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Davy Spillane – “A Place Among the Stones”

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
WORLD

Davy Spillane
A Place Among the Stones

Columbia, distri. Sony Music


ds

Os puristas odeiam-no, mas têm que reconhecer que é um dos grandes tocadores de “uillean pipes” da actualidade. Tecnicamente falando, claro, porque em matéria de gosto e reportório estamos conversados. Nos Moving Hearts, grupo de folk rock no qual Spillane se notabilizou, ainda se suportava a energia e o entusiasmo. Controlado por Andy Irvine, acertou em “East Wind”, um álbum de música da Bulgária “à irlandesa”. Depois, a solo, Spillane foi-se afastando cada vez mais das raízes tradicionais, enveredando pelo rock, esgares de “blues” e baladas que procuram promover a Irlanda como região turística por excelência. Neste seu novo álbum Spillane voltou a enveredar pelo postal ilustrado, só que numa maré de calmaria, prescindindo em grande parte dos solos, estilo demonstração, nas “uillean pipes”, para apostar no maior “intimismo” do “tin whistle”. Mas a música continua a não conseguir livrar-se de uma superficialidade irritante, por muito que Spillane se esforce em “aprofundar”. Maire Brennan, dos Clannad, toca harpa, canta e compõe o título-tema. Steve Winwood faz uma perninha, a recordar os bons velhos tempos de álbum pró-folk dos Traffic “John Barleycorn must Die”. Bonitinho. Há quem se reveja e delicie com este tipo de sonoridades. A música irlandesa tem as costas largas. (4)



Alec Finn – “Blue Shamrock”

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
WORLD

Alec Finn
Blue Shamrock

CBM, distri. MC – Mundo da Canção


bs

Que desilusão! Não há direito que alguém com o nome de Alec Finn, nada mais nada menos que o guitarrista dos De Dannan, faça uma coisa tão insossa como esta. A totalidade do disco baseia-se nos “airs” irlandeses que, como se sabe, são a vertente menos frenética e mais poética de todos os géneros instrumentais da Irlanda. O “tin whistle” é, neste caso, o instrumento de eleição e, como tal, foi recrutada uma das suas maiores especialistas, Mary Bergin. Tommy Keane, nas “pipes” e no “low whistle”, é outra das personalidades presentes neste trevo azul que infelizmente não tem quatro folhas. Porque tanta suavidade e poesia pode às tantas, como é o caso, ser soporífero. Tudo aqui é feito com cuidado e sofisticação, numa perspectiva estética que não anda longe da de alguns trabalhos de Andrew Cronshaw. Ou seja, delicadeza acima de tudo. “Blue Shamrock” não chega a ir ao fundo da questão e tem mais o sabor de um copo de água fresca que o travo forte de um Bushmills ou a densidade quente de uma Guiness que demorou eternidades a tirar. (5)



Lokua Kanza – “Lokua Kanza”

Pop Rock

25 de Maio de 1994
WORLD

ETNO-FOTOGRÁFICO

LOKUA KANZA
Lokua Kanza

Lokua, import. Contraverso


lk

Natural do Zaire, Lokua Kanza fez na juventude parte de um coro, tocou “rumba” zairense e só depois efectuou estudos de solfejo e guitarra clássica. Aprendeu com os anciões as velhas técnicas de canto tradicional, passou pela Costa do Marfim para por fim aterrar em Paris, França, pátria europeia da música africana. Tocou guitarra com Ray Lema e fez parte do coro em “Le Voyageur”, de Papa Wemba. Até ao ano passado, foi vocalista na banda de Manu Dibango, os Soul Makossa Gang.
“Lokua Kanza” constitui a estreia discográfica deste cantor e é já uma das boas surpresas da música africana deste ano. A voz de Lokua Kanza tem características que a distinguem dos timbres com “vibrato” acentuado que caracterizam grande parte dos cantores africanos. Geoffrey Oryema será, dos nomes mais conhecidos, aquele cujo canto lhe estará mais próximo. Mas a música de Lokua Kanza possui algo mais – uma simplicidade e uma depuração exemplares, que emprestam a este álbum uma limpidez e pureza deslumbrantes. A voz (por vezes multiplicada em “multi-tracking”), as percussões, a guitarra e utensílios domésticos variados formam o suporte perfeito para as vocalizações voarem sem restrições. Pequenas fotografias ambientais alternam com esboços “naїf”, entre o minimalismo e as invocações rituais. “Juste un peu d’amour” é um hino e um convite à dança dos pássaros. “Boto” é uma clareira de luz filtrada pelas transparências e os sopros rítmicos no gargalo de garrafas. Há um ponto de passagem, algo de comum (“Juste un peu d’amour”, “Kunze”) entre este disco e o recente “Sabsylma” das Zap Mama, independentemente da raiz comum que é o Zaire. Ambos retratam a aura colorida do continente africano, desenhando os seus contornos no corpo fantasmagórico de uma fotografia Kirlian. (8)