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Vários – “Jazz Em Agosto Com Novo Formato Na Gulbenkian” (festivais / concertos / antevisão / jazz)

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sexta-feira, 1 Agosto 2003


Jazz em Agosto com novo formato na Gulbenkian

Este ano em formato concentrado, o Jazz em Agosto volta a trazer a Portugal algum do jazz mais desalinhado que é possível escutar nos dias de hoje. Três dias de surpresa e descoberta


O vocalista Phil Minton regressa a Portugal com os 4 Wall


Jazz no pino do Verão. Hot. É o Jazz em Agosto, este ano, ao contrário de edições anteriores, concentrado em três dias que servirão de mostruário do jazz mais politicamente incorreto que se faz hoje. Jazz que navega. Jazz que descobre. Jazz que descobre que há na outra margem uma música que pode ser início de outro jazz.
Ponto de encontro: Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. No Grande Auditório o cartaz indica: Julius Hemphill Saxophone Sextet (hoje), Eric Boeren Double Quartet (amanhã), The Brian Irvine Ensemble (domingo).
Julius Hemphill morreu precocemente em 1995, aos 55 anos. Membro fundador do World Saxophone Quartet, os seus saxofones alto e soprano inspiraram-se em Ornette Coleman para se emanciparem em obras de exceção como “Cool Bid’ness”, de 1975. O Julius Hemphill Saxophone Sextet homenageia-o, sob a liderança de Marty Ehrlich, um dos notáveis e ecléticos saxofonistas e clarinetistas da nova geração, que estudou com Hemphill em 1977. O sexteto de saxofones integra ainda Andy Aster e Sam Furnace (altos), Aaron Stewart e Andrew White (tenores) e Alex Harding (barítono).
Ornette Coleman faz igualmente parte das preocupações e do repertório do Eric Boeren Double Quartet, banda holandesa com direção de Eric Boeren, também executante de corneta. Boeren trabalhou com alguns nomes e formações do jazz holandês que fazem parte da nata do jazz contemporâneo: Maarten Altena, Contraband e J.C. Tans Orchestra (vale a pena investir nos álbuns que estas duas formações gravaram para a Bvhaast) e Sean Bergin’s MOB (autor do excelente “Kids Mysteries”, Bergin é o saxofonista alto do Double Quartet). O duplo quarteto é timbricamente colorido, com viola de arco, eletrónica, trombone, bateria e dois contrabaixos.
A Brian Irvine Ensemble é uma “big band” com origem na Irlanda. Apelidados de “frenéticos”, prometem surpreender com um jazz de alta energia que a todo o momento abre brechas por onde entram o “punk” e o “trash”. O jazz aguentará decerto o embate, com o sorriso nos lábios que caracteriza a sua proverbial flexibilidade.

Música caprichosa

De tarde, sempre com início às 18h30, o Auditório 2 da Gulbenkian recebe mais três propostas musicais. Hoje atuam os The Necks, trio australiano de piano/contrabaixo/bateria que é banda de culto no seu país. Gravaram nove álbuns e deles se fala a propósito de avant-garde, minimalismo, música ambiental e até, com algumas reservas, de jazz.
Os 4 Walls trazem amanhã de novo a Portugal um velho conhecido da música vocal improvisada, Phil Minton. Um ator da voz que inventa a cada momento músicas que parecem brotar das entranhas. Atenção ao baterista, Michael Vatcher e, sobretudo, ao pianista Veryan Weston, nome pouco conhecido do jazz inglês que trabalhou com Eddie Prévost e foi um dos pilares da grande fusão a negro africano dos Moiré Music, de Trevor Watts.
Tobias Delius Quartet é o último grupo a atuar no Auditório 2, no domingo. Música improvisada contemporânea, servida pelos saxofones do seu líder, o violoncelo de Tristan Honsinger e a bateria de Han Bennink, este último um dos mais requisitados improvisadores do jazz contemporâneo e elemento dessa aventura sem fim à vista que são os Spring Heel Jack. Do vocabulário de Delius disse o júri do prémio Dutch Podiumprijs que “combina o grito cru com uma tonalidade quente de tempos antigos” e que é “caprichoso e altamente original, embora com muitas referências à tradição”.
Amanhã os Doppelmoppel, quarteto dos irmãos trombonistas, Johannes e Conrad Bauer, herdeiros do “free” de Albert Mangelsdorff, atuam na Sala polivalente. No dia seguinte, será a vez do trio de improvisação português formado por João Paulo (piano e acordeão), Paulo Curado (saxofone) e Bruno Pedroso (bateria).
A provar que Portugal se tornou nos últimos anos mais um ponto de partida para viagens de exploração nos confins do jazz. Conjugue-se neste Jazz em Agosto o jazz na multiplicidade dos seus tempos e na divergência das suas atuais propostas. “Hot”, dizíamos. Para incendiar a imaginação.

Jazz em Agosto
LISBOA Fundação Calouste Gulbenkian. Av. Berna, 45 A. Tel. 21 782 3700.

Grande Auditório
Hoje: Julius Hemphill Saxophone Sextet
Amanhã: Eric Boeren Double Quartet
Domingo: The Brian Ervine Ensemble
Às 21h30. Bilhetes entre 12,50 e 17,50 euros

Auditório 2
Hoje: The Necks
Amanhã: 4 Walls
Domingo: Tobias Delius Quartet
Às 18h30. Bilhetes: 12,50 euros

Sala Polivalente
Amanhã: Doppelmoppel
Domingo: João Paulo/Paulo Curado/Bruno Pedroso
Às 15h30. Bilhetes: 10 euros

Dave Holland – “Um Contrabaixista Nas Alturas” (concerto / jazz / antevisão)

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sexta-feira, 18 Julho 2003


Dave Holland
Um contrabaixista nas alturas

CONCERTOS EM LISBOA E COIMBRA

Dave Holland, um dos mais notáveis contrabaixistas do jazz contemporâneo, traz a sua “big band” a Portugal. Participante da “Conferência dos Pássaros”, voará hoje e amanhã em formação cerrada


Houve Scott LaFaro. Houve Ray Brown. Há Dave Holland. E haverá poucos mais contrabaixistas como este inglês que aos 22 anos foi convidado para entrar para a banda de Miles Davis, a tempo de gravar as obras-primas “In a Silent Way” e “Bitches Brew”.
Dos mais importantes músicos de jazz da atualidade, Dave Holland atua hoje em Lisboa e amanhã em Coimbra, acompanhado pela sua “big band”, o primeiro destes concertos a fechar o festival Estoril Jazz/Jazz num Dia de Verão.
Comparado a Scott LaFaro, na técnica, afinação e musicalidade sem mácula, Holland construiu um império que praticamente dominou não só o jazz inglês dos anos 60 e 70 como a cena internacional composta pelos nomes mais sonantes. Holland é o “Sr. contrabaixo” e, presentemente, líder de uma “big band” cuja música reflete e prolonga todas as virtudes que o caracterizam como solista. Bastaria escutar o álbum “What Goes Around”, um dos grandes discos de jazz editados no ano passado, para afastar quaisquer dúvidas que ainda pudessem subsistir e correr a reservar um lugar nos concertos.
Encontram-se na música de Holland a elegância e o espírito de inovação que são timbre
do jazz inglês (que, no final dos anos 60, nutria uma especial predileção por uma espécie de aliança anímica com o rock, o que terá constituído motivo adicional da sedução exercida sobre o Miles Davis do período “jazzrock”), a par de uma plasticidade e capacidade de compreender e sentir o ritmo que pertencem tanto ao arquiteto como ao melodista (algo apenas possível, de resto, tendo como base um profundo sentido da harmonia…). Em poucas palavras: um músico completo.
Natural de Wolverhampton, onde nasceu há 57 anos, Dave Holland estudou guitarra, depois baixo, passando finalmente para o contrabaixo. Antes do convite de Miles Davis já cumprira uma intensa fase de assimilação, quer da música de câmara, na Guildhall School of Music and Drama, quer do jazz clássico, integrando as formações de Ronnie Scott e Tubby Hayes.
Terá sido, aliás, no mítico clube londrino de Ronnie Scott que o trompetista o descobriu, integrando-o de imediato no seu grupo. E se as crónicas referem o feito de, com apenas 22 anos, já ter o seu nome inscrito na ficha técnica de “Filles de Kilimanjaro”, convirá não esquecer que nesse mesmo ano de 1968 Holland era um dos participantes de uma das mais importantes formações da “free music” inglesa dessa década, os Spontaneous Music Ensemble, com quem gravou o seminal “Karyobin”, ao lado de Kenny Wheeler, Evan Parker, Derek Bailey e John Stevens.
A fidelidade a Miles manteve-se durante dois anos, entre 1968 e 1970, dando origem, além dos álbuns já citados, a “Circle in the Round”, “Big Fun”, “Live-Evil, “Black Beauty” e “At Fillmore”. Depois disso, Dave Holland nunca mais parou de marcar encontro com a glória, ajudando a erguer um dos condomínios abertos mais seguros e sólidos do jazz contemporâneo.

Um pássaro na ECM

Mal abandonou a formação do trompetista, formou outro grupo de particular relevância para a música improvisada, os Circle, com Chick Corea, Barry Altschul e Anthony Braxton, ficando desta formação o álbum “Paris-Concert”. Corea sairia entretanto, entrando para o seu lugar o mago dos sopros Sam Rivers.
Estava reunido o “line up” que escreveria uma das obras-chave do jazz dos anos 70, “Conference of the Birds”, editado em 1973 na então ainda jovem editora ECM de Manfred Eicher. Holland, o pássaro, num dos seus voos a maior altitude. Na mesma altura tocou com Stan Getz.
E pela ECM ficou até aos dias de hoje, encontrando na editora alemã o espaço e o som que melhor se adaptaram à sua necessidade de perfeccionismo. O catálogo está repleto de trabalhos seus, a solo, em pequeno grupo ou, mais recentemente, em “big band”: “Emerald Tears” (1977, em contrabaixo solo), “Life Cycle” (1982, violoncelo solo), “Jumpin’ in” (1983, sexteto com Julian Priester, Kenny Wheeler, Robin Eubanks, Steve Coleman e Steve Ellington), “Seeds of Time” (1984), “The Razor’s Edge” (1987), “Triplicate” (1988, já com Jack DeJohnette, com quem formaria, a par de John Abercrombie, uma das notáveis formações da ECM, os Gateway), “Extensions” (1989), “Dream of the Elders” (1995, a assinalar uma mudança na sonoridade a que não é alheia a presença marcante do vibrafonista Steve Nelson), “Points of View” (1997), “Not for Nothin’”(2001) e “What Goes Around” (2002), entre outros.
Na década de 80 Holland levou o seu contrabaixo um pouco a todo o jazz, acrescentando nomes como Elvin Jones, Joe Henderson, Gary Burton, Roy Haynes e Joe Lovano a uma lista da qual já constavam os (ainda não citados) de John Surman, John McLaughlin, Stan Tracey, Paul Bley, Alexis Korner, Carla Bley, Dave Liebman, Lee Konitz, Colin Walcott, Leroy Jenkins, George Adams, Bennie Wallace, Franco Ambrosetti, Billy Hart, Steve Lacy e Don Cherry. A ECM, de certa forma, pertence-lhe…
É esta lenda viva e atuante do jazz que Lisboa e Coimbra poderão desfrutar e aplaudir, a liderar uma “big band” de 13 elementos onde avultam as presenças de Antonio Hart (saxofone alto e flauta), Chris Potter (saxofone tenor), Robin Eubanks (trombone) e Steve Nelson (vibrafone). A música soará nas alturas.

Dave Holland Big Band
LISBOA Centro Cultural de Belém (Grande Auditório). Tel.: 213612400. Hoje, às 21h.
Bilhetes entre 5 e 25 euros.
COIMBRA Pátio da Universidade. Tel.: 239718238. Amanhã, às 21h30.
Bilhetes a 15 euros.

Benny Carter – “Morreu Benny Carter, O Rei Do ‘Swing'” (jazz / obituário)

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terça-feira, 15 Julho 2003


Morreu Benny Carter, o rei do “swing”

AOS 95 ANOS

Benny Carter, saxofonista e compositor e um dos reis do “swing”, morreu. Deixou uma obra vasta e a reputação de subtil inovador

Carter foi um dos primeiros músicos negros a participar nas grandes produções de Hollywood


Benny Carter, saxofonista alto, trompetista, clarinetista, vocalista, arranjador e chefe de orquestra americano, um dos sobreviventes da era do “swing”, morreu no domingo, no hospital Cedars Sinai, em Los Angeles, onde se encontrava internado há cerca de duas semanas, devido a problemas respiratórios e fadiga. Tinha 95 anos e deixou impressas no capítulo correspondente ao jazz clássico, ou “middle jazz”, da “Enciclopédia da Grande Música Negra”, algumas das suas páginas douradas.
Verdadeiro “gentleman”, no estilo elegante que caracterizava o seu modo de tocar, Carter contribuiu com os seus arranjos, as suas composições e os seus ensinamentos, para a formação de músicos de gerações posteriores, como Quincy Jones, seu amigo de sempre, ao mesmo tempo que enriqueceu as “big bands” por onde passou, como as de Fletcher Henderson, Chick Webb (a quem apresentou a cantora Ella Fitzgerald, permitindo à diva do jazz iniciar uma carreira que se viria a revelar brilhante) e Duke Ellington.
A partir de 1950, Carter orientou o seu trabalho para o cinema e a televisão, sendo um dos primeiros músicos negros a participar nas grandes produções de Hollywood.
Formou a sua própria orquestra em 1928, em Nova Iorque, tornando-se mais tarde diretor musical dos McKinney’s Cotton Pickers e dos Chocolate Dandies. Escreveu arranjos para Charlie Johnson, Duke Ellington, Teddy Hill, Count Basie e Benny Goodman. Em 1935 emigrou para a Europa, onde gravou com Django Reinhardt e Coleman Hawkins, entre outros, regressando aos EUA três anos mais tarde, para tocar com Dizzy Gillespie, Max Roach, Dexter Gordon, J.J. Johnson, Don Byas e Roy Eldridge, instalando-se finalmente na Costa Oeste, Los Angeles, na Casa Manana de Hollywood, para dar início à fase “cinematográfica” da sua carreira, colocando o seu nome nas fichas técnicas de filmes como “Um Americano em Paris”, de Vincente Minnelli (1951), “Clash by Night”, de Fritz Lang (1952), “The Snow of Kilimanjaro”, de Henry King (1952) e “Too Late Blues”, de John Cassavettes (1961). O sexteto que formou em 1941, data do nascimento “oficial” do be-bop, integrava um dos seus pioneiros, o trompetista Dizzy Gillespie.
Entre as principais obras discográficas como líder do autor de “Blues in my heart” e “When lights are low” contam-se os álbuns “I’m in the Mood for Swing” (1938), “Cocktail for Two” (1940), “Alone Together” (1952), “Jazz Giant” (com Ben Webster, 1958), “Additions to Further Definitions” (com Bud Shank, Phil Woods, Buddy Colette, Coleman Hawkins, Barney Kessel, Ray Brown, Jimmy Garrison…, 1966), “The King” (com Milt Jackson, Joe Pass e Tommy Flannagan, 1976) e “Wonderland” (com Eddie “Lockjaw” Davis e Ray Bryant, 1976).
A sua reputação entre os músicos de jazz era enorme, clara pelos comentários feitos ao longo da sua vida. “É difícil expressar a importância tremenda do contributo de Benny Carter para a música popular, de tal forma ele era um músico fabuloso”, disse Duke Ellington. “Há Duke Ellington, Count Basie, Earl Hines, certo? Pois bem, coloquem Benny ao lado destes. Qualquer pessoa que o conheça chama-lhe ‘rei’. Ele é um rei”, disse Louis Armstrong. “Toda a gente devia ouvir Benny, ele é um curso de educação musical inteiro”, disse Miles Davis. “É tudo o que um músico deveria ser”, disse Ella Fitzgerald.
O antigo Presidente dos EUA Bill Clinton declarou por sua vez em 1996: “Dos clubes pequenos do Harlem, onde começou a tocar saxofone, às grandes digressões mundiais com as maiores ‘big bands’, Benny Carter redefiniu o jazz americano. Desde o início os seus colegas músicos afirmaram que a sua maneira de tocar era extraordinária (‘amazing’). Disseram o mesmo de mim, embora certamente não estivessem a pensar na mesma coisa.”
E Quincy Jones, lapidar: “Passámos pela porta às suas cavalitas. Se Benny não estivesse lá, nós não estaríamos aqui.”