Arquivo da Categoria: Artigos 2003

Louis Sclavis – “Dans La Nuit” + Yves Robert – “In Touch” + Edouard Bineau Trio – “Exodus”Maurizio Giammarco & Phil Markowitz – “Seven Plus Eight” + Civica Jazz Band – “Italian Jazz Graffiti” + Prince Lasha – “Inside Story”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 15 Fevereiro 2003


Paris Texas

Sclavis rendido ao romantismo do cinema mudo. Robert enfiado no jazz de câmara. Uma escola italiana em euforia. Todos vencidos por um príncipe texano em busca de trono. A guerra do jazz joga-se noutros tabuleiros.

Louis Sclavis
Dans la Nuit
ECM, distri. Dargil
6 | 10

Yves Robert
In Touch
ECM, distri. Dargil
7 | 10

Edouard Bineau Trio
Exodus
Night Bird Music, distri. Multidisc
4 | 10

Maurizio Giammarco & Phil Markowitz
Seven Plus Eight
Night Bird Music, distri. Multidisc
7 | 10

Civica Jazz Band
Italian Jazz Graffiti
2xCD Soul Note, distri. Dargil
7 | 10

Prince Lasha
Inside Story
Enja, distri. Dargil
8 | 10



França. Romantismo. Uma certa ideia de Primavera de poetas. De músicos perdidos. Louis Sclavis, grande saxofonista e clarinetista, tem ateado incêndios onde menos se espera e, embora vagabundo, nunca se perdeu. “Dans la Nuit” é mais frio, a banda sonora de um filme mudo realizado em 1930 por Charles Vanel, cuja apresentação, no folheto, é feita por Bertrand Tavernier. Histórias de escuro e de mineiros que o músico francês equilibra entre Murnau e Renoir. Mas havia, segundo Sclavis, que obedecer a certos princípios: Respeitar os ambientes da época e de cada sequência; encontrar para cada uma destas a pulsão justa, a duração e o ritmo próprios; adequar os dois primeiros princípios à sua estética e preocupações atuais, o que implicou a soma de momentos improvisados à partitura escrita.
O resultado agradará porventura aos apreciadores de “musiques de scène” feitas de imagens musicais bem focadas, que aqui acharão matéria de sobra para preencher os seus sonhos, no andamento do acordeão de Jean Louis Matinier, nas atmosferas de valsa musette, nos “flashes” de um imaginário de princípio do século indubitavelmente sedutor. Agora, se falarmos de jazz e, sobretudo, compararmos “Dans la Nuit” com anteriores trabalhos do espírito livre que é Sclavis, será difícil não sentir desilusão. Portal sucumbira à mesma beleza sedativa nas suas próprias “Musiques de Cinémas”. Quanto a Sclavis, por mais “poética” e interiorizada que seja a forma como o seu clarinete “lê” e tenta refletir a magia da “caixinha mágica”, não conseguiu, desta vez, fazer saltar a faísca. A noite, afinal, também foi feita para adormecer.
Na mesma editora, o seu compatriota e trombonista Yves Robert optou por outro “filme”, em trio com Vincent Courtois (violoncelo) e Cyril Atef (bateria). Em “In Touch”, o trombone e o violoncelo sentam-se na nave central de uma catedral sonora com alicerces na música de câmara, com o jazz a imiscuir-se, por vezes desajeitadamente, no meio das liturgias, altares e crucifixos, como em “L’air d’y toucher”, pautado por uma nota de humor (a bateria despreocupada, o registo escapista do trombone) a perturbar a oração. “In touch”, com as suas “drones” erguidas aos cumes indianos, funciona ainda como ponto de fuga de uma música feita de contemplação, solenidade e ternura platónica.
Ainda um terceiro gaulês, o pianista Edouard Bineau, apresenta-se no formato clássico de trio piano/baixo/bateria, ao lado de Olivier Rivaux e Arnaud Lechantre. No extremo oposto ao conceptualismo assumido desta vez tanto por Sclavis como por Robert, Bineau pratica em “Exodus” um jazz mais imediatamente reconhecível como tal, em onze originais com assinatura própria, onde a serenidade, o despretensiosismo e abundância de atmosferas “cool” não escondem a absoluta incapacidade em renovar a partir do interior da tradição. Assim, contentemo-nos com baixar o volume e saborear estes “clichés” em boa companhia, imaginando porventura como seria amar nesse outro tempo em que a vida e o jazz avançavam nas constantes descobertas da “real thing”.
Já desesperávamos, mas eis que finalmente se faz ouvir um saxofone tenor. E o jazz deixa de ser azul para se tornar vermelho. Ainda na Europa, mas agora já sob o sol mediterrânico do jazz italiano e de um quarteto liderado pelo saxofonista tenor e soprano Maurizio Giammarco e pelo pianista Phil Markowitz, com Piero Leveratto (baixo) e Fabrizio Sferra (bateria). “Seven Plus Eight” socorre-se do “cool” e do “bop”, o que significa que, se quisermos inquietar-nos e confrontarmo-nos com o vendaval do novo, não será ainda por aqui que desbravaremos caminho por nossa própria conta e risco. “7” é das poucas composições que ousa pôr a cabeça de fora e sair de casa para o meio do bosque, onde os quatro músicos se desafiam e estimulam mutuamente. “Shapes” é uma incursão alternada no “neo bop” e no “free” bem modelado, e “Beloved” um exercício de piano impressionista. No tema final, Giammarco parece querer dizer que, além de razoável tenorista, sabe as linhas com que se cosem tradicionalismo, espontaneidade e convicção.


História de príncipe

Também de Itália chega um objeto curioso: “Italian Jazz Graffiti”, um duplo CD pela Civica Jazz Band (formada em 1996 por um grupo de professores e alunos, sob a direção de Enrico Intra e Bruno Tommaso, no âmbito dos “Civici Corsi di Jazz”), gravado ao vivo em dois teatros de Milão. Cada faixa teve a participação de um solista convidado, contando-se, entre eles, além do próprio Maurizio Giammarco, Enrico Rava, Gianluigi Trovesi (numa versão esfuziante de “Dedalo”), Roberto Ottaviano, Enrico Pieranunzi, Pietro Tonolo, Paolo Fresu, Antonio Farao, Claudio Fasoli, Franco Ambrosetti, Paolo Damiani, Franco d’Andrea e Tiziana Ghiglioni, todos com discografia gravada em nome próprio. Como o nome indica, “Italian Jazz Graffiti” é isso mesmo, um mural, um painel que serve essencialmente para avaliar a maior ou menor inspiração dos diversos solistas durante os dois concertos (integrados no ciclo “Orchestra senza confi ni”), sendo que, em cada um deles, a base orquestral de “big band” permanece vinculada ao jazz tradicional, nomeadamente o “swing” e todo o legado Ellington até à fase “jungle”, e o “bop”, com ocasionais escapadelas pelo jazz mais liberal. Quente, mas sem surpresas.
Disco forte da semana é “Inside Story” do saxofonista (alto e barítono) e flautista Prince Lasha, um texano marcado pelas inovações estilísticas de Ornette Coleman e Eric Dolphy cujo nome, poucas vezes mencionado nos compêndios, se impôs através de “The Cry”, editado em 1962. Ao mesmo tempo que a Europa se esgota em dissidências, a América continua a rever-se na odisseia do velho Oeste…
Gravado em duas sessões, uma delas com Herbie Hancock, Cecil McBee e Jimmy Lovelace, a outra, ao vivo, destacando a presença no baixo de Ron Carter, que deram origem, respetivamente, aos álbuns “Inside Story” (1965) e “Search for Tomorrow” (1974), a presente reedição evidencia, ao nível do discurso de Lasha no alto (e no disco de 65) sobretudo a influência de Coleman, enquanto a sombra de Dolphy norteia o sax barítono ao longo da sessão registada em 1974 no Berkeley Jazz Festival. Na flauta sobressai um curioso lado étnico (“Kwadwo safari”), mas seja qual for o registo através do qual Lasha se embrenha nas suas lucubrações (porque se trata, de facto, de uma história voltada para as explorações interiores), tendo como base — e há quem diga que sem ela o jazz corre o risco de ficar sem alma… — os “blues”.



Jean-Pierre Mas – “Rue De Lourmel” + Eric Watson – “Cosnpiracy” + Jimmy Giuffre & Paul Bley & Steve Swallow – “Fly Away Little Bird”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 08 Fevereiro 2003


O mocho piou (mais) três vezes

JEAN-PIERRE MAS
Rue de Lourmel
6 | 10

ERIC WATSON
Conspiracy
7 | 10

JIMMY GIUFFRE,
PAUL BLEY,
STEVE SWALLOW
Fly Away Little Bird
7 | 10

Todos Owl, distri. Universal




À semelhança de outros músicos de jazz franceses, não falta ao pianista Jean-Pierre Mas nem elegância, nem conhecimentos de história. Faltar-lhe-á, porventura, o génio de alguns dos seus compatriotas, como Sclavis, Portal ou Texier… “Rue de Lourmel” apresenta-o em duo com o contrabaixista Cesarius Alvim. O álbum vale pela presença deste último. É que não basta citar parcerias de piano/contrabaixo como Ellington/Jimmy Blanton, Oscar Peterson/Ray Brown ou Bill Evans/Scott LaFaro. A sintonia nem sempre é evidente, há desencontros. Funciona bem em “Chicaliga”, um original de Alvim: “drive” simples do piano, transformado em instrumento de acompanhamento do contrabaixo. Alvim estica as cordas até ao limite, põe-no a falar como um berimbau. É ele a força motriz e o eixo desta rua…
Eric Watson (piano), Ed Schuller (baixo) e Paul Motian (bateria) encontram-se em “Conspiracy”, de 1982. Exilado em França, Watson define-se como pianista inscrito no cruzamento do jazz com a música clássica (é intérprete de Ives, Scriabine, Berg, Brahms…). Lírico q.b., evidencia vigor e presença, não sendo raros os pontos de contacto com Ran Blake (ouça-se “Hymn for her” ou “Dance”). Piano em discurso direto, vai onde quer e precisa, sem desvios. Se, também na Owl, o trio de Petrucciani faz a apologia da delicadeza, o de Watson não hesita em erguer, para as transpor, dificuldades.
“Summer” é comunicação a três de alto nível e os 11 minutos finais de “No beards in Albania” dão largo espaço de manobra às contribuições solistas de Schuller e Motian. Jazz como deve ser. Só que a história ensina que em muitos casos o melhor jazz é aquele que não deve ser…
Depois de, em 1989, terem retomado nos dois volumes de “Diary of a Trio” a mesma fórmula que, em 1962, rendera a obra-prima “Free Fall”, Jimmy Giuffre, Paul Bley e Steve Swallow voltaram a juntar-se três anos mais tarde, para gravar “Fly Away, Little Bird”. No período de tempo que mediou estes dois trabalhos a música parece ter entristecido ainda mais, mas a sua dignidade manteve-se intocável. Giuffre passara já para uma dimensão onde as notas caminham mais devagar, Bley, como sempre, encarrega-se do arranjo da casa, Swallow verga-se, mas não quebra, libertando melodias onde elas parecem não existir.

Django Bates – “Quiet Nights” + Tim Berne – “Open, Coma” + Tim Berne – “Science Friction” + Matthew Shipp – “Equilibrium”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 08 Fevereiro 2003

Django Bates, Tim Berne, Matthew Shipp. Ou como o jazz pode enveredar por ínvios desvios. Umas vezes, perdendo-se, outras não.
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As curvas do caminho

DJANGO BATES
Quiet Nights
7 | 10

TIM BERNE
Open, Coma
7 | 10
Science Friction
8 | 10
Todos Night Bird, distri. Trem Azul

MATTHEW SHIPP
Equilibrium
7 | 10
Thirsty Ear, distri. Trem Azul


Triste Inverno, este, da nossa incredulidade, do nosso medo e da nossa insegurança. Como triste foi sempre uma grande parte do jazz e das vidas que o fizeram. Caminhos onde o amor não tem abrigo e fala baixo. “Speak low”, tema de abertura de “Quiet Nights”, do teclista inglês Django Bates (frequentador de paragens jazz-rock, ao lado de Bill Brufford ou do saxofonista Iain Ballamy, de resto aqui presente) é um murmúrio quente e melancólico como os de Annette Peacock, mistura de balada e eletrónica, “lounge” difuso de sentimentos e programações, com a voz de Josefine Cronholm em lugar de destaque. Um mundo suspenso nas margens do jazz e de uma “world” imaginária, tão próximo de Peacock como de Anja Garbarek, Sade e da bossa-nova. Suspiros, “scat” indolente, ventos do Tibete, Ballamy a tentar enquadrar no seu saxofone o jazz mais ortodoxo, e Weill, Tom Jobim e Duke Ellington, Bates a mexer nos botões e nos circuitos como se cozinhasse um bolo de “chantilly” na selva amazónica e Josefine a fazer o papel de diva lânguida numa cerimónia permissiva. Noites exóticas.
Tim Berne também não é propriamente um purista, fazendo parte de uma família que reúne, entre outros, os irmãos Cline, Mark Dresser, Joey Baron, Bill Frisell, Drew Gress, Tom Rainey e — habitante já de outra dimensão — Michael Formanek.
A arte do seu saxofone alto, influenciada por Julius Hemphill, por demasiadas vezes tem sido desvalorizada, ao mesmo tempo que são louvados os seus esforços na pesquisa e procura de novas formas de “desalinhamento”. Em “Open, Coma” (2001) encontramo-lo rodeado por uma banda de dez elementos constituída por músicos nórdicos, os Copenhagen Art Ensemble, pelo guitarrista-improvisador Marc Ducret e pelo trompetista de alto risco Herb Robertson, numa obra de grande fôlego gravada maioritariamente ao vivo no Jazzhouse de Copenhaga (apenas um dos quatro temas foi registado em estúdio, na Suécia) de “big band” ansiosa por libertar-se de todos os espartilhos.
Quatro únicos temas, longuíssimos (“Eye contact” dura 46 minutos, “The legend of p-1”, 33 e “Impacted wisdom”, 41…) proporcionam encontros e desencontros, desvarios “free” e complexas arquiteturas coletivas, com largo espaço de manobra para os desempenhos individuais. Por vezes, parece faltar cola que mantenha unida a estrutura, ficando no ar uma certa ideia de gratuitidade. Talvez uma menor cronometragem garantisse maior identidade e estabilidade a esta música que recusa os géneros, sem, contudo, deixar de os utilizar, e sem esgotar as possibilidades oferecidas por cada um. O segundo CD sofre dos mesmos defeitos, mas a música adquire tonalidades mais sombrias, evocando alguns momentos de “The legend of p-1” impressionismo lúgubre de Carla Bley em vestido de luto ou o cinema “alien” de Michael Mantler (Herb Robertson consegue soar como se soprasse de uma galáxia distante!…), enquanto Ducret dá largas à sua veia hendrixiana (ou, mais diretamente, herdada de Sonny Sharrock). Quanto a Berne, dá o melhor de si por volta do minuto dez de “Impacted Wisdom”, gritando nos agudos como se estivesse a pedir ajuda… Um bom, nalguns momentos impressionante, disco, que, no entanto, não consegue atingir a altura do gigante que aparenta ser.
Gravado no ano seguinte, 2002, “Science Friction” revela o lado mais descontraído, mas também mais mundano, do saxofonista, sem que se possa confundir mundanidade com leviandade. Entre o jazzrock, a turbina “funk” do movimento M-Base e o jazz progressivo, passam por aqui correntes realmente futuristas, na guitarra de Ducret e nos teclados elétricos de Craig Taborn. Se “Open, Coma” é um disco para fazer pensar como um tratado hermético, “Science Friction”, pelo contrário, nada mais pretende do que pôr em alerta máximo os sentidos e fazê-los gozar (friccionar…) o mais possível. Não tem a dimensão épica de um Frank Herbert ou de um Robert Heinlein, nem o lirismo mágico de um Simak ou de um Bradbury, muito menos a esquizofrenia sagrada de um Philip Dick, esta antecipação jazzística de um futuro que afinal continua a ser de marcianos verdes, máquinas do tempo reguladas para o passado e pistolas de raios laser. Mas entra-se nele como num romance de aventuras. E basta escutar a maneira como o saxofonista sopra em “Manatee woman” para se perceber como um homem pode ser feliz.
Nas já míticas “Blue Series” da Thirsty Ear, o pianista Matthew Shipp, atual parceiro das aventuras místicas de David S. Ware, arranca em “Equilibrium” uma música sem segundas leituras, baseada no “riffi ng” e num “punch” sem quebras. William Parker encarrega-se, como seria previsível, do contrabaixo, com a segurança e espírito interventivo de sempre, Gerald Cleaver chega a ser indigente na bateria (“The root”), mas é Khan Jamal, no vibrafone, que se afirma como primeiro dialogante do piano. Alguém disfarçado sob a sigla FLAM toca sintetizadores e organiza as programações, sem que o equilíbrio do todo se ressinta de excessiva eletrificação, embora “Nebula theory” e “Nu matrix” possam ser enquadrados nos mesmos parâmetros de “Amassed”, dos Spring Heel Jack: Jazz cósmico, com centro de gravidade nas estrelas, como Sun Ra lançara a profecia. “Cohesion” e “World of blue glass” são as faces opostas de uma mesma moeda. Manobra de diversão (concluída em “Portal”, curta homenagem ao músico francês) apelativa no primeiro caso. Assunção da interioridade como fonte primordial do jazz, no segundo. Não vive muito do jazz atual deste dilema?