Arquivo mensal: Março 2020

Hamish Moore & Dick Lee – “The Bee Knees”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


HAMISH MOORE & DICK LEE
The Bee Knees
CD, Green Linnet, distri. Megamúsica



De Hamish Moore, exímio executante de gaita-de-foles escocês, houvera já a passagem meteórica por algumas discotecas nacionais dos álbuns “Open Ended” e “Cauld Wind Pipes”. Neles se revelava um músico atento às novas vibrações que percorrem a música do universo e, em particular, do mundo celta.
Terreno armadilhado, passível de ser percorrido sem danos, apenas pelos peregrinos genuínos, que têm na estela e no bordão os sinais inconfundíveis da luz interior que lhes serve de guia. Hamish Moore sabe os terrenos que pisa. Por isso não hesita em trocar experiências de viagem, neste caso com o jazz e os metais e o sintetizador de Dick Lee. “The Bee Knees” percorre, entre a vertigem e a contenção, as várias vias possíveis de cruzamento e diálogo entre aqueles dois géneros musicais e, paralelamente, entre os instrumentos de sopro tradicionais (a gaita-de-foles e o “tin whistle”) e os seus congéneres jazzísticos, o saxofone e o clarinete-baixo.
A presença, em dois temas, dos grupos Fuaim (harpa céltica / violoncelo / rabeca) e Dick Lee’s Chamber Jazz (flauta / oboé / trombone / contrabaixo / bateria) sumarizam os pólos de tensão, num disco percorrido e sustentado pela dialéctica de opostos. (8)

Battlefield Band – “New Spring”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


BATTLEFIELD BAND
New Spring
CD, Temple, distri. Mundo da Canção



Detentores de uma já extensa discografia, os Battlefield Band têm exercido um notável trabalho de dignificação e recuperação da música tradicional escocesa, equivalente, em termos de atitude e formulário estético, ao papel desempenhado na década de 70, em Inglaterra, por grupos como os Fairport Convention ou Steeleye Span. À semelhança dos nomes citados, embora menos sensíveis ao apelo da rítmica rock, os Battlefield Band procuram novas vias para a música antiga escocesa. Os resultados, na forma de disco, têm variado entre o óptimo (“There’s a Buzz”, “Celtic Hotel” e sobretudo o magnífico “Home is where the Van is”, aqueles em que a vertente tradicional não chega a ser pervertida pela, por vezes despropositada, utilização da “caixa de ritmos” electrónica) e o sofrível (“Anthem for the Common Man”, pels razões inversas às atrás apontadas ou “Homeground”, registo ao vivo onde o entusiasmo não serve de desculpa ao tom de “desbunda” para onde por vezes descamba).
“New Spring”, gravado após mais uma alteração na formação dos Battlefield Band (da original permanece o teclista Alan Reid), nada adianta em relação a anteriores trabalhos. Falta-lhe a ousadia, substituída pelo repisar de fórmulas que já se vão tornando gastas. Exemplo desta atitude de “deixar andar” é a balada “Darien”, repescagem melódica de “The rovin’ dies hard”, de “Celtic Hotel”. Permanece intocável a reconhecida competência instrumental dos músicos e o prazer de reescutar a alma céltica no som da gaita-de-foles das terras altas, de Iain MacDonald. Talvez fosse o convívio excessivo com os fantasmas que tenha retirado encanto ao castelo. (6)

Lua Extravagante – “Lua Extravagante”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


OS FAVORITOS DA LUA

LUA EXTRAVAGANTE
Lua Extravagante
LP / MC / CD, EMI – Valentim de Carvalho



Música lunar. Da noite e das marés da voz. Vitorino, Janita e Carlos Salomé, e Filipa Pais cantam o lado nostálgico do ser português. É um disco de canto sofrido, de doridas harmonias. É também a prova de que é possível, em Portugal, fazer discos que voltam s costas à moda e ao efémero. Em “Lua Extravagante” não há canções que pisquem o olho à salada radiofónica. Há somente, e não é pouco, a dignidade do canto e da música vivida por dentro. A transmissão de experiências que dizem da maneira como costumávamos ser. Cruzam-se vivências da cidade (Lisboa, sempre presente, até nos antigos azulejos da cervejaria Trindade, que a capa, belíssima, retrata) e do campo. As palavras do povo encontram-se com as do poeta Pessoa, no fado e na distância. Em frente, o escuro da noite e a ilusão do mar.
“A Ilha” abre “à voz duma monção”. Vitorino pegando ainda e sempre no filão dos Descobrimentos, observados pelo prisma do sonho do qual não se regressa. O canto solta-se nos “amores primeiros”. Lua-cheia. O tema do mar regressa no romance popular “Nau Catrineta” sobre a cadência grave da sanfona de Carlos Guerreiro, instrumento que acrescenta à música da Lua Extravagante o tom exacto de profundidade, de intemporalidade da “noite antiquíssima”.
Janita Salomé dá voz aos festejos de uma casamento cigano do séc. XIX, em “Cante cigano”, cerimónia solar, de união. Filipa Pais, a voz feminina da Lua, brilha em “Adeus ó serra da Lapa”, de José Afonso, “Andorinha negra” e “Cantiga da ceifa”, um tema popular beirão recolhido por Giacometti. A altura da serra, o voo, a vastidão da grande planície alentejana, cantados por Filipa Pais, com amplitude e elevação. “Fado Pessoa” proporciona a Vitorino mais uma bela interpretação, desta vez das palavras de Fernando Pessoa, num fado em que o acordeão, muito parisiense, tocado pelo próprio, sugere a alma desenraizada no vazio urbano, “cercada com um andaime, a casa por fabricar”.
O segundo lado do disco peca por não conseguir manter o nível do primeiro. Descontando a já referida “Cantiga da ceifa”, os temas normalizam-se nas interpretações vocais, de Janita Salomé, em “Margarida do convento” e “A bela do castelo sem portas” (pese embora, neste último, a qualidade das palavras escritas por Janita, sobre o amor na sua vertente mágica e esotérica, iniciação ao “amor virgem, fonte de todas as nascentes”); de Carlos Salomé, em “Lua de papel” (destaque para a guitarra de José Peixoto); e de Vitorino, no tema que fecha o disco – “Lua extravagante” -, que de novo canta o mar e os amores (“de amores nasce a lua extravagante”), dos marinheiros e de Lisboa, retomando, no som e na temática, a canção inicial, a concluir o ciclo lunar: “Oh lua vê lá dos teus cuidados com a gente / porque o cabo mau não quer / deixa que o meu barco volte ao cais / donde parti confiante / Lisboa não pode esperar mais…”. É a hora? (7)