Arquivo da Categoria: Céltica

Blowzabella – “Vanilla”

Pop-Rock Quarta-Feira, 18.12.1991


BLOWZABELLA
Vanilla
LP / CD, Special Delivery, distri. Mundo da Canção



“Vanilla” é o derradeiro testemunho em disco de um projecto único na área das músicas tradicionais e de um dos maiores tocadores de sanfona da actualidade, Nigel Eaton, como tiveram oportunidade de verificar “in loco” todos quantos assistiram à sua recente actuação em Algés, ao lado de Paul James, na gaita-de-foles. Antes da chegada do novo projecto de ambos, os “Scarp”, vale a pena deliciarmo-nos com o som de “Vanilla”, entre a excitação do rock e a religiosidade da música antiga, próximo dos grupos franceses Malicorne e Mélusine. Num registo mais contido que o anterior “A Richer Dust”, “Vanilla” como que captura e traduz a essência de cada instrumento, da sanfona, à gaita-de-foles e da “cittern” medieval, casando-a, sem conflito, com o saxofone, o violoncelo e o baixo eléctrico. Sem esquecer as entoações estranhas e frágeis da vocalista Jo Fraser que assombram “I Wish I Wish”, “The Lover’s Ghost” e a longa melopeia “La Belle s’Est Endormie”. A música dos Blowzabella e a sanfona de Nigel Eaton ateiam incêndios. Arde nela o fogo sagrado. (9)

Four Men & A Dog – “Barking Mad”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


FOUR MEN & A DOG
Barking Mad
CD, Cross Border Media, import. Mundo da Canção

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Virtuosismo em quinta velocidade e humor em contramão é com estes quatro homens e um cão, alucinados e com a irreverência de um foguete fora de controlo. “Barking Mad”, álbum de estreia, retoma o lado mais lúdico da tradição irlandesa e abraça de passagem os sons que estavam mais à mão: o “rockabilly”, o “funky” céltico e, numa das faixas, até um “whiskey rap”, ou seja, um “wrap”, de boa feituradenotória, além disso, uma certa aproximação aos ritmos country em grande parte devido ao tom imprimido por Mick Daly (The Lee Valley String Band, Any Old Time) e ao predomínio instrumental dos banjos, aqui manuseados nada menos que por três músicos – Mick Daly, Cathal Hayden (fabuloso no violino; investigue-se o seu álbum a solo “Handed Down”) e Brian McGrath.
Gino Lupari, gordo de não caber na fotografia, é o mestre das percussões (inexcedível nos “bonés” e no “bodhran”) e piadista de serviço. Temas como “Wrap itu p” (o tal “wrap”) e “Short fat family” não parecem ter muito a ver com folk mas não é por isso que deixamos de os dançar. Richard Thompson e Peter Case contribuem com a assinatura de dois temas, “Waltzing’s for dreamers” e “Hidden love”. O resto é a loucura das jigas, “reels” e polkas, e seja o que Deus quiser. (7)

Ron Kavana – “Home Fire”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


RON KAVANA
Home Fire
CD, Special Delivery, distri. Mundo da Canção



Evolução na continuidade ou revolução? Ron Kavana, “outsider” da folk irlandesa, com ar de “rocker” à anos 50, introduz novos dados na questão de como manter viva a chama da música tradicional do seu país. O ponto de partida é uma tentativa de recuperação daquilo a que o autor chama “espírito”, existente nas grandes bandas irlandesas dos anos 70, como os Bothy Band, Planxty e De Danann, um entusiasmo que entretanto, segundo Kavana, se foi perdendo à medida que o perfeccionismo de estúdio se sobrepôs à espontaneidade e ao “feeling” desses grupos.
A partir destas premissas, Ron Kavana procura então recuperar o tempo perdido, num programa que, constando na maior parte de composições originais da sua autoria, transporta consigo esse “fogo sagrado” em baladas como “Snads of time lamente”, “Blackwaterside”, no empolgante jogo vocal de “Home fire” ou no virtuosismo instrumental das sequências de dança, fiéis no espírito às origens rurais que lhe estão subjacentes. Salientem-se, neste capítulo, para além de todo o sortido de cordas tangidas a preceito por Ron Kavana, as prestações de Terry Woods (Steeleye Span, Woods Band, Pogues) na concertina e de Tomás Lynch nas “uillean pipes”. Politicamente empenhado, por vezes polémico, “Home Fire” constitui uma alternativa interessante à vertente, digamos que mais esotérica, da música irlandesa de raiz tradicional. (7)