do lago, entre os soluços de um banjo e um registo declaradamente “country”. “Dreamin’ man” conta a loucura e a incapacidade de lidar com a realidade. Qual realidade? Neil Young, americano, nascido no Canadá, é por natureza o estrangeiro, o caminhante das estradas solitárias que terminam no pôr-do-sol. Por essa estrada interminável vão os passos do tema final, “Natural Beauty”, longa litania gravada em Portland, ao vivo e em cores “gospel”, sobre a beleza ambiental e a sua degradação, observada por quem sente pelos “states” uma indiferença apaixonada – misto de proximidade e distância, intervenção e afastamento crítico, ódio e desejo. “Harvest Moon” não é um grande álbum, nem sequer dos melhores de Neil Young, mas tão-somente uma visão lúcida e desencantada da América de hoje, protagonizada por um viajante eternamente de passagem.
“Harvest Moon”, novo álbum de Neil Young, editado em Portugal no dia 23 de Outubro, com o selo Warner Music, revisita o seu antepassado de 1972, “Harvest”. Os músicos são os mesmos, os arranjos acústicos remetem para os de há 20 anos. São canções de amor, de ressaca, passado o delírio eléctrico e o excesso de “Weld”, o álbum anterior. Agora o autor de “After the Gold Rush” anda pela Europa a explicar que não se trata de qualquer acesso de nostalgia, apenas de um álbum capaz de agradar a toda a gente. Um grupo de jornalistas convidados escutou as suas razões, numa conferência de imprensa realizada na semana passada num hotel de Madrid. Não são grandes razões as que o músico apresentou. Neil Young fala pouco, preferindo deixar as opiniões sobre o seu trabalho para os críticos e o público em geral. “Harvest Moon” é um bom álbum de canções, registadas num momento de pacificação. O guerreiro em tempo de paz.
Que motivos levaram afinal Neil Young a este regresso a um passado distante? As respostas não foram claras, ficando uma série de dúvidas a pairar no ar. Ele diz que foi quase por acaso: “Escrevi as canções primeiro, depois escolhi os músicos e só então reparei que eram os mesmos [os Stray Gators], que tinham trabalhado comigo em ‘Harvest’.” Pura coincidência, portanto. Quanto aos arranjos, acústicos como no álbum de 1972, devem-se unicamente à inspiração de momento. “Foram escritos na guitarra acústica. Ficavam melhor num registo ‘soft’.” Poder-se-ia pensar numa repetição de esquemas. Mas também aqui Neil Young se recusa a abrir o jogo, embora conceda: “Durante muitos anos as pessoas pediram-me para fazer isto, mas não tinha as canções certas. Não programo o tipo de canções que escrevo. Aconteceu agora e pronto.” E pronto.
Certo é que “Harvest Moon” não esconde a filiação, senão não repetiria a palavra comum aos dois álbuns. E compreende-se que a escolha tenha recaído em “Harvest”, que foi, na altura do seu lançamento, um dos que mais dividendos monetários trouxe ao seu autor e o projectou na cena rock internacional. Por outro lado convém não esquecer que a obra de Neil Young se organiza por avanços e recuos sucessivos – “Vou a um extremo e depois regresso, para não haver perda de energia. Energia que é mais forte quando toco com os Crazy Horse, visível em trabalhos como ‘Ragged Glory’, ‘Weld’ e ‘Arc’. Depois tenho de parar e tocar qualquer coisa mais suave” –, agrupando-se os álbuns em núcleos específicos. É verdade que “Harvest Moon” remete em primeiro lugar para “Harvest”, mas não é menos verdade que também não anda longe do registo de “Comes a Time”, de 1978. Da mesma maneira que “Weld” se poderá inserir numa linha idêntica à de “Ragged Glory” (1990) e “Rust never Sleeps” (1979). Intenções declaradamente comerciais não existem: “É um álbum sentido com o coração. As pessoas podem dizer o que quiserem. Não tenho de defender a minha música, apenas de a fazer.”
Uma pausa e promoção
Fica de imediato afastado qualquer paralelo com uma estratégia semelhante, por exemplo, à de “Tubular Bells II”. Nem a integridade artística sempre mantida pelo autor o permitiria. Desde os tempos longínquos de “Everybody Knows this Is nowehere” que Neil Young recusa a segurança de um estilo ou de uma fórmula que se revele rentável. Ele é por natureza um explorador, alguém que se recusa a parar. Do rockabilly à country, do rock nos mais diversos matizes ao escândalo que em 1983 causou a aventura electrónica de “Trans”, é todo um percurso em que constantemente tem procurado novas soluções. Por tudo isto também espanta a pausa que “Harvest Moon” significa. E é de facto de uma pausa que se trata. Se “Weld” e a sua extensão de puro caos e “feedback” que é “Arc” – “nas discotecas utilizam-no em blocos de 10 segundos entre as canções para dançar e na rádio costuma servir de separador” –, gravados durante a guerra do Golfo, representam, nas suas palavras, algo parecido com “estados alterados, como o ar que se transforma em vapor” ou “uma fronteira limite, o princípio de algo novo, um tiro no escuro”, “Harvest Moon”, pelo contrário, é “a calma depois da tempestade” e “a paz a seguir à guerra”.
Quanto às actividades promocionais em que, pela primeira vez em 25 anos de carreira, se vê envolvido, devem-se a directivas dos patrões da editora, que viram em “Harvest Moon” um álbum com um potencial comercial razoável: “Em Los Angeles sentaram-me numa cadeira e disseram-me: ‘Temos de fazer isto, senão ninguém saberá que tens um novo álbum.’” Neil Young acedeu e parece que não se tem dado mal com a mudança: “Agora posso viajar pela Europa, por cidades maravilhosas, frequentar bons restaurantes…” A questão é que, se, como ele diz, os fãs “hard core” não precisam de referências para adquirir o álbum, já o mesmo não acontece com uma franja de público novo que, de outro modo, não teria acesso a saber da existência do disco – “É um tipo de música que a rádio não passa, nos dias de hoje.”
Ídolos da América
Em “Harvest Moon”, Neil Young escreve e canta sobre o amor e a loucura. Ele prefere que sejam os outros a tirar conclusões. Questionado quanto à temática de algumas canções, de novo se escudou num quase mutismo: “Um verso de ‘Dreamin’ Man’ diz algo como ‘sou um sonhador’. Tem sido esse o meu problema.” Problema que Neil Young reduz a “alguém que não consegue adaptar-se à realidade”, sem adiantar outros pormenores: “Tentar explicar as canções é trair essas canções.” Um ponto de vista defensável, por muito que custe à curiosidade jornalística. Noutra canção, “From Hank to Hendrix”, refere explicitamente, além das duas personagens citadas no título – Hank Williams, nome lendário da música country, e Jimi Hendrix –, os nomes de Marilyn Monroe e Madonna. Neste caso, forneceu algumas explicações extra, talvez por incidirem numa temática de teor não autobiográfico: “Hank e Hendrix são pólos positivos da América. As pessoas gostam de ouvi-los, porque são ambos grandes músicos. Marilyn e Madonna fazem pensar em coisas diferentes… As pessoas ainda não têm uma opinião definitiva sobre a sua qualidade.” Sobre a autora de “Sex” e “Erotica”, contudo, Neil Young tem uma opinião formada, por sinal positiva, já que considera que “alguma da sua música é boa” e à escandalosa “uma cantora com potencial”, que “fará música mais aventurosa no futuro”.
A queda de Colombo
Neil Young, que já sofreu na carne os efeitos da censura, em Espanha, onde lhe cortaram o texto da canção “Cortez the Killer” (do álbum “Zuma”) sente-se mais à vontade quando questionado sobre os outros ou sobre assuntos de ordem menos pessoal, ou íntima. A propósito da descoberta da América por Cristóvão Colombo, da qual se comemora este ano o quinto centenário, assunto que mantém excitados os nossos vizinhos espanhóis, Neil Young deitou um balde de água fria sobre os ânimos de “nuestros hermanos”: “Colombo? É uma anedota. Um ídolo caído. Passados 500 anos, já ninguém fala da descoberta, mas do extermínio dos nativos americanos. Há um mal-estar geral. Durante séculos, Colombo foi um herói. Agora, o seu tempo terminou.”
Entre os projectos actuais do músico, conta-se o regresso ao cinema (na lista dos seus realizadores preferidos figuram Scorsese, o Godard das origens, Fellini e Alan Rudolph), através da realização de um filme centrado sobre a história, lida num livro, de “uma senhora franco-canadiana que afirmou ter encontrado uma cura para o cancro”. Enquanto isso continua a apoiar várias organizações de auxílio a crianças deficientes, uma para doentes e seropositivos da sida, outra de ensino da fala com o auxílio de computadores.
De Bob Dylan, ao lado de quem tocou recentemente no concerto do 30º aniversário de carreira daquele compositor, diz ser uma “personalidade única e fascinante” e um grande poeta (“tal como Shakespeare”), cuja música “sabe falar à sua geração”. Vai mais longe ao afirmar que “as palavras ganham um novo sentido quando saem da sua boca”. Instado a pronunciar-se sobre as próximas eleições nos Estados Unidos, Neil Young ficou-se por um lacónico: “Sou canadiano!”
Documento oficial da digressão “Ragged Glory/Don’t Spook the Horse”, “Weld” constitui desde já um marco nos álbuns ao vivo. Se “Times Fade away” (1973) cortava de forma violenta com o passado acústico de “After the Goldrush” e “Harvest”, e “Live Rust” (1979) encenava já essa violência desmedida que, a partir da segunda vida dos Crazy Horse, parece ter-se tornado a forma preferencial do músico responder aos ataques do mundo, “Weld” é a explosão de raiva definitiva, a hemorragia final da alma, o curto-circuito incendiário das guitarras e dos sentimentos em carne viva.
Mergulhando ainda mais fundo do que em “Ragged Glory”, Neil Young prossegue a introspecção demencial e a denúncia de uma sociedade doente que sempre se encarregou de lhe fazer a vida negra. O som, desde as primeiras espiras de “Hey hey, my my (into the black)”, é um murro no estômago, documentário abrasivo de uma “bad trip” que na descida aos infernos encontra a derradeira redenção.
Dizer que as guitarras de Neil Young e Frank Sampedro ou o baixo de Billy Talbot são musculados e poderosos, no ponto limite em que o calor se transforma em chama, é pouco. Do princípio ao fim do disco, assiste-se como que à agonia do rock’n’roll, coincidente com o massacre em que a si próprio se imola no fogo da paixão. Auto-sacrifício ou operação de extermínio, pouco importa, se o resultado assombra com o esplendor dos grandes incêndios. “Love to Burn” assim se chama um dos temas do disco, eis do que trata “Weld”, no paroxismo da vertigem, na ânsia desmedida de tudo querer conter num grito.
Ouve-se “Weld” com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar. É nesse ponto de impossível equilíbrio que Neil Young tem vindo a construir a sua obra e a sua vida. A morte de amigos, juntamente com a fé cega nas virtualidades da música como forma exclusiva de exorcismo, conferem-lhe mais que o estatuto de sobrevivente, o de herói. Enquanto Dylan se debate entre as contradições de uma mensagem esvaziada de sentido e o absurdo de querer manter vivo um mito que deixou de o ser, Neil Young recusa olhar para o passado, preferindo, em vez disso, investir, de guitarra em punho, contra o futuro, deixando, pelo caminho, o presente devastado.
Não por acaso, o compositor de “Rust never Sleeps” (cuja sequela ao vivo, “Live Rust”, contribui com seis temas para “Weld”, devidamente actualizados e prontos a lançar na fogueira) retoma um tema de Dylan, “Blowin’ in the wind”, de forma a anular-lhe quaisquer conotações que ainda pudesse ter com a mística de Woodstock, substituindo a sua carga pacifista pela gangrena trazida pelos ventos corrosivos que hoje sopram pelo mundo. Neil Young destrói o passado, para, num segundo momento de refluxo, o evocar na sua vertente mais negra: a introdução instrumental de “Blowin’ in the wind” remete de imediato a memória para a desolação e a violência de Jimi Hendrix.
Como em “Star Spangled Banner”, a mesma hecatombe de “feedback”, o mesmo trucidar da guitarra à procura de sonoridades impossíveis e da pulsação primordial do rock. No limite dessa apoteose de ruído e da desagregação, faz sentido a inclusão, no formato de CD, de um tema adicional, “Arc”, 37 minutos de “‘feedback’ orquestral” que a folha promocional se encarrega de definir como “chiqueiro e distorção com alguns fragmentos vocais”.
Nunca, como em “Weld”, Neil Young esteve tão perto do Apocalipse. Os minutos finais do épico “Like a hurricane” resolvem-se num caos grandioso de ruído, manifestação epidérmica dessa dor imensa que, no final, obriga o músico a gritar: “No pain!” Para Neil Young, cada vez mais “Tonight’s the night”. Sabemos isso e continuamos a arrepiar-nos (10).