Arquivo mensal: Agosto 2009

Wayne Kramer – Citizen Wayne

07.05.1997
Wayne Kramer
Citizen Wayne
EPITAPH, DISTRI. MÚSICA ALTERNATIVA

waynekramer_citizenwayne

LINK
pwd: feeling lucky

Wayne Kramer foi um dos peões do sistema norte-americano, tendo pertencido aos MC5 (“uma banda cuja verdadeira história está ainda por fazer”, diz), juntamente com os Stooges, uma das formações de Detroit, que sabotou a cena psicadélica dos anos 60 nos “States”. Tão empenhado politicamente como no consumo de drogas, Kramer passou vários anos na prisão, não tanto pelo consumo em si como pela denúncia das relações suspeitas entre o poder e o narcotráfico, temática controversa que aborda neste seu terceiro álbum a solo, na faixa “Dope for Democracy”. “Citizen Wayne” conta com a produção de David Was (dos Was Not Was) na elaboração de um som que alia as raizes “rock’n’roll do antigo guitarrista dos MC5 À maquinaria de “samplers” e computadores que parecem ter sido programados por um técnico de indústrias pesadas.
“Maximum Rock”, na mesma linha de montagem de um Roger Miller (No Man, Birdsongs of The Mesozoic), exige ainda que se dê atenção aos textos, tirando partido da imensa gama de histórias e reminiscências convocadas por Kramer, da denúncia heróica aos “Marxistas de ‘champagne’, que teorizam aos fins-de-semana sobre a revolução no conforto de um apartamento (2Revolution in apt. 29”), a pedaços cortantes e auto-biografia. Maciço, rock à maneira de Bowie ou, mais ainda, do Iggy Pop de “The Idiot”, “Citizen Wayne” é um álbum que chega a ser esmagador, embrutecido pelos solos saturados de Kramer ou pelas programações siderúrgicas de Don Was, mas que jamais perde de vista os horizontes da pop, em melodias viciosamente trauteáveis como “Stranger in the House” ou “Snatched defeat” (The Cars esmagados por um batalhão do exército…).
30 anos depois dos MC5, Wayne Kramer volta a dar murros. Com luvas, mas não menos violência. (8)

Cat Stevens – Buddha and the Chocolate Box (conj.)

05.01.2001
Reedições
Parque Jurássico Remasterizado
Em tempo de MP3, as editoras suam para “oferecer” objectos apelativos, com as remasterizações a ganharem espaço num fenómeno de reciclagem que não tem fim. Os “dinossauros” agradecem.

Com o advento do MP3 e a possibilidade de qualquer um poder adquirir música gratuitamente através da Internet, as editoras procuram a todo o custo rentabilizar os seus produtos, tentando tornar o mais possível apetecível o objecto CD. Ao nível das reedições, aposta-se na melhoria do som (nalguns casos mais aparente do que real…) através de gravações remasterizadas, enquanto no capítulo da apresentação, tendo em mira o coleccionador, se socorre de embalagens cartonadas que são réplicas em miniatura das capas dos discos em vinilo. O impacte, a nível psicológico, destas últimas, é indesmentível. Velhos álbuns dos King Crimson, Genesis ou Roxy Music ganharam nova vida, visual e sonora, e mesmo os velhos melómanos na posse das edições originais não terão ficado insensíveis aos “brinquedos”, voltando a investir nos mesmos títulos.
É o cada vez mais forte fenómeno da reciclagem a fazer-se sentir, impelindo o consumidor a comprar o que já tinha em casa, sob o pretexto da melhoria de um produto que é apresentado como a “versão definitiva”, possuidora do “melhor som possível”, sem dúvida um objecto estimável até à eternidade. Até o novo e “definitivo” “melhoramento” surgir para o desmentir. Depois das edições remasterizadas e re-remasterizadas, dos “digipaks” e das capas em miniatura, teremos a seguir, quem sabe, as edições desremasterizadas, com a garantia de que, afinal, os ruídos e estalidos do vinilo (devidamente digitalizados e contextualizados, como é evidente…) é que são o “it” na sua forma mais pura e genuína.

Pacotes para fetichistas. Em matéria de MP3, confesso que não uso. Enquanto coleccionador, fetichista, a quem, ainda por cima, os discos saem à borla, prefiro o objecto físico – passível de ser tocado, lido e mesmo estragado – ao virtual. Mas também acho que as editoras e a indústria em geral, que durante anos tem inflacionado os preços dos CDs, merecem sofrer e ter um bocadinho de prejuízo.
Passemos então em revista algumas das reedições remasterizadas (lojas há que exibem escaparates inteiros preenchidos por elas…) lançadas no últimos meses em Portugal.
Cat Stevens, o velho Gato Esteves, que há bastante tempo abandonou a música para pregar o islamismo, voltou remasterizado e remoçado, com as reedições de “Catch Bull at Four” (1972), “Foreigner” (1973) e “Buddha and the Chocolate Box” (1974). Os três posteriores aos bem melhores “mona Bone Jakon” (1970, o seu melhor de sempre), “Tea for the Tillerman” (1971) e “Teaser and the Firecat” (1971) que, estranhamente, ficaram de fora do pacote nacional.
Se “Catch Bull at Four” condensa os tiques vocais do cantor em canções bem pouco inspiradas, como a agoniativa “O Caritas”, também “Foreigner” não ganha com a inclusão de uma longa “Foreigner Suite” pseudo-progressiva que não é mais do que uma colagem, enfeitada por orquestrações inócuas e pretensamente exóticas, de canções mal amanhadas. Já “Buddha and the Chocolate Box” recupera uma parte da magia perdida.
Outro “remasterizado” ilustre é Mike Oldfield, este sim, digno de figurar no quadro de honra dos anos 70. A totalidade da sua obra compreendida entre a estreia “Tubular Bells”, de 1973 – e da qual já existia uma anterior versão remasterizada na edição especial do seu 25º aniversário – e a colectânea “Elements”, está de volta, agora em “High Definition Compatible Digital”. E se o som faz justiça à qualidade de obras como o já citado “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incatations”, “Five Miles Out” e “Amarok”, é pena a impressão das capas não estar ao mesmo nível (cores mais esbatidas, tonalidades deturpadas) e a informação não primar pela abundância. O destaque vai para “Amarok”, por ser um álbum dos anos 90 que constitui excepção ao período de maior criatividade – os anos 70 – deste multinstrumentista inglês que encheu os bolsos a Richard Branson e permitiu o nascimento do império Virgin.
Os The Who merecem todas as melhorias, eles que tiveram fama de ser do “piorio”, “enfants terribles” dos anos 60 e 70. Os álbuns andavam por aí perdidos em edições rascas. Depois de “Who’s Next” já circular remasterizado desde há dois anos, são as óperas-rock “Tommy” e “Quadrophenia”, correspondentes à fase conceptual e megalómana do seu líder, Pete Townshend, que ressurgem como objectos de luxo, aqui sim, com embalagens à altura e livretes informativos, profusamente ilustrados.
Mais dispensável, mas mesmo assim interessante, é a aglutinação no formato “dois em um” dos dois primeiros álbuns do supergrupo inglês Humble Pie, “As Safe As Yesterday Is” e “Town and Country”, ambos de 1969 e os únicos editados no selo Immediate por este grupo do qual faziam parte Peter Frampton, ex-The Herd e futuro herói da guitarra, Steve Marriott, ex-Small Faces, e Dave Clempson, ex-Colosseum. Excelentes desempenhos instrumentais para uma música que só esporadicamente foge aos lugares comuns do rock e rhythm ‘n’ blues, quando pega em “sitars” e brinca ao psicadelismo.
Óptimos músicos eram também os norte-americanos Blood, Sweat and Tears, uma das primeiras bandas a integrar uma secção de metais. “Child is Father to the Man”, ábum de estreia de 1968, não era ainda o rock-jazz festive que os viria a catapultar para os tops mas um híbrido de psicadelismo, pop e soul, tingido por referências clássicas e pelo talento do singer-songwriter Al Kooper.

Cat Stevens
Buddha and the Chocolate Box
Island, distri. Universal
7/10

catstevens_buddha

LINK (Parte 1)
LINK (parte 2)
LINK (parte 3)
LINK (parte 4)

Não tem o charme “hippie” dos primeiros discos e tresanda já ao misticismo que transformaria Cat Stevens de músico em profeta, mas estas eram ainda canções que falavam de amor como se fosse possível acreditar nele, num bouquet de sonoridades subtis dedicadas a Buda e a Jesus, onde a pop e a folk percorrem de mãos dadas uma cidade-fantasma.

Mike Oldfield
Amarok
Virgin, distri EMI-VC, import. FNAC
8/10
20º album de studio do compositor, “Amarok”, editado em 1990, é uma peça de 52 minutos pioneira da vaga “world” e fusionista que caracterizaria a década agora finda. Percussionistas zulu, as uillean pipes de Paddy Moloney, dos Chieftains, uma comediante a fazer as vezes de Nargaret Tatcher e o ruído do compositor a lavar os dentes, juntam-se numa obra complexa que nada deve ao aclamado “Tubular Bells”.

The Who
Quadrophenia
2XCD Polydor, distri. Universal
8/10
Como os Kinks, os The Who forma sinónimo da Londres dos anos 60, sufocada entre as pulsões da moda, a nostalgia vitoriana e o muro cinzento de uma classe operária sem horizontes. “Quadrophenia” é a alucinação hiper-realista e duplamente esquizofrénica de um mod de Brighton,. Aliás Pete Townshend, o punk anterior a todos os punks que almejava compor uma sinfonia.

Humble Pie
Natural Born Bugie
2XCD Immediate, distri. Universal
6/10
Intitulado a partir do “hit” de 1969, “Natural Born Bugie” (e não “boogie” como poderia parecer…) junta “As Safe as Yesterday is” e “Town and Country”. Apesar do rótulo de supergrupo e do virtuosismo dos seus elementos, os Humble Pie raramente conseguiram escapar à mediania de um rock mainstream em contradição com o brilhantismo pop da banda que acolhera antes Peter Frampton, The Herd.

Blood, Sweat & Tears
Child is Father to the Man
Columbia, import. Lojas Valentim de Carvalho
7/10
Das primeiras pequenas big-bands da música pop, os Blood, Sweat & Tears trouxeram para os finais dos anos 60 a fanfarra, com a inclusão de uma secção de sopros que procurava honrar os ensinamentos do trompetista canadiano Maynard Ferguson. Ainda hesitantes quanto ao caminho que os haveria de conduzir ao sucesso, “Child is Father to the Man” cruza, entre a exaltação e a devoção, a herança dos blues e da soul com o psicadelismo em voga, revelando Al Kooper como um notável escritor de canções.

Maddy Prior – Ballads & Candles

05.01.2001
Maddy Prior
Ballads & Candles
Park, distri. Megamúsica
7/10

maddyprior_balladsamdcandles

LINK (Tapestry of Carols – 1987)

O encontro, 20 anos depois, com June Tabor, é o principal atractivo de “Ballads & Candles”, celebração dos 35 anos de carreira da cantora dos Steeleye Span, gravado na digressão de Natal do ano passado, em simultâneo com o disco de estúdio “Ravenchild”. Para além de June Tabor, foram chamados, entre outros músicos, Peter Knight e Rick Kemp, ambos dos Steeleye Span, e Troy Donockley, multinstrumentista dos Carnival Band, mas são os desempenhos “a capella” com a sua antiga companheira nas Silly Sisters, ou com a filha, Rose Kemp, que justificam a audição sem reservas deste “best of” de uma das vozes femininas mais importantes a emergir da vaga folk rock dos anos 70. Não acrescentará grande coisa à sua carreira mas servirá para chamar a atenção dos que a desconhecem, sobretudo num registo de júbilo como é o deste “Ballads & Candles”.