pop rock >> quarta-feira >> 05.10.1994
Jackie Leven
The Mystery Of Love Is Greater Than The Mystery Of Death
Cooking Vinyl, distri. MVM

Os ingleses chamam “arty” a discos como este, em que as pretensões, a imagem e o estilo se sobrepõem a tudo o mais. O escocês Jackie Leven, então, exagera. Desde a capa, uma reprodução do célebre quadro “A Ilha Dos Mortos”, de Arnold Böcklin, às citações de Rainer Maria Rilke e Salman Rushdie, passando pela leitura e vocalização de textos de Kabir (poeta indiano do séc. XV), Osip Mandelstam (poeta russo do início do século) e António Machado (poeta simbolista espanhol, também deste século), “The Mystery of…” (só o título pede para o emoldurarem e pendurarem num museu) é uma obra inchada de vaidade, onde a espontaneidade não tem lugar. Nem o talento, diga-se em abono da verdade. A produção – laboratorial – projecta a voz de Leven para a dianteira, protegida por orquestrações pensadas até ao mais ínfimo pormenor. E afinal não passa de um disco de canções, onde os “blues” aparecem como referência longínqua e estilizada em temas como “Clay jug” e “Gylen gylen” e o resto é uma montagem artificial de sentimentos e “clichés”, retocados de maneira a passarem por ideias. Quatro canções fazem parte de um tal “Argyll cycle”, mas são tão vulgares como as restantes. O melhor do disco, e provavelmente o mais profundo, é a letra de “The Bars of Dundee” (não, não esperem fumo, nem gritos, nem alegria): “Mm mm mm / yeah / mm mm mm mm / mm mm mm / yeah / mm mm mm mm.”
Mas até isto Leven canta como se fossem versos de Yeats. Irritante! (5)




