Arquivo mensal: Julho 2009

Vários – The Psychedelic Scene (conj.)

05.02.1999
Reedições
Vários
The Beat Scene (8)
The R&B Scene (8)
The Psychedelic Scene (8)
Deram, distri. Polygram

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Os três volumes agora editados, compilando material original da Decca recolhido entre 1963 e 1969, traçam um panorama geral da chamada “swinging London2 dos anos 60, dividindo-se em três correntes distintas que marcaram esses anos de ouro da capital inglesa. As versões originais de todo este material encontram-se dispersas em singles, alguns deles praticamente impossíveis hoje de encontrar.
“The Beat Scene” reúne 25 nomes que entre 1963 e 1966 contribuíram para instituir uma música (e uma moda) que teve nos Beatles os seus principais cultores. Londres, principalmente, mas também Liverpool, Birmingham e Glasgow foram berço de bandas voláteis cuja existência se perdeu nos arquivos do tempo mas onde é possível encontrar vestígios da magia que permeou toda a época.
The Game, The Mighty Avengers, Shel Naylor (a par de Rick & Sandy, um dos nomes que nem sequer vem nas páginas da muito completa enciclopédia de música britânica dos anos 60 e 70, “The Tapestry of Delights”), The Beat Chics, Tierney Fugitives ou The Hi Numbers participam com exemplos dignos de um movimento que misturava o rock’n’roll com a música negra americana, temperada com a excenticidade e os acentos vocais tipicamente britânicos.
Ao lado destes desconhecidos encontram-se Joe Cocker, com um tema de Lennon e McCartney, “I’ll cry instead”, a loura Lulu e os seus Luvvers, The Pete Best Four, formados pelo primeiro baterista dos Beatles, Brian Poole and the Tremeloes e os Rockin’ Berries. Num disco que vale como manifesto de uma sonoridade global, marcada por imitações dos Beatles, guitarras artesanalmente amplificadas e falsetos vocais para todos os gostos, destacam-se, pela diferença, as orquestrações e o violoncelo que ilustram “I was only playing games”, dos Unit 4 + 2.
Engraçado será ainda rebuscar nas formações de algumas destas bandas para encontrar nomes (Jon Anderson, dos Yes, por exemplo…) que viriam a despontar no futuro em contextos musicais completamente diferentes da música beat.
Em paralelo com a cena beat também as sonoridades mais soul do rhythm ‘n’ blues, mistura de rock ‘n’ roll e blues, agitavam então a cena musical londrina. Mais do que os grupos beat, as formações de r&b pautavam-se pela energia e pelo calor interpretativo, introduzindo a harmónica ou os sopros em temas, nalguns casos irresistíveis, como “Don´t gimme no lip, child”, de Dave Berry, ou “Babe I´m Gonna leave you”, dos The Plebs.
Uma vez mais desconhecidos como Cops ‘n’ Robbers, The Frays, The Beazers, Steve Aldo e Paul’s Disciples alinham ao lado de nomes mais fortes como Graham Bond Organisation, David Jones (isto é, David Bowie) & The King Bees, Zoot Money, John Mayall, Rod Stewart. Retire-se de um todo eminentemente dançável o tom “cool” e completamente à margem dos misteriosos The Hipster Image, com um “Can´t let her go” no limite do psicadelismo.
Sobretudo centrado no ano do “Verão do Amor” de 1967, a cena psicadélica infiltrou-se, praticamente, em todas as bandas inglesas da época, através de uma música cujo diletantismo e tom mais literário contastava com a maior violência e desregramento das “acid-jams” praticadas pelos psicadélicos do outro lado do Atlântico (Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, etc.).
Beatles, Rolling Stones, Status Quo, Small Faces, The Who, Pretty Things, Procol Harum, entre muitos outros grupos, tiveram todos o seu “disco psicadélico”. “Psicadélico” era sinónimo da junção da música com o LSD, ou, como se pode ler no Dicionário de Oxford, a “expansão da consciência da mente através do uso de drogas alucinogéneas”, ou a percepção de “cores, padrões, etc., brilhantes, carregados e abstarctos”. Era a época de canções em cujos títulos abundavam termos como “dream” e “mind”. Em “The Psychedelic Scene” encontramos “14 hour technicolor dream”, dos The Syn, “Colour of my mind”, dos The Attack, “Guess I was dreaming”, de The Fairytale, “A day in the mind’s eye”, dos Human Instinct, “Deep inside your mind”, de Keith Shields, e “Dream with me” dos Warm Sounds.
Nomes sonantes, há os Small Faces, com “That man”, e os Moody Blues, com “Love & Beauty”, perdidos numa orgia de guitarras distorcidas, vozes sonambúlicas, percussões orientais e, em geral, toda uma artilharia de estúdio usada para criar a ilusão sonora das alucinações provocadas pelo ácido.
No meio de tantas “trips”, genuínas ou simuladas, e de designações de grupos bizarras – como Curiosity Shoppe, Felius Andromeda ou Garden Odissey Enterprise -, sobressai a valsa espectral de Al Stewart, “Turn into earth”, a inspirada clonagem dos Beatles, via Kaleidoscope/Fairfield Parlour, dos 23rd Turnoff, em “Michaelangelo”, ou o mantra de nostalgia lisérgica dos World of Oz, em “Like a tear”. Num disco que deixou de fora os principais gurus do movimento, como os Pink Floyd de Syd Barrett ou os primeiros Soft Machine, de Daevid Allen e Kevin Ayers, ou raridades como os Mystic Astrologic Crystal Band. Do princípio ao fim, “The Psychedelic” transporta-nos pelas correntes do sonho que Lucy levava colado aos olhos de caleidoscópio no seu cavalo de estrelas.

Peeter Vahi – Suprem Silence

05.03.1999
Peeter Vahi
Suprem Silence (8)
CCn’C, distri. Megamúsica

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Uma espécie de sirene assustadora dissolve-se num jardim de sinos, prolongando-se num claustro de luz, na abertura de “Mandala offering”, primeiro dos três andamentos de “Supreme Silence”, do compositor estónio Peeter Vahi, uma obra baseada nos rituais budistas tibetanos da escola Kagyu, com a aprovação de sua santidade Drikunk Kyabggon Chetsang Rinpoche. Aliás, este mestre tibetano contribuiu mesmo com a escrita dos textos “Vajrasattva mantra” e “The aspiration for the pure land”, reproduzidos no livrete em caracteres sânscritos. Contando com a participação do coro Masculino Nacional da Estónia, dirigido por Kristjan Jarvi, do English Handbell Ensemble Arsis e da solista Irén Lovász (voz), “Supreme Silence” aponta para o mesmo desígnio superior da doutrina budista, o silêncio, matriz de todo o ser e de todas as músicas, como os 5m52s do título-tema preenchidos na íntegra pelo silêncio em questão. Unindo a solenidade do coro masculino com vocalizações, “drones” e instrumentação e uma recitação tibetanas, “Supreme Silence” vai bem mais fundo na ascese è essência do Oriente que o anterior – e mergulhado nas águas da new age – trabalho do compositor, “The Path to the Heart of Asia”, gravado na editora Erdenklang. Aqui o ar é, na realidade, rarefeito, e o asceta poderá aspirar à contemplação do Uno. Claro que o encantamento pode ser quebrado a qualquer momento e nada nos garante que a correr pela montanha abaixo não apareça John Cleese a gritar “Albatross!”. Mas não é o riso o supremo dom concedido pelos deuses?

Balanço 2000: Electrónica de Recreio Máquinas no Jardim-Escola

29.12.2000
Electrónica de Recreio
Máquinas no Jardim-Escola

thombrinkrosa

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Como aconteceu nos anos 70, com a explosão do krautrock e, nos anos 80, com os murros no muro desferidos pelos Einstuerzende Neubauten, Berlim e Düsseldorf foram ao longo do ano duas fábricas de música electrónica da Europa. Mas os anos 2000 preparam-se para acolher com serpentinas uma electrónica que se engalanou de flores transformando o universo das máquinas num jardim-escola. Depois dos Cluster terem registado a patente com o carrocel mágico “Zuckerzeit” e de Holger Hiller e Pyrolator terem escrito outras páginas coloridas deste livro de histórias de encantar.
Messer Für Frau Müller, com “Allo, Superman!”, e “Holger Hiller” lideraram na Alemanha a distribuição de brinquedos. Quem continua a lançar trunfos para as pistas de dança do novo milénio é Thomas Brinkmann, a solo, com “Rosa”, ou atafulhado de samples de soul e funk, como Soul Center, bem acompanhado pelo álbum homónimo dos Rechenzentrum, tratado de tecno subliminar.
Herdeiros do tecno hardcore, da música industrial, do dub e do “rap”, os Funkstörung arrasaram com “Appetite for Disctruction” quando, seguindo o caminho inverso, o niilismo dos velhos Neubauten se exerceu na ironia envenenada de “Silence is Sexy”. Em Inglaterra, o som não poderia ter sido mais germânico e “funny” do que em “A Collection of Ice Cream Vans, Vol. 2”, dos Tele:Funken. Na França os Dat Politics estilahçaram o “powerbook” e infectaram a rede com “Villiger”, nos antípodas do psicadelismo Floydiano dos Air, autores da banda-sonora de “As Virgens Suicidas”. Dos fiordes da Noruega chegou o ambientalismo subliminar de “Cirque”, dos Biosphere”, revolucionários do “chill-out”, enquanto na ilha das feiticeiras, a Islândia, os Sigur Rós choraram em memória dos This Mortal Coil. Do lado de lá do Atlântico o jazz e a electrónica entrelaçaram-se nos Chicago Underground Duo, com “Synestehesia”, e nos Isotope 217º, mergulhados na nostalgia de Canterbury em “Who Stole the I Walkman?”. Kid606 entrou em curto-circuito com “PS I Love You”.
Fora de todos os parâmetros, perfilaram-se três obras-primas: “Supermodified”, de Amon Tobin, que salvou para os próximos dez anos o drum ‘n’ bass, e “Manhattan Research Inc.”, do americano Raymond Scott, o pai de todas as inovações. E “ArteSonado”, de Fátima Miranda, que não é electrónica, mas tão só a voz de uma mulher tocada pela graça.