Arquivo mensal: Julho 2010

Jon Anderson – Olias of Sunhillow (conj.)

10.10.1997
Reedições
Fantasmas No Ar
Os coleccionadores da discografia progressiva dos anos 70 continuam a não ter mãos a medir, mesmo levando em conta que os mais ferrenhos não desistem de procurar furiosamente as edições originais em vinilo, tarefa por vezes difícil e bastante dispendiosa. Alheias a este tipo de purismo, as editoras continuam a retirar dos respectivos fundos de catálogo algumas referências que, à época da primeira edição, passaram praticamente despercebidas. Algumas destas novas reedições em compacto procuram revalorizar o produto de origem, quer através de uma apresentação e embalagem mais apelativas e contendo informação adicional, quer através da remasterização das fitas originais, de modo a melhorar significativamente as “perfomances” sonoras.

Os Curved Air viram, por fim, passar para o formato digital a sua obra-prima de 1972, “Phantasmagoria”. Com uma reprodução condigna da capa – uma deliciosa figura inspirada no imaginário de Lewis Carroll – e a inserção, no livrete, das letras de todas as canções. Em termos de informação, é tudo. Mas a qualidade e originalidade da música supera qualquer deficiência noutros aspectos. “Phantasmagoria” é o ponto culminante e, em simultâneo, o limite de uma música que nunca parou de evoluir nos três primeiros álbuns, começando por “Aircondittioning”, mais rock e imediatista, com passagem pela delicadeza sombria de “Second Album”. Em “Phantasmagoria” há, sobretudo, uma colecção de canções perfeitas que aliavam o pendor classicista do violinista Darryl Way (“Marie Antoinette”, “Cheetah” ou a aceleração electrónica de “Ultra-Vivaldi”, prolongamento do tema “Vivaldi”, incluído em “Aircondittioning”) com o experimentalismo do teclista Francios Monkman (explorado de forma magnífica no instrumental “Whose shoulder are you looking over anyway?”, um dos primeiros temas gravados por um grupo pop a utilizar um computador). Mas o que verdadeiramente projectava a identidade dos Curved Air eram as vocalizações de Sonja Kristina, cujas inclinações variavam entre dosi extremos, da visceralidade de uma Grace Slick à suavidade das cantoras folk. Uma voz que tanto era capaz de demonstrar a intensidade dramática de “Marie Antoinette”, o tropicalismo de “Once a ghost, always a ghost” e o encantamento mágico de “Melinda (more or less)”, como de segredar, com a maior candura, os prazeres da masturbação feminina. Um clássico. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 10

LINK

Os Yes foram um dos pilares da música progressiva, odiados por uns e amados por outros. No centro do conflito esteve sempre a voz andrógina de Jon Anderson, para alguns insuportável mas para outros a incarnação do canto dos anjos. “Olias Of Sunhillow”, anteriormente apenas disponível em CD em edição japonesa (que incluía uma miniaturização do autêntico livro de gravuras que era a capa da edição inglesa original, na Atlantic), é o primeiro álbum a solo do cantor e, sem sombra de dúvida, o seu melhor. Em termos formais, é um conceptual – a história da ruína e salvação de um povo estelar, salvo por um profeta que os conduz pelo espaço-tempo até outro planeta – onde Jon Anderson tocava todos os instrumentos, incluindo a harpa, que aprendeu para o efeito, e os sintetizadores. A música oscila entre estranhas invocações vocais e sequências electrónicas que antecipavam as posteriores colaborações do cantor com Vangelis. É um álbum completamente à margem da grandiloquência dos yes, no qual Jon Anderson explanou da melhor forma a sua veia mística. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 8).

Hesitantes entre a grandiloquência, o jazz-rock, o progressivo e o comercialismo, estiveram sempre os Greenslade, projecto de dois ex-Colosseum, o teclista Dave Greenslade e o baixista Tony Reeves (que viria a integrar a formação derradeira dos Curved Air…). “Beside Manners Are Extra” apresenta progressos em relação ao álbum de estreia, na forma como equilibra boas canções pop com instrumentais entre o jaz-rock e o “rock sinfónico” (gulp!), que servia para mostrar as capacidades virtuosíticas de todos os elementos do grupo. Um aviso: a gravação não é famosa. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 7)

Poucos deviam conhecer, em 1970, a música dos Titus Groan, no único álbum gravado por esta simpática banda na sua curta carreira, aqui aumentado por três temas extra, incluindo os lados A e B de um “single”. Os Titus Groan faziam parte de um pacote de bandas progressivas lançadas pela editora Dawn, que incluía os Comus, Heron e Demon Fuzz, com quem realizaram digressões conjuntas. “Titus Groan” é um álbum que raramente consegue ser mais do que uma sequência de clichés do progressivo de segunda linha, tendo, porém, a seu favor a diversidade das canções, que vão da pop quase comercial ao puro psicadelismo e às muito curiosas divagações do saxofonista do grupo, cujas intervenções levavam a música para áreas invariavelmente mais criativas e tonalmente interessantes. (See For Miles, import. Torpedo, 6)

Referência ainda para a edição da totalidade da obra gravada por duas bandas folk-rock com estilos e “pedigree” diferentes. Os Tudor Lodge, um dos primeiros grupos a assinar pela Vertigo (a capa de “Tudor Lodge”, multidesdobrável, era um desperdício de cartão…), eram tipicamente progressivos, usando a “folk” como mero pretexto para alinharem a sua visão sonhadora, criada pela voz de rosas de Ann Stewart, e as guitarras acústicas de John Stannard e Lyndon Green com esporádicas inclusões de outros instrumentos e arranjos para naipes de corda e metais. A arrumar ao lado dos Magna Carta, Trader Horne e Mellow Candle. (Si Wan, import. Torpedo, 7)

Os Mr. Fox, pelo contrário, nasceram nos clubes “folk” ingleses, mas as concepções que sobre esta tipologia musical tinha o seu líder, Bob Pegg, eram de molde a marginalizar o grupo, mas capazes de agradar aos apreciadores de música progressiva e do folk-rock electrificado. A presente reedição reproduz a edição dupla em vinilo, “The Complete Mr. Fox”, lançada pela Transatlantic, que acoplava os dois únicos álbuns gravados pelos Mr. Fox, “Mr. Fox” e “The Gipsy” (um dos temas deste álbum, “Mendle”, foi retirado desta reedição por falta de espaço). O primeiro, mais declaradamente folk, continha originais harmonizações vocais de Bob com a sua então mulher Carolanne Pegg (também violinista, de parcos recursos, mas possuidora de indesmentível carisma) e uma concepção sinistra (ouça-se o título-tema, para se perceber como são os papões da “folk”) da rítmica “morris” e da “folk” inglesa em geral. “The Gipsy” é uma obra com outras ambições que integrava uma instrumentação mais vasta e eléctrica (incluindo a participação de dois antigos elementos dos Trees), cujo auge é atingido na “suite” “The Gipsy”, dividida em vários movimentos que contam a história e a viagem de um homem que persegue até ao desgosto final a sua apaixonada cigana. Trata-se de uma obra imprescindível do “folk-rock”, nas suas franjas mais obscuras. (See For Miles, import. Torpedo, 8).

Temo – Derew

10.09.2004
Temo
Derew
Playa Sound, distri. Dargil
7/10

Em pleno século XXI, ainda é possível chegar ao âmago de uma música que não abdica da sua pureza original. “Derew” é o exemplo vivo da permanência de uma oralidade que resiste à erosão do progresso. Uma voz, do cantor curdo Temo, acompanha da pela sonoridade de um instrumento de cordas, o tenbûr, são suficientes. Há uma espontaneidade natural neste canto, em que não percebemos as palavras mas sentimos a intensidade e a ligação ao essencial da vida e da terra. Essencialmente vocal, a música do Curdistão socorre-se das sonoridades instrumentais para melhor pontuar os sentimentos vinculados pela voz. O nascimento e a morte, os baptismos e casamentos, o tempo das colheitas, a vida dos pastores das montanhas são alguns dos temas presentes em “Derew”. Há uma inquietação e um embalo, como que um fado subjacente a esta voz que tanto parece sorrir como chorar. Não é música de consumo imediato, está longe dos cânones comerciais em que muita da “world music” se afundou. Ouvimo-la e sentimo-nos nus.

Luétiga – Cernéula (conj.)

19.09.1997
Folk Espanha
Doa A Quem Doer
Enquanto por cá os discos importantes de grupos nacionais vão surgindo com intervalos de meses ou mesmo de anos, ao nosso lado, na vizinha Espanha, acontece o oposto. Músicos e editoras, animação e formação convergem num propósito comum. Os resultados estão à vista. Clau de Lluna, Luétiga, Clorofolk, Atlântica e Doa são exemplos da melhor folk que se está a fazer do outro lado da fronteira.

“Obertura” é o terceiro álbum dos catalães Clau de Lluna, sucedendo a “Cercle de Gal-la” e “Fica-Li Noia!”. Diga-se desde já que é o melhor ábum do grupo. Não podia ser mais auspiciosa a abertura desta “Obertura”, uma “suite” de dez minutos com este nome onde é manifesta a enorme evolução sofrida pelo grupo. Dividida em quatro movimentos, “Obertura” apresenta uma riqueza excepcional ao nível dos arranjos, sucedendo-se as surpresas: um solo inspirado de gaita-de-foles, “intermezzos” barrocos, cânticos religiosos, no fundo pondo em prática o principal propósito enunciado pelo grupo: “a procura de uma sonoridade folk actual e genuinamente catalã”. Os restantes 12 temas centram-se nas danças tradicionais, contradanças, valsas, “sardanas”, “jotas” e “passedobles” animados pela gaita-de-foles (“sac de gemecs”, estes catalães são loucos!…), sanfona, violino, acordeão, cordas dedilhadas e percussões. Há ainda polifonias (“Con no n’era”) e aproximações à música antiga (“Tocata i polca”) num baile para dançar até ao nascer do dia (Música Global, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

LINK

Diz a lenda que em todos os sábados, quando a oite cai, as bruxas da Cantábria saem, voando, em forma de aves, a caminho de Cernéula…”
Deixem a racionalidade de fora, caso queiram aceder ao mundo de histórias contadas em voz baixa à lareira na estação dos frios e de danças de transmutação m´gica, nos rituais da Primavera, dos Luétiga. Canções montanhesas, as “tonadas campurrianas” típicas da região, instrumentais sdofisticados e vocalizações “a capella” são abordadas pelos seis elementos dos Luétiga, neste seu terceiro álbum, depois de “La Ultima Cajiga” e “Nel ‘El Vieju”, numa perspectiva de modernização que não trai a essência desta música profundamente enraizada na sua região natal, a Cantábria, a sul das Astúrias.
A instrumentação, como é regra neste género de grupos, é variada, incluindo a gaita-de-foles cantabro-asturiana, flauta e tamborim, pandeiretas, guitarras, violino, clarinete e acordeão. Tudo junto faz de “Cernéula” um álbum indispensável. Já agora, não liguem ao aviso, se pretendem bailar “a lo agarrau”, método considerado uma invenção do demónio, em que os jovens que dançavam deste modo “eram condenados irremediavelmente ao inferno” (Several, distri. MC – Mundo da Canção, 9).
Dois elementos dos Luétiga, Marcos Bárcena (guitarra, “whistle”, gaita-de-foles, “bodhran”, flauta e voz) e a, cremos que irlandesa, Kate Gass (violino, “whistle”, concertina, acordeão, pandeireta e voz), formaram o seu projecto pessoal, Atlântica, onde dão largas ao “pecado” da irlandização. Num álbum intitulado “Musica Celta Y De Otros Paises Del Atlantico”, pois claro, os “reels” são a pontapé e as vocalizações em inglês fazem sorrir. Há quem goste. Nós achamos que, apesar de tudo, lá mais para norte, na ilha, soa mais convincente. Mas gostos não se discutem, como se costuma dizer… Condescenderam num tradicional da Galiza, noutro da Escócia, noutro de França, noutro ainda do Quebeque. O resto é tudo Irlanda e, para falar com franqueza, um pouco aborrecido e “celtichique” em demasia… (Several, distri. MC – Mundo da Canção, 6)
Os Clorofolk, outro sexteto, no seu álbum de estreia, “Cambio de Agujas”, preocupam-se menos com os purismos regionalistas do que com uma abordagem renovada da música do mundo. Vão à Bretanha, à Roménia e, na vasta geografia espanhola, a Zamora e à Sanábria. E ao Oriente, que lêem de forma particular na sua “Luna de Oriente”. Rabi Abou-Khalil parou no centro do imenso planalto castelhano. E “El Monte de Venus” é tão inocente como a delicadeza das guitarras quer fazer crer? Progressivos (vestidos de Malicorne em “Ezperanzas Rotas”, pode lá ser, mas é um tema delicioso, o melhor, a par de “Apenas Brilla La Aurora”, uma oração de gait-de-foles…), criativos e sem preconceitos, aos Clorofolk faltará, para já, soltar alguma adrenalina. Ou será que o defeito é da produção? 8Saga, distri. MC – Mundo da Canção, 7.)
Resta darmos graças à reedição de “O Son da Estrela Escura”, dos Doa, um dos clássicos da música tradicional e antiga da Galiza, editado originalmente em 1979. Ainda um sexteto, os Doa recriavam então, com a sapiência de verdadeiros iniciados, as cantigas de Santa Maria, de Afonso X, as antiquíssimas “danças de espada”, com semelhamças melódicas e rítmicas com a música da Bretanha e da Provença, um romance francês do Caminho de Santiago, a “Carballesa” galega, a “Danza do Rosal”, a “Cabalgata de Ribadavia”, cantigas de amigo de Martín Codax e os célebres “Romance de dona ausenda” e “A Casadina infiel”. Em todos eles sobrleva ora uma simplicidade tocante, ora a grandeza arquitectónica de uma catedral. Para ouvir com devoção. Obrigatório. (Clave, distri. MC – Mundo da Canção, 10)