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Benny Wallace – “Benny Wallace, O Tradicionalista Moderno” (concerto / festivais / Matosinhos Jazz)

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sábado, 24 Maio 2003


Benny Walalce, o tradicionalista moderno

Benny Wallace e o trio de Mulgrew Miller
Auditório da Exponor, Matosinhos





Começou com jazz ao pé-coxinho mas acabou com grande jazz o dia de abertura do festival Matosinhos em Jazz que termina hoje no auditório da Exponor. Bennie Wallace e o trio de Mulgrew Miller puseram em sentido uma assistência que não chegou para esgotar os 1000 lugares do auditório depois de uma primeira parte preenchida por espanhóis esforçados mas para quem o jazz, mais do que forma de vida, é uma prova de boa educação.
O que fascina em Bennie Wallace é a forma como este saxofonista tenor arranca a tradição do seu porto de abrigo para a revestir de uma energia e uma imaginação inesgotáveis feita de sínteses e releituras de mestres como Coleman Hawkins ou Ben Webster, lançados na arena de um discurso livre. Apresentado como um executante “sui generis”, o saxofonista fez jus a este estatuto. Bennie é um aglutinador, uma máquina transmutadora da história. Tem em si tudo: o bop, os blues, a transgressão do “free”, mas o que espanta é que este concentrado de jazz do passado é manipulado por ele através de uma sensibilidade e sentido improvisacional únicos. O timbre é seco, conciso, como o de Ben Webster, jazz tradicional, construído sobre alicerces sólidos, mas a partir daí o terreno está desimpedido.
Bennie funciona por impulsos, descobrindo pormenores e vórtices de força no âmago de cada tema, surpreendentemente ágil a fintar os clichés. Força e imaginação conjugam-se num fraseado extremamente original que a cada momento integra as mais insuspeitas conivências e uma liberdade de escolha que tanto traz à memória a dinâmica de respiração de um Louis Sclavis como mima as investidas “downtown” de um John Zorn. Bennie Wallace é um “true original” que em Matosinhos contou com o suporte de um trio de luxo para quem o jazz não tem segredos. Com o piano de Mulgrew Miller (“o melhor pianista da atualidade”, disse o saxofonista) a revelar-se dono e senhor de um “swing” impermeável aos ataques e delírios historicamente posteriores ao “hard bop”. Mulgrew Miller foi a segurança absoluta, uma mão direita escorreita e “aquática” que só na sequência final do “set”, mais “staccato” e profunda, deu alguma razão às vozes que pretendem compará-lo a McCoy Tyner. Um “My funny Valentine”, ainda sem o colorido adicional do saxofonista, não fez mais do que chamar a atenção para o território onde Mulgrew Miller se revelou imperial: os “blues”. E foi com eles que Bennie Wallace fez o que quis.
Comparada com a nobreza desta música, a do trio espanhol que abriu o Matosinhos em Jazz fez pálida figura. Carles Benavent, no baixo, ensaiou o funk, Tino Di Geraldo solou na bateria tirando partido dos timbres mais metálicos do “kit” mas sem conseguir ultrapassar o caderno das jogadas estudadas, Jorge Pardo lutou contra os saxofones e a flauta, em ornamentações sem músculo em redor do flamenco e da música árabe. Rebuçados que o “duende” não chupou. Já madrugada dentro, no bar B-Flat, o festival deu a conhecer um jovem executante portentoso, o espanhol António Serrano, exímio solista na harmónica.

O Matosinhos em Jazz termina hoje com as atuações do trio Flora Purim/Airto Moreira/Miguel Braga e a Orquestra de Jazz de Matosinhos.

EM RESUMO
Bennie Wallace, um verdadeiro original, coloriu a tradição com os impulsos da modernidade.

Flora Purim + Airto Moreira + Vários – “Jazz de Fusão Em Matosinhos” – “Festival Começa Hoje Na Exponor” (festivais / concertos / jazz / VII Matosibhos Em Jazz)

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quinta-feira, 22 Maio 2003


Jazz de fusão em Matosinhos

FESTIVAL COMEÇA HOJE NA EXPONOR

O jazz de fusão ocupa a maior parte da programação do VII Matosinhos em Jazz que hoje se inicia com a atuação do Trio Benavent/Di Geraldo/Pardo. Espanha, Brasil, Cuba e Portugal integram o roteiro do certame




Flora Purim e Airto Moreira abrem a terceira noite do festival

Fusões de jazz com música latina, música brasileira, flamenco. Em Matosinhos, o jazz tinge-se de várias cores. Sinónimo de universalidade e capacidade de adaptação de uma música cuja evolução há muito deixou de ser linear.
Pelo Sul de Espanha passa o vento do “duende”. Sem ele, o flamenco é fogo que não arde. Carles Benavent (baixo elétrico), Tino Di Geraldo (bateria) e Jorge Pardo (saxofone e flauta) compõem o trio que esta noite abre o festival. Pegaram no legado de Paco de Lucia e Camarón De La Isla, dois monstros sagrados do flamenco, e é a partir deles que dão livre curso às suas divagações.
Benavent trabalhou com Miles Davis, Didier Lockwood, Don Alias, Quincy Jones e Chick Corea, tendo feito parte dos grupos de fusão espanhóis, Máquina e Música Urbana. Di Geraldo mergulhou no âmago do flamenco, tocando com Camarón, Manolo Sanlucar, Vicente Amigo e Pepe Habichuela. Pardo é o jazzrocker por excelência, o “chef” que coseu na panela de fusão, Paco de Lucia, Ketama, Chick Corea, Tete Montoliú e Wagner Tiso.
Bernie Wallace, “jazzman” de renome a quem já chamaram, a propósito do seu álbum de estreia, “The Fourteen Bar Blues”, “o novo gigante do saxofone, na linhagem de Coleman Hawkins, Ben Webster e Sonny Rollins”, fecha o primeiro dia do Matosinhos em Jazz, na companhia do trio do pianista Mulgrew Miller.
Wallace é um tradicionalista que nos últimos anos se vem dedicando a explorar as sonoridades do Sul, do gospel aos blues, em colaborações com Stevie Ray Vaughan ou com o mago do piano-“voodoo”, Dr. John, “the night tripper”. Liderou formações com Chick Corea, Eddie Gomez, Dave Holland e John Scofield. Mulgrew Miller é um pianista multifacetado que atrevessou várias décadas do jazz e formações como os quintetos de Tony Williams e Woody Shaw e a orquestra de Duke Ellington. Faz parte do Contemporary Piano Ensemble, projeto que contempla a atuação simultânea de quatro pianistas. Completam o trio Derek Hodge (contrabaixo) e Rodney Green (bateria).
Sábado pertence ao Sexteto de Paulo Perfeito e ao Septeto de Omar Sosa. Perfeito toca trombone e dirige um sexteto com origem em 1998 na Orquestra de Jazz de Matosinhos, por sua vez criada sob os auspícios do Composer’s Workshop de Charles Mingus. Mingus que, juntamente com Carla Bley, se perfila no horizonte de influências do grupo. Perfeito é ainda responsável pelos arranjos de “Jacinta Canta Monk”, desta cantora portuguesa. O resto do sexteto dá a ouvir Rogério Ribeiro (trompete), Rui Teixeira (saxofones), Carlos Azevedo (piano), Pedro Gonçalves (baixo) e Acácio Cardoso (bateria).
Depois, a dança. O “son” cubano, armado pelo pianista deste país Omar Sosa, que sintetiza os calores dos trópicos com os cantos tradicionais Yoruba, o hip-hop, o cha-cha-cha e as deambulações noturnas de Monk. O seu novo álbum chama-se “Sentir”. A seu lado vão estar Martha Galarraga (voz), o “rapper” Breis, Luis Depestre (saxofone), Jose Julio Tomas (contrabaixo), El Houssaine Kili (guimbri, voz e percussões) e Gustavo Ovalles (percussões).
O calor não abrandará na última noite do VII Matosinhos em Jazz. Noite do Brasil, na voz de Flora Purim, na bateria de Airto Moreira e no piano de Miguel Braga. Flora Purim tornou-se conhecida pela sua participação em dois álbuns seminais de Chick Corea na área da fusão e do jazzrock, “Return to Forever”, que daria origem ao grupo com o mesmo nome, e “Light as a Feather”. O seu “scat” insinuante floresceu igualmente na música de Gil Evans, Stan Getz, Dizzi Gillespie, Carlos Santana e Hermeto Pascoal.
Airto Moreira é o senhor percussão. Para ele, o mundo é um imenso astro percutivo, um corpo de vibrações e ritmos múltiplos que se revela esplendorosamente no álbum “The Other Side of This”. O jazz de fusão, obviamente, acolheu-o. Lee Morgan, Cedar Walton, Joe Zawinul, Jack DeJohnette, Chick Corea e Keith Jarrett navegaram sobre as suas percussões. Esteve presente em momentos capitais do jazz rock: nas sessões da bíblia “Bitches Brew”, de Miles Davis, bem como na génese dos Weather Report e dos Return to Forever. Partilha o projeto Planet Drum, “ensemble” de vários percussionistas, entre os quais o ex-Grateful Dead Mickey Hart e o “new ager” Glen Velez.
Para fechar em beleza, o festival despede-se com a prata da casa: a Orquestra de Jazz de Matosinhos, sob a direção de Carlos Azevedo e Pedro Guedes e com os convidados Carlos Martin e Eric Vloeimans. 20 músicos em palco. “Big bang” da “big band”, onde o jazz renasce eternamente indo beber às raízes.
Além destes concertos, o Matosinhos em Jazz 2003, com organização MC – Mundo da Canção, expande-se por atividades paralelas das quais fazem parte uma sessão de António Serrão com André Sarbib Trio (hoje e dias 23 e 24 no B Flat Jazz Club) e uma feira do disco e do livro (entre as 21h e as 24, no átrio da Exponor).

VII MATOSINHOS EM JAZZ

Hoje – Trio Benavent/Di Geraldo/Pardo + Bernie Wallace C/Trio de Mulgrew Miller
Amanhã – Sexteto de Paulo Perfeito + Omar Sosa Septet
Dia 24 – Trio Flora Purim/Airto Moreira/Miguel Braga + Orquestra de Jazz de Matosinhos
MATOSINHOS Auditório da Exponor (Leça da Palmeira).
Tel. 225193100. Às 21h30.
Bilhetes a 7,50 Euros

Nathalie Loriers + Vários – “Jazz De Múltiplos Cambiantes Em Braga” (artigo de opinião / concertos / festivais / jazz) – Braga Jazz 2003

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quinta-feira, 13 Março 2003


Jazz de múltiplos cambiantes em Braga

Com um programa diversificado, caberá ao gosto de cada um habitar a música que mais lhe convém. Há uma bela pianista, salsa, fusão, Bronx e portugueses velozes


Nathalie Loriers representa o jazz belga em Braga


Jazz com congas e matracas. Jazz possuído pelo “duende” do flamenco. Jazz no feminino. Jazz nacional em rotações aceleradas. São alguns dos matizes que irão colorir o jazz que durante três dias se fará ouvir em Braga. É o Braga Jazz 2003, que hoje, amanhã e sábado decorrerá no Auditório do Parque de Exposições da cidade.
Para os mais predispostos a descobertas o Braga Jazz propõe, logo no concerto de abertura, o sexteto da pianista belga Nathalie Loriers. Nathalie é uma das raras exceções a uma regra que, na Europa, dita o domínio dos homens no capítulo dos pianistas de jazz. Influenciada por Keith Jarrett e McCoy Tyner (“Extensions”, designação genérica do programa que apresentará em Braga, é o título de um álbum deste pianista…), Nathalie conquistou em 1999 o prémio “Django D’Or”, destinado a premiar os melhores músicos belgas, tendo já tocado ao lado de Toots Thielemans (além de Django Reinhardt, um dos mais conhecido jazzmen belgas), Lee Konitz, Charlie Mariano e Philip Catherine (outro compatriota seu). Bill Evans também a marcou, o que explicará grande parte da delicadeza que reconhecidamente caracteriza o seu “touching” pianístico. Trompete, saxofones soprano, alto e tenor, contrabaixo e bateria completam a paleta instrumental do sexteto.
Na sexta, dois concertos, estando a abertura a cargo do trio do pianista Franck Amsallem, com Matt Penman no contrabaixo, Anthony Pinciotti na bateria e o convidado Rick Margitta (participante em “Amandla”, de Miles Davis) nos saxes soprano e tenor. Argelino de nascimento, Amsalemm é uma figura discreta do panorama jazzístico internacional, mas que se pode orgulhar de ter sido parceiro indispensável de nomes como Gerry Mulligan, Charles Lloyd, Joshua Redman, Sonny Fortune, Gary Bartz, Roy Hargrove, Kenny Wheeler, Ron Carter, Gary Peacock e Bobby Watson, entre outros. Entre os vários discos que assinou como líder destaca-se “Another Time”, em trio com Gary Peacock e Bill Stewart.
Depois é tempo para se dançar e bater o pé no compasso do jazz latino do sexteto de Ray Vega, um trompetista nativo do Bronx que trabalhou com três lendas do “latin jazz”: Mongo Santamaria, Ray Barretto e Tito Puente. Jazz e “salsa” num cocktail de efeitos garantidos.
A preencher o terceiro e último dia do Brag Jazz estará, na primeira parte, o projeto
nacional de “alta velocidade” T.G.B., liderado pelo guitarrista Mário Delgado, com Sérgio Carolino na tuba e Alexandre Frazão na bateria. Combinação instrumental pouco usual, que toma como ponto de partida outras, igualmente excêntricas, como as que foram postas em prática por Jimmy Giuffre, Paul Motian, Dave Douglas e John Zorn. Monk e Eric Dolphy fazem parte do reportório dos T.G.B., o que faz aguçar ainda mais o apetite.
O trio D’3 encerra o programa do Braga Jazz 2003. Tem a liderá-lo o saxofonista e flautista espanhol Jorge Pardo, nome sobejamente conhecido na música de fusão. Neste caso, do jazz com o flamenco. Pardo tocou com Tete Montoliu e Paco de Lucia, pelo que tem todos os motivos para poder reivindicar a presença do “duende”. Só que este, como se sabe, não vem por pedido, aparece quando menos se espera e toma as formas mais estranhas quando põe as mãos na música de jazz.

Braga Jazz 2003
BRAGA Auditório do Parque de Exposições. Tel. 253203152.
Hoje, amanhã e depois, às 21h30. Bilhetes a 6,50 (hoje) e 7,50 euros (restantes dias); 5 e 6 euros para estudantes; bilhete de três dias a 17,50 euros (12 para estudantes).