Arquivo mensal: Maio 2016

Martin McGlynn – “McGlynn’s Fancy”

Pop Rock

29 de Março de 1995
álbuns world

Martin McGlynn
McGlynn’s Fancy

EMERALD GEM, IMPORT. STRAUSS

mg

Parece impossível mas é verdade, “McGlynn’s Fancy” é o primeiro compacto a solo na carreira do senhor-guitarra da música tradicional da Irlanda. Desconhecem-se as razões que terão levado o homem a manter durante décadas uma postura de tanta contenção, sobretudo quando se trata de alguém cujo currículo inclui nomes como os De Danann, de que foi membro oficial, Planxty e Chieftains. Valeu a pena a espera. A técnica de Arty McGlynn é simplesmente espantosa, seja na delicadeza contrapontística num tema de ressonâncias barrocas como “Carolan’s Draught”, ou nas ornamentações, ao estilo das “uillean pipes”, em “jigs” e “reels” da gaiteiros famosos como Finbar Furey, Willie Clancy e Seamus Ennis, por vezes sobre um “drone” criada em sintetizador. É o caso, entre outros, do “set” final de “jigs” de um “piper” menos conhecido, Sonny Brogan, antigo elemento da Ceoltóiri Cualann, formação pioneira do cravista e pianista Seán Ó Riada. Em “Charles O Connor”, harpista discípulo do lendário Turlough O’ Carolan, o fraseado guitarrístico reproduz o de uma harpa. Como todos os grandes músicos, McGlynn não manifesta qualquer preocupação em ostentar virtuosismos balofos. As suas versões de “The blackbird” e “The Sally gardens” são lições de simplicidade e economia de meios. A emoção flui com uma intensidade que brota muito de dentro. Humilde, como sempre, no reconhecimento da importância que tem um bom acompanhamento, remete-se ao papel – que ele tão bem soube desempenhar ao longo dos anos – de suporte para a voz, carregada de sapiência e com os típicos “vibratos” dos genuínos cantores rurais, de David Hammond. As duas únicas canções do disco são “I wish my love was a red rose” e “The hills above Drumquin”, esta com uma vocalização de antologia, sobre uma “drone” quase subliminar. É um daqueles discos para se ter à cabeceira. Para ouvir e consultar muitas vezes. Como um amigo. (8)



Alla – “Taghit” + Baly Othmani & Steve Shenan – “Assouf”

Pop Rock

29 de Março de 1995
álbuns world

VOZES DO SUL CHAMAM POR NÓS

ALLA
Taghit (8)


alla

BALY OTHMANI & STEVE SHEHAN
Assouf (8)

Al Sur, distri. Megamúsica


assouf

Numa altura em que a Europa, vítima de cegueira e xenofobia crescentes, volta cada vez mais as costas ao Sul, seria bom perceber que a redenção do Velho Continente poderá bem estar na criação de um eixo que passa pelo Mediterrâneo. Os músicos já estabeleceram a ponte. Na Al Sur, um selo com importância crescente na divulgação dos sons oriundos do Magrebe e não só (há um disco de música grega espantoso que muito em breve divulgaremos), um dos lugares de maior destaque é ocupado pelo alaúdista marroquino Alla – Abdellaziz Abdellah de seu verdadeiro nome -, de quem já conhecíamos o álbum “Foundou de Bechar”, gravado nesta mesma etiqueta. “Taghit” vai ainda mais longe na exploração de técnicas consideradas pouco ortodoxas no manuseamento do “oud”, ou “ùd” (alaúde árabe), por um músico que desde criança desenvolveu uma personalidade musical autónoma. O manancial de ideias e soluções melódicas e harmónicas aqui evidenciadas parece ser inesgotável, num “continuum” improvisacional que alia a liberdade à autodisciplina. O canto surge como ponto de fuga e de apaziguamento, enquanto as percussões – angustiantes, no progressivo jogo de polirritmias de “Rythme I” -, a cargo do próprio Alla e de Youval Micenmacher, acrescentam uma dimensão hipnótica extra à sensualidade característica do “Foundou” – uma experiência a exigir total disponibilidade do auditor. O mesmo não acontece com “Assouf”, uma típica obra de “fusão” nascida da colaboração de outro alaúdista, Baly Othmani, com o multinstrumentista norte-americano Steve Shehan (autor de “Arrows”, um dos mais interessantes álbuns da série “Made to Measure”), aqui rodeado de um impressionante arsenal de percussões. Diálogo entre duas culturas, de sinal mais aberto que em Alla, com o coração da África negra a fazer ouvir, ainda mais a Sul, o seu batimento. “Elalama hellala” e “Awegh ohalagh”, possuídos por um “swing” sobrenatural, formam o contraponto ideal para o formalismo gelado das recentes canções do Norte recuperadas por Hector Zazou. Entre o classicismo de “Kel akalin” e a noite virtual de “Assarouf ezellé”, embalada pela lengalenga dos grilos registada numa “ambient atmosphere” recolhida no Bali, “Assouf” faz a demonstração cabal de que a palavra “fusão” não é nenhum tabu, quando os ensinamentos da dialéctica são correctamente interpretados. Ou seja, que do encontro entre duas unidades pode, ao invés da dissolução (confesso que nunca fui grande apreciador de sopas…), nascer uma unidade nova. O mesmo é dizer, a música de um mundo novo.





Hoven Droven – “Hia Hia”

Pop Rock

22 de Março de 1995
álbuns world

Hoven Droven
Hia Hia

XXOURCE, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


hia

A ligação da música tradicional sueca ao jazz e ao rock remonta aos anos 70, a grupos como os Karelia, Sammla Mannas Mama e Arbete & Fritid, na altura completamente ignorados no resto da Europa (os dois últimos viram parte da sua discografia dessa época reeditada na Resource) mas aos quais se deve a explosão, quase duas décadas mais tarde, dos Hedningarna, Den Fule e agora estes Hoven Droven. Com os Hedningarna a funcionarem inevitavelmente como ponto de referência, pode dizer-se que os Hoven Droven tomaram o mesmo comboio sobretudo ao nível de um idêntico esquema de produção, com recurso à inserção de sons alienígenas ou distorcidos (que nos Hedningarna fazem parte da própria essência do grupo e nos Hoven Droven soam mais como chamadas de atenção) e ao levantamento de volume do baixo e da bateria. “Hia Hia” é um exemplo clássico do chamado “folk rock”. Os Hoven Droven, ao contrário dos autores de “Trä”, não chegam nunca ao ponto de massacrarem as polskas e “hallings” do folclore sueco. Contentam-se em juntar-lhes uma base rítmica poderosíssima, com os baixos (“Trallpolska”, “Köttpolska”) e a guitarra (“Brurvals”) por vezes carregados de distorção e a bateria disciplinada em binários carregados de dinamite. “Liliht gråen” é um tema ousado, rockeiro que baste para atrair a falange dos Hedningarnianos, e “Köttpolska” marcha ao passo de botas cardadas, disparando numa improvisação de trompete (ou guitarra?) sintetizada, mas as melodias, como o algodão, não enganam, lá estão como Deus as pôs no mundo. (8)