Arquivo da Categoria: Artigos 2003

Vários – “O Jazz Mais Desalinhado Passou Por Portalegre” (concertos / festivais / artigo de opinião)

(público >> cultura >> jazz >> concertos)
Segunda-feira, 24 Fevereiro 2003


O jazz mais desalinhado passou por Portalegre

Na estreia do Portalegre Jazz Fest, Jim Black foi a estrela de maior grandeza. A sua bateria provou que o jazz e o rock não se esgotam nos rótulos


Portalegre vibrou durante três noites com algum do jazz mais desalinhado da cena atual, enchendo o gelado auditório do Cine-Teatro Crisfal com o seu entusiasmo. O menos desalinhado e o mais friorento dos músicos que passaram pela 1ª edição do Portalegre Jazz Fest foi o pianista Bernardo Sassetti que, na quinta-feira, no concerto de abertura, em trio com o contrabaixista Carlos Barretto e o baterista Alexandre Frazão, apresentou a música do seu mais recente álbum, “Nocturno”, tentando a todo o custo aquecer os dedos resfriados.
O jazz de Sassetti e do trio é clássico. Tem Bill Evans a inspirá-lo. Sassetti esteve superior quando a sua cabeça e alma se voltaram para as zonas mais intimistas do piano. Música impressionista que progressivamente se foi alheando do mundo para se concentrar nos requintados arabescos que só através do silêncio se dão a ouvir. Sassetti passou pelos “clichés” sem se deter. Percorreu escalas orientais, procurando pontos de fuga. Dançou. Barretto foi o alicerce inquebrantável, o swing permanente, a descontração firme, a imaginação a dançar nos solos. Frazão acrescentou a energia, por vezes algo despropositada, às ondas centrípetas da música. Conquistaram a sala e um merecido “encore”.
Na sexta-feira o trio alemão Der Rote Bereich fez a mudança de agulhas para um jazz hiper-cerebral construído em pequenas peças que alternaram o riso com doses controladas de risco. Frank Möbus, na guitarra, e Rudi Mahal, no clarinete-baixo, remetem-se a um diálogo incessante e a jogos de tensão que raramente encontram escape ou explosão. Um jazz de jogadas estudadas que remonta a práticas dos anos 80 conotadas com grupos “underground” com selo Recommended como Semantics, Doctor Nerve, Neo Museum, Orthotonics ou Uludag. Rudi tocou o clarinete-baixo como um saxofone, abanou as pernas o tempo todo e destacou-se como a mais imaginativa voz solista de um trio cuja paixão por Portugal vai ao ponto de chamar a alguns dos seus temas “Pastilha elástica”, “Portugal” e o já lendário “Feijoada de chocos”, cuja versão nova faz parte do recente álbum “Risky Business”.

Absoluto Jim Black
A melhor música do Jazz Fest foi, porém, a do quarteto AlasNoAxis, do baterista Jim Black. A melhor e a mais afastada do jazz. Dividida em dois “sets”, a atuação pautou-se por características distintas em cada uma delas. Em comum apenas a liderança absoluta de Jim Black, um fabuloso baterista de técnica e imaginação inesgotáveis que em alguns momentos fez lembrar Bill Brufford e Charles Hayward. Quanto à música, suscitou na plateia curiosas comparações, vindo à baila os Sonic Youth, King Crimson, Godspeed You Black Emperor! Tortoise e, nos momentos mais ambientais, Sigur Rós (!).
Black atuou em solo constante, percutindo a bateria de ponta a ponta e mesmo alguns objetos fora dela. Bateu nos tambores com as mãos, fez os címbalos gemer com um arco de violino e ainda encontrou tempo para lançar ambiências eletrónicas no computador.
Na primeira parte andou praticamente sozinho, inventando, desmultiplicando e desfazendo tempos que os seus companheiros não souberam acompanhar. Chris Speed, no sax tenor e clarinete, então, esteve irreconhecível. Quase amorfo, limitou-se a soprar um timbre “flat” sem chama ou “punch”. Hilmar Jensson, na guitarra, e Skuli Sverrisson, no baixo, tentaram acertar o passo com o andamento vertiginoso do baterista. Apenas na segunda parte o conseguiram, porque Black pareceu acalmar um pouco, dando-lhes maior espaço de manobra. Em vez de um mais três, os AlasNoAxis mostraram que são mesmo um quarteto. Embora mais próximos do pós-rock de uns Tortoise ou Gastr Del Sol do que inseridos nas categorias tradicionais do jazz.
Jensson e Sverrisson afiaram os “riffs” e deram a direção devida ao “noise”, Speed fez finalmente jus ao seu apelido e pareceu acordar, aumentando o corpo e a presença do sax tenor, colorindo com fraseado próprio, no clarinete, as constantes divagações do baterista. Quase a concluir um dos temas demonstrou todo o poder que os AlasNoAxis têm ao seu alcance, através de um crescendo que juntou a psicose dos Naked City (de John Zorn) ao clamor e contenção totalitários dos Urban Sax (de Gilbert Artman).

Sun Ra And His Solar-Myth Arkestra – “The Solar-Myth Approach (Vols.1 & 2)”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 22 Fevereiro 2003

Sun Ra dirigiu a nave do “free jazz” em direção ao cosmos. E foi no cosmos, por altura do Saturno que orbitava em torno da sua cabeça, que assentou o seu arraial de amuletos, rituais e danças galáticas.


Sun Ra, o viajante astral

Sun Ra and his Solar-Myth Arkestra
The Solar-Myth Approach (Vols.1 & 2)
9 | 10
Sunspots, distri. Trem Azul


O jazz é como o xadrez. Até certo ponto do jogo, todas as jogadas estão estudadas e catalogadas. A partir daí, apenas os mestres conseguem inovar quando confrontados com o desconhecido. Avançar torna-se um risco. Sun Ra foi um daqueles músicos da história do jazz que, com alicerces na tradição, mais longe se conseguiram afastar dela. Líder de “big band” da linhagem de Fletcher Henderson, Sun Ra dirigiu a nave do “free jazz” em direção ao cosmos. E foi no cosmos, por altura do Saturno que orbitava em torno da sua cabeça, que assentou o seu arraial de amuletos, rituais e danças galácticas. Estação espacial enfeitada com bandeirolas, altifalantes e radiações de solário, orbitando ao som de um piano alienígena e das vibrações estelares de um sintetizador Moog.
Integrado num pacote de reedições (formato miniatura, em cartão, da editora Byg/Actuel, com rótulo de série “Sunspots”), “The Solar-Myth Approach”, gravação de estúdio efetuada em 1970 e 1971, surge dividida em dois compactos — volumes 1 e 2. No primeiro volume escutamos celebrações efusivas de um tribalismo simultaneamente arcaico e futurista, polo celeste do mesmo eixo que fixava os Art Ensemble of Chicago à Terra, em solos de bateria a compassar a tempestade (“Realm of lightning”), engenharia de Moog (“Seen III, took 4”, pequena amostra do que Sun Ra faria em larga escala na gigantesca manipulação deste instrumento eletrónico que ocupa a totalidade de um dos lados da gravação ao vivo “Nuits de la Fondation Maeght”) e uma protocanção, “The satellites are spinning”, algures entre o teatro de Brecht e “Nine funerals of the citizen king”, dos Henry Cow. Lugar de destaque na cabine de pilotagem para o sax alto de Marshall Alen e para o sax tenor de John Gilmore, velhos compinchas do “Spacemaster” ao longo das várias personificações da Arkestra. “Adventures of Bug hunter” ilustra a faceta cartoonesca e o lado burlesco (decerto não terá sido por acaso a inclusão de uma imagem de Charlot na fotografia da capa) deste músico que não se coibiu de dedicar um álbum inteiro a Walt Disney.
O segundo volume inicia-se com “Utter nots”, uma das muitas iluminadas “aberrações” com que Sun Ra preenchia a eternidade nas atuações ao vivo da Arkestra. Música selvagem para uns. Mística para outros. Incompreensível na medida em que Sun Ra se regia por códigos que escapavam à vulgar catalogação, quer em termos musicais, quer psicológicos. O seu piano, pulsante como uma chaga aberta no firmamento, sintoniza a vibração universal dentro do indivíduo. A Arkestra vai tão longe quanto pode e Marshall e Gilmore (num solo com algo de Coltrane) perseguem o inevitável silêncio que sucede ao grito, quebrando amarras, arriscando o tal lance que pode ditar a vitória ou a derrota na partida de xadrez. Os mais ávidos de escutar o mestre a arrancar sonoridades insólitas do Moog (mas iludam-se os que pretenderem ver em Sun Ra o Rick Wakeman do jazz…) têm em “Scene 1, take 1” com que se deliciar, em oito minutos de exploração dos filtros analógicos e das infinitas combinações de cabos de conexão de circuitos do “Moog synthesizer”. “Pyramids” soa a música barroca intergaláctica interpretada em cravo eletrónico e “Interpretation” é um portentoso tratado de eletroacústica onde Sun Ra, o construtor de mitos, o viajante dos espaços psico-acústicos, faz explodir “clusters” astrais no piano, moldando e desfazendo sistemas planetários inteiros a seu bel-prazer. “Ancient Ethiopia” evoca o lado mais étnico e ancestral do músico, através de um diálogo de flauta e violoncelo precedendo a entrada em glória do sax barítono, com a big band em euforia. Instante de exceção na obra deste músico-mágico que ousou compor a banda sonora imaginária para depois do fim do mundo. “Strange worlds” fecha a celebração da única maneira possível, com a “troupe” a estabelecer-se numa nova terra, a respirar um novo ar. “O ar é música. Em volta da Terra circula o estupor do ar. Necessitamos de um novo ar.” Sun Ra, “dixit”, entre a profecia e a “blague”.
Nesta altura, mesmo o mais experimentado jogador de xadrez sentir-se-á deslumbrado como uma criança que pela primeira vez descobre o mundo fora de si, local de correspondências mágicas onde todas as possibilidades se tornam reais e a potência se faz ato. “Aum”, o mantra sagrado, funciona como detonador do Verbo. Cabe a cada um descobrir a sua verdade, através da audição. Diz, a propósito, Sun Ra: “Não posso garantir que esta música tenha a ver com precisão e disciplina. Da mesma forma que procuro ser bem sucedido no modo como tento dominá-la, assim também todos aqueles que procuram encontrar uma relação entre ela e si próprios, deverão ouvi-la sob certas circunstâncias. Esta música é sobre o que está para além do destino.” Como olhar de frente a luz do sol sem cegar?



Dave Burrell – “Echo” + Sunny Murray – “Sunshine” + Steve Lacy – “Moon” + Anthony Braxton – “Volume 15”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 22 Fevereiro 2003


Dave Burrell
Echo
7 | 10

Sunny Murray
Sunshine
8 | 10

Steve Lacy
Moon
8 | 10

Anthony Braxton
Volume 15
8 | 10

Todos Sunspots, distri. Trem Azul

Queimaduras solares


Experiência-limite deste teclista cuja aprendizagem decorreu entre o conservatório e os guetos do Harlem, “Echo” reúne um septeto com Clifford Thornton (cornet), Grachan Moncur III (trombone), Arthur Jones (sax alto), Archie Shepp (sax tenor), Alan Silva (contrabaixo) e Sunny Murray (bateria). Dois únicos temas. “Echo” é a exploração obsessiva de duas notas, manipuladas e massacradas até que delas resulte, segundo Burrell, um estado de apaziguamento e autodescoberta. “Peace” usa materiais e escalas de vários folclores planetários explanados segundo a politonalidade, “como trampolim para a serenidade”. Há algo de infantil e primordial na forma como Burrell percorre as escalas do piano, qual aluno em exercícios de aprendizagem. Pura ilusão. É de uma desaprendizagem que se trata. Para Burrell, como para Cecil Taylor, o piano é um “inimigo” que é preciso vencer. Se o prémio é ou não a paz, é já outra questão.
Sunny Murray é o baterista arquetípico do “free jazz”. Companheiro de sessões de Cecil Taylor e Albert Ayler, tem a seu lado em “Sunshine” Lester Bowie (trompete), Arthur Jones e Roscoe Mitchell (sax alto), Kenneth Terroade (sax tenor), Dave Burrell (piano) e Malachi Favors (contrabaixo), mais Archie Shepp (sax tenor) e Alan Silva (contrabaixo) como convidados. Murray trabalha a dinâmica e os contrastes do elemento percussivo, alternando estados de transe (alguns dirão alienação) com acessos de fúria. Em “Real”, vagas de címbalos criam o efeito de uma “drone” selvagem que serve ao saxofone do jamaicano Terroade para esvaziar toda a sua energia num interminável delírio, à boa maneira do “free”, em particular de Albert Ayler. Aliança do sol e do solo.
Lua. Loucura. Ainda aqui, porém, convém ter cuidado com as aparências. Steve Lacy, um dos grandes nomes da história do jazz, “free” e adiante, é adepto da disciplina e da ciência. No seu caso faz menos sentido falar de “delírio” do que do desmantelamento sistemático dos dogmas do “bop” ou mesmo do período anterior correspondente ao jazz de New Orleans (escute-se, a propósito, a introdução de “Hit” e os esqueletos internos de “Note” e, sobretudo de “Laugh”, recordando — pelo absurdo, bem entendido, mas a tónica está lá — como o seu sax soprano deriva em linha direta do de Sidney Bechet). “The Breath” indica uma das direções que a música de Lacy seguiria nos anos 70, salientando formas de improvisação menos disponíveis para a estética do grito. Curiosas as semelhanças — neste álbum em que Lacy se rodeia de um naipe de músicos italianos e do baterista francês Jacques Tholo — das interjeições vocais que pautam alguns momentos de “Moon” com as canções-“slogan” dos Cassiber.
Além do matemático Lacy, há Braxton, o geómetra. O verdadeiro “título” deste álbum é um gráfico, ou função, visualização platónica (pitagórica) da música que dispensa a verbalização, salvaguardando assim possíveis atitudes de escuta menos atentas ao essencial: o som, enquanto “ratio” vibracional. Ênfase na matéria e na proporção que em “Volume 15” encontra correspondência na profusão de timbres e modificações modais. Além de Braxton (nos saxofones alto e soprano, clarinete, clarinete contrabaixo, flauta, “sound machine”, carrilhão, etc.), participam Leo Smith (trompete, fliscórnio, trompas, sirene, etc.), Leroy Jenkins (violino, viola, flauta, harmónica, órgão, etc.) e Steve McCall (bateria, darbouka, percussões). “Volume 15” aproxima-se ora da música concreta contemporânea ora de um registo falsamente etno e ingénuo (“Simple like”, de Leroy Jenkins) que para certos ouvidos poderá soar… psicadélico. O título-tema, único com a assinatura de Braxton, sintetiza ambas as vertentes, juntando abstracionismo e ritual, ruído e rigor, lascívia tímbrica (quase magnetismo animal, o violino de Jenkins) e, em última análise, uma consciência aguda da importância do coletivo enquanto aglutinador de pulsões contraditórias.